Com mais de 5 mil clientes cadastrados, cerca de 100 motoristas ativos, operação em diversas capitais brasileiras e faturamento acumulado de R$ 1,6 milhão em 2025, a Guide Mobilidade nasceu da experiência prática de Raphaella Fernandes dos Santos nas ruas como motorista de aplicativo. Antes de se tornar empresária do setor, ela atuou por anos transportando passageiros e identificou problemas que, segundo ela, continuam sem solução nas grandes plataformas: falta de suporte, ausência de treinamento para motoristas e pouca valorização dos profissionais.
Nesta entrevista ao 55content, a CEO conta como transformou um cliente particular em um negócio nacional, revela números da operação, fala sobre os desafios de empreender sendo mulher no setor de mobilidade e explica por que acredita que os aplicativos regionais ainda têm muito espaço para crescer.
Você pode se apresentar e contar um pouco da sua trajetória antes da Guide Mobilidade?
Raphaella: Minha história não começou na mobilidade urbana. Eu tive uma empresa de transporte de combustíveis antes da Guide. Sempre fui muito ligada ao empreendedorismo. Cheguei a fazer um curso técnico voltado para a carreira policial, mas percebi que aquele não era o meu caminho.
Quando minha empresa anterior encerrou as atividades, precisei me reorganizar financeiramente. Foi nesse momento que entrei para os aplicativos de transporte como motorista. Eu precisava trabalhar e encontrei nos aplicativos uma oportunidade de recomeço.
Ao longo da minha trajetória, este já é o meu terceiro CNPJ. Tenho 28 anos e posso dizer que aprendi muito mais empreendendo do que em qualquer outra experiência profissional. Cada negócio me trouxe aprendizados diferentes e me preparou para construir a Guide.
Qual sua formação?
Raphaella: Eu fiz um curso técnico voltado para a área policial, mas nunca segui carreira. Minha formação profissional acabou acontecendo muito mais no empreendedorismo e na prática do mercado do que propriamente dentro de uma faculdade.
Como surgiu a ideia de criar a Guide Mobilidade?
Raphaella: Tudo começou quando eu ainda era motorista de aplicativo. Um cliente começou a me pedir serviços específicos com frequência. Primeiro era uma corrida, depois ele precisava que eu levasse o filho para a escola, depois para consultas médicas e outros compromissos.
Chegou um momento em que eu não conseguia mais atender todas as demandas sozinha. Comecei a organizar essas solicitações por e-mail, depois formalizei a atividade e percebi que existia uma oportunidade de negócio.
O que começou como um atendimento personalizado para um cliente acabou crescendo, atraindo novos passageiros e exigindo mais motoristas. Foi assim que nasceu a Guide.
Qual problema do mercado você identificou como motorista?
Raphaella: O principal problema é a falta de suporte e treinamento.
As grandes plataformas colocam milhares de motoristas nas ruas, mas oferecem muito pouco acompanhamento. Muitos profissionais não conhecem sequer todas as funcionalidades disponíveis nos próprios aplicativos em que trabalham.
Eu vivi isso na prática. Já fui bloqueada sem explicação, já precisei de suporte e não consegui atendimento adequado. Então, quando construí a Guide, quis criar algo diferente.
Hoje temos suporte humanizado 24 horas, treinamentos frequentes e acompanhamento constante dos motoristas. Nosso objetivo é fazer com que eles tenham informação e apoio para trabalhar melhor.
Como foi conquistar os primeiros motoristas e passageiros?
Raphaella: Foi totalmente no boca a boca.
Como eu já era motorista, comecei conversando com colegas que trabalhavam comigo. Eles acreditaram no projeto, começaram a utilizar a plataforma e foram indicando outros profissionais.
Os passageiros também vieram muito por indicação. Um cliente indicava para outro e assim fomos crescendo.
Até hoje a indicação continua sendo uma das nossas principais fontes de crescimento.
Como funcionava a operação antes do aplicativo?
Raphaella: Antes de termos um aplicativo próprio, nós operávamos por grupos no Telegram.
Os passageiros solicitavam as corridas e os motoristas recebiam as demandas através desses grupos. Funcionava, mas obviamente tinha limitações.
Quando lançamos o aplicativo, conseguimos organizar melhor a operação, automatizar processos e melhorar a experiência tanto para os passageiros quanto para os motoristas.
Quando o aplicativo foi lançado?
Raphaella: A Guide foi lançada em 2024.
Foi um período de muita construção e aprendizado. Tivemos que estruturar tecnologia, operação, atendimento, marketing e tudo que envolve uma plataforma de mobilidade.
Qual tecnologia vocês utilizam?
Raphaella: Utilizamos a tecnologia da Machine.
Ela foi uma parceira importante para conseguirmos estruturar o aplicativo e escalar a operação.
Qual foi o investimento inicial?
Raphaella: O investimento inicial ficou em torno de R$ 15 mil.
Na época eu ainda tinha sócios e esse valor foi utilizado para colocar a operação de pé, desenvolver processos e estruturar a empresa.
O investimento já teve retorno?
Raphaella: Sim.
A empresa já recuperou esse investimento inicial. Tivemos um crescimento muito forte a partir de agosto do ano passado, principalmente depois de algumas entrevistas e ações de divulgação.
Qual foi o maior desafio da sua trajetória?
Raphaella: Ser mulher em um mercado predominantemente masculino.
Muitas vezes você precisa liderar, treinar ou orientar pessoas que não estão acostumadas a receber orientações de uma mulher.
É um desafio constante, mas nunca deixei isso me impedir de continuar crescendo.
Existem mulheres motoristas na plataforma?
Raphaella: Sim, existem.
Ainda são minoria, como acontece em praticamente todo o mercado de mobilidade, mas temos mulheres trabalhando conosco e buscamos incentivar cada vez mais a participação feminina.
Em que momento você percebeu que a Guide estava dando certo?
Raphaella: Acho que isso ficou muito claro a partir de agosto do ano passado.
Começamos a ter um crescimento expressivo de usuários, mais visibilidade para a marca e um aumento consistente na demanda.
Foi quando percebi que a empresa realmente tinha potencial para se tornar algo maior.
A Guide concorre diretamente com Uber e 99?
Raphaella: Não exatamente.
Nosso foco principal é o transporte executivo. Trabalhamos muito com eventos, artistas, empresários e clientes que procuram um serviço diferenciado.
Não buscamos simplesmente replicar o modelo das grandes plataformas.
Você já foi motorista do próprio aplicativo?
Raphaella: Sim.
Durante bastante tempo eu conciliava a gestão da empresa com o trabalho nas ruas.
Até quando você dirigiu?
Raphaella: Até julho do ano passado.
Depois disso passei a me dedicar integralmente à administração da empresa.
O que mais mudou na sua vida depois que você deixou as ruas?
Raphaella: Minha qualidade de vida melhorou muito.
Eu estava extremamente cansada, estressada e com problemas físicos causados pela rotina intensa.
Sinto falta de dirigir às vezes, mas hoje consigo ter uma vida mais equilibrada e focar no crescimento da empresa.
Do que você mais se orgulha na sua trajetória?
Raphaella: De ter conseguido construir algo relevante a partir de uma realidade muito difícil.
Eu comecei como motorista, conhecendo as dificuldades da profissão na prática, e consegui transformar essa experiência em uma empresa que hoje gera oportunidades para outras pessoas.
Quantos clientes cadastrados a Guide possui atualmente?
Raphaella: Hoje temos mais de 5 mil clientes cadastrados.
Esse número considera tanto os usuários do aplicativo quanto os clientes que vieram da operação anterior.
Quantos motoristas trabalham na plataforma?
Raphaella: Temos aproximadamente 100 motoristas ativos.
Quantas corridas são realizadas por mês?
Raphaella: Hoje realizamos cerca de 3 mil corridas mensais.
Qual é a tarifa mínima da Guide?
Raphaella: A tarifa mínima para o passageiro é de R$ 28,57.
Ela cobre corridas de até 4 quilômetros.
Quanto o motorista recebe nessa corrida mínima?
Raphaella: O motorista recebe R$ 20.
Na prática, isso representa cerca de R$ 5 por quilômetro em uma corrida curta.
Existe um valor mínimo por quilômetro para os motoristas?
Raphaella: Sim. Nossa política é trabalhar com um mínimo de R$ 3 por quilômetro rodado.
Qual é o ticket médio das corridas?
Raphaella: Atualmente nosso ticket médio gira em torno de R$ 55 por corrida.
Quanto os motoristas costumam receber por corrida?
Raphaella: Em média, eles ficam com algo entre R$ 35 e R$ 40 por viagem.
Qual foi o melhor resultado recente de um motorista da plataforma?
Raphaella: Tivemos o caso do Douglas.
No último mês ele faturou aproximadamente R$ 16 mil somando todas as plataformas em que trabalha. Desse total, cerca de R$ 10 mil vieram apenas da Guide.
O mais interessante é que ele realizou somente 81 corridas dentro da plataforma para atingir esse resultado.
Quanto um motorista pode ganhar trabalhando na Guide?
Raphaella: Depende muito do perfil de atuação.
Mas hoje temos motoristas que trabalham menos horas do que trabalhavam anteriormente e conseguem ganhar mais dinheiro.
Como funciona a taxa cobrada pela plataforma?
Raphaella: Nossa comissão é de 30%.
Mas é importante explicar que ela é descontada do valor pago pelo cliente. A empresa recebe o pagamento, faz o repasse e fica com a comissão necessária para manter toda a estrutura da operação.
Em quais cidades a Guide está presente?
Raphaella: Hoje estamos em Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Campo Grande, Cuiabá, Maringá, Gramado, Canela, Salvador, Aracaju e Porto de Galinhas.
Qual foi o faturamento da empresa em 2024?
Raphaella: Em 2024 faturamos aproximadamente R$ 680 mil.
E em 2025?
Raphaella: Em 2025 já alcançamos cerca de R$ 1,6 milhão em faturamento.
Até maio, já havíamos movimentado aproximadamente R$ 500 mil.
Qual era seu maior medo quando começou?
Raphaella: Não era exatamente medo, mas uma preocupação com credibilidade.
Quando você apresenta números diferentes do mercado, sempre aparecem pessoas questionando se aquilo é possível ou sustentável.
O que mais te incomoda no mercado atualmente?
Raphaella: Não são os concorrentes e nem os motoristas que fazem corridas particulares.
O que mais me incomoda é quando você investe tempo ensinando pessoas, compartilhando conhecimento e ajudando a construir algo e depois essas mesmas pessoas usam tudo isso para criar concorrência.
Você já passou por uma situação assim?
Raphaella: Sim.
Recentemente um ex-colaborador saiu da empresa, abriu uma operação própria e começou a tentar captar motoristas e clientes que estavam conosco.
Isso faz parte do mercado, mas obviamente é algo desagradável.
Como você vê o futuro da mobilidade urbana?
Raphaella: Acredito que o mercado continuará crescendo.
Mas sobreviverão apenas as empresas que conseguirem oferecer algo realmente diferente e que tenham persistência para enfrentar os desafios do setor.
A Uber precisa mudar algo na relação com os motoristas?
Raphaella:Sim.
Acredito que os motoristas precisam ser mais valorizados.
Não existe mobilidade urbana sem motoristas. Eles são a base de toda a operação e merecem mais atenção.
O que os aplicativos regionais precisam fazer para crescer?
Raphaella: Encontrar nichos específicos e parar de tentar copiar exatamente o que as grandes plataformas fazem.
Foi isso que nós fizemos com o transporte executivo.
Por que você busca investidores?
Raphaella: Porque acredito que a empresa tem potencial para crescer muito mais rápido com o apoio adequado.
Temos uma operação validada, números positivos e espaço para expansão nacional.
Qual legado você deseja deixar?
Raphaella: Quero que os passageiros se lembrem da Guide como uma empresa que ofereceu um serviço diferenciado e de qualidade.
E quero que os motoristas lembrem que existe uma forma de trabalhar melhor, ganhar mais e ter mais qualidade de vida.
Se eu conseguir contribuir para isso, já vou me sentir realizada.

