Em entrevista exibida nesta segunda-feira (24) pelo canal da Exame, a presidente da Uber no Brasil, Silvia Penna, afirmou que a empresa já repassou mais de R$ 225 bilhões a motoristas parceiros no país. No momento, a executiva também disse que mais de 2 milhões de motoristas utilizam a plataforma como fonte de renda e voltou a defender uma regulamentação da atividade com acesso à previdência social, mas sem eliminar a flexibilidade do trabalho

“Quando a gente pensa em volume de transações, o Brasil representa o maior país do mundo de mobilidade da Uber.”

Durante a entrevista, Penna abordou ainda a participação da Uber nas corridas, a expansão do Uber Moto, o desenvolvimento de ferramentas de segurança, o uso de inteligência artificial, os planos com veículos autônomos e novos investimentos em tecnologia no país.

Brasil é o maior mercado da Uber em mobilidade por volume de transações

Segundo Penna, o Brasil ocupa uma posição de destaque dentro da operação global da empresa quando considerado o volume de transações de mobilidade.

De acordo com a executiva, a empresa também vê a plataforma incorporada à infraestrutura de deslocamento das cidades brasileiras, inclusive na integração com o transporte público.

“A gente vê como fazemos parte da rotina dos brasileiros. Eu brinco que, se uma coisa acontece errado na empresa, a minha mãe me liga e fala o que aconteceu. Sentimos no dia a dia, porque realmente a Uber já faz parte da infraestrutura de mobilidade aqui”, comentou.

A executiva também mencionou o volume de viagens, especialmente no entorno de pontos de transporte coletivo: “Acho que a gente está em uma posição única em que a Uber faz parte da mobilidade urbana. Vemos um volume muito grande de viagem que acontece perto de estações de transporte público. Muitas pessoas pegam o transporte público, mas fazem aquela ‘última perna’ para chegar em casa usando a Uber”.

Mais de 2 milhões de motoristas usam a plataforma, diz executiva

Ao falar sobre o tamanho atual da operação brasileira, Penna afirmou que a Uber conta com grandes números tanto de motoristas quantos de passageiros.

“São mais de 2 milhões de motoristas, que usam a Uber como geração de renda”, declarou. “Na base de usuários, 140 milhões de brasileiros já fizeram a viagem com a gente. Então, é 80% da população, um impacto realmente muito grande.”

Na estrutura própria da companhia no país, segundo Penna, os profissionais de engenharia e outros funcionários dedicados a diferentes áreas da operação também representam uma quantidade significativa de pessoas.

“No Brasil, a gente tem cerca de 700 engenheiros de desenvolvimento e mais 500 pessoas que trabalham no dia a dia do aplicativo em diversas áreas”, detalhou.

Uber afirma ter repassado mais de R$ 225 bilhões a motoristas

A executiva também falou sobre os investimentos e o impacto econômico da empresa no Brasil.

“Ao longo desses anos, a gente já repassou para os motoristas e parceiros mais de R$ 225 bilhões.”

Nesse contexto, Penna também citou um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), encomendado pela Uber quando a empresa completou dez anos no Brasil: “Mostrou o que chamou de ‘índice de alavancagem econômica’: cada R$ 1 que a Uber investe na operação, converte-se em mais ou menos R$ 12 reais na economia brasileira”.

Empresa diz ficar, em média, com menos de 20% do valor das viagens

Ao ser questionada sobre a divisão dos valores das corridas entre plataforma e motoristas, Penna afirmou que o percentual médio retido pela Uber permanece abaixo de 20%.

Segundo a presidente da empresa no país, o modelo mudou ao longo dos anos.

“O que mudou é que antigamente esse valor era fixo, então, cada viagem tinha o mesmo percentual. O modelo evoluiu para o que, hoje, traz mais flexibilidade e, com isso, mais demanda para o motorista”, esclareceu.

A executiva acrescentou que a companhia não fica com mais da metade do valor de uma corrida: “A Uber sempre fica com a menor parte dessa viagem, a gente nunca fica com mais da metade”.

De acordo com ela, a variação entre corridas permite que a empresa subsidie determinados produtos ou períodos e obtenha uma parcela maior em outros momentos.

“É importante essa flexibilidade de viagem em viagem porque ela permite, em alguns momentos, investir. Por exemplo, a gente falou de Uber Moto: não é um produto em que a gente ganha dinheiro. Investimos nele para a mobilidade urbana e porque acreditamos que o usuário tem várias ocasiões de uso”, exemplificou.

Uber defende previdência social para motoristas, mas quer preservar flexibilidade

A regulamentação do trabalho por plataformas também foi abordada na entrevista.

“Desde 2021, a gente vem defendendo a previdência social para os motoristas parceiros. Acreditamos que existe um modelo que traz segurança social, alguns mínimos e detalhamentos, sem perder o ponto que os motoristas mais valorizam, que é a flexibilidade”, defendeu.

Segundo ela, a empresa considera que o trabalho mediado por aplicativo exige uma regulamentação própria, diferente dos formatos tradicionais.

“É importante olhar para a regulamentação considerando que a Uber trouxe uma nova forma de geração de renda, que não se enquadra nos modelos tradicionais, mas que precisa, sim, de regulamentação e de pensar na previdência social dos motoristas.”

Penna complementou: “É preciso entender esse contexto de flexibilidade, em que o motorista pode ligar o aplicativo no dia e na hora que quiser, usar mais de um aplicativo ao mesmo tempo, e que ele valoriza muito essa flexibilidade”.

A executiva disse ainda que a empresa mantém diálogo com reguladores sobre o tema.

Uber Moto concentra viagens próximas ao transporte público

A presidente da Uber também defendeu a expansão do Uber Moto, serviço que enfrenta resistência de administrações municipais, incluindo São Paulo. Segundo Penna, a categoria tem papel relevante na conexão com o transporte coletivo e oferece uma alternativa de menor custo.

“O Uber Moto vem para trazer mais acessibilidade para os brasileiros.”

Ela disse que uma parcela expressiva das viagens é associada ao transporte público.

“A gente vê que mais de 60%, 70% das viagens estão associadas a um centro de transporte público. Por ter um preço mais acessível, mais brasileiros conseguem encaixar o Uber Moto na rotina diária entre trabalho e casa, fazendo essa ‘última perna’ em complementaridade ao transporte coletivo”, disse.

A executiva também afirmou que a categoria funciona como fonte de renda para motociclistas cadastrados.

Sobre segurança viária, Penna citou um estudo encomendado pela Uber e afirmou que a empresa pretende usar recursos para segurança, além de buscar acordos com o poder público.

“O importante para a gente é que o Uber Moto seja a maneira mais segura de andar de moto e vamos usar todas as tecnologias a nosso favor para isso, com telemetria e controle de velocidade. Também queremos fazer parcerias com os órgãos e entidades públicas para apoiá-los a colocar mais fiscalização na rua”, falou.

Segundo ela, atualmente o Uber Moto opera nas grandes capitais e cidades médias brasileiras, com exceção de São Paulo.

Inteligência artificial já participa de diferentes etapas da operação

Durante a entrevista, Penna afirmou também que ferramentas de inteligência artificial estão sendo incorporadas a diferentes processos da Uber, desde a experiência dos usuários até recrutamento e atendimento.

“Por exemplo, 75% das vezes que você abre o nosso aplicativo e vai colocar um destino, a Uber sugere algum e, em 75% das vezes, a gente acerta, com base nesses algoritmos de I.A.”

Ela acrescentou que a tecnologia também já é utilizada internamente: “Cada vez mais, a gente está incorporando a I.A. em processos que ajudam tanto a aumentar o impacto quanto a rapidez, desde o recrutamento até o atendimento ao cliente”.

Centro de tecnologia no Rio terá investimento de R$ 50 milhões

A presidente da Uber no país afirmou ainda que a companhia continua ampliando a estrutura tecnológica brasileira.

“A gente anunciou recentemente outro Centro de Tecnologia no Rio de Janeiro, com R$ 50 milhões de investimento.”

Segundo Penna, o Brasil já concentra desenvolvimento de recursos utilizados pela Uber em outros mercados.

“A gravação de áudio foi desenvolvida aqui, no Brasil”, exemplificou.

Sobre o centro de tecnologia, a executiva disse que a estrutura começou com foco em segurança e depois ampliou sua atuação.

Carros autônomos devem coexistir com motoristas, segundo executiva

Penna também abordou o avanço dos veículos autônomos.

“O carro autônomo é uma realidade, mas vem com uma transição lenta, uma progressão que vai acompanhando o modelo híbrido.”

Segundo ela, a expectativa é de convivência entre veículos autônomos e motoristas por um período prolongado e que, no caso brasileiro, os desafios tecnológicos são maiores.

“A gente, inclusive, não prevê uma redução de demanda para os motoristas. Vemos esse modelo coexistindo por um longo período, com uma expansão mais rápida em algumas cidades e mais lenta em outras, até por características locais e desafios de tecnologia e desenvolvimento”, detalhou.

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