Criado em 2021, no auge das restrições impostas pela pandemia, o Leva e Traz surgiu para atender uma demanda urgente de mobilidade em Parintins, no interior do Amazonas. A ideia partiu de Nadson Nilton Silva, de 46 anos, formado em Educação Física e também em Mídias Digitais, que viu no cenário da época uma oportunidade de enfrentar um problema concreto da cidade: a falta de transporte acessível durante a pandemia
Com gasolina cara, internet instável e pouca adaptação das grandes plataformas à realidade amazônica, Nadson apostou em um aplicativo regional moldado às condições locais. O projeto começou pequeno, enfrentou resistência, conflitos e limitações estruturais, mas cresceu, se consolidou e hoje já opera em 12 cidades. Segundo o gestor, o aplicativo movimentou cerca de R$ 1,2 milhão em corridas em 2025 apenas em Parintins.
Antes de falar sobre o app, queria que você contasse um pouco da sua história. O que te levou a criar um aplicativo de mobilidade urbana?
Nadson: Meu nome é Nadson Nilton Silva, tenho 46 anos e moro em Parintins, no Amazonas. Sou formado em Educação Física, essa foi minha primeira graduação, e depois, por conta dessa nova atividade, acabei também me formando em Mídias Digitais pelo Senac. Eu sou amazônida e moro numa cidade muito conhecida, principalmente pelo Festival de Parintins, pelo Festival Folclórico de Caprichoso e Garantido.
A ideia do aplicativo não nasceu porque eu era motorista. Na verdade, ela nasceu de uma necessidade muito grande que a gente passou a sentir aqui no interior do Amazonas. A nossa realidade é muito diferente da dos grandes centros. A internet é ruim, o combustível é muito caro, quase tudo chega de barco, e as grandes plataformas não conseguem se adaptar bem a isso. Elas até chegam, mas não ficam muito tempo.
O estalo veio durante a pandemia. Com a pandemia, só alguns serviços podiam circular, e o táxi passou a dominar completamente a mobilidade da cidade. Só que, nesse período, muitos taxistas aumentaram muito os valores. Corridas que antes custavam R$ 15 ou R$ 20 passaram para R$ 50, R$ 75. E tinha gente que precisava ir para hospital, precisava resolver coisas básicas, e simplesmente não tinha dinheiro para pagar. Foi isso que mais me incomodou.
Na época, eu estava numa comunidade próxima, num terreno que a gente tem no interior, e conversando ali comecei a pensar que precisava fazer alguma coisa. Fui atrás de empresas que criavam aplicativos e comecei a buscar uma solução regional.
Então o Leva e Traz nasceu em resposta a um problema real da pandemia?
Nadson: Totalmente. Ele nasceu da necessidade. A pandemia escancarou um problema que já existia, mas que ficou muito pior com o toque de recolher. E aí eu pensei: se a única forma legal de circular era por aplicativo ou táxi, e não havia aplicativo funcionando de verdade, alguém precisava criar isso.
Só que foi difícil encontrar quem topasse desenvolver um app para a nossa realidade. Procurei empresas no Amazonas, depois no Sudeste, e não consegui. Muita gente dizia que era difícil por causa da internet, da manutenção, da geografia, da logística. No fim, consegui com uma empresa.
Expliquei toda a nossa realidade: internet fraca, dificuldade de acesso, pouca familiaridade digital da população, a necessidade de um app mais leve, que funcionasse em diferentes níveis de conexão. E foi assim que começou.
Como foi o desenvolvimento do app? Você precisou adaptar muita coisa?
Nadson: Sim, muita coisa. O app não podia ser um modelo genérico. Ele precisava ser adaptado à nossa realidade. Aqui tem lugar que ainda funciona basicamente em 3G. Então não adiantava trazer uma solução pensada para cidade com internet estável, porque não ia funcionar.
O desenvolvimento levou cerca de seis meses. O investimento inicial, salvo engano, ficou ali entre R$ 4,5 mil e R$ 5 mil. Só que depois ainda houve custo extra, porque quando eles entregaram a primeira versão, eu entrei em fase de testes e apareceram vários problemas de conexão e mapa. Então a gente teve que fazer ajustes, trocar mapa, melhorar leitura de rede. Foi um processo bem artesanal no começo.
E como foi captar os primeiros motoristas e passageiros?
Nadson: No começo, foi muito no braço. Eu fui pessoalmente falar com gente que tinha carro parado e estava sem renda. A pandemia tinha deixado muita gente em dificuldade. A cidade não tem indústria, não tem um mercado de trabalho tão diversificado. Então tinha muita gente com carro, mas sem ter como fazer ele render.
Eu conversava, explicava a ideia e dizia: “vamos tentar, a demanda existe, o povo precisa”. Os primeiros dez motoristas entraram muito nessa lógica de um ajudando o outro. E como era toque de recolher, a cidade precisava muito de uma solução.
Depois veio o Festival de Parintins, e isso impulsionou bastante. Quem vinha de fora já estava acostumado com aplicativo em outras cidades e estranhava não ter algo parecido aqui. Então, quando souberam que existia um app local, passaram a usar. O festival foi muito importante para consolidar isso.
Hoje, no período de alta temporada, a gente chega a ter cerca de 400 motoristas na cidade. E mesmo assim, dependendo do evento, da demanda e do horário, ainda é difícil suprir tudo.
O app começou com outro nome?
Nadson: Sim. No começo ele se chamava Parintins Leva e Traz. Só que aí começou a acontecer uma coisa interessante: pessoas de outras cidades diziam que queriam levar o aplicativo para lá também. E aí o nome travava, porque não fazia sentido usar “Parintins” em outros municípios.
Foi por isso que a gente simplificou para Leva e Traz. Hoje usamos o nome da marca com o nome da cidade, como Mucajaí Leva e Traz, Rorainópolis Leva e Traz, e assim por diante.
Hoje vocês estão em quantas cidades?
Nadson: Hoje estamos em 12 cidades. Já temos operação em municípios do Amazonas, do Pará e de Roraima, e estamos iniciando um trabalho também em Manaus e Boa Vista, ainda em fase de cadastro e expansão.
Em que momento você percebeu que o aplicativo tinha dado certo?
Nadson: Eu percebi isso quando passou a pandemia e o app continuou sendo usado. Porque uma coisa era ele nascer de uma emergência. Outra era ele sobreviver depois da emergência.
Quando o festival voltou com mais força e as pessoas começaram a procurar o serviço naturalmente, inclusive dizendo que queriam algo parecido nas cidades delas, eu entendi que o negócio tinha potencial de verdade. Foi aí que caiu a ficha de que não era só uma solução de crise, era uma operação que podia se sustentar e crescer.
Você falou que enfrentou muitos conflitos no começo. O que aconteceu?
Nadson: No início houve muita resistência. Muita mesmo. A chegada do app criou conflito com taxistas, mototaxistas e freteiros. Tivemos carro de aplicativo queimado, motorista ferido, ameaças. Foi um período muito complicado.
Eu era uma pessoa mais explosiva e poderia ter escolhido outro caminho, de confronto. Mas resolvi agir diferente. Entendi que precisava buscar apoio político e institucional. Fui conversar com vereadores, prefeito, gente da gestão pública, e conseguimos encontrar uma saída para regulamentar minimamente a atividade no município.
Enquanto isso, cada conflito virava também publicidade positiva para o app. Sempre que acontecia um problema, a cidade toda ficava sabendo que existia aplicativo. A gente não alimentava a briga, mas transformava aquilo em visibilidade.
Hoje a situação é totalmente diferente. Há convivência. Inclusive, alguns taxistas trabalham com o aplicativo e outros até criaram soluções próprias. Então foi um processo duro, mas que amadureceu bastante todo mundo.
Qual foi o momento mais difícil da sua trajetória como gestor?
Nadson: O momento mais difícil, para mim, foi perder um amigo. Não foi exatamente um problema operacional do app, mas foi algo que o aplicativo acabou desencadeando.
Eu tinha um amigo com quem eu conversava muito sobre o mercado, sobre aplicativo, sobre as possibilidades. Ele também decidiu criar algo parecido. Só que a pessoa acabou se frustrando muito no processo. Depois foi para Manaus e acabou morrendo atropelado. Isso me abalou muito. Eu me senti culpado por um tempo, por ter despertado nele esse interesse, por talvez ter influenciado esse movimento.
Foi a parte mais dura de toda essa caminhada, sem dúvida.
E o que mais mudou em você depois que começou a empreender com o Leva e Traz?
Nadson: Mudou muito a forma como eu lido com pessoas, conflito e comunicação. Antes eu era mais reativo. Hoje eu aprendi muito mais a ouvir, a observar, a buscar estratégia.
O app me forçou a entender política, comunicação, mídia, posicionamento. Isso inclusive me levou a buscar formação em Mídias Digitais. Eu percebi que não bastava ter uma boa ideia. Era preciso saber como comunicar essa ideia, por qual meio, para qual público, em que tom.
Então eu diria que a principal mudança foi me tornar uma pessoa mais preparada para dialogar e para usar a comunicação a meu favor.
Você continua rodando como motorista?
Nadson: Continuo, sim. E faço isso de forma muito estratégica. Eu rodo principalmente em horários em que consigo sentir melhor o termômetro da operação: de manhã cedo e em eventos da cidade, especialmente à noite.
Faço isso porque preciso ouvir o cliente sem que ele saiba que está falando com o dono do aplicativo. Quando a pessoa acha que está falando com um motorista comum, ela fala mais abertamente. Ela conta o que está ruim, o que está bom, o que irrita, o que melhoraria. E é daí que eu tiro muita informação valiosa para corrigir falhas.
Muitas melhorias do app vieram disso. Inclusive a questão das chamadas via WhatsApp nasceu muito desse contato direto com o usuário.
Como funciona essa ideia de chamadas via WhatsApp?
Nadson: Essa é uma das apostas mais importantes para o nosso futuro. Aqui, por causa da internet, muita gente até tem WhatsApp funcionando, mas não consegue usar bem um app mais pesado o tempo todo. Então pensamos numa solução em que o cliente salva um número de central e faz o pedido por ali.
O sistema vai identificar origem, destino, gerar as informações e repassar isso para o motorista. O passageiro vai receber via WhatsApp nome do motorista, placa, cor do carro, valor e destino. Isso facilita muito para quem não quer baixar app, está em trânsito ou vem de fora.
A gente ainda está finalizando os testes, mas eu acredito muito que isso vai abrir mercado em regiões onde a internet tradicional ainda é um problema para apps.
Hoje, quantos motoristas e passageiros o Leva e Traz tem?
Nadson: Em Parintins, em alta temporada, chegamos a cerca de 400 motoristas. Em períodos normais, esse número oscila bastante, mas temos uma base ativa consolidada. Já passageiros variam conforme o período e os eventos, porque a cidade recebe muito turista.
Qual é o modelo de cobrança do app para os motoristas?
Nadson: No caso das motos, cobramos taxa fixa de R$ 1 por corrida, independente do valor da viagem. Isso foi pensado para ser mais vantajoso para o piloto.
Se ele faz uma viagem de R$ 6 ou de R$ 25, ele paga o mesmo R$ 1 para o aplicativo. Isso foi muito bem aceito, porque nas grandes plataformas o percentual pesa muito mais.
No caso dos carros, aí temos dois modelos: as viagens padrão, como no modelo Uber, ficam com taxa entre 18% e 20%, e as viagens negociadas, mais próximas do modelo inDrive, ficam em torno de 22%.
O motorista pode trabalhar com recarga, com saldo negativo e com outras formas de compensação dentro da plataforma. A gente foi moldando isso ao longo do tempo.
Qual é o valor da corrida mínima?
Nadson: Hoje a corrida mínima é de R$ 15 e cobre até 5 km. Isso parece alto para quem olha de fora, mas na nossa realidade local é um valor que o público entende como aceitável e que ainda dá alguma margem para o motorista.
Se a gente cobrasse só o valor cru do quilômetro e do minuto, a corrida sairia mais barata, mas não teríamos motorista na rua. Então foi uma escolha operacional para manter a oferta funcionando.
E quanto um motorista costuma faturar?
Nadson: Na baixa temporada, um motorista em Parintins não faz menos de R$ 3 mil por mês. E temos motoristas que fazem bem mais.
Tenho um caso de um motorista que, em cerca de três anos, já acumulou mais de R$ 181 mil em ganhos dentro do aplicativo. Então é uma atividade que, dependendo da dedicação e do período do ano, pode dar uma renda muito relevante.
Qual é o ticket médio das corridas?
Nadson: O ticket médio gira ali entre R$ 15 e R$ 16. A maioria das corridas fica nessa faixa.
Quanto o app movimenta financeiramente?
Nadson: Só em 2025, em Parintins, o Leva e Traz movimentou cerca de R$ 1,2 milhão em corridas. A cidade é muito sazonal por causa dos eventos, então isso influencia bastante, mas mostra que o serviço já é economicamente relevante para a região.
Você enfrenta problemas com corridas por fora?
Nadson: Existe, sim. Não adianta negar. Mas a gente tentou criar mecanismos para reduzir isso, como a função de taxímetro dentro do app. Então o motorista pode receber uma ligação direta do cliente e, em vez de fazer a corrida totalmente por fora, ele ativa o taxímetro no aplicativo e registra tudo ali.
Isso protege o motorista, protege o cliente e ainda gera receita formal para a operação. Aos poucos os motoristas vão entendendo isso melhor, especialmente quando explicamos que o risco de uma acusação, de um problema ou de uma ocorrência é muito maior quando a corrida não passa pelo sistema.
O que mais te incomoda no mercado hoje?
Nadson: A concorrência desleal das multinacionais. Elas entram com muito dinheiro, pagando bônus altos, esmagando o mercado, baixando tarifa, atraindo motorista no curto prazo. Isso incomoda, claro.
Mas eu tento transformar isso em aprendizado. Se elas podem fazer isso porque têm muito capital, eu preciso responder com inteligência local, com proximidade, com adaptação e com fortalecimento da economia da cidade.
Como você vê o futuro da mobilidade regional?
Nadson: Vejo com muito potencial, desde que a operação entenda a realidade de cada lugar. Não dá para copiar fórmula de capital e jogar no interior da Amazônia. Não funciona.
Eu acredito muito no fortalecimento regional, na personalização do serviço, no vínculo com o território e na geração de renda local. É isso que sustenta o app regional.
E qual legado você quer deixar com o Leva e Traz?
Nadson: Quero deixar algo que vá além da corrida. O app já abriu portas, gerou renda, movimentou oficinas, postos, comércio. Mas eu quero mais do que isso.
Um dos meus projetos é integrar ao Leva e Traz um marketplace de serviços. A ideia nasceu do meu TCC em Mídias Digitais. Queremos que o aplicativo conecte também profissionais como babás, pedreiros, diaristas, manicures, encanadores e outros trabalhadores à população.
Ou seja, o app deixa de ser só transporte e passa a ser uma plataforma de conexão econômica local. Esse é o legado que eu quero deixar: um instrumento de desenvolvimento para a comunidade.

