Criada em 15 de março de 2024, a CoopCar nasceu em Bom Despacho, em Minas Gerais, com uma proposta diferente da maioria dos aplicativos de mobilidade: funcionar como uma associação sem fins lucrativos, em que os motoristas não pagam porcentagem por corrida e ficam com 100% do valor das viagens.

O presidente da associação é Wallace Luiz Xavier, de 50 anos. Militar aposentado, ele sempre morou em Bom Despacho, é casado e tem três filhos. A entrada no setor de mobilidade aconteceu depois da aposentadoria, quando foi convidado pelo irmão, que já atuava com aplicativo, para ajudar a atender corridas em outra plataforma da cidade.

“Eu entrei no aplicativo e comecei a fazer corridas. O que me levou a mexer com aplicativo foi que, na aposentadoria, eu fiquei um pouco sem fazer nada e meu irmão me convidou”, conta.

Ideia surgiu entre motoristas

Antes da criação oficial da CoopCar, Wallace conta que os motoristas já discutiam havia cerca de um ano a possibilidade de abrir um aplicativo próprio. A principal motivação era criar uma alternativa em que os condutores pudessem ganhar mais e pagar menos.

A ideia surgiu da insatisfação com o modelo de cobrança de outro aplicativo, que ficava com uma porcentagem de cada corrida. Segundo Wallace, os motoristas queriam reduzir essa taxa e manter uma parte maior do valor pago pelos passageiros.

Sem porcentagem por corrida

A CoopCar não cobra porcentagem dos motoristas. O modelo funciona por meio de um rateio mensal entre os associados. A empresa apresenta os custos e divide o valor em partes iguais entre os motoristas.

“O nosso aplicativo não cobra porcentagem. Temos um rateio mensal de cada motorista, que a gente faz com os custos da empresa. A empresa apresenta os custos e a gente divide em partes iguais para todo motorista”, explica Wallace.

Atualmente, cada motorista paga R$ 300 por mês. O valor é o mesmo para todos, independentemente do quanto cada um fatura. Segundo Wallace, o excedente fica no caixa da associação como reserva para divulgação, melhorias e manutenção da operação.

“Não importa o motorista que faz R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 10 mil. O custo do rateio fica em R$ 300 todo mês”, diz.

Associação sem fins lucrativos

Wallace reforça que a CoopCar não foi criada para gerar lucro ao aplicativo em si. A associação não distribui lucro e o conselho fiscal não tem remuneração.

“O nosso aplicativo é uma associação. Essa associação não tem fins lucrativos. O lucro que a gente tem é cada motorista rodar, fazer suas corridas e ganhar o seu valor”, afirma.

Segundo ele, o objetivo é simples: permitir que o motorista ganhe mais e pague menos.

“Esse aplicativo foi feito para ganhar mais e pagar menos”, resume.

Gestão concentrada na presidência

A CoopCar tem 11 sócios fundadores, cada um com participação nas estruturas internas, como conselho fiscal e outras demandas. Na prática, porém, Wallace afirma que a gestão do dia a dia se concentra principalmente na presidência, com apoio do tesoureiro e da secretária.

A esposa de Wallace, Marília, também é motorista da CoopCar e integra a associação. Ela atende corridas, especialmente de mulheres e senhoras, e participa da rotina do aplicativo.

Motoristas ajudaram a captar motoristas

A captação dos primeiros motoristas foi feita principalmente pelos próprios condutores que já acreditavam na ideia. Wallace conta que o grupo se reunia para falar sobre as demandas do setor e sobre a possibilidade de criar uma alternativa local.

A divulgação também aconteceu no contato direto com outros motoristas, por meio de conversa, indicação e mobilização local. Depois que o aplicativo passou a funcionar, mais condutores procuraram a associação.

Divulgação com panfletos e boca a boca

O investimento em marketing foi limitado no início. Segundo Wallace, a associação caminhava com caixa restrito e precisou avançar aos poucos. A estratégia envolveu panfletos, divulgação de casa em casa e contato direto com a população.

“A gente foi fazendo panfletos da empresa com telefone e fomos de casa em casa colocando o nosso panfletinho, divulgando o nosso nome”, diz.

Hoje, com o aplicativo já se pagando, a CoopCar possui caixa para ações como rádio, tráfego pago e novas iniciativas de divulgação.

Investimento foi bancado pelos sócios fundadores

Wallace afirma que o investimento inicial não teve um valor fechado. A estruturação do aplicativo levou de seis a oito meses, período em que os sócios fundadores bancaram os custos até a plataforma ficar pronta para rodar.

“O investimento em si não tem um valor definido. Os próprios sócios fundadores foram pagando esse investimento até que ela começasse a rodar pelo próprio aplicativo”, explica.

Atualmente, segundo ele, o aplicativo já se mantém com o rateio mensal dos motoristas e ainda possui uma reserva em caixa.

Corte em outro aplicativo virou “questão de honra”

O momento mais difícil da trajetória, segundo Wallace, foi a saída do aplicativo concorrente em que alguns motoristas atuavam. Ele conta que, quando o concorrente soube que o grupo cogitava abrir uma plataforma própria, os motoristas foram cortados do app.

“A gente fazia parte de outro aplicativo e esse concorrente ficou sabendo que nós estávamos querendo abrir um aplicativo na cidade. Ele simplesmente cortou a gente”, afirma.

Depois disso, abrir a CoopCar virou, nas palavras dele, uma “questão de honra”.

“Foi uma questão de honra abrir o próprio aplicativo para começar a trabalhar”, diz.

Começo do zero foi desafiador

Além da saída do concorrente, a CoopCar enfrentou dificuldade para buscar passageiros, divulgar a marca e mostrar que existia no mercado.

Wallace afirma que o início foi complicado porque os motoristas precisavam de corridas para se manter, pagar seus veículos e sustentar suas famílias. Sem demanda, era difícil convencer novos condutores a entrar.

“A dificuldade de mudança de aplicativo, de buscar passageiro e de buscar motorista foi muito grande. O motorista quer que tenha corrida para ele se manter, manter o veículo e manter a família”, afirma.

Bom Despacho como sede

A CoopCar atua em Bom Despacho, cidade-sede da associação. Há planos de expansão para municípios vizinhos, mas Wallace afirma que esse movimento ainda não será imediato.

“O objetivo é estruturar na cidade primeiro para depois buscar outras coisas fora”, explica.

Wallace também segue como motorista

Além de presidente da CoopCar, Wallace continua rodando como motorista pelo aplicativo.

“Atendo corridas pelo aplicativo normalmente, igual aos outros motoristas”, afirma.

A experiência na rua também ajuda na gestão, já que permite acompanhar de perto as demandas de passageiros e motoristas.

Cerca de 38 motoristas e mais de 6 mil corridas por mês

A CoopCar tem cerca de 38 motoristas cadastrados e realiza mais de 6 mil corridas por mês em Bom Despacho. Wallace afirma que o aplicativo não mostra com precisão a quantidade de passageiros cadastrados, mas estima que sejam mais de 1,5 mil.

Em um período analisado entre 1º de junho e 21 de julho, a associação registrou R$ 274.249,76 movimentados em corridas e 13.242 corridas finalizadas. No mesmo intervalo, houve quase 1 mil corridas canceladas, embora Wallace explique que parte delas corresponde a passageiros que cancelam e depois voltam a pedir.

Corrida mínima de R$ 11

Na categoria comum, a corrida mínima da CoopCar é de R$ 11 e cobre até 1 km. Depois disso, o valor sobe gradualmente: após 1 km, passa para R$ 12; após 2,4 km, vai para R$ 13, e assim por diante.

Wallace afirma que, durante o dia, a média das corridas fica entre R$ 12 e R$ 15. Após as 19h, os valores costumam subir um pouco.

Compras, pet, intermunicipal e rural

Além da categoria comum, a CoopCar trabalha com categorias específicas. A categoria Compras começa em R$ 15 e atende passageiros que precisam ir ao supermercado, pegar compras e voltar para casa. A categoria Pet também parte de R$ 15.

A intermunicipal começa em R$ 30, e a categoria Rural, voltada a deslocamentos em estradas de terra, parte de R$ 50. Acima de 5 km, a plataforma passa a cobrar proporcionalmente até a chegada ao destino.

Segundo Wallace, a categoria Rural é importante porque Bom Despacho tem demanda de passageiros em áreas de roça, tanto para levar quanto para buscar pessoas.

Categoria feminina deve voltar

A CoopCar já teve uma categoria voltada a passageiras que queriam ser atendidas por motoristas mulheres, mas a opção foi retirada temporariamente porque havia poucas condutoras disponíveis.

Hoje, o aplicativo conta com cerca de seis ou sete mulheres motoristas, e Wallace afirma que a modalidade deve voltar.

Motoristas faturam em média de R$ 6 mil a R$ 9 mil

Como a CoopCar não cobra porcentagem, o motorista recebe integralmente o valor de cada corrida.

“A média mesmo do faturamento é de R$ 6 mil, R$ 8 mil, R$ 9 mil. Lógico que depende muito da quantidade de dias que ele vai trabalhar. A corrida toca, já mostra o valor. O motorista faz a corrida e recebe 100% do valor. O aplicativo não fica com nenhum valor”, explica Wallace.

Corridas particulares são o maior problema

Para Wallace, o principal desafio da CoopCar hoje são as corridas particulares, feitas fora do aplicativo. Ele afirma que essa prática é comum no interior, onde muitos passageiros preferem ligar diretamente para motoristas conhecidos.

Segundo ele, esse comportamento prejudica o crescimento do aplicativo, porque dá a impressão de que a plataforma não está chamando, quando, na verdade, muitos motoristas estão atendendo corridas por fora.

“Às vezes o aplicativo não chama, mas é porque o motorista está fazendo corrida particular”, diz.

A associação tenta conscientizar os condutores para que incentivem passageiros a baixar o app e chamar as viagens pela plataforma.

Interior ainda depende muito de ligação

Wallace avalia que a corrida particular é um problema mais forte em cidades do interior.

“Aqui no interior a gente lida muito com pessoas idosas. Elas não dão conta de manusear um aplicativo e acham mais fácil ligar”, afirma.

Para o presidente da CoopCar, esse hábito precisa mudar para que aplicativos locais consigam crescer de forma mais equilibrada.

Meta é chegar a 1 mil corridas por dia

Para os próximos anos, Wallace quer ver a CoopCar realizando mais de 1 mil corridas por dia.

“O propósito nosso é atender todos os passageiros e ajudar cada motorista a ter um bom ganho. Tendo corrida, todo motorista ganha”, afirma.

Wallace também reconhece que a gestão é cansativa e diz que, em cinco anos, espera poder descansar um pouco, deixando o aplicativo estruturado.

Futuro dos regionais terá disputa forte

Na visão de Wallace, o mercado de aplicativos regionais tende a seguir competitivo. Ele avalia que muitas plataformas entram nas cidades tentando derrubar concorrentes, o que gera uma disputa intensa.

“Uber veio para ficar. A palavra Uber é muito forte e deu certo no Brasil todo. Eu vejo isso como um crescimento muito grande, mas eles vão atropelando a cada dia para conquistar mais e derrubar os outros aplicativos”, afirma.

Mesmo assim, ele acredita que os aplicativos locais podem ganhar espaço quando oferecem bom atendimento, estrutura adequada e confiança.

Legado: honestidade, bom atendimento e consciência

O legado que Wallace quer deixar com a CoopCar é o de um aplicativo reconhecido por bom trabalho, sinceridade, honestidade e atendimento ao público.

“Quero levar o nome da CoopCar como um aplicativo de mobilidade urbana consciente, estrutural, com motoristas que atendem bem o passageiro”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.