Criado em 2020, durante a pandemia, o 77Movecar nasceu em Cláudio, no interior de Minas Gerais, a partir de uma conversa entre Renato Ferreira e um amigo, hoje seu sócio. A ideia surgiu depois que Renato ouviu de um motorista de aplicativo, em uma cidade vizinha, que ele pretendia criar uma plataforma própria para atender seus clientes particulares e reduzir a dependência da Uber.
Dias depois, Renato comentou o assunto com o amigo enquanto os dois tomavam café em frente a um ponto de táxi. O sócio já havia pensado em algo parecido dois meses antes. A partir daí, decidiram colocar a ideia em prática.
A plataforma começou em um momento de incerteza, com a pandemia ainda afetando a circulação de pessoas. Mesmo assim, os sócios decidiram lançar o aplicativo. No primeiro dia, dividiram 12 corridas entre poucos motoristas. No quinto dia, já eram 60 corridas. Hoje, o 77Movecar tem 45 motoristas, cerca de 10 mil passageiros cadastrados e realiza, em média, de 4 mil a 5 mil chamados por semana.
“Quando ficou tudo pronto para começar, tivemos dúvida por conta da pandemia. Mas as coisas foram apertando e falamos: vamos colocar para rodar. Deu certo, graças a Deus”, afirma Renato.
Renato nasceu em Cláudio
Antes de empreender no aplicativo, trabalhou como trabalhador braçal em empresas da cidade. Depois, teve a oportunidade de atuar como comprador em uma usina de cana.
Ao sair da usina, continuou na área de compras, passando pela construção civil, por uma construtora e por uma distribuidora de produtos para panificação.
Mais tarde, trabalhou com mineração no Distrito Federal, onde chegou ao cargo de gerente de uma mineradora. Ao retornar para Cláudio, surgiu a ideia do aplicativo.
Quando criança, Renato não imaginava trabalhar com mobilidade. Seu sonho profissional era ter um bom emprego.
“Consegui”, afirma.
Alternativa ao táxi em Cláudio
Antes do 77Movecar, segundo Renato, o transporte em Cláudio era dominado pelos táxis, especialmente nos horários em que não havia ônibus. O gestor afirma que havia uma demanda grande, mas poucas alternativas para a população.
A primeira conversa sobre o aplicativo aconteceu justamente enquanto Renato e o sócio observavam o movimento do ponto de táxi. Em horário de almoço, mais de 10 carros saíram em sequência.
“Não tinha alternativa ao taxista. O principal diferencial que nós olhamos foi o atendimento, nem foi o preço”, diz.
Uma das primeiras decisões foi oferecer atendimento 24 horas, algo que, segundo Renato, os taxistas não faziam.
Sócio bancou o início
No começo, o sócio de Renato bancou o início do negócio. Renato entrou principalmente com o trabalho operacional. À medida que a empresa começou a dar certo, o próprio aplicativo pagou o financiamento inicial feito pelo sócio.
O retorno veio em cerca de oito meses, para surpresa dos dois.
No início, a divisão de funções era clara: o sócio cuidava da parte administrativa, enquanto Renato ficava na operação. Ele dirigia, fazia plantões e atendia corridas. Com o crescimento da empresa, o sócio precisou se afastar um pouco da rotina, e Renato assumiu a maior parte da gestão.
Hoje, ele atua mais como gestor, mas ainda faz algumas viagens quando necessário.
De 20 convidados, só um motorista entrou
A captação dos primeiros motoristas foi um dos maiores desafios. Renato conta que, em cidade pequena, as pessoas costumam ser desconfiadas. No início, ele e o sócio chamaram 20 pessoas para uma reunião de apresentação do projeto.
Havia motoristas de van, caminhoneiros e profissionais que estavam parados por causa da pandemia. Ao final da reunião, apenas um motorista aceitou se cadastrar.
“De 20, um deu certo. O pessoal falava: ‘esse trem não vai dar certo’, ‘os taxistas não vão deixar vocês trabalharem’”, relembra.
No dia da estreia, conseguiram mais dois motoristas. Mesmo com uma base pequena, a demanda cresceu rapidamente. Em determinado momento, com apenas oito motoristas na cidade, o aplicativo chegou a registrar 1.800 chamados em um domingo.
O volume assustou os sócios, que temiam não conseguir atender todo mundo. A estratégia foi ir para a rua e atender o máximo possível.
“Quem foi atendido vai voltar a pedir. Vamos embora”, lembra Renato.
Lançamento em silêncio para evitar resistência
Para atrair passageiros, o 77Movecar começou de forma discreta. Por causa da disputa com os táxis, os sócios decidiram não fazer muito alarde antes do lançamento.
A divulgação começou no boca a boca. Renato avisava pessoas próximas de que, em breve, a cidade teria um novo aplicativo. Na véspera da estreia, a equipe panfletou toda a cidade e começou a divulgar também nas redes sociais.
A estratégia deu resultado rapidamente.
“Fizemos tudo de maneira calada. No dia que começar, tem que começar de uma vez, para não ter como atrapalharem ou atrasarem o andamento”, afirma.
10 mil passageiros cadastrados
Hoje, o 77Movecar tem cerca de 10 mil passageiros cadastrados. A base foi construída principalmente pelo boca a boca, pela divulgação local e pela percepção de que o aplicativo entregava atendimento quando a população precisava.
Renato afirma que, com o tempo, percebeu que o cliente de aplicativo não era necessariamente o mesmo cliente do táxi. Mas, até chegar a essa conclusão, houve uma disputa forte.
O aplicativo se consolidou como alternativa de transporte em Cláudio, especialmente por oferecer atendimento contínuo e maior previsibilidade.
45 motoristas na cidade
Atualmente, o 77Movecar tem 45 motoristas em Cláudio. A entrada de novos condutores envolve treinamento, especialmente porque muitos profissionais nunca haviam trabalhado com aplicativo.
Segundo Renato, Cláudio é uma cidade muito industrial. Muitos motoristas vêm da CLT, saindo de fábricas e indústrias, e precisam entender a lógica do trabalho autônomo.
A empresa orienta sobre o funcionamento do aplicativo, o sistema de disparo de corridas, o melhor aproveitamento dos chamados e a diferença entre ter um salário fixo e trabalhar por produção.
“Essa liberdade de horário custa um pouco caro, porque você vai ter que produzir para você. Não tem aquele garantido se você não fizer as corridas”, explica.
A plataforma também chama motoristas veteranos para reforçar orientações de atendimento.
Premiação por aproveitamento
Para manter os motoristas engajados, o 77Movecar trabalha com premiação por aproveitamento de corridas. O indicador mede quantos chamados o motorista consegue finalizar a cada 100 corridas recebidas.
Quem mantém aproveitamento acima de 70% tem acesso a um teto de repasse ao aplicativo. Nesse modelo, o motorista paga taxa apenas até 50 corridas. O que fizer acima disso, não paga mais comissão por corrida.
Segundo Renato, esse sistema foi criado para incentivar o atendimento e reduzir cancelamentos.
R$ 115 por semana mais R$ 0,50 por corrida
O modelo de cobrança do 77Movecar é diferente do adotado por grandes plataformas. Em vez de cobrar um percentual sobre cada corrida, o app trabalha com valor fixo semanal de R$ 115, mais R$ 0,50 por corrida finalizada.
Renato explica que, em cidades pequenas, todos se conhecem e muitos passageiros têm o telefone dos motoristas. Por isso, seria difícil manter um modelo tradicional de comissão, já que parte das corridas poderia migrar para fora do aplicativo.
A taxa baixa por corrida foi pensada justamente para não compensar ao motorista fazer viagens por fora.
“Todo mundo conhece todo mundo, todo mundo tem o telefone de todo mundo. Então optamos por uma cobrança fixa com uma comissão muito barata”, afirma.
O app também começou a abrir o modelo de crédito pré-pago para motoristas novos. Os motoristas mais antigos ainda seguem em outra dinâmica de pagamento, construída ao longo do tempo.
77 Fácil e 77 Negocia
O aplicativo trabalha com duas modalidades dentro da mesma plataforma. A categoria comum é chamada de 77 Fácil. Além dela, existe o 77 Negocia, inspirado em modelos de negociação de preço entre passageiro e motorista.
O 77 Negocia surgiu para resolver um problema específico da cidade: corridas para locais com pouca internet, sem chamada de volta e com baixa atratividade para motoristas.
Renato cita o caso de um povoado próximo. Como o motorista não tinha garantia de retorno, muitas vezes não queria aceitar a corrida pelo valor tradicional. No modelo de negociação, o passageiro pode oferecer um valor maior e aumentar as chances de conseguir atendimento.
Corridas pequenas e sem categoria premium
Por enquanto, o 77Movecar não trabalha com categorias premium, como Black ou Comfort. Segundo Renato, Cláudio é uma cidade pequena, com corridas curtas, e não há demanda suficiente para esse tipo de serviço.
A operação se concentra na categoria comum, com foco em disponibilidade, atendimento e preço adequado para a realidade local.
Corrida mínima cobre até 4 km
A corrida mínima do 77Movecar cobre até 4 km. Após esse limite, o valor para o motorista fica em torno de R$ 2,20 a R$ 2,30 por quilômetro/minuto.
A plataforma também trabalha com dinâmica de alta demanda e dinâmica por horário. Os valores sobem principalmente à noite, de madrugada, nos fins de semana e em momentos de maior procura.
Renato afirma que a dinâmica é importante para atrair motoristas em horários menos desejados.
“Chega um momento em que você precisa chamar o motorista também para fazer o atendimento”, explica.
Motoristas faturam em média R$ 2 mil por semana
Segundo Renato, motoristas que trabalham de forma mais fixa no 77Movecar faturam, em média, cerca de R$ 2 mil por semana.
O maior valor registrado por um motorista foi de R$ 16 mil em um mês. O condutor trabalhava tanto que Renato precisou intervir para que ele descansasse.
“Teve um dia que eu tive que mandar ele para casa. Falei: se você não for, eu vou desligar seu perfil até você dormir um pouco”, conta.
Cidade industrial movimenta corridas
Cláudio é uma cidade marcada pela indústria. Segundo Renato, o município é um polo de metalurgia e abriga o maior polo de fundição artesanal da América Latina.
Esse perfil movimenta o aplicativo, já que muitos trabalhadores usam transporte para se deslocar entre casa, fábricas e outras atividades ligadas ao setor.
A cidade também recebe pessoas de fora para trabalhar, o que aumenta a demanda por transporte.
Festa agropecuária aumenta movimento
Uma das épocas mais movimentadas do ano é agosto, quando acontece uma festa agropecuária na cidade. O evento eleva bastante a demanda por corridas.
Apesar disso, o 77Movecar não costuma patrocinar ou participar diretamente do evento. Renato afirma que já tentou, mas percebeu que a demanda sobe naturalmente e que uma participação mais ativa poderia gerar um volume difícil de atender.
“Se eu participo, tenho medo de não conseguir atender a demanda”, afirma.
2023 foi o ano mais difícil
O momento mais desafiador da trajetória foi 2023. Renato conta que viveu dois extremos: primeiro, pouca oferta de motoristas e muita demanda; depois, muita oferta de motoristas e pouca demanda.
A empresa tinha uma política de liberar novos cadastros conforme a demanda crescia. Em determinado momento, havia uma fila de 10 motoristas aguardando ativação. Depois, Renato entendeu que segurar esses cadastros foi um erro, porque parte desses motoristas acabou indo para aplicativos concorrentes que chegaram à cidade.
No fim de 2023, quando a demanda voltou a subir, a plataforma estava com poucos motoristas disponíveis.
“Passei quase metade do ano com a demanda baixa. Quando a demanda aumentou, eu estava sem motorista”, relembra.
A saída foi reforçar o atendimento. Para Renato, o bom atendimento gera demanda, e a demanda, por sua vez, atrai motoristas.
Atendimento como estratégia
Diante das dificuldades, o 77Movecar concentrou esforços na qualidade do atendimento. Renato acredita que, quando a experiência é boa, o passageiro volta a usar o aplicativo.
“O bom atendimento gera demanda. Quando não se tem um atendimento de qualidade, essa demanda tende a diminuir”, afirma.
A busca por bom atendimento também está ligada ao legado que o gestor quer deixar para a marca.
Empreender mudou a visão de mundo
Renato diz que se tornar dono do próprio negócio mudou completamente sua forma de enxergar o mundo.
Para ele, empreender coloca a pessoa como protagonista da história de uma empresa, e não apenas como alguém participando de fora.
“Mudou tudo. Você passa a enxergar situações em que antes estava só participando. Passa a participar como protagonista da história de uma empresa”, afirma.
Plano é virar marca regional
Atualmente, o 77Movecar atua apenas em Cláudio, mas os gestores têm planos de expansão. A ideia é transformar o app em uma marca regional, atendendo parte da região Centro-Oeste de Minas Gerais.
O modelo ainda não está fechado, mas Renato cita a possibilidade de licenciamento ou franquia.
Antes disso, o objetivo é fortalecer a operação em Cláudio e ampliar a base de motoristas.
“Estamos com uma demanda relativamente boa e precisamos crescer aqui para ficar grandes e começar a abranger fora”, afirma.
Plataformas precisam se adaptar ao interior
Na visão de Renato, um dos principais desafios dos aplicativos regionais está na tecnologia. A maioria dos apps de cidades pequenas precisa alugar plataformas prontas, já que manter servidor próprio é caro e complexo.
O problema, segundo ele, é que muitas dessas plataformas são pensadas para grandes centros e não se adaptam às peculiaridades de cidades do interior.
Em Cláudio, por exemplo, há muitas estradas de chão. A plataforma não consegue precificar adequadamente uma corrida nessas condições. O motorista vai, volta com o carro empoeirado e, muitas vezes, o valor recebido mal cobre a lavagem necessária para continuar trabalhando.
Por isso, em alguns casos, a empresa precisa autorizar cobranças adicionais por fora da plataforma.
“O primeiro desafio seria encontrar uma plataforma adaptável às peculiaridades de uma cidade do interior, e não só de grande centro”, afirma.
Legado: confiança no atendimento
O legado que Renato quer deixar com o 77Movecar é o de uma marca associada à confiança e ao bom atendimento.
Quando alguém vê a logo do aplicativo, ele quer que a pessoa saiba que pode pedir uma corrida e que o motorista vai chegar para atender.
“Eu tento criar referência com a logo da 77. A hora que a pessoa olha para a logo, ela sabe que pode pedir uma corrida e que o motorista vai chegar”, afirma.
Para Renato, esse é o principal legado: construir uma plataforma regional reconhecida pela cidade como sinônimo de atendimento confiável.
