“Quem está na rua é o motorista e quem está na rua também é o passageiro.” Hilder Monção, 46 anos, fundou o aplicativo VAMO CAR em Tutóia (MA), em 2025, mas a carreira profissional do gestor não começou na mobilidade urbana. Ele passou por rádios, televisão e bastidores, atuando como jornalista por 28 anos, uma trajetória que, segundo conta, acabou formando características do modo dele de empreender: alcançar resultados, lidar com pessoas, ouvir, ajustar rota.

Nascido em Granja (CE), Hilder viveu parte da infância em Camocim, um município próximo dali. Aos 16 anos, quando começou na comunicação, diz ter entendido que a profissão exigia “campos maiores” e que foi se deslocando por cidades até chegar ao Piauí, entre 2004 e 2005, na qual permanece até hoje e de onde gere o aplicativo. Foi nesse lugar que consolidou o perfil de comunicador que, mais tarde, também o levaria ao campo político — ele conta que é suplente de um deputado estadual, impulso que atribui diretamente ao que construiu na comunicação.

A rotina intensa exigida pela profissão, mesmo trabalhando em projetos de outras pessoas, ele enxerga já tê-lo feito viver uma lógica de gestão: “Você tem que dar conta, tem que tratar com pessoas”. Hilder explica que passou por cargos de direção e suporte comercial nas emissoras em que trabalhou, e que isso também o ajudou no conhecimento para atuar como gestor. O desejo de empreender, conforme recorda, sempre existiu, mas foi ganhando forma com o tempo. Há cerca de três anos, ele decidiu entrar de vez no ramo empresarial, a partir de pesquisas de mercado.

Desse movimento, nasceu uma empresa de tecnologia com sistemas voltados a municípios, com foco em soluções para gestão pública. Mas foi na estrada, entre cidades do Maranhão e Piauí, que o jornalista narra ter observado de perto realidades distintas e, assim, percebido uma lacuna: em muitos lugares, o serviço de mobilidade por aplicativo ainda era limitado ou inexistente. Foi nesse momento que o VAMO CAR virou um projeto. O aplicativo, segundo ele, não surgiu de um impulso, mas foi lançado após pesquisa de mercado, estudo de funcionamento das plataformas e, principalmente, da tentativa de equilibrar uma equação que, para Hilder, decide o sucesso ou o fracasso do setor: agradar “os dois lados”, passageiro e motorista. Por isso, conta que a empresa trabalha para orientar motoristas sobre postura, diálogo dentro do aplicativo e condições do veículo, além de preparar materiais para equipar carros e melhorar a experiência do passageiro.

Como foi sua trajetória profissional até chegar ao empreendedorismo no setor de mobilidade?
Hilder Monção: Eu sou jornalista, há 28 anos na função. Já tive a oportunidade de passar por muitas rádios e televisão. Moro no estado do Piauí, onde fiz vários programas de televisão, como Balanço Geral, da Record, a nível estadual, em que fiz grandes reportagens. Fazíamos duas, três entradas por semana com matérias diferentes. Gravei também o Domingo Espetacular, Domingo Câmara Record e Câmara Record na penitenciária mista aqui contando histórias.

Passei por muitas rádios também, sempre atuando no jornalismo. Eu também atuo no campo político aqui no estado, sou suplente de deputado estadual. Isso se deu devido à comunicação que me impulsionou a esse campo.

Há mais ou menos três anos, eu despertei para o campo empresarial, no qual a gente fez pesquisas de mercados e resolvemos adentrar em algumas áreas de necessidade, para que pudéssemos realmente atender a demandas da nossa região. E foi aí que surgiu a possibilidade de montar o aplicativo de mobilidade, o VAMO CAR, que hoje atua em algumas cidades do Maranhão.

Onde você nasceu e cresceu?
Hilder Monção: Eu nasci numa cidade chamada Granja, que fica no estado do Ceará, a aproximadamente 300 km da capital, Fortaleza. Passei parte da minha vida, durante a infância, em Camocim, que fica bem próximo de onde nasci. Aos 16 anos, quando eu iniciei na comunicação, eu comecei a ir para algumas cidades diferentes, devido à área, que necessita de campos maiores. Entre 2004 e 2005, eu vim para o Piauí. E aqui estou até hoje.

Na sua infância você tinha algum sonho profissional?
Hilder Monção: Eu sempre fui muito ligado a esse campo de empreender, de gestão. Ao mesmo tempo, surgiu na minha trajetória de vida a profissão do jornalismo, e dei uma dedicada na época, mas sempre imaginando que, no momento certo, eu iria para a parte de ter o próprio negócio.

O que suas experiências anteriores te ensinaram que você carrega até hoje?
Hilder Monção: Durante a trajetória na comunicação, eu tive a oportunidade de direcionar. Isso não deixa de ser um negócio, embora não fosse meu, mas eu estava ali para tocar o negócio de alguém com a mesma configuração de um projeto meu. Você tem que dar conta, dar resultados, tratar com pessoas, fazer gestão. Aquilo foi trazendo conhecimento, porque, embora jornalista, eu também fiz gestão quando passei pelo cargo de direção em algumas emissoras, dando suporte em áreas de crescimento e área comercial.

Com a comunicação, a gente cria um entusiasmo muito grande para investir e direcionar em áreas, em cidades do Nordeste, que, muitas vezes, a gente acha que é quase impossível. Tem cidade que parte da população nem conhece tecnologia, não usa muitas vezes nem WhatsApp, aí você tem que implantar cultura, criar um vínculo com a população e tentar fazer com que a marca faça parte do cotidiano. Isso cria um entusiasmo muito grande, porque você não está só fazendo gestão, você está prestando serviço à população, um serviço que eles veem em cidades grandes e, às vezes, não imaginam que possa chegar na cidade deles.

Você lembra do momento em que percebeu que dava para criar um aplicativo regional?
Hilder Monção: Eu tenho uma empresa na área de tecnologia. A gente tem alguns sistemas atendendo, principalmente, gestão pública (por exemplo, sistema de consultas em unidades de saúde, que minimiza filas: a pessoa marca a partir de uma conversa com inteligência artificial no WhatsApp e vai só para marcar a consulta), funcionando em algumas cidades. Temos também um sistema de gestão de transporte.

Rodando essas cidades do interior do Maranhão e do Piauí, eu vi a necessidade. Embora aplicativos já tenham chegado em algumas cidades, eu vi que, em muitas, ainda tinha dificuldade. Foi aí que eu fui despertando: buscar conhecimento sobre mobilidade através de aplicativo, e surgiu a ideia de lançar o VAMO CAR e implantar nessas cidades que não tinham plataformas desse tipo. E, hoje, a gente está com perspectiva de fazer um investimento maior e atingir 15 cidades neste ano, incluindo as de grande porte aqui do Piauí, como o meu município, Parnaíba.

Como foi o processo da ideia até tirar o projeto do papel e começar a operar?
Hilder Monção: Eu fui fazer pesquisa de mercado, passei a estudar como funcionavam realmente as plataformas, de que forma poderia prestar o serviço à população e ao mesmo tempo ser algo lucrativo. Dentro desse processo, a gente foi buscando levantamentos, conhecimento… Eu já conhecia os aplicativos como usuário, nas grandes cidades, mas eu tinha noção básica, não conhecia a fundo como ganhava dinheiro e como prestava um bom serviço. Hoje, vejo que é uma área que, quando você investe, principalmente na efetivação da marca nas cidades, tem boa lucratividade.

Da ideia até o lançamento foram uns 60 dias. Acho que a configuração do sistema demorou mais do que a minha linha de raciocínio para efetivar. A gente iniciou o projeto VAMO CAR em junho de 2025, e a primeira cidade foi Tutóia, no Maranhão.

Como usuário, o que você viu em outros aplicativos que te fez querer fazer diferente?
Hilder Monção: Um dia eu estava em Fortaleza (CE), peguei um aplicativo e vi que o cara tinha uma garrafinha de café dentro do carro, saquinho do lixo… atendimento excelente. Ao mesmo tempo, eu pegava outros e via muita desorganização, o cara vinha de camiseta, não tinha identidade específica da empresa. A gente necessita de um serviço de atenção, de cuidado, porque você está transportando alguém, tem que ter responsabilidade e identidade para entregar um bom serviço. Motorista tem que tratar bem o passageiro, ter um veículo em boas condições.

E os preços, tanto para o usuário quanto para quem trabalha, têm que dar condição. Esta semana, eu estava conversando com motorista de outro aplicativo, que disse que a corrida de R$ 4 é boa para o usuário, mas, por trás, tem quem transporta, que precisa pagar manutenção, combustível. Então, para dar certo, tem que agradar os dois lados. Por isso, a gente bate nessa tecla: prestar bom serviço, tratar bem os passageiros, ter diálogo desde a solicitação.

A gente está montando material para colocar dentro dos veículos, como cestinho, apoio de cabeça na poltrona, para o passageiro se sentir bem, confortável e seguro. Muitos aplicativos não têm esse cuidado e perdem com isso. O nosso diferencial é essa preocupação de ouvir os dois lados, passageiro e motorista, porque quem está na rua é o motorista e quem está na rua também é o passageiro.

Como foi captar motoristas e passageiros, ainda mais sem você ser do ramo antes?
Hilder Monção: Em cada cidade, o ponto inicial é entender a população, se utiliza, se já utilizou. Se não usou aplicativo, a gente intensifica a campanha de marketing para a população compreender a posição de um aplicativo na cidade, como oferecer preço acessível e a comodidade de solicitar de dentro de casa. A gente faz um trabalho de conscientização usando influências da cidade, como rádios e outros meios de comunicação, para dar o recado de que a marca está chegando e que é um tipo de serviço que vai mudar a vida de quem não tem transporte, mas consegue pagar preço acessível. Com cerca de 15 dias de efetivação da marca, a gente lança e promove uma ação na cidade.

Você tem sócios?
Hilder Monção: Não, lancei sozinho.

Quanto foi o investimento inicial e quanto tempo levou para o aplicativo começar a se pagar?
Hilder Monção: Você não investe só no aplicativo, na plataforma, tem que investir em marketing, e a parte mais cara está bem aí. Em cada cidade, conforme o tamanho, o investimento é maior. Naquele momento inicial, na primeira cidade, acho que foi um investimento de uns R$ 100 mil. Geralmente, o aplicativo começa a mostrar resultado a partir do terceiro mês, vai crescendo conforme investimento de marketing, mas do sexto mês em diante é mais positivo.

Em que momento você percebeu que o aplicativo estava dando certo?
Hilder Monção: Basta você compreender que há uma necessidade para a população. Cada cidade tem um percentual de pessoas que necessitam do transporte alternativo, do transporte parceriado, como o sistema de aplicativo. Foi a partir daí que eu passei a observar que era uma necessidade, que muitos já estavam operando, mas que a população precisava de mais e de bom serviço.

Qual foi o momento mais difícil desde que começou?
Hilder Monção: Acho que implantar a cultura na população que vive onde não se tem o aplicativo e a captação de motoristas são as partes mais difíceis. Principalmente em cidades que não têm aplicativo, mas têm cooperativas, táxi… já é um ciclo vicioso, não querem pagar percentual, acham que já têm clientela. Então, você tem que construir nova carteira, chamar pessoas que não são do ramo, mas querem trabalhar. Você tem que passar treinamento específico, conhecimento do sistema ancorado no carro deles. Além disso, fazer com que o passageiro compreenda e passe a chamar pelo aplicativo também.

Teve alguém fundamental para a sobrevivência do negócio?
Hilder Monção: A equipe. Eu sempre digo: equipe unida e determinada chega longe. Eu não consigo chegar sozinho. E tem que saber ouvir, não pode implantar só o que passa pela cabeça. Quem tem humildade de ouvir, cresce. Quem quer tomar decisão sozinho, sem ouvir a equipe do dia a dia, não cresce.

A gente montou uma base aqui, um call center, só para dar suporte aos motoristas, porque quem está na ativa ouvindo são eles. Acompanhamos demandas e reclamações, não só de motoristas, mas também de passageiros.
Tem supervisão da parte de execução do serviço, diretores de setores, e o pessoal do call center que fica no atendimento, monitora painel, acompanha deslocamento de uma corrida para outra. Se houver solicitação, a equipe acompanha no expediente e toma providências.

Como é sua rotina como gestor hoje?
Hilder Monção: A gente se desdobra. Tenho a VAMO CAR, outros negócios e o campo da política, ouvindo lideranças e a população. Eu passo o dia, os horários que me permitem, aqui na gestão do VAMO CAR, porque qualquer negócio, se você não tiver próximo e acompanhando, você não vê resultado.

Em quais cidades vocês estão e como é o plano de expansão?
Hilder Monção: A gente iniciou pelo estado do Maranhão, embora eu more no Piauí e opere a empresa daqui. Como a gente montou a partir de junho do ano passado, limitamos em três cidades durante seis meses: Chapadinha (MA), Barreirinhas (MA) e Tutóia (MA). Agora, a gente está com um projeto de expansão para, pelo menos, 15 cidades neste ano.

Vocês pretendem expandir para outros estados e vão trabalhar com franquias?
Hilder Monção: Outros estados sim, sem dúvida, vamos entrar pelo estado do Piauí. Inclusive, a gente já vai disponibilizar modalidade franquias. Mas, por enquanto, não vão ser franquias, todas as cidades que estamos estudando serão implantações nossas, da própria empresa.

Quantos passageiros baixaram o aplicativo e quantos motoristas estão ativos hoje?
Hilder Monção: Varia de cidade a cidade. Em Tutóia, por exemplo, cidade de 50 mil habitantes, já temos pouco mais da metade da população com aplicativo baixado. Motoristas também variam por cidade, mas nós temos, unindo as três cidades que operamos hoje, acho que de 100 a 150 motoristas. E são cidades pequenas, então, se colocar muito motorista, você impede o fluxo.

Você pretende ficar em cidades pequenas ou ir para cidades maiores?
Hilder Monção: Com exceção das capitais, pretendo ir para grandes cidades. Pequenas cidades são boas muitas vezes por não ter concorrência, mas você investe muito na implantação da cultura e demora mais para ter resultado.

Qual foi a maior mudança que enxerga em você depois de empreender? E do que mais se orgulha?
Hilder Monção: Acho que aprender a conviver com as pessoas, aprender a ouvir. Eu não era assim, era muito do time que achava que estava tudo certo. Quando comecei a fazer gestão, percebi que não é bem assim, tem necessidade de compreender as pessoas, ouvir, entender que o trabalho tem que ser unido, para evoluir. E do que eu mais me orgulho é de contribuir com a vida das pessoas, isso é o suficiente.

Qual é o valor da corrida mínima e qual é a taxa cobrada do motorista?
Hilder Monção: Varia de cidade. Tem corrida mínima de R$ 10 e tem de R$ 15. A corrida mínima é no raio de 2 km. A gente tem uma taxa que varia por cidade também, depende da concorrência. O mínimo que eu cobro de taxa é 10%, e o máximo que a gente tem cobrado é 20%.

Como funciona a remuneração do motorista?
Hilder Monção: Crédito pré-pago. O motorista é dono do próprio negócio ancorado dentro do carro e é quem gasta com manutenção e combustível. O percentual da empresa já fica dentro das corridas e ele faz a recarga dele no sistema pré-pago. O que ele apura é dele, a gente não se envolve diretamente. A gente oferece pagamento por Pix, cartão, dinheiro em espécie, e o condutor faz esse processo. Ele faz a própria contabilidade.

Em média, quanto ganha um motorista no VAMO CAR? E quais são os recordes?
Hilder Monção: No sistema de aplicativo, ganha dinheiro quem trabalha. Quem não trabalha, mas tem aplicativo instalado e atende só no horário do almoço ou só à noite, não consegue o resultado de quem tá desde 6h com aplicativo ligado. Uma média, pensando na maioria, é R$ 7 mil e os recordes passam de R$ 15 mil.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais de mobilidade no Brasil?
Hilder Monção: Eu acho que o Governo Federal tem lutado para tentar estabelecer imposto, criar diretrizes para beneficiar talvez mais o governo do que a população. Contudo, eu vejo que não tem mais como barrar isso, é um serviço essencial. Daqui para frente é estabelecer regras, tentar melhorar o serviço para avançar cada vez mais.
Hoje, já há avanços: antes só se falava em baixar o aplicativo, agora, já começa a se criar sistemas através de inteligência artificial, pelo próprio WhatsApp, você não chama só no aplicativo. Isso facilita. A inteligência artificial vai chegar e fazer esse avanço tranquilamente.

O que um aplicativo regional precisa ter para dominar o mercado frente às grandes plataformas?
Hilder Monção: Organização e controle, acho que é a parte principal. Concorrer com grandes marcas que não precisam mais de mídia e entram em cidades trazidas pelos próprios motoristas é difícil, então, é ser organizado, trabalhar unido e ouvindo.

Que legado você quer deixar nas cidades e regiões por onde o VAMO CAR passa?
Hilder Monção: Primeiro, ter prestado um bom serviço, esse é o ponto essencial. Segundo, consolidar e passar a ser não mais somente nosso aplicativo, mas da população. Quando você torna ele da população, é o momento que começa a obter resultado financeiro. E saber que você prestou um serviço, que contribui com a vida da população na cidade, para mim, é um legado.