Criado por Francelmir de Lima Sousa, conhecido em sua cidade como Celmir Souza, o Bora 77 nasceu em Açailândia, no interior do Maranhão, a partir de uma experiência pessoal do gestor com transporte por aplicativo. Antes de criar a plataforma, ele já havia trabalhado como motorista em Imperatriz, cidade vizinha localizada a cerca de 72 km, enquanto aguardava a esposa, que estudava no município.
Na época, como não havia oferta de transporte adequado para alunos do período vespertino, Francelmir comprou um carro para levar a esposa até Imperatriz. Enquanto esperava o fim das aulas, passou a rodar pela Uber e pela 99. Foi nesse período que começou a observar o funcionamento do setor e a pensar na possibilidade de levar uma solução semelhante para sua cidade.
A ideia do Bora 77 amadureceu aos poucos. Inicialmente, Francelmir chegou a estudar a criação de um aplicativo de delivery, mas, em conversa com um amigo, voltou à ideia de montar um app de mobilidade. O colega chegou a propor sociedade, mas desistiu no momento em que seria necessário pagar a licença da plataforma. Mesmo sem o apoio previsto, Francelmir decidiu seguir sozinho.
“Eu não poderia chegar pequeno, mas estava perdendo meses pagando a parcela do aplicativo sem usar. Aí falei: vou ter que começar assim mesmo”, conta.
Do volante à gestão do próprio aplicativo
O principal incômodo com os grandes aplicativos era a taxa cobrada.
“A taxa era muito alta. Chegava a 35% do valor da corrida. Eu achava um absurdo”, afirma.
Ao criar o Bora 77, decidiu trabalhar com uma taxa menor. O aplicativo cobra 10% sobre o valor das corridas, além de uma taxa de adesão de R$ 50 para o motorista. Esse valor de adesão é transformado em crédito dentro da carteira do condutor.
Investimento inicial de R$ 5 mil
O investimento inicial para lançar o Bora 77 foi de cerca de R$ 5 mil no primeiro mês, incluindo tecnologia, influenciadores e tráfego pago.
Antes de colocar o app em operação, Francelmir já havia adquirido a licença da plataforma, mas ficou alguns meses sem usar. Isso aconteceu porque o amigo que seria sócio desistiu da parceria justamente quando chegava o momento de pagar a licença.
O gestor também enfrentou uma dificuldade financeira extra: caiu em um golpe de boleto e perdeu cerca de R$ 6 mil. Mesmo assim, decidiu continuar.
Servidor público e empreendedor
Além de gestor do Bora 77, Francelmir é servidor público. Ele também atua como motorista dentro da própria plataforma e paga os mesmos 10% de comissão que os demais condutores.
Segundo ele, tudo o que entra no Bora 77 é reinvestido no próprio aplicativo, principalmente em marketing e operação.
“Eu mesmo sendo motorista também pago minha porcentagem de 10% para o aplicativo. Sou igual aos outros motoristas”, afirma.
Taxa de 10% e sem cobrança fixa
Um dos diferenciais do Bora 77 em Açailândia é o modelo de cobrança. Enquanto outros aplicativos regionais da cidade trabalham com valor fixo, ele optou por cobrar apenas sobre o que o motorista realmente faz na plataforma.
A decisão foi tomada após conversas com condutores locais. Segundo Francelmir, muitos motoristas usam o aplicativo como renda complementar. Por isso, a cobrança fixa poderia pesar para quem não roda todos os dias.
“O motorista paga 10% do que ele consegue fazer na minha plataforma. Diferente de outras plataformas aqui, em que ele paga um valor fixo trabalhando ou não”, explica.
A cada semana, Francelmir envia um link de pagamento para que o motorista quite a comissão referente ao período. O saldo da carteira é então recomposto para manter o crédito inicial.
Corrida mínima de R$ 11
A corrida mínima do Bora 77 é de R$ 11 e cobre até 1 km. A partir disso, o valor muda conforme a distância percorrida.
Francelmir afirma que ainda não fez um cálculo médio consolidado do valor por quilômetro para o motorista, já que a precificação varia conforme a distância. Mesmo assim, o objetivo é manter um preço competitivo para o passageiro sem desvalorizar o condutor.
A plataforma atua com corridas de carro e, mais recentemente, passou a incluir motos.
Aplicativo chegou a 1 mil corridas por mês
Antes da chegada da 99 à cidade, o Bora 77 chegou a realizar cerca de 1 mil corridas por mês. Em determinado momento, aproximou-se de 1,2 mil corridas mensais, número que fez Francelmir perceber que o aplicativo tinha potencial para dar certo.
Foi a partir desse desempenho que ele começou a pensar em levar o Bora 77 para outras cidades da região.
“Quando chegamos perto de 1.200 corridas, eu falei: deu certo. Foi quando começamos a trabalhar outra cidade”, afirma.
Hoje, porém, o cenário é mais difícil. Com a entrada da 99 e da Uber em Açailândia, o volume caiu para cerca de 200 corridas por mês.
Chegada da 99 derrubou demanda
A entrada da 99 na cidade foi o principal desafio recente do Bora 77. Segundo Francelmir, a plataforma chegou oferecendo corridas a preços extremamente baixos, com valores de centavos em alguns casos.
Ele afirma que a 99 chegou a oferecer corridas por R$ 0,04, algo impossível de competir para um aplicativo regional que precisa pagar licença, manter operação e cobrir custos por corrida.
“A 99 chegou oferecendo corrida de 4 centavos. Para nós, que precisamos pagar a licença do aplicativo, fica difícil combater”, diz.
Segundo o gestor, o Bora 77 saiu de uma fase em que fazia cerca de 1 mil corridas por mês para um momento em que luta para fechar 200.
Marketing é o maior desafio
Desde o início, a maior dificuldade do Bora 77 tem sido o marketing. Francelmir afirma que a TV local já não tem o mesmo alcance e que o principal caminho são influenciadores e tráfego pago.
O problema é o custo. Segundo ele, influenciadores locais cobram valores altos para a realidade de um aplicativo ainda em implantação. Por isso, a estratégia tem sido contratar um influenciador por vez e investir em anúncios pagos nas redes sociais.
A esposa de Francelmir, que estudou jornalismo e tem pós-graduação em marketing, também ajuda na divulgação.
“A maior dificuldade é o marketing. Hoje eu não consigo fechar com três, quatro, cinco influenciadores. Então, em um mês fecho com um, no outro mês fecho com outro”, afirma.
Base física para motoristas
Para fortalecer a presença local, Francelmir planeja criar uma base física do Bora 77. A ideia é ter um espaço onde os motoristas possam ficar e que também ajude a reforçar a imagem de aplicativo local.
Segundo ele, esse investimento faz parte da estratégia para manter a plataforma viva em Açailândia mesmo diante da concorrência com grandes empresas.
A comunicação do Bora 77 tem se apoiado na ideia de ser um aplicativo da cidade, próximo dos motoristas e passageiros.
200 passageiros e até 60 motoristas
O Bora 77 tem hoje cerca de 200 passageiros cadastrados. A base de motoristas chegou a 60 condutores, embora o volume de corridas tenha caído após a chegada da 99.
Francelmir afirma que perdeu passageiros que passaram a chamar corridas nas grandes plataformas por causa dos preços mais baixos. Ainda assim, tenta manter o relacionamento com a base local e reconstruir o volume de viagens.
O gestor também realiza reuniões mensais com motoristas, geralmente em formato de café da manhã. Nesses encontros, apresenta os números do mês, fala sobre corridas realizadas, cancelamentos e estratégias para melhorar a operação.
Premiação para motoristas
Para incentivar os condutores, o Bora 77 trabalha com campanhas mensais. Os motoristas com melhor desempenho podem ganhar prêmios em combustível.
Segundo Francelmir, o primeiro colocado pode receber R$ 200 em combustível, o segundo R$ 150 e o terceiro R$ 100. A pontuação leva em conta o número de corridas realizadas, mas também penaliza cancelamentos.
Se o motorista aceita uma corrida e cancela depois, perde pontos. O objetivo é reduzir cancelamentos e melhorar a experiência do passageiro.
“Eu tinha muita corrida cancelada. A gente trabalhou isso e diminuiu o número”, afirma.
Corrida premiada para passageiros
O Bora 77 também usa ações promocionais para fidelizar passageiros. Uma delas é a “corrida premiada”.
Durante a viagem, o aplicativo pode avisar ao passageiro que aquela corrida será paga pelo Bora 77. Ao mesmo tempo, o motorista recebe a orientação de não cobrar o cliente, porque o app fará o pagamento.
A ideia é incentivar o passageiro a continuar chamando pela plataforma e evitar corridas feitas diretamente fora do aplicativo.
Corridas por fora ainda preocupam
Assim como outros aplicativos regionais, o Bora 77 enfrenta o desafio das corridas feitas por fora da plataforma. Francelmir relata que já recebeu denúncia de motorista que entregou cartão ao passageiro e pediu para ser chamado diretamente, sem passar pelo app.
Para combater esse comportamento, a empresa reforça a mensagem de que corridas fora do aplicativo não oferecem a mesma segurança, monitoramento, possibilidade de reclamação ou suporte em caso de objetos esquecidos.
Nos casos mais graves, o motorista pode ser suspenso ou banido da plataforma.
“A gente fala que corrida fora do aplicativo não tem segurança. Nossas corridas são monitoradas”, afirma.
Expansão para sete cidades
Apesar das dificuldades em Açailândia, o plano de Francelmir é expandir o Bora 77 para sete cidades da região. Ao contratar a plataforma, ele adquiriu direito de operar em três cidades. A ideia é começar com essas e, no futuro, ampliar a atuação.
Uma segunda cidade já está em fase de estudo. Francelmir afirma que a equipe já visitou o município, onde ainda não há aplicativo de mobilidade, e agora trabalha na precificação.
O processo inclui medir distâncias entre pontos da cidade, entender valores cobrados por táxis e mototáxis e definir uma tarifa que seja competitiva e sustentável.
“Estamos nessa etapa de precificação. A ideia é chegar a sete cidades”, afirma.
Delivery pode ser caminho para competir
Na visão de Francelmir, os aplicativos regionais precisam evoluir em tecnologia e ampliar serviços para competir com grandes plataformas.
Ele cita a 99 como exemplo de aplicativo que concentra diversos recursos, incluindo pagamentos e delivery. Para ele, os regionais também precisam caminhar nessa direção.
O Bora 77 hoje atua com mobilidade por carro e moto, mas Francelmir acredita que o delivery poderia ajudar a fortalecer a marca. O problema é que a empresa fornecedora da licença do aplicativo ainda não oferece essa possibilidade integrada à plataforma.
“Eu entendi que precisaria ir atrás do delivery para colocar dentro da plataforma Bora. Só que a empresa que fornece a licença ainda não tem”, afirma.
Persistência como orgulho
Ao falar sobre o que mais o orgulha em sua trajetória, Francelmir cita a persistência. Ele afirma que, mesmo diante da desistência do possível sócio, do golpe financeiro, da queda de corridas e da concorrência das grandes plataformas, continua tentando manter o Bora 77 de pé.
“Depois que o aplicativo chegou e conseguimos colocar para operar, a gente chegou a oferecer porcentagem para agências de marketing para expandir mais rápido. Não fechou, e eu entendi que, já que estava dando certo, ia tocar sozinho mesmo”, afirma.
Para ele, o Bora 77 voltou hoje a um estágio parecido com o início, mas isso não significa desistência. A ideia é buscar novas cidades e fortalecer a operação.
Legado social
Francelmir afirma que o legado que deseja deixar com o Bora 77 está ligado ao impacto social. Ele quer encontrar uma forma de fazer com que parte do uso do aplicativo ajude pessoas carentes da cidade e da região.
A ideia ainda está em construção, mas o plano é que algum valor ligado às corridas seja destinado a ações sociais.
“O legado que eu quero deixar é que as pessoas que usam o Bora 77 também possam ajudar pessoas carentes da minha cidade”, afirma.
Segundo ele, esse projeto deve acompanhar o aplicativo não só em Açailândia, mas em toda a região onde o Bora 77 venha a operar.
“Quero ver o Bora 77 crescer”
Mesmo com a queda no volume de corridas, Francelmir afirma que segue investindo no Bora 77 porque acredita no potencial da plataforma. Para ele, a história do app começou muito antes do lançamento, quando ainda rodava como motorista em Imperatriz e imaginava levar a mobilidade por aplicativo para sua cidade.
“Eu trago investimento de fora para dentro do Bora 77 porque quero ver o Bora crescer”, afirma.
A meta agora é atravessar a fase de concorrência mais forte em Açailândia, avançar para novas cidades e provar que um aplicativo regional pode sobreviver mesmo diante da chegada das grandes plataformas.
