Josimar Dias da Silva, de 48 anos, é gestor e criador do Mobi 10. Sem sócios, ele iniciou o projeto ao perceber que Cachoeiro de Itapemirim e cidades próximas tinham potencial para uma plataforma local de mobilidade. A sede fica em Cachoeiro, cidade com cerca de 200 mil habitantes, mas a estratégia desde o início era alcançar também municípios litorâneos como Itapemirim, Marataízes e Piúma.

Segundo Josimar, nessas cidades do litoral não havia aplicativo de mobilidade antes da chegada do Mobi 10. O transporte era dominado por motoristas particulares, o que tornava a entrada de uma plataforma digital mais difícil.

“No litoral não existia aplicativo até a chegada do Mobi 10. Existia um grupo específico de motoristas particulares que detinha um monopólio nas pequenas cidades litorâneas”, afirma.

Lançamento aconteceu em janeiro de 2024

O Mobi 10 foi lançado em janeiro de 2024. O primeiro ano, segundo Josimar, foi marcado por persistência. Durante boa parte de 2024, o aplicativo enfrentou dificuldades para criar fluxo, principalmente porque havia poucos motoristas dispostos a rodar pela plataforma.

Em alguns momentos, o aplicativo ficava mais de uma semana sem registrar uma corrida. Mesmo assim, quatro motoristas ajudaram a manter o projeto vivo, acreditando que o litoral precisaria de uma solução por aplicativo.

“Aparecia passageiro, mas não tinha motorista. Quatro motoristas era muito pouco para conseguir fazer uma plataforma dar certo”, lembra.

Motoristas ajudaram Josimar a não desistir

Josimar faz questão de destacar motoristas que o motivaram a continuar. Entre os nomes citados por ele estão David Abreu, Ronaldo Bahima e Alan Jones. Segundo o gestor, esses condutores entendiam que, em algum momento, a população e os turistas precisariam de um aplicativo funcionando no litoral.

A virada começou em novembro de 2024. Nos primeiros 20 dias do mês, o aplicativo bateu o recorde de corridas finalizadas de todo o ano. A partir dali, mais motoristas começaram a aparecer e o app passou a ter sequência de chamadas.

“Foi quando eu entendi que o aplicativo já tinha dado certo e que eu precisava continuar no propósito de expandir”, afirma.

Alta temporada mudou o jogo

A melhora no desempenho coincidiu com a chegada do período de maior movimento no litoral. Cidades como Marataízes, Itapemirim e Piúma começam a receber mais turistas no fim do ano, especialmente vindos de Minas Gerais.

“Esse fluxo ajudou a dar mais volume ao Mobi 10 e a mostrar aos motoristas que havia demanda suficiente para manter o aplicativo ativo”, explica. 

Investimento no primeiro ano chegou a cerca de R$ 60 mil

O investimento inicial foi de R$ 35 mil. Ao longo de 2024, porém, Josimar continuou colocando recursos próprios no projeto. Segundo ele, considerando os aportes feitos até o aplicativo viralizar no fim do ano, o investimento total do primeiro ano ficou próximo de R$ 60 mil.

O aplicativo começou a se pagar no verão de 2024 para 2025. Ainda assim, Josimar afirma que segue reinvestindo todo o retorno da operação e que ainda não tira dinheiro para si.

“O que está fazendo o aplicativo, eu estou reinvestindo para que um dia possa colher frutos”, diz.

Cachoeiro segue como praça ativa, mas litoral é o foco

Josimar mora em Cachoeiro de Itapemirim, onde a 99 já é consolidada. Para ele, esse é um dos maiores desafios para qualquer aplicativo local em cidades maiores: os motoristas não desligam as grandes plataformas, mesmo quando reclamam das tarifas.

Por isso, embora o Mobi 10 continue ativo em Cachoeiro, o foco mais promissor está nas cidades litorâneas, onde o aplicativo conseguiu romper a resistência inicial e criar uma base de uso.

“O simples fato de ninguém desligar a 99 é o principal motivo para um aplicativo local não dar certo em uma cidade onde ela já predomina”, avalia.

Plataforma está ativa em cinco cidades

O Mobi 10 está ativo em cinco cidades. Além de Cachoeiro de Itapemirim, a operação envolve Marataízes, Itapemirim, Piúma, Anchieta e Presidente Kennedy, com estratégias diferentes para cada praça.

“A base soma mais de 20 mil passageiros cadastrados e mais de 2 mil condutores, considerando todas as cidades onde a plataforma está ativa”, diz Josimar.

Mobi 10 faz mais de 3 mil corridas mensais fora da temporada

Mesmo fora da alta temporada, o Mobi 10 já realiza mais de 3 mil corridas por mês. Esse volume movimenta aproximadamente R$ 40 mil a R$ 45 mil mensais em viagens.

Para Josimar, esse resultado é motivo de orgulho porque mostra que o aplicativo se manteve ativo mesmo após o período mais forte do verão.

“Hoje eu tenho um grande orgulho do Mobi 10 estar no mercado já fazendo mais de 3 mil corridas mensais, fora da alta temporada”, afirma.

Taxa é de 10% nas corridas de carro em cidades já consolidadas

A taxa varia conforme a cidade e a categoria. Em Marataízes e Itapemirim, onde o aplicativo já viralizou, a taxa para corridas de carro é de 10%. No caso dos mototaxistas, existe um acordo específico de taxa fixa até a chegada da alta temporada.

“Em Piúma e Anchieta, a estratégia atual é cobrar R$ 1 por corrida, como taxa simbólica, para conquistar apoio dos motoristas e fortalecer a plataforma antes da temporada. A expectativa é voltar ao modelo de 10% quando o movimento aumentar”, afirma o gestor.

Corrida mínima no litoral é de R$ 20

A corrida mínima varia conforme a cidade. No litoral, a estratégia foi praticar valores compatíveis com a realidade local. Segundo Josimar, motoristas particulares costumavam cobrar R$ 25, R$ 30 ou até R$ 40 pela corrida inicial.

Depois do primeiro verão de operação, o Mobi 10 reduziu a mínima para R$ 20 em algumas praças. Para o gestor, esse valor é necessário porque as cidades litorâneas têm baixo fluxo fora da temporada e o motorista muitas vezes precisa retornar à base após deixar o passageiro.

“Se eu colocar corrida de R$ 10, o aplicativo não seria aceito nessa região, porque não tem fluxo de corridas”, explica.

Valor pode chegar a R$ 5 por quilômetro

Com a mínima de R$ 20, Josimar estima que o valor médio fique em torno de R$ 5 por quilômetro rodado. Em alta temporada, o motorista do litoral consegue faturar cerca de R$ 3 mil mensais apenas pela plataforma.

Ele ressalta, porém, que esse valor não representa a renda total dos condutores, já que muitos também fazem corridas particulares, prática já antiga nas cidades litorâneas.

Sistema continua pré-pago

O funcionamento do pagamento segue no modelo pré-pago. O motorista coloca créditos na carteira virtual e a taxa é descontada conforme realiza corridas.

Com uma movimentação de até R$ 45 mil em corridas e taxa de 10% nas principais operações, a receita da plataforma ficaria em torno de R$ 4,5 mil, valor que Josimar afirma reinvestir em marketing, impulsionamento, adesivação de carros e materiais gráficos.

Cancelamentos para fazer por fora são monitorados

O Mobi 10 enfrenta casos de motoristas que aceitam corridas e depois cancelam para tentar atender por fora. Segundo Josimar, o sistema permite identificar possíveis situações desse tipo. Quando acontece, ele conversa diretamente com o motorista e reforça que a taxa de 10% é pequena diante do benefício de manter a plataforma funcionando.

Se a prática se repetir, o motorista pode ter a conta desativada.

“A gente faz ele entender que 10% é uma fatia muito pequena e que não justifica fazer a corrida por fora”, diz.

Lidar com motoristas e passageiros é um desafio

Para Josimar, uma das partes mais difíceis da mobilidade é lidar com comportamento humano. Ele cita casos de motoristas que aceitam corridas sem conseguir atender de imediato e de passageiros que cancelam depois que o condutor já se deslocou.

O aplicativo tem taxa de cancelamento para amenizar o prejuízo do motorista, embora o gestor reconheça que a situação ainda gera frustração.

Terceiro verão deve ampliar a movimentação

A expectativa de Josimar é que o próximo verão traga crescimento maior. Segundo ele, a temporada de 2026 para 2027 será a terceira em que a plataforma estará ativa no litoral, agora com mais turistas já sabendo da existência do Mobi 10.

O gestor acredita que a movimentação de corridas tende a crescer ano após ano, especialmente se conseguir formar uma equipe ou trazer parceiros para ajudar na gestão e expansão.

“Minha principal expectativa é formar uma equipe para fazer a gestão juntos da plataforma e ela continuar crescendo”, afirma.

Concorrentes com corrida barata podem dar “tiro no pé”, avalia gestor

Sobre o futuro dos aplicativos regionais, Josimar acredita que o mercado vai separar quem consegue construir uma operação sustentável de quem entra com propostas difíceis de manter. Segundo ele, concorrentes que chegam oferecendo valores muito baixos podem até atrair atenção no início, mas correm o risco de não sustentar a operação.

A estratégia do Mobi 10, segundo ele, é continuar ouvindo motoristas, reforçando segurança para passageiros e mantendo o atendimento.

Tecnologia das grandes ainda pesa

Josimar vê a tecnologia como um dos principais fatores que dificultam a disputa com grandes plataformas. Segundo ele, empresas maiores conseguem individualizar preços para passageiros e condutores, aplicar descontos automáticos, ajustar valores e manter a chamada ativa de forma mais eficiente.

“Quando um motorista cancela, o ideal seria que o aplicativo continuasse procurando outro condutor sem encerrar a solicitação do passageiro, mas não é isso que acontece. A tecnologia das grandes plataformas é muito superior”, avalia.

Josimar reconhece que os aplicativos brasileiros evoluíram nos últimos anos, mas acredita que ainda há espaço para aprimoramento para que plataformas regionais consigam disputar melhor uma fatia do mercado.

Legado é contribuir para a mobilidade da região

Ao falar sobre legado, Josimar afirma que entrou no setor com a ideia de fazer o aplicativo funcionar e gerar retorno, mas hoje enxerga o Mobi 10 como uma contribuição para a mobilidade urbana e turística da região.

Segundo ele, a plataforma passou a fazer parte do cotidiano das pessoas, seja para ir ao mercado, à academia ou para se locomover durante viagens no litoral.

“Hoje eu vejo que a plataforma é muito mais do que um negócio para obter lucro. Estamos contribuindo para a mobilidade da população e dos turistas”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.