Criado por André de Oliveira Carlos, o Bora Já nasceu da experiência do próprio gestor como motorista de aplicativo. Hoje com escritório em Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, a empresa atua em 17 cidades, nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, e tem como principal aposta o suporte próximo a motoristas e passageiros.
Antes de fundar a plataforma, André entrou no setor após a quebra do ramo em que trabalhava. Sem saber exatamente qual caminho seguir, começou a dirigir por aplicativo com um carro simples que havia recebido em uma negociação. A rotina, segundo ele, passou a ocupar praticamente toda a vida: foram três anos dirigindo todas as noites, das 18h às 6h.
“Eu acabei me apaixonando pelo negócio. Me apaixonando por conhecer pessoas, aquela vida ali dentro do carro, que você acaba sendo psicólogo, cliente do passageiro, vai conversando e conhecendo pessoas”, conta.
Da experiência como motorista à criação do Bora Já
A ideia de criar um aplicativo próprio veio depois que André trabalhou em diferentes plataformas e percebeu problemas no atendimento aos motoristas e passageiros. Na cidade onde morava, Cachoeira do Sul, já havia muitas empresas disputando o mercado. Segundo ele, eram 12 plataformas na época e hoje são 15.
“Eu sempre fui muito crítico. O que pode ser melhorado? Como poderia atender melhor o motorista? Como poderia atender melhor o passageiro?”, afirma.
A oportunidade surgiu em Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, cidade a cerca de 120 km de onde ele morava e que ainda não tinha aplicativo de mobilidade. Antes de iniciar a operação, André fez uma pesquisa com 100 moradores e descobriu que a maioria nem sabia o que era transporte por aplicativo.
“Todo mundo dizia: então vamos desistir. Eu disse: não, aqui é o mercado. Se ninguém conhece, nós vamos ter que fazer eles conhecerem. Alguém vai ter que desbravar”, relembra.
Encruzilhada do Sul chegou a 800 corridas por dia
Os primeiros meses foram difíceis. André afirma que, durante cerca de oito meses, a operação em Encruzilhada do Sul não conseguia sequer pagar a mensalidade da plataforma. Ainda assim, manteve o trabalho até formar o mercado local.
Depois de 8 a 10 meses, a cidade chegou a realizar entre 700 e 800 corridas por dia. Para André, esse resultado confirmou que havia demanda mesmo em cidades onde o público ainda não conhecia o serviço.
“Em 10 meses nós já estávamos com esse número de corridas na cidade”, afirma.
Suporte 24 horas é o principal diferencial
André diz que sua maior insatisfação era com a falta de suporte. Segundo ele, nas plataformas em que trabalhou, quando o app travava ou surgia algum problema, não havia com quem conversar.
No Bora Já, a proposta foi criar uma central humanizada 24 horas, com atendimento por telefone, WhatsApp e e-mail. A empresa acompanha as corridas em tempo real por telas, separadas por cidade.
“Tem uma pessoa atendendo o telefone 24 horas por dia. Se der qualquer problema com o motorista, ele liga para nós e a gente atende na hora”, afirma.
André reconhece que manter essa estrutura é caro, mas diz que o suporte sempre foi parte central do projeto.
“Todos os colegas donos de plataforma que eu já conversei acham até loucura eu fazer isso. Mas o meu sonho era esse”, diz.
Lavagem gratuita para motoristas
Outro diferencial do Bora Já é a estrutura de apoio ao motorista. Em uma das cidades, a empresa tem uma lavagem própria, onde os condutores podem lavar e aspirar o carro gratuitamente.
Segundo André, esse custo pesa muito na rotina de quem dirige todos os dias.
“É muito caro lavar o carro todos os dias. No mínimo, R$ 50 uma ducha externa e uma aspiração. Isso dá R$ 1 mil no mês só para lavar o carro”, afirma.
Para ele, cuidar do motorista é o primeiro passo para atender bem o passageiro.
“O nosso foco é o motorista. Sem o motorista não existe o passageiro. O motorista feliz, satisfeito, bem remunerado e bem atendido vai transpassar esse carinho para os passageiros”, diz.
Expansão para 17 cidades
O Bora Já atua hoje em 17 cidades, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. A sede fica em Capão da Canoa, onde está o escritório da empresa. A meta é chegar a 20 cidades ainda neste ano.
A expansão acontece, em geral, por meio de sócios locais. André explica que não consegue estar em todos os municípios ao mesmo tempo, por isso trabalha com parceiros que conhecem a realidade da cidade, os motoristas e os passageiros.
“Em todas as cidades praticamente eu tenho um sócio. O André é um só, ele não consegue estar em todos os lugares”, afirma.
Segundo ele, o Bora Já nunca precisou sair procurando cidades para operar. O interesse veio de moradores e motoristas que conheceram o serviço em outros municípios.
“As cidades vieram atrás de mim. As pessoas perguntavam: por que tu não traz o Bora Já para cá?”, diz.
Entrada em novas cidades começa pelos motoristas
Para iniciar uma nova operação, André diz que o foco inicial é sempre formar a base de motoristas. A empresa trabalha um por um, até ter ao menos 10 condutores capazes de manter a cidade atendida ao longo do dia e da noite.
“Tem 10 motoristas? Aí nós começamos a focar nos passageiros”, explica.
Depois disso, o marketing é adaptado à realidade local. Em algumas cidades, rádio funciona melhor. Em outras, Instagram, jornal ou influenciadores têm mais força.
“A gente atira para todos os lados, mas foca no que a população do município já diz que é mais ouvido”, afirma.
Falta de fiscalização é o maior problema
O momento mais difícil para a operação, segundo André, está nas cidades onde não há fiscalização contra transporte clandestino. Ele afirma que prefeituras e órgãos de trânsito muitas vezes cobram das empresas legalizadas, mas não agem contra quem roda de forma irregular.
“O maior problema é a falta de fiscalização. As cidades deixam os clandestinos tomarem conta”, afirma.
Na visão dele, isso prejudica quem tenta operar dentro das regras.
“As cidades que têm fiscalização fazem em cima dos legalizados, em cima do Bora Já, não em cima dos clandestinos”, diz.
Investimento inicial de R$ 120 mil
O investimento inicial para colocar o Bora Já em operação foi de cerca de R$ 120 mil. Segundo André, o valor foi gasto até a empresa começar a girar. O retorno veio em aproximadamente um ano.
“Para o licenciado que quer levar o Bora Já para cidade, esse investimento é menor, com R$ 30 mil você inicia sua operação”.
Cada cidade conta com um sócio responsável pela gestão local, enquanto a central mantém o suporte e o acompanhamento operacional.
IA atende passageiros por cidade
Além da central humanizada, o Bora Já investiu em uma inteligência artificial para atendimento. A tecnologia entende pedidos por mensagem, identifica cidade, endereço de partida e localização, confirma dados com o passageiro e envia a solicitação para um grupo de motoristas da cidade.
Quando um motorista aceita, a IA informa ao passageiro quem está a caminho, incluindo carro, placa e cor.
“Eu não sei de nenhuma outra plataforma no Brasil que tenha algo parecido com isso”, afirma André.
Segundo ele, essa estrutura permite expandir para qualquer cidade do país com custo menor, desde que haja um sócio local para tocar a operação.
Orgulho: motoristas que mudaram de vida
Ao falar sobre o que mais o orgulha, André cita motoristas que chegaram sem condições de comprar um carro e hoje conseguiram melhorar de vida com o trabalho no aplicativo. Alguns, segundo ele, se tornaram sócios da própria empresa.
“Hoje eu vejo essas mesmas pessoas dizendo: ‘hoje eu ganho por semana o que eu levava dois meses para receber’”, afirma.
Para ele, o Bora Já é uma ferramenta que ajuda motoristas a transformarem a própria realidade.
“Eu não consigo mudar a vida de ninguém, mas tenho uma ferramenta na mão que pode auxiliar os motoristas a mudarem de vida. Isso é prazeroso demais”, diz.
Os feedbacks dos passageiros também são citados como motivação.
“Ouvir que o Bora Já mudou a vida da pessoa, que hoje ela sai para uma festa, pode beber e sabe que vai ter um Bora Já para levar de volta, é o que nos dá gás”, afirma.
André ainda dirige pelo aplicativo
Mesmo como gestor, André continua dirigindo pelo Bora Já quando pode. Ele diz que gosta de fazer corridas, mas brinca que, na maioria das vezes, acaba tendo prejuízo porque transforma as viagens em “corridas premiadas”.
Na prática, ele atende o passageiro sem se identificar como dono da plataforma e, ao fim da viagem, presenteia a pessoa com a corrida gratuita. Em alguns casos, também entrega brindes como canetas, chaveiros, copos ou camisetas.
“No final da corrida eu digo: hoje tu ganhou essa corrida, muito obrigado por chamar o 24 horas Bora Já”, conta.
670 motoristas e mais de 240 mil corridas por mês
O Bora Já reúne cerca de 670 motoristas cadastrados. André não informou o número atualizado de passageiros, mas afirma que a plataforma realiza entre 6 mil e 8 mil corridas por dia nas 17 cidades em que atua.
Na média mensal, isso representa ao menos 240 mil corridas.
“São 6 mil, 7 mil, 8 mil corridas por dia. O mínimo é 240 mil corridas por mês”, afirma.
Corrida mínima parte de R$ 8
A corrida mínima varia conforme a cidade. Na maior parte das operações, o valor inicial é de R$ 8 no horário comercial, das 8h às 20h. Em algumas cidades, como Nova Petrópolis, a largada chega a R$ 12 para acompanhar o mercado local.
O aplicativo também aplica acréscimos por horário. Das 20h às 22h, há aumento de 20%. Das 22h às 6h, o acréscimo é de 50%. A mesma lógica vale para sábado à noite, domingos e feriados.
“É para motivar os motoristas a estarem online. São valores justos para o passageiro e justos para o motorista”, afirma.
Motorista recebe de R$ 2,20 a R$ 2,80 por km
Segundo André, o valor médio por quilômetro para o motorista fica entre R$ 2,20 e R$ 2,80, dependendo da cidade e da corrida.
A taxa cobrada dos motoristas varia de 12% a 16%. Onde há mais suporte, como lavagem de carro gratuita, a taxa chega ao limite máximo de 16%. Em outras cidades, fica em 14% ou 12%.
“A gente cobra até 16%, que é o máximo. Em outras cidades, 14%, e algumas 12%, que é o mínimo”, explica.
Recorde semanal foi de R$ 4.950
O recorde de faturamento de um motorista no Bora Já foi de R$ 4.950 em uma semana, sem contar viagens intermunicipais, apenas corridas dentro da cidade. A média semanal fica entre R$ 1.500 e R$ 2.700.
“Nosso recordista fez R$ 4.950 na semana. A média de faturamento é de R$ 1.500 a R$ 2.700 por semana”, afirma.
Os motoristas rodam de segunda a domingo e pagam a taxa do Bora Já na segunda-feira.
Pagamento direto ao motorista
O Bora Já retirou a opção de pagamento dentro do aplicativo. Segundo André, a decisão foi tomada para evitar confusão com taxas de cartão, Pix e prazos de repasse.
Hoje, o passageiro paga diretamente ao motorista, seja em dinheiro, Pix ou cartão. Depois, o motorista paga a taxa semanal ao CNPJ do Bora Já.
“Hoje 100% dos valores ficam com o motorista. Na segunda-feira ele paga a taxa do Bora Já via Pix”, explica.
Receita é reinvestida na operação
André não informou faturamento ou valor total movimentado em corridas. Segundo ele, a resposta é difícil porque todo valor que entra é reinvestido na operação, em abertura de cidades, marketing, inteligência artificial e carros próprios.
A empresa também compra carros e coloca dois motoristas por veículo, um no turno do dia e outro à noite, para manter a operação 24 horas.
“Hoje não me sobra nada. Eu reinvisto tudo”, afirma.
Corridas por fora levam a desligamentos
O Bora Já enfrenta o problema das corridas feitas por fora da plataforma. André afirma que motoristas são retirados todos os dias do aplicativo por esse motivo.
“Infelizmente, a gente tira todos os dias motoristas da plataforma por causa disso”, afirma.
Para ele, fazer corrida por fora por causa de uma taxa de 12% a 16% é uma postura que prejudica a própria empresa e o mercado regional.
“Por causa de 12%, 14%, é sacanagem”, diz.
Futuro dos regionais depende dos motoristas
André vê com preocupação o avanço das grandes plataformas, especialmente pelo investimento em carros autônomos. Para ele, motoristas que priorizam essas empresas acabam financiando o próprio desemprego.
“Quem corre para essas plataformas grandes não está vendo que está financiando o próprio desemprego”, afirma.
Na visão dele, o caminho para fortalecer aplicativos regionais passa por uma decisão dos próprios motoristas: desligar as grandes plataformas e valorizar quem oferece melhores condições no mercado local.
“Nós viramos o plano B, C ou D. O principal é os motoristas se conscientizarem e valorizarem as plataformas regionais”, diz.
Fiscalização e corridas por fora são os maiores incômodos
Ao ser perguntado sobre o que mais o incomoda no mercado, André cita dois pontos: falta de fiscalização e motoristas que fazem corridas por fora.
“É a falta de fiscalização e os motoristas que fazem corrida por fora. Isso é o que quebra as empresas”, afirma.
Legado: transformar vidas com humildade
O legado que André quer deixar com o Bora Já é mostrar que é possível crescer com dedicação, humildade e respeito ao mercado.
“Com dedicação, esforço, humildade e carinho, a gente consegue voar muito longe. Mas sem tentar passar por cima de ninguém, sem olho grande, sem soberba”, afirma.
Para ele, o Bora Já não foi criado para ser apenas mais um aplicativo, mas para oferecer ferramentas que ajudem motoristas a trabalharem melhor e passageiros a terem atendimento seguro.
“O Bora Já não veio para o mercado para ser só mais um. Viemos com o objetivo real de transformar vidas, dar oportunidade para as pessoas e dar as ferramentas para elas trabalharem”, conclui.
