A história de Douglas Antonio Neres da Luz na mobilidade começou muito antes do Rota MS. Motorista há mais de 22 anos, ele atuou no transporte rodoviário, em viagens intermunicipais e de ônibus, até precisar deixar essa área e migrar para o transporte por aplicativo.
“ Dirigir sempre foi minha principal habilidade profissional. Eu fui pegando gosto pelo negócio. A experiência acumulada nas plataformas, somada à participação em grupos de motoristas, levou à ideia de criar um aplicativo próprio”, conta;
Aplicativo aposta no interior de Mato Grosso do Sul
Douglas é de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. O Rota MS está ligado na capital, mas a demanda ainda é baixa por causa da força das grandes plataformas e dos incentivos oferecidos a motoristas, como bônus, cashback e parcerias com bancos.
Por isso, a operação passou a focar no interior, onde a aceitação tem sido maior. Segundo Douglas, o aplicativo já está ligado em todo o Mato Grosso do Sul e também começou a avançar para Mato Grosso.
“Brigar com multinacional em capital é muito difícil. A gente lançou no interior e o pessoal está abraçando”, afirma.
Taxa de 10% é regra no Rota MS
A principal dor identificada por Douglas no mercado foi a diferença entre o valor pago pelo passageiro e o repasse ao motorista em grandes plataformas, especialmente em horários de baixa demanda. Segundo ele, há corridas em que o motorista recebe valores baixos por quilômetro enquanto a plataforma fica com uma fatia alta da viagem.
No Rota MS, a taxa cobrada dos motoristas é de 10%. Douglas afirma que esse percentual está previsto no estatuto da operação e não deve aumentar.
“A minha intenção não é ficar rico. É ter um aplicativo que trabalhe justo, onde o motorista ganhe bem, trabalhe menos e o passageiro pague um preço justo”, afirma.
Lançamento aconteceu em fevereiro de 2025
O Rota MS foi lançado em fevereiro de 2025. Hoje, as cidades com maior demanda citadas por Douglas são Jardim, Água Clara e Nova Andradina, além de outras praças do interior sul-mato-grossense.
A captação inicial de motoristas e passageiros passou por mudanças de equipe e de estratégia. Atualmente, a divulgação se concentra em Instagram, Facebook e tráfego pago.
Investimento inicial foi de R$ 15 mil
Para montar o aplicativo, o investimento inicial foi de cerca de R$ 15 mil. Douglas afirma que o valor ainda não se pagou, porque a plataforma ficou muito tempo sem cobrança para motoristas, como forma de apresentar o serviço e gerar adesão.
A cobrança de 10% começou há cerca de dois meses em todo o estado. Desde então, a operação deixou de atuar no modelo gratuito nas novas cidades.
“A gente deixou muito tempo no 0800 para a galera conhecer e ver que o aplicativo é legal. Agora começou a taxa de 10% em todo o estado”, explica.
Douglas cuida da operação
O Rota MS tem sócios. Segundo Douglas, ele cuida da operação do aplicativo, enquanto os demais entram com investimento. Como motorista, ele afirma que entende as demandas da ponta e acompanha de perto o funcionamento da plataforma.
Ele também dirige pelo próprio aplicativo.
Maior desafio é adesão dos motoristas
A principal dificuldade do Rota MS é convencer motoristas a aceitarem corridas em uma plataforma nova. Segundo Douglas, o aplicativo oferece recursos semelhantes aos das grandes plataformas, mas ainda precisa de volume para gerar dinâmicas e alta demanda nos horários mais disputados.
“Quando os valores das grandes plataformas sobem, muitos motoristas acabam priorizando essas chamadas e a maior dificuldade é o motorista aceitar”, afirma.
Virada veio com as cidades do interior
Douglas diz que percebeu que o aplicativo tinha potencial quando entendeu que precisava deixar a capital em segundo plano e focar no interior. Em cidades menores, algumas com cerca de 20 mil habitantes e sem aplicativo de transporte, o Rota MS chegou como novidade e passou a ter fluxo relevante de corridas.
“Em Água Clara, por exemplo, o aplicativo teve boa aceitação durante a Expo Água Clara, com novos cadastros de passageiros, motoristas e corridas logo no lançamento local”, cita o gestor.
Continuidade virou motivo de orgulho
Douglas afirma que o que mais o orgulha é ter mantido o projeto mesmo após mudanças internas e divergências de visão com pessoas que estiveram no início da operação. Segundo ele, o foco foi continuar trabalhando e ajustar a equipe ao longo do caminho.
Ele também cita a esposa como uma das principais incentivadoras para seguir com o projeto.
“Se eu fosse me deixar abalar, teria acabado. Mas o foco é dar continuidade e seguir em frente”, diz.
Empresa também oferece serviço de limpa nome
Além do Rota MS, Douglas afirma que tem outra empresa voltada à regularização de crédito. A partir disso, criou uma promoção para motoristas que deixam o aplicativo ligado e precisam limpar o nome para voltar a ter acesso a financiamento ou crédito.
“Muitos motoristas trabalham com carro locado ou estão negativados, o que dificulta a compra de veículo próprio”, comenta.
App reúne 2 mil motoristas e mais de 10 mil passageiros
O Rota MS tem cerca de 2 mil motoristas cadastrados em todo o estado e mais de 10 mil passageiros. Segundo Douglas, o volume de corridas cresceu nos últimos meses e chegou a uma média de 600 corridas mensais no último levantamento citado.
O número ainda é considerado inicial pelo gestor, mas representa crescimento em relação ao período em que o aplicativo registrava de 10 a 20 corridas mensais.
Corrida mínima varia entre capital e interior
Em Campo Grande, a corrida mínima do Rota MS é de R$ 6,50, com quilômetro rodado a R$ 1,65. Segundo Douglas, a tentativa é acompanhar a faixa praticada pelas grandes plataformas na capital.
No interior, os valores são mais altos. A cidade com menor mínima cobra R$ 10, com quilômetro a R$ 2. Já em Bonito, cidade turística de Mato Grosso do Sul, a mínima é de R$ 20, com R$ 3,50 por quilômetro rodado.
“No interior, a diferença é grande. Em Bonito, por ser cidade turística, o pessoal está aceitando bem”, afirma.
Motoristas ganham em média R$ 3 por km no interior
Considerando as cidades com mais chamadas, Douglas estima que os motoristas estejam ganhando, em média, R$ 3 por quilômetro rodado. A estratégia de atuar em cidades menores também busca aproveitar praças onde Uber e 99 não estão presentes ou operam de forma limitada.
“Há municípios com 5 mil habitantes em que três motoristas trabalham pelo Rota MS e fazem cerca de 20 corridas por dia cada um”, relata Douglas.
Motorista de Água Clara faturou R$ 12 mil
O maior faturamento citado por Douglas foi de um motorista de Água Clara, que chegou a R$ 12 mil no mês. No interior, a média dos motoristas mais ativos fica em torno de R$ 7 mil mensais, segundo o gestor.
“Foi agora que a gente conseguiu dar essa alavancada. Tem motorista faturando R$ 12 mil, e a média no interior está em R$ 7 mil”, afirma.
Cobrança funciona por desconto e boleto
Nas corridas pagas por cartão de crédito ou débito pela plataforma, se o motorista tiver saldo devedor com o aplicativo, o valor da taxa é abatido automaticamente. Já em corridas pagas em dinheiro ou Pix diretamente ao motorista, a empresa envia um boleto semanal para o condutor.
“O motorista tem dois dias para pagar. Caso não pague, fica suspenso para receber corridas em Pix e dinheiro, mantendo apenas as chamadas pagas no cartão”, explica.
Primeiro resultado positivo foi de R$ 7 mil
Como o aplicativo ficou muito tempo sem cobrança, Douglas afirma que a operação ainda não tem um histórico consolidado de faturamento. No mês citado na entrevista, após pagar a plataforma, sobraram R$ 7 mil, valor que foi reinvestido em tráfego pago para ampliar a presença no estado.
Corridas por fora existem, mas não são foco
Douglas reconhece que corridas feitas por fora sempre vão existir, mas afirma que prefere não gastar energia fiscalizando esse comportamento. Para ele, como o valor do Rota MS já é considerado mais justo, o incentivo para esse tipo de prática tende a ser menor.
“Vai acontecer, mas eu prefiro nem esquentar a cabeça com isso. No nosso, o valor já está justo e o motorista está ganhando bem”, afirma.
Falta de união e força das grandes são desafios
Para Douglas, falta união entre motoristas. Ele afirma que cada profissional pensa de um jeito, o que dificulta chegar a um consenso. Ainda assim, a maior dificuldade é competir com grandes plataformas, especialmente em capitais.
“Muitos passageiros ainda escolhem marcas maiores por costume ou por desconfiança em relação aos regionais”, comenta.
Tecnologia não é o problema, diz gestor
Na avaliação de Douglas, a tecnologia dos aplicativos regionais não está muito atrás das grandes plataformas. Ele afirma que o servidor usado pelo Rota MS é estável, não trava e oferece recursos de segurança.
O principal desafio, segundo ele, é mudar a percepção do passageiro, principalmente das classes média e alta, que muitas vezes associam aplicativos locais a motoristas bloqueados em outras plataformas.
“É difícil colocar na cabeça deles que nosso aplicativo é seguro, que os motoristas são verificados”, afirma.
Seleção de motoristas considera antecedentes
Douglas afirma que o Rota MS verifica os motoristas antes de liberá-los para trabalhar. Segundo ele, a empresa analisa antecedentes e processos, mas também avalia caso a caso. Em situações relacionadas a pensão, por exemplo, alguns condutores foram liberados por precisarem trabalhar para regularizar a própria condição financeira.
“O canal direto com a plataforma regional permite esse tipo de análise mais humana”, explica.
Expansão mira Mato Grosso e Goiás
O Rota MS já está ligado em algumas cidades de Mato Grosso e começou a divulgar a operação em Goiás. A estratégia inicial nessas praças é captar motoristas por Facebook, Instagram e grupos locais, antes de investir em tráfego pago.
Douglas não definiu uma meta de faturamento, mas quer ampliar a presença da plataforma para além de Mato Grosso do Sul.
Futuro dos regionais depende de persistência
Douglas avalia que o mercado de aplicativos regionais está saturado, mas ainda há espaço para quem trabalha corretamente e não desiste. Para ele, o principal adversário dos regionais não deve ser outro aplicativo local, mas as grandes plataformas de fora.
“O aplicativo A não é inimigo do aplicativo B. O problema são as multinacionais”, afirma.
Segurança local pode ser diferencial
Para Douglas, aplicativos regionais podem oferecer respostas mais rápidas em situações de segurança.
“Em caso de assalto ou problema com passageiro, a operação local consegue fornecer dados com mais agilidade do que grandes plataformas, que dependem de canais mais burocráticos”, cita o gestor.
Campo Grande ainda tem baixa demanda
Apesar de estar ligado em Campo Grande, o Rota MS realiza cerca de 30 corridas por mês na capital.
“Não estou mais preocupado com esse mercado no momento e prefiro concentrar esforços no interior, onde o aplicativo tem maior aceitação”, afirma.
Investimento é necessário para competir
Na visão de Douglas, aplicativos regionais precisam de investimento para disputar mercado com grandes plataformas. Sem recursos para cashback, bônus ou campanhas agressivas, a competição fica mais difícil.
“Com um bom investimento para lançar cashback e bônus, seria possível atrair motoristas e ampliar rapidamente a operação. Sem investimento é muito difícil”, diz.
Legado é construir uma plataforma forte para o futuro
O legado que Douglas quer deixar com o Rota MS é uma plataforma consolidada, com operação forte o suficiente para ser continuada pelo filho no futuro. A meta de longo prazo é ambiciosa: chegar a mais de 100 mil corridas por dia em um estado do tamanho de Mato Grosso do Sul.
“Espero deixar essa plataforma bem, para meu filho dar continuidade mais tarde. Temos que chegar a esse número”, conclui.
