“O nosso esforço é para ser o mais justo possível dentro da realidade.” Em Taubaté, interior de São Paulo, Renan Caetano, 35 anos, e Letícia Fernanda de Andrade, 30, fundaram a plataforma de entregas PlusX, conforme refletem, unindo um ponto em comum entre os dois: o desejo de empreender. Letícia conta que o casal “nunca teve uma dinâmica normal de começo de namoro”: em vez de sair, eles falavam de trabalho e começavam a desenhar ideias de negócio. Para ambos, a CLT aparecia como uma estrutura limitada para o tipo de crescimento que buscavam.

Renan chegou a esse ponto depois de uma longa vivência nas ruas. Antes de administrar a plataforma, foi entregador por mais de dez anos e trabalhou em diferentes modalidades do setor, de grandes aplicativos a plataformas regionais, além de fazer entregas particulares e outros serviços ligados à moto. Também passou por bastidores de empresas do ramo e acumulou experiências em outras áreas, como escultura em fibra e gesso. Mineiro de Paraisópolis, no sul de Minas Gerais, ele cresceu em São José dos Campos e depois passou por várias cidades, movido, como ele mesmo diz, por um “espírito aventureiro” e pela disposição de ir atrás de trabalho onde houvesse oportunidade.

Já Letícia, nascida e criada em Taubaté, vinha de uma trajetória diferente. Trabalhou desde cedo, começou aos 13 anos, e passou boa parte da vida no regime CLT. Ao mesmo tempo, alimentava o desejo de ter um negócio próprio. Por isso, teve experiências por conta própria: tentou vender roupas, prestou serviços e, ao longo dos anos, ensaiou diferentes caminhos para empreender. Junto de Renan, antes da PlusX, ela já havia tentado outros negócios também, entre eles venda de açaí e uma gráfica rápida. Quando esteve no último emprego de carteira assinada e o aplicativo começou a deslanchar, Letícia percebeu que poderia pedir demissão e se dedicar totalmente ao empreendimento: “Foi uma virada de chave”.

A criação da PlusX nasceu justamente no encontro entre esse sonho persistente e uma oportunidade concreta. Depois de deixar uma plataforma em que havia trabalhado e de passar por uma tentativa de sociedade em outro aplicativo, Renan decidiu abrir o próprio negócio. Letícia, mesmo sem participar diretamente daquela experiência anterior dele, também observava de fora o que considerava falho e imaginava alternativas. A convicção dos dois era semelhante: faltava um serviço mais humano, mais transparente e mais atento a quem estava na ponta, os entregadores. “Eles mesmos dizem: ‘A gente não é burro de carga’”, enfatiza Renan.

Como foi a trajetória profissional de vocês até começarem a empreender no setor de delivery?

Renan Caetano: Antes de toda essa trajetória, eu fui entregador por mais de dez anos. Também, trabalhei por trás dos bastidores em aplicativos de delivery. A ideia da PlusX surgiu muito por oportunidade: quando saí de outra plataforma em que eu trabalhava, recebi um convite para entrar como se fosse uma espécie de sócio em outra, mas não deu certo, e a gente acabou abrindo a nossa própria. Hoje, a Letícia é responsável por toda a parte operacional. A gente está caminhando para sete meses e com uma evolução muito boa. Eu acredito que isso venha muito do meu conhecimento de rua com os entregadores. A oportunidade veio meio ao acaso.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu sempre trabalhei como CLT. Comecei a trabalhar cedo, com 13 anos, mas sempre tive o sonho de empreender. Só que eu sou muito ansiosa, por exemplo, já tentei vender roupa… começava uma coisa e não terminava. Quando eu e o Renan nos conhecemos, uma das coisas que a gente tinha em comum era justamente esse sonho de empreender. E a plataforma não foi nosso primeiro negócio: a gente já vendeu açaí, já teve gráfica rápida… já tentou outras coisas. Comecei a trabalhar cedo, já empreendi, trabalhei por conta, trabalhei fixo, prestei serviço para outras pessoas, mas sempre pensei em empreender. Graças a Deus, agora deu certo com a plataforma.

Onde vocês nasceram e cresceram?

Letícia Fernanda de Andrade: Eu nasci em Taubaté (SP) e estou aqui até hoje. Sou muito família, morei com a minha mãe até os 26 anos; se um dia tiver que ir embora daqui, eu vou com o coração na mão.

Renan Caetano: Eu nasci em Minas Gerais, no sul de Minas, em Paraisópolis. Mas rodei quase todo o território brasileiro. Sempre fui muito aventureiro: aparecia uma vaga de emprego, eu ia. A última cidade antes de Taubaté foi São José dos Campos. Eu nasci em Minas, cresci em São José e, depois, conforme foram surgindo oportunidades, fui rodando bastante.

Na infância, vocês já tinham o sonho ou pensavam em fazer algo parecido com “empreender”?

Renan Caetano: Na verdade, a gente tentou bastante nesse ramo de empreendedorismo. Desde o início do nosso relacionamento, a gente já vinha tentando algumas formas. Ela tentou antes, eu tentei antes. O sonho sempre foi empreender. A gente compartilha muito essa ideia de que CLT é difícil. Então, sempre buscamos alguma coisa que pudesse fazer a gente progredir. A plataforma caminhou tanto que, no terceiro mês, ela ainda era CLT, e eu já estava dedicado desde o primeiro dia. Ela trabalhava na plataforma nos horários depois do emprego dela.

Letícia Fernanda de Andrade: Ele já teve lanchonete antes da gente estar junto. Eu tinha o sonho de ter uma loja de roupa. Depois pensei em aluguel, porque o estilo dele trabalha com escultura. Só que ele tinha um pensamento, eu tinha outro. Quando a gente ficou junto, foi até engraçado, porque eu falo que a gente não é um casal normal: no começo do namoro, em vez de sair bastante, a gente já estava falando de trabalho, de negócio, comprando impressora para abrir gráfica rápida. Eu trabalhava, e a gente já ficava falando disso logo no primeiro ou segundo mês de namoro.

A gente gosta de desafio. CLT é difícil, mas é confortável; empreender é mais difícil, mais desafiador. Quando ele falou que a gente ia abrir uma plataforma e que ia ser nossa, eu pensei: “Ai meu Deus do céu, mais uma coisa”. A gente já tinha tentado tanta coisa. Mas tudo que ele fala eu vou junto. Eu tenho medo, mas vou, porque eu sei que ele é capaz. Só precisava achar o negócio certo. E foi num momento muito ruim, porque meu padrasto morreu justamente no dia da compra da plataforma. A gente teve que resolver tudo no luto mesmo. Foi muito desafiador.

Por que vocês escolheram Taubaté para abrir o aplicativo?

Renan Caetano: Foi uma questão de oportunidade mesmo. Não foi uma escolha feita por comparação entre cidades. Hoje a gente já está expandindo para outra cidade, mas, como a gente mora em Taubaté e eu já tinha trabalhado como entregador aqui, ficou mais fácil. A gente conhece o ritmo da cidade, o ritmo das lojas, então isso facilitou muito. Não houve uma seletiva do tipo “vamos escolher a melhor cidade”; foi muito mais pela vivência e pelo conhecimento local. Aqui, já existe uma cultura de aplicativo.

Renan Caetano: Agora a gente está começando um novo desafio, numa cidade em que nem eu nem ela moramos. Aí já exige mais estudo. Em Taubaté era mais fácil, porque a gente morava, trabalhava e atuava aqui.

Como é a rotina da cidade?

Renan Caetano: Eu considero que, sim, Taubaté tem cultura de interior, mas é um interior modernizado. Ela puxa muita coisa de cidades maiores próximas, como São José e São Paulo. Existe a cultura de interior, mas a população olha um pouco mais à frente do que em outras cidades menores.

Letícia Fernanda de Andrade: Taubaté é um lugar muito bom de morar. Muita gente não conhece o quanto Taubaté é grande e o quanto a população usa delivery. Tem muita gente que vive da entrega como fonte fixa de renda. É geral, classe média, classe alta. Para abrir um negócio em Taubaté, a chance de dar certo é alta.

Em qual momento vocês perceberam que era possível criar um aplicativo?

Renan Caetano: Acho que isso foi há quase três anos. Na época, eu era entregador de uma plataforma regional pequena e recebi um convite para entrar numa sociedade, mas não deu certo por divergências. Depois que saí, fui trabalhar em outro ramo, com escultura, fibra, gesso e tudo mais. Uns três ou quatro meses depois, veio essa oportunidade, não deu certo, e aí eu pensei: “Vamos empreender. Já conheço bastante gente no ramo. Vamos montar uma plataforma”.

Existiam muitas ideias que eu não podia exercer em outras plataformas, seja como funcionário, seja como parceiro. Eu pensava: “Se fosse meu, eu faria assim com os entregadores; se fosse meu, eu faria assim com os clientes”. Foi isso que a gente trouxe para a PlusX.

Letícia Fernanda de Andrade: Na época em que ele teve essa sociedade curta, eu nem me metia. Mas, no fundo, eu pensava: “Se eu estivesse junto, eu não faria desse jeito, eu atenderia de outra forma”. Eu faria diferente o comercial e o atendimento. E eu acredito muito que foi na hora certa, porque ele já tinha o conhecimento da rua. É muito diferente alguém abrir uma plataforma de entregas sem nunca ter sido entregador. Ele já pegou enchente, vento fortíssimo, situações muito desafiadoras… Isso faz diferença.

O que vocês aprenderam nos trabalhos anteriores e trazem de bagagem hoje para a gestão do PlusX?

Letícia Fernanda de Andrade: Para mim, o principal foi crescimento pessoal. Eu trabalho desde cedo, sempre quis empreender. Com a plataforma, foi um desenvolvimento muito grande, porque você aprende que hoje pode estar tudo certo e amanhã não. Também me trouxe um conforto de poder estar mais em casa, ainda que trabalhando muito. Eu sei que ainda preciso melhorar muito profissionalmente e mentalmente, mas empreender me tirou do comodismo.

Renan Caetano: A principal bagagem que eu trouxe do CLT e da rua foi o respeito e a transparência. Foi isso que fez a gente se dar bem em Taubaté. Desde o início eu falei para a Letícia: “Vamos ser o mais transparentes possível com as lojas e, principalmente, com os entregadores, porque eu fui entregador”. Se dá para atender, a gente fala que dá; se não dá, a gente fala que não dá. Muito do tombo que eu tomei na vida veio da falta de transparência e da ganância. Então, uma das coisas que eu trago de tudo antes da plataforma é a essência.

A gente não quer ser aquela plataforma com cinco, seis mil entregadores cadastrados, queremos ter o suficiente. E eu sigo muito presente: sexta à noite, sábado à noite, dia de demanda, eu estou na rua, em ponto estratégico, conversando com os meninos. Isso vem de tudo que eu aprendi, tanto nas plataformas em que trabalhei quanto na entrega e na vida.

Vocês trabalharam como entregadores nas grandes plataformas, em regionais ou nos dois tipos? E como foi esse período?

Renan Caetano: Eu já trabalhei em plataformas grandes, como iFood e 99, e também nas regionais, que hoje acabam sendo concorrência. E concorrência é bom, porque força a gente a melhorar no dia a dia. Também fiz muito particular, viagem, tudo relacionado à moto. Tive bastante experiência nesse ramo.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu sempre trabalhei, mas na parte de entrega foi só na nossa própria plataforma. No começo eu dizia: “Eu não vou fazer entrega, tenho medo”. Só que o Renan falava muito que a gente precisava se colocar no lugar do entregador. Um dia eu fui com muito medo fazer minha primeira entrega. E foi muito marcante, porque, mesmo sendo curta, senti um pouco do que o entregador sente: o trajeto até a coleta, a forma como alguns estabelecimentos tratam o entregador, a preocupação com chuva, com deixar o pedido em segurança. Aí eu falei: “Eu vou ter que fazer mais, porque eu preciso entender mais”.

O que vocês viam de falhas em outras plataformas que quiseram resolver no aplicativo?

Renan Caetano: O principal ponto é o suporte. Eu acho que a maior dor da cidade, loja, entregador e cliente sofriam com isso. Nas plataformas grandes, se der algum problema, é tudo chatbot, nada humanizado. A gente viu entregador ficar mais de 25 minutos na frente de uma residência porque não conseguia suporte. Então, começamos a estruturar a operação pensando nessa dor. Hoje, a nossa operação é 100% humana.

Outra dor muito forte era atraso e perda de pedido, principalmente para lojistas. Eu já vi lojista chorar porque tinha pedido e não conseguia entregar. Por isso, eu exijo tanto transparência. Quando a gente percebe que vai haver atraso, avisamos a loja antes, não deixamos a bomba estourar. Nosso objetivo sempre foi resolver essas duas dores: suporte e entrega eficaz, no prazo. Atraso existe, mas, graças a Deus, em dia de alta demanda, chuva e final de semana, nossa média maior de atraso fica em torno de 10 minutos, o que para lojas é aceitável.

E tem outro ponto: o entregador precisa fazer dinheiro. A gente pode dar todos os benefícios do mundo, mas ele precisa fazer renda. Hoje, a gente acompanha entregadores que conseguem fazer valores muito bons. Um que foi liberado numa sexta-feira, sem experiência de plataforma, fez R$ 450 em três dias. Tem entregador que faz R$ 400 na semana e outros que já bateram mais de R$ 6 mil no mês. Então, nossa ideia é: suporte humanizado, prazo bom e entregador fazendo dinheiro. A gente não fala em perfeição, porque sempre tem algo para melhorar, mas estamos muito perto de resolver as dores principais. Tem cliente que nos trata como amigo, não mais como prestador de serviço.

Como foi o processo para tirar a ideia do papel até a operação começar?

Renan Caetano: Vou ser bem sincero: em todas as vezes em que a gente tentou empreender antes, não teve muito “papel”. Era mais assim: surgiu a ideia, vamos encarar. Com a plataforma foi parecido. Como eu já conhecia a tecnologia, entrei em contato, negociei com mais de uma, e fechei com a que a gente usa hoje. Na prática, a plataforma ficou pronta em 20 dias, mas levamos quase um mês para iniciar oficialmente. Nesse período, fizemos tarifa, tabela, planilha, mapeamento da cidade e das lojas que a gente ia procurar.

Letícia Fernanda de Andrade: Foi tudo muito rápido. A parte “do papel” veio depois da adesão da tecnologia. Como a plataforma levou uns dias para ficar pronta, depois de comprar, veio a parte de definir taxa, tarifa, como a gente ia atuar. O Renan ficou com a parte financeira e de precificação. Eu sempre trabalhei muito com vendas, então fui para essa parte comercial, só que era uma área totalmente diferente.

Vocês lembram de alguma situação marcante na trajetória do aplicativo?

Renan Caetano: Tem uma situação muito marcante. Num dia fraco, a gente foi comer em um restaurante cliente nosso. Quando chegou a hora de pagar, o cliente falou: “Vocês não vão pagar a conta. É pela nossa amizade e pelo bom atendimento de vocês”. Ficamos muito sem graça, mas isso mostra o vínculo que a gente construiu com muitos clientes de vários segmentos.

Também, tem lojas que, no começo, a gente achava improvável conseguir atender com qualidade por causa da distância, mas mesmo assim conseguimos. E, para a gente, não importa se a loja movimenta R$ 20 mil, R$ 1 mil ou R$ 100 no mês, o tratamento é igual.

No começo, como foi o processo para captar entregadores e clientes?

Renan Caetano: No início, contei muito com o meu conhecimento de rua. Fui para abordagem, conversar, divulgar em grupo de motoboy. A gente começou com 50 entregadores. Quando liberou a primeira loja, liberou 50 entregadores junto e incentivou esses 50 a divulgarem a plataforma. Até hoje tem muito boca a boca. Hoje, a gente tem entregadores que recomendam a plataforma pelo resultado financeiro que têm nela.

No começo, a divulgação era muito em cima de renda extra. Atualmente, já vemos uma quantidade de entregadores que usam a PlusX como renda principal, para sustentar a família. Isso é muito gratificante. Eu sempre quis empreender não só para ganhar dinheiro, mas para criar algo que outras pessoas usassem para levar sustento para casa.

Letícia Fernanda de Andrade: A gente também aproveitou o material da época da gráfica, e fez divulgação presencial em praça, em grupo de WhatsApp. Mas, já existiam outras plataformas na cidade, então o entregador já ficava com mais de um aplicativo ligado. A nossa pergunta era: “O que a gente vai fazer de diferente para ele baixar mais um aplicativo?”. Teve entregador que falou: “Ah, é mais uma plataforma, tudo igual”. E hoje esse mesmo entregador está no topo da renda da plataforma.

Hoje, vocês têm equipe? Como os cargos se dividem?

Letícia Fernanda de Andrade: No momento, ainda somos só nós dois. Mas a gente já começou a falar que precisa de alguém para ajudar, porque o negócio cresceu mais rápido do que a gente imaginava. Eu fico na parte comercial e na operação. O Renan fica no financeiro, precificação e administrativo. É muito puxado. Tem loja que eu vou fazer comercial e a pessoa pergunta: “Mas como vocês conseguem atender se você está aqui comigo?”. E eu digo: “Estou aqui, mas estou respondendo outra pessoa também”. É uma loucura.

Renan Caetano: A gente achava que o processo seria mais lento. Pensava que talvez em um ano, um ano e pouco, a gente precisasse de estrutura maior. Só que com seis, sete meses já virou uma doideira. Então, já estamos procurando outro lugar para operar e pensando em trazer mais gente. Vemos claramente a necessidade de montar uma operação com local, equipamento e pessoas. Mas eu nem gosto de chamar de funcionário; eu quero colaborador, alguém próximo, porque para mim o lado humano é muito importante.

Qual foi o momento mais difícil desde que vocês começaram?

Renan Caetano: Essa pergunta pesa mais para a Letícia, porque ela viveu mais a operação. Eu fui operação nos três primeiros meses e ainda fazia entrega à noite para ajudar.

Letícia Fernanda de Andrade: Para mim, o mais difícil não foi o financeiro. Como eu ainda estava no emprego fixo, isso ajudava. O mais difícil foi a operação, principalmente à noite. Nos três primeiros meses, por a gente ter sido muito bem recomendado, entrou mais loja muito rápido. E, à noite, você precisa ter operação muito estruturada e entregador suficiente, porque é horário crítico. Eu ficava olhando o mapa, vendo pouco entregador on-line, as entregas caindo em pendência, e pensava: “Meu Deus, cadê os entregadores?”. Era horrível ver loja mandando mensagem dizendo que o pedido estava atrasando.

Foi aí que eu virei a chave e falei: “Não posso ficar aqui esperando. Eu vou fazer uma operação manual, um trabalho diferenciado”. Eu trouxe coisas que eu usava na startup em que trabalhava, mesmo sendo outro ramo, e comecei a agir em cima do mapa. Se eu via que ia sair entrega e tinha pouco entregador, eu já mandava mensagem no WhatsApp: “Amigo, você consegue me ajudar com essa entrega? Eu vou colocar X a mais. Vou juntar essa rota para você”. Eu comecei a direcionar as entregas manualmente. E eu dava retorno rápido para os entregadores, solucionava o mais rápido possível, e isso foi criando credibilidade. Até hoje tem entregador que fala: “Se precisar de mim, é só mandar mensagem”.

Em que momento vocês perceberam que o aplicativo “deu certo”?

Letícia Fernanda de Andrade: Para mim, foi quando eu pedi conta do meu emprego. A plataforma já estava caminhando, mas precisava de um estabelecimento maior para aumentar nosso faturamento. Tinha uma loja muito tradicional, muito conhecida, que estava em negociação. E eu estava num momento muito difícil, querendo sair do emprego, ajudar minha família, minha avó doente, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Quando uma loja grande fechou com a gente, foi uma virada de chave. Não que antes não estivesse dando certo, mas ali eu pensei: “Pronto, agora eu vou conseguir sair em paz do meu serviço e correr atrás de fechar mais lojas top e também pequenas”. Na volta dessa reunião, de moto, eu até dei um grito. Foi muito marcante.

Renan Caetano: Para mim, foi antes. Eu acompanhava tudo pelo administrativo e financeiro e vi que o crescimento estava muito rápido. No terceiro mês, a plataforma já estava arcando com todas as despesas que a gente tinha, até de moradia. Eu pensei: “Pera aí, isso está dando certo”. Nessa época eu já bati o martelo: “Agora é PlusX até o final”.

Quanto foi o investimento inicial e quando o aplicativo começou a se pagar?

Renan Caetano: O investimento inicial foi perto de R$ 4 mil. Não foi nada exorbitante, mas, para quem naquele momento não podia gastar praticamente nada, era muito dinheiro. A gente negociou ao máximo, aproveitou estrutura que já tinha, computador, aparelhos. Então, o gasto maior foi com tecnologia e documentação. E o aplicativo começou a se pagar já no primeiro mês de operação. No terceiro mês, a Letícia já conseguiu pedir conta do emprego e vir 100% para a operação. Isso mostra o quanto a plataforma respondeu rápido.

Eu até tinha colocado, no formulário da compra da plataforma, que esperava 10 mil entregas em 3 meses. No primeiro mês operando, a gente já bateu 2.636. A gente teve média de crescimento mensal de 33,6%. Em sete meses, a operação já tinha trazido o retorno que a gente esperava.

Como surgiu o nome “PlusX”?

Renan Caetano: Nome é uma das coisas mais difíceis, principalmente para aplicativo, porque você entra na Play Store e tem de tudo. Pensamos em vários nomes, mas não estavam disponíveis. Eu até paguei uma IA de fora para ajudar na pesquisa de registro de marca. A gente queria um nome simples, que representasse rapidez, experiência, algo a mais. “Plus” veio muito disso, do “mais”, e “X” também casava com essa ideia de expresso, de algo dinâmico. Depois de fechar o nome, ainda veio a etapa do domínio, da logo, da cor. A gente fez muita coisa por conta própria.

Letícia Fernanda de Andrade: Foi tudo muito rápido, então, na hora que compramos a plataforma, já precisava preencher formulário com nome. Foram dias e noites sem dormir por causa disso. Quando o Renan me mandou a logo com aquela cor, eu falei: “Meu Deus, que lindo, vai ser desse jeito mesmo”. Foi uma luta para chegar nisso.

Hoje, a plataforma entrega só alimentícios ou outros produtos também?

Renan Caetano: A gente entrega alimentício, farmácia e tudo que envolve delivery em geral. A única coisa que a gente restringe mais é peso, porque isso vira um desafio para os entregadores. A bag é uma ferramenta de trabalho e é frágil. A gente zela pelo equipamento do entregador.

Então, conforme disseram, vocês estabeleceram um limite de peso nas entregas?

Renan Caetano: Sim, no máximo, 3 kg. Tem plataforma em que o entregador coleta 8 kg, 10 kg, o que é absurdo. Eu já vi, no iFood e em outras situações, gente carregando saco de ração de 10 kg, 15 kg amarrado na moto. A gente não pretende ultrapassar muito isso. Já é possível bater esse peso com pedido grande de comida, barca, refrigerante. Então, não faz sentido forçar mais. Tem segmento, como adega, que eu já decidi que não pretendo pegar, porque muitas vezes envolve saco de gelo, peso demais.

A gente deixa muito claro para os entregadores: se estiver pesado, você não é obrigado a levar. Se for o caso, vira duas corridas. Eles não são burro de carga. Um peso desses interfere na dinâmica da moto, na curva, no equilíbrio, pode causar acidente.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu mesma, quando fiz uma entrega pesada, fiquei assustada. Peguei caixa de salgado, uma atrás da outra, e pensei: “Tem limite de peso?”, porque pesa muito, machuca, exige jeito de apoiar, e depois você ainda precisa posicionar isso na bag e levar até o cliente.

Qual vocês enxergam que foi a maior mudança em si mesmos depois de começar a empreender neste setor?

Renan Caetano: Para mim, a maior mudança foi crescimento pessoal mesmo. A experiência de entrega eu já tinha, a rua eu já conhecia, mas, quando a gente abriu a plataforma, isso exigiu de mim ser uma pessoa melhor. Exigiu desenvolvimento, amadurecimento. Eu era muito mais escrachado, e hoje mudou bastante. Eu aprendi de verdade o que é empreender. Trabalho desde a hora que acordo até a madrugada. Não tem entrega às 4h da manhã, mas eu estou fazendo administrativo, estudando, pesquisando possibilidades.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu ainda estou em constante mudança. Precisei entender que eu precisava ter mais foco, mais visão de dona, de proprietária. No começo, eu nem conseguia falar para os meus amigos com segurança que eu tinha uma plataforma. Hoje eu já consigo falar com mais firmeza: “Eu tenho uma empresa e ela é boa”. Mas minha maior mudança ainda está acontecendo, principalmente na cabeça, no profissional e no pessoal.

Quantos entregadores estão ativos na plataforma atualmente?

Renan Caetano: Em Taubaté, a gente tem 316 entregadores cadastrados, mas ativos de verdade, trabalhando simultaneamente durante a semana, ficam ali entre 50 e 60. E isso é mais do que suficiente para a nossa demanda. Tem gente em fila de espera para ser liberado, e a gente só vai liberando conforme a demanda cresce, porque não adianta nada ter muito entregador e eles não fazerem dinheiro.

E quantos estabelecimentos/clientes vocês atendem?

Letícia Fernanda de Andrade: Hoje, são 52.

Quantos downloads tem o aplicativo?

Renan Caetano: No aplicativo do entregador, a gente já ultrapassou 500 downloads.

Como funciona a remuneração dos entregadores?

Renan Caetano: Hoje, as lojas são pré-pagas, e algumas são faturadas, com pagamento por boleto. Os entregadores recebem semanalmente. O repasse abre na segunda, fecha no domingo e cai para eles na quarta-feira. Eu acho muito gratificante a pessoa acordar e já ter o dinheiro na conta. Então, faço os pagamentos de madrugada, de terça para quarta, ali pelas 3h da manhã.

A gente também tem saque antecipado. Se o entregador precisar do dinheiro antes, ele manda mensagem e fazemos. Só que isso tem um custo, porque hoje existe imposto até em transação PIX, então a taxa que a gente cobra nesse caso é mínima, só para cobrir o custo da operação. Já ouvimos falar de plataforma cobrando taxa abusiva, porcentagem alta, mas a gente já lucra com as entregas, não precisa explorar o entregador no saque.

Qual é o valor da entrega mínima, cobre até quantos quilômetros e como funciona a taxa da plataforma?

Renan Caetano: A gente cobra da loja. A loja repassa ou não para o cliente final, dependendo do modelo dela. Hoje, a taxa mínima para o lojista em Taubaté está em R$ 7,40. O repasse mínimo para o entregador, já descontando os custos da operação, fica em torno de R$ 6,20. A comissão da plataforma gira em torno de 19%. A corrida mínima vale até 3 km. E aí existem adicionais em situações específicas: domingo, chuva, feriado, dinâmica, mais adicional de parada. Se o entregador vai fazer duas paradas na mesma rota, ele precisa receber por isso também.

Qual é, em média, o valor por quilômetro rodado para o entregador?

Renan Caetano: Na média, o entregador fica com um pouco mais de R$ 2 por quilômetro. E isso é muito importante, porque não é só gasolina: tem desgaste de pneu, moto e tudo mais.

Quanto ganha, em média, um entregador só com o PlusX?

Renan Caetano: Os entregadores que dependem da plataforma como renda principal fazem, em média, de R$ 900 a R$ 1.300 por semana. Os que usam como renda complementar ficam na faixa de R$ 500 a R$ 900 por semana. Já tivemos gente que tirou quase R$ 7 mil no mês. E tem um recordista hoje que roda só na nuvem, sem fixo, que está quase batendo o topo da plataforma. Ele organizou a própria rotina como se fosse uma jornada CLT: trabalha forte no almoço, descansa, volta à noite. É impressionante.

Quantas entregas vocês fazem por mês e quanto movimentam?

Renan Caetano: A nossa média geral, comparando mês fraco com mês forte, fica em torno de 5.300 entregas por mês. A movimentação mensal gira em torno de R$ 70 mil e a fatia da central fica em cerca de R$ 12 mil.

A expansão para outra cidade vai ser sob gestão própria ou franquia?

Renan Caetano: Por enquanto, vai ser gestão nossa, mas nosso maior sonho com a plataforma é franquear. A gente acredita que dá. Essa próxima cidade funciona como um teste para isso.

Letícia Fernanda de Andrade: Vai entrar um sócio com a gente nessa nova cidade, justamente para ajudar, porque hoje somos só nós dois para tudo. Mas a ideia é tratar essa expansão como se fosse uma franquia nossa, um teste para ver se o modelo se sustenta.

Qual é a nova cidade e por que vocês escolheram ela?

Letícia Fernanda de Andrade: Pindamonhangaba, vizinha nossa. Lá é ainda mais interior, e a cultura de aplicativo não é tão forte como em Taubaté. Muita loja ainda nem sabe que existe integração, que consegue reduzir custo com delivery. Então a gente vai ter um trabalho maior de educação do mercado. Ao mesmo tempo, já tem entregador de lá que vem rodar em Taubaté e já ouviu falar da PlusX, então isso ajuda.

Renan Caetano: Foi escolhida por ser próxima e, ao mesmo tempo, desafiadora. A gente podia ter escolhido algo mais fácil, como Caçapava ou São José, mas quis um desafio que obrigasse a gente a ser melhor. Lá vai ser teste de fogo. Aqui, a gente tinha conhecimento; lá é tudo novo.

Teve alguém que foi fundamental para a sobrevivência do negócio?

Renan Caetano: Tem dois donos de restaurante e pelo menos cinco entregadores que foram fundamentais. Tem entregador que, se está de folga e dá uma emergência, fala: “Pode me ligar que eu vou”. E esses dois lojistas grandes confiaram no nosso trabalho desde o início, sabendo que haveria dificuldade. Já o grupo pequeno de entregadores, ajudou muito no começo com indicação e divulgação. O apoio deles contou muito, e até hoje eles são reconhecidos e recompensados por terem apostado na gente no começo.

Letícia Fernanda de Andrade: Teve um restaurante tradicional daqui que acreditou muito. No começo, em dia de chuva, o Renan estava na rua praticamente sozinho, com entrega pendente, e eu em casa chorando, achando que ia dar tudo errado. O dono mandou mensagem dizendo que estava vendo o esforço do Renan, que ia dar certo, que a gente pagava mais para os entregadores. Foi muito marcante. Ele acalmou a operadora. Esse tipo de apoio foi muito importante.

Do que vocês mais se orgulham nas trajetórias até aqui?

Renan Caetano: Do que eu mais me orgulho é de gerar renda para as pessoas. Para mim, isso é principal. Não adianta montar alguma coisa só para lucrar e pensar só em mim. Eu quero que as pessoas trabalhem com a gente se sentindo bem. Muitos entregadores ganham mais do que a gente, inclusive, e isso é muito gratificante. Já aconteceu de eu ser parado na rua e ouvir: “Graças à sua plataforma, hoje eu estabilizei minha vida, minhas contas estão em dia”. Isso é o mais importante. E o mais legal é ouvir isso até de entregador que nem sabia que eu era um dos donos. Porque eu nunca me apresentei como “dono”; eu me vejo mais como alguém que gerencia. Quem faz a plataforma acontecer são eles.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu me orgulho muito de ver a mudança real na vida dos entregadores. Às vezes, a gente está na frente de um estabelecimento, vendo entra e sai de entregador da nossa plataforma, e pensa: “Caramba, isso tudo saiu daquilo que a gente começou”. Tem entregador que fala que antes precisava ficar muito mais horas na rua para ganhar menos e que, com a PlusX, consegue conciliar melhor a vida e a renda. Ver isso é muito gratificante. É responsabilidade também, porque a gente sabe que muita gente depende dessa renda.

Como vocês enxergam o futuro dos aplicativos regionais de delivery no Brasil?

Renan Caetano: Eu vejo como uma válvula de escape, principalmente para os estabelecimentos. Antes, o lojista precisava contratar entregador, mantê-lo parado na porta, sem saber se ia vender ou não. Com o aplicativo, ele paga pelo que usa. Se o dia está fraco e saiu duas entregas, ele gasta só aquilo. Ele não precisa se preocupar se o entregador faltou, se vai ter que sair para entregar, nada disso. O delivery alimentício cresce junto com a sociedade. E eu acredito que o mundo dos aplicativos vai crescer cada vez mais. Claro que vai chegar um momento em que o mercado vai ficar saturado, poluído de aplicativo, mas a tendência é crescer, porque virou necessidade.

Letícia Fernanda de Andrade: O delivery cresceu muito na pandemia e consolidou uma cultura. É fácil abrir, mas difícil manter. Porque, no final das contas, grande parte do dinheiro que entra é para pagamento dos entregadores. Ainda tem imposto, custo de tecnologia, custo operacional. Então, é lucrativo, mas não é simples. É um desafio diário.

O que os aplicativos regionais precisam ter para dominar o mercado frente às grandes plataformas?

Renan Caetano: Serviço de qualidade e custo justo para a loja. As grandes plataformas são abusivas. O lojista não aguenta pagar comissão muito alta mais taxa de entrega. Então, para o regional ter sucesso, precisa reduzir o custo da loja, oferecer um bom atendimento, bom número de entregadores, transparência, pontualidade e qualidade. A gente acompanha muito isso na prática. Tem lojista que está sozinho, faz o lanche, atende, chama aplicativo. Se a gente largar a mão dele, a loja praticamente para. Então, o regional precisa ser parceiro de verdade.

Letícia Fernanda de Andrade: É uma cadeia inteira. O entregador quer ser valorizado, o lojista quer entregador bom sem pagar demais, o cliente quer receber em casa, mas não quer pagar taxa. Então, é um desafio constante. O mercado é grande, mas ainda existe uma mentalidade muito travada em relação a pagar pelo serviço de entrega. O regional precisa equilibrar tudo isso com justiça.

Qual legado vocês querem deixar em Taubaté e nas outras cidades para onde forem expandir?

Renan Caetano: Eu quero que a PlusX deixe um legado de ser um aplicativo justo, que equilibra renda e qualidade. Que o entregador consiga melhorar a condição financeira dele através da plataforma e que o lojista sinta que pode ficar tranquilo, porque a gente vai cuidar da entrega dele.

Se um entregador quebra a moto, eu quero ir lá ajudar. Se acontece acidente com alguém próximo, eu quero estar presente. O legado que eu quero é esse: valorização real. Se dependesse só da nossa vontade, a gente pagaria R$ 10 de mínima para 1 km. Mas a realidade do Brasil não permite isso o tempo todo. Então, o nosso esforço é para ser o mais justo possível dentro da realidade.

Letícia Fernanda de Andrade: Eu vou na mesma linha: ser justo e transparente. Para os entregadores, que eles sintam que podem contar com a gente. Para os lojistas, que eles sintam que podem deixar a entrega com a gente sem se preocupar. O que a gente mais escuta de lojista é: “Eu tenho estrutura para vender mais, mas me falta uma boa gestão de entregas”. Então, o legado que eu quero deixar é esse: de uma empresa que realmente assumiu essa dor de forma honesta, justa e transparente, sem explorar ninguém. A gente até poderia ganhar mais em alguns casos, mas não seria justo. E, para a gente, isso vem em primeiro lugar.