Antes de entrar na mobilidade, Leilson Ferreira trabalhou por 17 anos na área de análise de crédito e cobrança, entre 1999 e 2016. Com as mudanças no mercado, ele viu a área perder força e começou a procurar novas formas de renda.
A virada aconteceu em 2018, quando decidiu trabalhar como motorista de aplicativo. Rodando pelas duas maiores plataformas do país, passou a observar de perto as dores de motoristas e passageiros. Essa experiência foi a base para começar a planejar um aplicativo próprio.
“Fui sentindo as dores do motorista e dos passageiros. Em cima disso, comecei a planejar a ideia de criar um aplicativo”, conta Leilson.
Ideia ganhou força após experiência em cidade sem app
Um episódio fora de São Paulo ajudou a fortalecer a ideia. Leilson estava em uma cidade de Minas Gerais quando teve um problema com o carro e precisou voltar de ônibus. No local, não havia aplicativo de transporte disponível. A situação fez com que ele enxergasse o potencial de atender cidades pequenas e médias com uma plataforma própria.
Para ele, o caminho era identificar falhas tanto para motoristas quanto para passageiros e criar uma operação mais próxima, com taxa menor e melhor atendimento.
Divulgação foi a principal dificuldade
Desde o início, Leilson percebeu que um dos maiores desafios seria o marketing. A dificuldade não estava apenas em criar a plataforma, mas em explicar para motoristas e passageiros que o aplicativo queria ser parceiro dos dois lados.
O AMU Brasil já passou por diferentes momentos de expansão. A operação começou em Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, mas foi encerrada depois que o mercado local ficou muito saturado, com grandes plataformas e diversos aplicativos regionais. Hoje, a empresa atua em Jundiaí e inicia operação em Mococa, com plano de entrada em São Paulo.
Leilson nasceu e cresceu em São Paulo
Leilson nasceu e cresceu na capital paulista. Na juventude, chegou a sonhar em ser policial e fez prova para a polícia, mas não passou por pouco. Aos 19 anos, começou a trabalhar em telemarketing, dentro da área que mais tarde o levaria para análise de crédito e cobrança.
Foi nesse período que começou a estudar mais, se aprofundar nos temas profissionais e pensar em ter algo próprio. Hoje, afirma que não consegue mais se ver trabalhando para outra pessoa.
“Eu comecei a estudar essa ideia de criar meu negócio próprio. Hoje, não consigo me ver querendo trabalhar para outra pessoa”, afirma.
Experiência com público ajuda na gestão
A trajetória anterior em análise de crédito, cobrança, atendimento e gestão de equipe ajudou Leilson a lidar com passageiros, motoristas e situações difíceis. Ele afirma que o “jogo de cintura” adquirido em trabalhos anteriores foi levado para a gestão do aplicativo.
Ao mesmo tempo, reconhece que ainda há áreas em que precisou buscar apoio, especialmente marketing e comercial.
“O que eu gosto mesmo é o dia a dia, a rotina, a parte operacional e administrativa. Agora, falou em marketing e comercial, aí complica”, diz.
Investimento inicial ficou entre R$ 50 mil e R$ 60 mil
Leilson estima que o investimento inicial no AMU Brasil tenha ficado entre R$ 50 mil e R$ 60 mil. O valor inclui aquisição da plataforma, criação de logo, site, artes, Instagram, redes sociais, tráfego pago, cursos e contabilidade.
Segundo ele, o aplicativo tende a começar a se pagar em cerca de 12 meses, embora isso varie conforme a cidade, o modelo de cobrança e o quanto a receita retorna para marketing.
Taxas altas das grandes plataformas foram uma das dores
Como ex-motorista, Leilson afirma que uma das principais dores dos condutores está nas taxas altas. Para ele, quando se somam combustível, seguro, manutenção, parcela do carro e comissão da plataforma, a margem do motorista pode ficar muito apertada.
A avaliação dele é que taxas menores podem gerar uma operação melhor também para o passageiro, porque o motorista tende a aceitar mais corridas quando o ganho compensa.
“Se você diminui a margem da plataforma e o motorista tem lucro maior, ele atende as corridas mais rápido”, afirma.
Captação usa redes sociais, painel digital e influenciadores
Para captar motoristas e passageiros, o AMU Brasil usa redes sociais, painel digital, influenciadores locais e ações de divulgação. Em Mococa, por exemplo, a estratégia inclui letreiro digital, redes sociais e influenciadores da cidade.
Leilson diz que pretende avançar cidade por cidade, deixando uma operação “redonda” antes de abrir outra.
AMU Brasil é tocado por Leilson
Hoje, Leilson é o único proprietário do AMU Brasil. A empresa busca investidores para acelerar a expansão e ainda estuda se a entrada será apenas como investimento ou em formato societário.
Na rotina, ele conta com apoio de profissionais de marketing e também da filha, que estuda jornalismo e ajuda nessa frente. O suporte, por enquanto, fica diretamente com Leilson, que responde pelo WhatsApp da empresa.
“O suporte sou eu, 24 horas por dia. Tenho o WhatsApp e respondo”, afirma.
Atendimento humanizado está nos planos
Leilson quer implantar atendimento humanizado para passageiros e motoristas, especialmente com a expansão para São Paulo. Para ele, uma das falhas das grandes plataformas é a dificuldade de resolver problemas com pessoas reais, já que muitos atendimentos são automáticos.
A ideia é que o AMU Brasil mantenha proximidade com o usuário, mesmo crescendo.
Gestão exige acompanhamento diário
A rotina de Leilson envolve acompanhar o aplicativo pela manhã, ao longo do dia e no fim do expediente. Ele observa se há erro, problema em corrida, região com muitas chamadas sem atendimento ou necessidade de ajuste operacional.
Além disso, estuda novas cidades para expansão, mas evita abrir muitas frentes ao mesmo tempo.
“Não quero pegar dez cidades ao mesmo tempo e não deixar nenhuma redondinha”, afirma.
Recomeçar após sair da Bahia foi o momento mais difícil
Entre os momentos mais difíceis da trajetória, Leilson cita a saída da operação na Bahia e o recomeço em outra cidade, praticamente do zero. A pandemia também tornou o processo mais complicado.
Ele chegou a pensar em desistir, mas decidiu continuar ao perceber reclamações de passageiros em Jundiaí e a possibilidade de reconstruir a operação em outro mercado.
“Teve momento em que pensei: acho que isso não é para mim. Mas depois falei: vou correr atrás e não vou deixar a peteca cair”, conta.
Marca mudou de nome para AMU Brasil
Antes, o aplicativo se chamava Mobi Brasil. Leilson decidiu mudar o nome porque havia outra plataforma regional com nome muito parecido, o que gerava confusão para as duas marcas.
O nome AMU Brasil veio da sigla de “Aplicativo de Mobilidade Urbana”. A escolha também considerou a preferência por um nome curto e fácil de memorizar.
“Eu queria um nome pequeno, que entrasse na cabeça das pessoas. AMU vem de Aplicativo de Mobilidade Urbana”, explica.
Família ajudou a manter o projeto
Leilson afirma que a família foi importante para a sobrevivência do negócio. Em momentos de dificuldade financeira, houve dúvidas sobre a continuidade do projeto, mas filhos e familiares seguiram apoiando.
Ele conta que o filho brinca dizendo que, quando crescer, vai administrar a empresa para que o pai se aposente.
“Eu uso isso como incentivo. Por mais dificuldade que tenha, eu vou atrás para fazer acontecer”, afirma.
Matérias sobre regionais serviram de incentivo
Um dos sinais de que o aplicativo poderia dar certo veio ao observar o interesse das pessoas pela proposta e acompanhar histórias de outros aplicativos regionais. Leilson cita que matérias sobre o setor também serviram como incentivo para continuar.
Para ele, quando a plataforma atrai curiosidade e as pessoas querem conhecer, isso mostra que existe espaço.
Empreender mudou a forma de pensar
Depois de iniciar na mobilidade, Leilson afirma que mudou sua forma de enxergar o trabalho e a dedicação ao negócio. Antes, em outra empresa, delegava mais e tinha uma visão diferente. Hoje, entende que precisa se dedicar integralmente para o projeto funcionar.
“Hoje eu dedico 24/7 à empresa. Entendi que, se você não se dedicar totalmente ao negócio, ele não funciona”, afirma.
AMU Brasil tem 131 motoristas cadastrados
Na operação de Jundiaí, o AMU Brasil tem cerca de 131 motoristas cadastrados. Leilson afirma que libera motoristas conforme a proporção de passageiros, para evitar uma base grande demais sem demanda suficiente.
A lógica é equilibrar atendimento ao passageiro e volume de corridas para os condutores.
“Não adianta liberar dez motoristas se você tem poucos passageiros. Eles desanimam e saem do aplicativo”, explica.
App tem mais de 11 mil downloads
O AMU Brasil soma mais de 11 mil downloads. Em corridas, a média mensal fica entre 3,2 mil e 3,3 mil viagens.
A taxa cobrada dos motoristas é fixa, de 15% por corrida. Leilson afirma que já testou mensalidade, mas o modelo não foi bem aceito pela maioria dos condutores.
Pagamento ao motorista é D+1
O pagamento ao motorista funciona no modelo D+1. Tudo que o condutor faz em um dia é transferido pela própria plataforma para a conta dele no dia seguinte, a partir das 14h.
Leilson optou por não trabalhar com crédito pré-pago para os motoristas, embora a plataforma ofereça essa possibilidade.
Corrida mínima é de R$ 8,99
A corrida mínima para o passageiro é de R$ 8,99 e cobre até 1,5 km. Para o motorista, o valor corresponde à tarifa menos a taxa de 15% da plataforma.
O ganho médio por quilômetro para o motorista varia conforme categoria e horário, mas fica em torno de R$ 2,10 a R$ 2,20, considerando ticket médio de R$ 20 a R$ 21.
Motorista já faturou R$ 8 mil em um mês
Na média, um motorista que trabalha seis dias por semana no AMU Brasil consegue faturar cerca de R$ 3,2 mil a R$ 3,3 mil por mês. O maior faturamento registrado por um motorista na plataforma foi de R$ 8 mil em um mês.
“Eu até brincava com ele: você não dorme, não vive?”, conta Leilson.
Plataforma movimenta até R$ 140 mil por mês
O AMU Brasil movimenta, em média, de R$ 130 mil a R$ 140 mil por mês. A parte da empresa, considerando a taxa, fica em torno de R$ 15 mil a R$ 30 mil, dependendo do mês.
A meta de faturamento líquido para 2026 é chegar entre R$ 80 mil e R$ 100 mil até o fim do ano.
Plano é entrar em São Paulo
O plano de expansão mais ambicioso é iniciar operação na cidade de São Paulo. Segundo Leilson, a empresa já tem plano de negócio estruturado, com previsão de equipe financeira, jurídica e comercial, mas ainda depende da entrada de investidores.
A expectativa é começar a operação na capital paulista ainda em 2026, caso o investimento seja fechado.
“Fechando esse investidor, a gente começa em São Paulo. Vai ser uma mudança muito grande”, afirma.
Novos serviços podem entrar na plataforma
Além da expansão, Leilson planeja agregar novos serviços ao aplicativo. Entre as ideias estão guincho, chamadas específicas para carros PCD e opções voltadas a pessoas com dificuldade de locomoção.
A inspiração veio da própria experiência como motorista, ao perceber casos em que passageiros com cadeira de rodas ou dificuldade de locomoção tinham mais dificuldade para conseguir atendimento.
Orgulho é não ter desistido
Leilson afirma que um dos maiores orgulhos da trajetória é não ter desistido depois das dificuldades financeiras e do encerramento da empresa de análise de crédito. Criar o aplicativo e seguir batalhando virou um marco pessoal.
A entrevista também foi tratada por ele como um reconhecimento importante para o projeto.
“Eu nunca imaginei que alguém fosse querer saber minha história. Isso é muito gratificante”, afirma.
Regionais devem crescer, mas mercado pode ficar inchado
Na visão de Leilson, os aplicativos regionais tendem a crescer no Brasil, inclusive em grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. O motivo principal é a insatisfação dos motoristas com taxas altas e margens apertadas nas grandes plataformas.
Ao mesmo tempo, ele alerta que o mercado pode ficar inchado se muitas plataformas disputarem a mesma cidade, pulverizando motoristas e passageiros.
“Vai ter espaço para aplicativos regionais, sem dúvida. A tendência é aumentar”, afirma.
Diferencial precisa ir além da taxa
Para competir com Uber e 99, Leilson acredita que os regionais precisam oferecer diferenciais reais para motoristas e passageiros. Taxa menor, sozinha, não sustenta a operação se o aplicativo não tiver chamadas suficientes. Da mesma forma, preço atrativo não segura o passageiro se não houver carros disponíveis.
Por isso, ele aposta em serviços complementares e atendimento mais próximo como formas de atrair e fidelizar usuários.
Legado é ser um aplicativo próximo
O legado que Leilson quer deixar com o AMU Brasil é a imagem de um aplicativo amigo dos usuários, próximo de passageiros e motoristas, e que faça os dois lados se sentirem parte da operação.
Para ele, a marca deve se diferenciar das grandes plataformas justamente pela proximidade e pelo suporte.
“Quero deixar essa imagem de um aplicativo próximo, com bom atendimento, em que motorista e passageiro sintam que fazem parte da engrenagem”, conclui.
