A trajetória de Denildo Santos na mobilidade começou enquanto ele ainda trabalhava como CLT. Natural de Alagoas, ele conciliava o emprego formal com corridas pela Uber e pela 99 nas horas vagas. O irmão também trabalhava em uma empresa e, ao mesmo tempo, rodava por aplicativo em Goiás.

Foi nesse período que Denildo começou a pesquisar formas de criar um aplicativo próprio ou atuar com uma franquia. Segundo ele, a ideia parecia distante no começo, porque ainda não sabia que existiam empresas capazes de desenvolver plataformas regionais de mobilidade.

“Eu conhecia Uber e 99, mas não tinha conhecimento de que tinha uma empresa que poderia desenvolver um aplicativo próprio”, lembra.

Primeira tentativa foi em Alagoas

A primeira operação da franquia começou em cidades pequenas de Alagoas. O início chegou a mostrar potencial, mas a pandemia dificultou o avanço do projeto. Depois de tentativas em duas cidades e de um investimento que não trouxe retorno, os irmãos chegaram perto de desistir.

A virada veio quando decidiram levar a operação para Quirinópolis, em Goiás, cidade onde o irmão de Denildo já tinha contato com o mercado.

“Começamos devagarinho, quase parando. Depois de seis meses, quase um ano, foi que começou a fluir”, conta.

Operação cresceu em Quirinópolis e Mineiros

Hoje, a franquia é administrada principalmente a partir de Quirinópolis e também atua em Mineiros. A operação de Mineiros foi comprada posteriormente pelos irmãos, já que o irmão de Denildo havia trabalhado anteriormente nessa franquia.

Em Quirinópolis, a base já passa de 50 motoristas e mais de 20 mil passageiros cadastrados. Segundo Denildo, Mineiros tem uma base semelhante de clientes.

Captação começou com desconfiança

No início, tanto motoristas quanto passageiros tinham resistência. Alguns condutores não acreditavam que o aplicativo teria futuro ou que conseguiria gerar renda. Já parte dos passageiros preferia continuar chamando motoristas conhecidos, hábito comum em cidades menores.

A mudança veio quando os primeiros motoristas começaram a rodar e compartilhar os resultados com outros condutores. Com o tempo, o boca a boca ajudou a fortalecer a base.

“Depois que entrou um, dois, três motoristas e eles começaram a falar que estavam faturando, foi espalhando”, afirma.

Entrada de motoristas é controlada conforme a demanda

Denildo afirma que hoje já não há tanta necessidade de captar novos motoristas em Quirinópolis. Pelo contrário: há interessados esperando para entrar. A entrada de novos condutores é feita de acordo com o número de corridas, para evitar excesso de motoristas e queda no rendimento.

“A gente preza muito pelo lado do motorista. Não é colocar 100 ou 200 motoristas sem ter viagens para todos faturarem razoavelmente”, diz.

Falta de suporte nas grandes plataformas motivou a operação

A experiência como motorista ajudou Denildo a identificar problemas que queria evitar na operação regional. Entre eles, a falta de suporte direto aos motoristas, a dificuldade de contestar denúncias e as taxas altas cobradas por grandes plataformas.

“A proximidade com os motoristas é um diferencial da franquia: conversamos no dia a dia, trocamos ideia. É um convívio como se fosse uma família”, afirma.

Retorno levou mais de um ano

Por causa das tentativas iniciais em Alagoas e do período da pandemia, a operação levou mais de um ano para começar a se pagar. Para recuperar o investimento total feito no início, Denildo estima que foram quase dois anos.

Os irmãos trabalham juntos desde o começo. Denildo fica mais ligado à organização e à administração da plataforma, enquanto o irmão cuida principalmente da parte de marketing e relacionamento local.

Concorrência aumentou com facilidade para criar apps

A maior dificuldade atual, segundo Denildo, é a concorrência. Ele afirma que o mercado ficou mais saturado porque hoje ficou mais fácil criar um aplicativo do zero e entrar em cidades do interior.

A operação já enfrentou casos de motoristas que saíram para criar aplicativos próprios, mas não conseguiram manter os projetos. Também há novas plataformas tentando entrar no mercado local.

“Hoje ficou muito fácil fazer um aplicativo. A pessoa chega, promete coisas que não cumpre e acaba afetando um pouco”, avalia.

Gestores ainda fazem corridas para acompanhar o serviço

Mesmo na gestão, Denildo e o irmão ainda fazem corridas de vez em quando. A ideia é acompanhar de perto a rotina dos motoristas, conversar com passageiros e entender como está o atendimento na cidade.

“Essa presença ajuda a não deixar a operação distante da realidade da rua”, afirma. 

Mudança para gestor trouxe realização

Ao falar sobre a mudança de motorista para gestor, Denildo diz que hoje se sente realizado por ouvir os condutores e oferecer um suporte que não teve quando trabalhava em grandes plataformas.

“Quando um motorista vem falar comigo, eu ouço e lembro do tempo em que eu queria ter tido essa chance”, afirma.

Rápidocar faz cerca de 15 mil corridas por mês

Em Quirinópolis, a operação realiza em média 15 mil corridas por mês. A corrida mínima é de R$ 9,99 e cobre cerca de 2 km.

A taxa cobrada dos motoristas é de 10%. O pagamento não funciona por carteira pré-paga: a plataforma soma o faturamento do motorista ao longo do mês e cobra 10% sobre esse valor ao final do período.

Mínima sobe à noite e na madrugada

A tarifa mínima varia conforme o horário. Até 21h, a mínima é de R$ 9,99. Depois disso, passa para R$ 12,99 até meia-noite. A partir de 1h, chega a R$ 19,99.

Por causa dessas variações, o valor por quilômetro também muda, mas Denildo estima uma média em torno de R$ 2,50 por km em dias normais.

Motorista já faturou R$ 16 mil

O maior faturamento registrado por um motorista da operação foi de R$ 16 mil brutos. Entre os condutores mais empenhados, Denildo afirma que há motoristas fazendo R$ 7 mil, R$ 8 mil, R$ 9 mil e até R$ 10 mil por mês.

O desempenho varia conforme dedicação, horário de trabalho e categorias atendidas. A plataforma trabalha com modalidades como comum, executiva e comfort, além de planejar a implantação de uma categoria elétrica.

Operação movimenta cerca de R$ 300 mil por mês

Com as 15 mil corridas mensais, a operação movimenta cerca de R$ 300 mil por mês em viagens. Como a taxa é de 10%, o faturamento da franquia fica em torno de R$ 30 mil mensais.

Corridas por fora ainda acontecem

A operação enfrenta dificuldades com corridas feitas por fora do aplicativo. Denildo afirma que a prática foge do controle em parte porque Quirinópolis é uma cidade pequena, com muitos passageiros idosos que ainda preferem chamar motoristas por telefone.

“Não era para ter corrida fora do aplicativo, era para ser 100% na plataforma. A regra é que todas as corridas sejam registradas no aplicativo, mas alguns motoristas ainda deixam de fazer esse registro. Mas, por ser cidade do interior, isso acaba fugindo do controle”, explica.

Concorrência com promessa baixa incomoda

O que mais incomoda Denildo no mercado é a chegada de concorrentes que prometem benefícios difíceis de cumprir e reduzem demais o valor das corridas. Para ele, esse tipo de estratégia prejudica quem já investe há anos na cidade e trabalha para manter uma operação sustentável.

“A gente investe muito, mensalmente. Aí chega alguém fazendo propaganda enganosa e colocando valor de corrida baixo demais”, afirma.

Meta é chegar a mais cidades

Para os próximos anos, Denildo quer expandir a gestão da franquia para novas cidades. Desde o começo, o plano era atuar em 10, 15 ou até 20 cidades sob sua administração.

Ele afirma que já tem cidades específicas na mira, mas não detalhou quais são.

Regionais podem sair na frente pelo suporte

Denildo acredita que ainda há espaço para aplicativos regionais, especialmente em cidades pequenas onde a mobilidade por aplicativo ainda não foi totalmente incorporada. Para ele, quem chegar primeiro e fizer um bom trabalho pode sair na frente de grandes plataformas.

“Se o cara chegar na cidade e fizer um bom trabalho, pode sair na frente da Uber e da 99 pela forma como elas trabalham, sem dar suporte. O diferencial está no suporte dado a motoristas e passageiros”, avalia.

Tecnologia regional tem categorias mais adaptadas

Ao comparar tecnologia, Denildo afirma que não vê uma diferença tão grande em tudo. Na visão dele, algumas categorias dos aplicativos regionais podem até estar à frente, por serem mais adaptadas à realidade local.

Ele cita como exemplo categorias voltadas a mulheres e compras, que ajudam a evitar conflitos quando o passageiro chama uma corrida comum, mas precisa transportar muitas sacolas.

Motoristas são chave para disputar mercado

Para Denildo, o principal desafio dos aplicativos regionais é atrair e manter motoristas. Na visão dele, se os condutores de uma cidade se juntassem em torno de uma plataforma local e deixassem de rodar por grandes aplicativos, os regionais teriam uma fatia muito maior do mercado.

“Se não tem motorista, não tem passageiro. Se os motoristas se juntassem no regional, a fatia estaria por inteiro”, afirma.

Legado é levar mobilidade acessível ao interior

Ao falar sobre legado, Denildo destaca o impacto da operação em uma cidade do interior onde antes o transporte dependia principalmente de táxis. Segundo ele, moradores pagavam R$ 30 ou R$ 40 por corridas curtas, e muitas vezes o serviço nem era aceito pelos taxistas.

“A satisfação é ter conseguido levar mobilidade por um preço acessível. Hoje até pessoas com pouca condição aderiram ao nosso serviço no dia a dia”, conclui.

Foto de Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.