O Rota Araxá nasceu durante a pandemia, a partir da experiência de Natalício Diniz como motorista de aplicativo. Natural de São Paulo, ele chegou a Araxá em 2018 para atuar como pastor em tempo integral. Dois anos depois, com as igrejas fechadas pelas restrições sanitárias, precisou buscar uma alternativa de renda.

Antes de se mudar para Araxá, Natalício já conhecia o mercado de mobilidade por ter usado aplicativos como Uber, 99 e Cabify em São Paulo. Em Araxá, onde ainda não havia Uber nem 99 na época, ele se cadastrou em um aplicativo local para complementar a renda.

“Eu já conhecia o mercado. Quando cheguei aqui, tinha um aplicativo local e comecei a rodar para fazer complemento de renda”, conta.

Falta de suporte aos motoristas motivou criação

A primeira dor percebida por Natalício foi a falta de suporte e de atendimento humanizado aos motoristas. Na época, a plataforma local cobrava 20% de taxa. Depois, chegou outro aplicativo, com taxa menor e maior aproximação inicial com os condutores, mas essa relação se perdeu com o tempo.

Foi nesse contexto que Natalício começou a discutir, em um grupo de WhatsApp com motoristas, a possibilidade de união da categoria. A princípio, a ideia era criar uma cooperativa para dar voz jurídica aos condutores e buscar benefícios, como descontos em combustível, oficinas, autoelétricas e outros serviços.

“Eu identifiquei que o principal ativo nesse negócio é o motorista. Se ele estiver insatisfeito, ele queima a plataforma”, afirma.

Ideia do aplicativo surgiu em reunião com motoristas

A proposta de criar um aplicativo próprio surgiu em uma reunião com motoristas. Natalício tem formação em TI e já conhecia caminhos para estruturar uma plataforma. A cooperativa foi criada em setembro de 2020, e o aplicativo ficou pronto em novembro do mesmo ano.

O Rota Araxá é, na prática, uma ferramenta da Coopermar, a Cooperativa de Motoristas de Aplicativo de Araxá. A operação começou em 7 de novembro de 2020. Em janeiro, já batia 500 corridas por dia.

“A ideia inicial era a cooperativa. Aí, na reunião, os motoristas perguntaram: por que a gente não monta um aplicativo nosso?”, lembra.

Marketing forte ajudou a ocupar o mercado

Após o lançamento, a cooperativa investiu em marketing, propaganda, rádio, televisão e patrocínio de eventos na cidade. Os motoristas também adesivaram os carros e ajudaram na divulgação. Em cerca de oito meses, o Rota Araxá conquistou boa parte do mercado local.

Hoje, mesmo com a presença de Uber, 99, inDrive, concorrentes locais e outros aplicativos, Natalício afirma que o Rota segue como o principal app de mobilidade de Araxá.

Primeiros motoristas vieram do grupo de WhatsApp

A captação inicial de motoristas veio do grupo de WhatsApp em que Natalício já participava. Havia cerca de 120 condutores no grupo, mas apenas 25 abraçaram a ideia no início. Depois de dois meses, a base já tinha cerca de 50 motoristas.

Com o crescimento da operação, a procura aumentou. Hoje, segundo Natalício, o Rota Araxá tem fila de espera de 5 mil motoristas.

“No começo, 25 abraçaram a ideia. O restante ficou desconfiado, esperando para ver se ia acontecer mesmo”, diz.

Passageiros foram conquistados pelos próprios motoristas

A divulgação para passageiros começou com os próprios motoristas. Os carros tinham identificação no vidro traseiro, com informações do aplicativo, e os condutores também faziam panfletagem e divulgação direta.

Depois, com mais recursos, a cooperativa passou a investir em tráfego pago, influenciadores e patrocínio de eventos. Um dos marcos foi o patrocínio do Araxá Rodeio Show, evento de grande alcance na cidade.

Aplicativo começou com contribuição de R$ 300 por motorista

Para lançar a operação, os 25 motoristas iniciais contribuíram com R$ 300 cada um. O valor foi usado para custear a plataforma e alugar um pequeno escritório.

Nos primeiros meses, os motoristas pagavam apenas R$ 35 mensais para cobrir o custo da plataforma. A taxa por corrida começou a ser cobrada em fevereiro, inicialmente em 8%. Hoje, os cooperados pagam 10%, enquanto prestadores de serviço em fase de avaliação pagam 15%.

Sobras são repartidas entre motoristas

Por ser cooperativa, o Rota Araxá não trabalha com lucro da mesma forma que uma empresa tradicional. Quando há dinheiro excedente, o valor é tratado como “sobra” e repartido entre os cooperados.

No exercício de 2025, a cooperativa repassou R$ 3.500 para cada um dos 120 motoristas participantes, além de uma cesta de Natal completa e brindes.

“Todo ano tem sobras. A gente faz o planejamento anual, investe em propaganda, festas e promoções, e o que sobra é repartido”, explica.

Primeiro ano já teve sobra de R$ 900 por motorista

Segundo Natalício, o aplicativo começou a se pagar depois de quatro meses. Já no primeiro ano de operação, a cooperativa conseguiu repartir cerca de R$ 900 para cada motorista. Na época, eram aproximadamente 80 condutores.
No segundo ano, a sobra subiu para cerca de R$ 1.700 por motorista. Em 2025, chegou a R$ 3.500. Natalício afirma que o crescimento anual vinha na faixa de 20% a 25%, embora em 2026 o ritmo tenha desacelerado por causa da chegada da 99.

Diretoria tem oito pessoas

A cooperativa tem diretoria formada por cinco pessoas. Natalício é o presidente. A estrutura também inclui vice-presidente, diretor financeiro, diretor jurídico e secretário. Além disso, há conselho fiscal, com três conselheiros e três suplentes.

Natalício fica mais ligado à supervisão da cooperativa e ao gerenciamento do aplicativo. O vice-presidente atua na operação, enquanto o diretor jurídico ajuda na parte burocrática e de gestão.

Confiança foi estratégia desde o início

A maior dificuldade inicial foi conquistar a confiança dos motoristas e passageiros. Natalício era de fora da cidade, e os condutores precisaram acreditar em sua palavra e colocar dinheiro no projeto.

Para conquistar passageiros, a cooperativa adotou o que Natalício chama de “marketing da confiança”: prometer um serviço e cumprir. O slogan inicial era “chamou, chegou”, com foco em atendimento rápido, suporte próximo e resolução de problemas.

“A gente começou a ganhar fama de ser o aplicativo que chamava e atendia”, afirma.

Hoje, o slogan mudou para “confiança não se compra, se conquista”. A estratégia inclui depoimentos de passageiros nas redes sociais, atendimento rápido e construção de reputação local.

Rota é mais caro, mas mantém liderança

Natalício afirma que o Rota Araxá é hoje o aplicativo mais caro da cidade, mas também o que mais roda. Mesmo com opções mais baratas, passageiros seguem usando a plataforma por confiança.

Segundo ele, quando a 99 chegou à cidade com corridas a R$ 2, a cooperativa esperava impacto maior, mas o volume de chamadas se manteve.

“As pessoas diziam: eu prefiro o Rota porque confio. Confio minha filha, meu filho”, relata.

Empreendedorismo nasceu da necessidade

Antes da mobilidade, Natalício era pastor em tempo integral e buscava estabilidade. Ele também tem formação em filosofia, atua na educação e nunca havia se visto como empreendedor. A pandemia e a necessidade financeira mudaram essa trajetória.

A experiência no Rota despertou esse lado empreendedor. Depois da cooperativa, Natalício iniciou outros negócios e também passou a escrever um livro sobre o tema da confiança.

“O Rota despertou em mim algo que eu não conhecia: o lado empreendedor”, afirma.

Cooperativismo exigiu amadurecimento

O crescimento da cooperativa trouxe conflitos no início. Como todos os cooperados são donos do negócio, Natalício afirma que houve embates até que parte dos motoristas entendesse melhor o funcionamento do cooperativismo.

Apesar das dificuldades, ele avalia que a cooperativa chegou a um ponto de maior estabilidade e pacificação interna.

Aplicativo se mostrou forte após o primeiro ano

Natalício percebeu que o Rota Araxá estava no caminho certo depois de um ano, quando motoristas que antes duvidavam do projeto passaram a procurar a cooperativa para rodar na plataforma.

“No começo, alguns zombavam e diziam que não ia para frente. Depois de um ano, começamos a ver motorista chegando todos os dias”, lembra.

Natalício ainda roda 50 corridas por mês

Embora não trabalhe mais como motorista no dia a dia, Natalício continua fazendo corridas. Como cooperado, precisa cumprir 50 corridas mensais pelo estatuto. Ele aproveita esses dias para sentir a rotina da rua e entender as dores dos condutores.

Para ele, gestores de aplicativos locais precisam sair à rua de vez em quando para não perder a empatia com quem passa o dia dentro do carro.

“O gestor precisa sentir a dor do motorista. Se não, vira igual às multinacionais que só exploram”, afirma.

App tem quase 100 mil passageiros

O Rota Araxá tem quase 100 mil passageiros cadastrados, em uma cidade de cerca de 120 mil habitantes. A base de motoristas é de 180 condutores.

A cooperativa realiza cerca de 100 mil corridas por mês, o equivalente a aproximadamente 3,5 mil a 4 mil chamadas por dia.

Rota atua somente em Araxá

O aplicativo opera apenas em Araxá. Por ser uma cooperativa, Natalício afirma que o modelo não é facilmente escalável. Para entrar em outra cidade, seria necessário criar uma filial da cooperativa e organizar os motoristas locais como cooperados, o que tornaria a expansão inviável no formato atual.

Hoje, em vez de levar o Rota para outros municípios, Natalício presta assessoria a grupos de motoristas que querem criar cooperativas próprias.

“Cooperativa não é escalável. O caminho mais viável é orientar motoristas de outras cidades a criarem a cooperativa deles”, explica.

Corrida mínima é de R$ 13

A corrida mínima no Rota Araxá é de R$ 13 e cobre, em média, até 3 km, dependendo do percurso e do tempo da viagem. Natalício afirma que o valor ideal seria pelo menos R$ 15, mas a cooperativa mantém a tarifa atual por causa da concorrência.

A taxa cobrada dos cooperados é de 10%. Para prestadores de serviço em fase inicial, a taxa é de 15%. A meta é garantir ao motorista ganho mínimo de R$ 2,50 por quilômetro.

Motorista faturou R$ 20 mil em um mês

O motorista top 1 do Rota Araxá realiza cerca de 1,4 mil corridas por mês. No último mês citado por Natalício, ele faturou R$ 20 mil. No fim do ano, o faturamento desse motorista pode chegar perto de R$ 30 mil.

O pagamento das taxas funciona por carteira virtual. O motorista faz recarga via Pix ou cartão pelo aplicativo, e as taxas são descontadas conforme ele realiza as corridas.

Cooperativa movimenta cerca de R$ 2 milhões por mês

Com cerca de 100 mil corridas mensais, o Rota Araxá movimenta aproximadamente R$ 2 milhões por mês em viagens. A parte da cooperativa fica em torno de R$ 200 mil a R$ 250 mil, considerando cooperados e prestadores de serviço. No fim do ano, esse valor pode ser maior.

A meta para 2026 era manter média de 100 mil corridas mensais, depois de fechar 2025 com média de 85 mil. A cooperativa chegou a alcançar esse patamar, mas teve leve desaceleração com a chegada da 99 e da modalidade moto com corridas promocionais.

Multinacionais são considerados ilegais em Araxá

Segundo Natalício, Uber, 99 e inDrive operam de forma irregular em Araxá porque a cidade tem legislação própria. Todo aplicativo precisa se cadastrar na prefeitura, passar por vistoria e receber selo municipal. As plataformas citadas, segundo ele, não possuem essa autorização.

Por isso, motoristas do Rota que forem flagrados rodando nessas plataformas podem ser removidos da cooperativa.

Concorrência desleal incomoda

O que mais incomoda Natalício no mercado atual é a concorrência que ele considera ilegal e desleal das multinacionais. Para ele, essas empresas chegam com preços muito baixos e bônus aos motoristas para tentar ganhar mercado.

“Eles querem dominar o mercado. Depois, quando mata os aplicativos locais, colocam corrida a R$ 5 ou R$ 6”, afirma.

A falta de união de parte dos motoristas também é um problema, especialmente quando há tentativa de levar vantagem em corridas por fora ou cobranças indevidas.

Tecnologia das grandes é mais robusta, mas reputação pesa

Natalício reconhece que a tecnologia de Uber e 99 é mais robusta do que a de aplicativos regionais. Ainda assim, acredita que o Rota tem uma vantagem competitiva construída localmente: reputação.

Em cidades pequenas, segundo ele, a confiança pesa mais do que em grandes centros. Por isso, mesmo com preço maior, o Rota conseguiu manter força diante das plataformas nacionais.

“Em cidade pequena, a gente consegue construir reputação. Aí fica difícil bater”, afirma.

Plano é crescer 20% até 2028

O mandato de Natalício como presidente vai até 2028. Até lá, o plano é fazer o Rota crescer mais cerca de 20% e entregar o aplicativo ainda mais consolidado na cidade.

Ele não fala em expansão direta para outras cidades, justamente pelas limitações do modelo cooperativo. O foco segue em Araxá e na consolidação da confiança construída na cidade.

Futuro dos regionais exige gestão séria

Para Natalício, ainda há espaço para aplicativos regionais, mas o mercado está cada vez mais saturado. Ele cita cidades pequenas com 10 ou até 20 aplicativos locais, o que aumenta a oferta, derruba preços e pode inviabilizar operações sem estrutura.

Na avaliação dele, vão sobreviver os aplicativos que entenderem o motorista como principal ativo, fizerem marketing bem feito e construírem reputação.

“Quem achar que o motorista é apenas um número não vai se sustentar”, afirma.

“Confiança não se compra, se conquista”

A principal estratégia recomendada por Natalício para aplicativos regionais é trabalhar o que ele chama de marketing da confiança. No Rota Araxá, passageiros que fazem mil corridas recebem o selo de cliente diamante, passam a ter atendimento mais próximo, participam de promoções e recebem descontos.

A cooperativa também usa depoimentos de passageiros, incluindo pessoas com crianças especiais, cadeirantes e clientes antigos, para reforçar a reputação da marca.

“Quem permanece é quem constrói reputação e conquista confiança”, afirma.

Legado é mostrar a força da união

O legado que Natalício quer deixar em Araxá é o cooperativismo. Para ele, o Rota mostra que motoristas explorados por plataformas conseguiram se unir, criar uma ferramenta própria e conquistar resultados coletivos.

“Nós saímos do zero. Éramos apenas motoristas explorados por plataformas que nos viam como números, e conseguimos conquistar muita coisa juntos”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.