Confirmado é um aplicativo de mobilidade que atua no Rio Grande do Sul e nasce do desejo do gestor, Janderson Andrade Viana, de abrir espaço para propostas mais justas, em um cenário onde Uber e 99 dominam. Especialmente para quem vive a rotina da rua, ele sabe, na prática, o peso das taxas e da instabilidade. 

Criado inicialmente em Rio Grande (RS), onde mantém sua base até hoje, o Confirmado se estruturou com uma cobrança mais simples e acessível, atualmente, com taxa fixa por corrida, em vez de porcentagens que variam e reduzem o ganho final do motorista. Com o tempo, o aplicativo também passou a atuar em Santarém (PA), enfrentando os desafios de se manter ativo e competitivo em um setor que exige investimento e demanda constante. 

Nesta entrevista, Janderson conta como foi sua trajetória até criar o app, os obstáculos para sustentar uma plataforma regional e o que ainda o mantém em movimento, mesmo diante das dificuldades.

Janderson, me conta um pouquinho da sua história, sua trajetória antes do app.

Janderson: Eu nasci e cresci aqui em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, perto da praia de Cassino, a maior praia do mundo. Tenho cinco irmãos, um mora no Japão e os outros estão no Brasil, cada um com um emprego normal. Eu não fiz faculdade, minha família é humilde e eu tive que batalhar desde pequeno, não tinha como estudar. Depois acabei virando motoboy.

Comecei a trabalhar com 17 anos, mas isso era meio irregular, sem carteira assinada. No interior era assim, todo mundo trabalhava desse jeito. Hoje já não é mais igual, porque a cidade cresceu e ficou tudo mais restrito. Também fui pra outras cidades: morei em Balneário e trabalhei muitos anos lá. Depois voltei pra minha cidade.

Quando a Uber surgiu no Brasil, eu vendi minha moto e dei de entrada para pegar um carro financiado pra trabalhar. Trabalho com app já tem uns 10 anos.

E de onde veio a ideia de criar um aplicativo próprio?

Janderson: Nós, motoristas, queríamos um aplicativo pra não pagar taxa, a princípio. Eu também sou motorista, sei do que ele precisa e sei que todo motorista de Uber e 99 paga muita porcentagem. 

A ideia era o dinheiro ficar todo com o motorista, pagando uma taxa pequena e contribuir com 2kg de alimento todos os meses para ajudar as ONGs. Como, na época, o pagamento era presencial, eles vinham trazer o dinheiro e traziam o alimento.

Essa arrecadação de alimentos não acontece mais?

Janderson: Quando veio o Pix, mudou tudo, ficou tudo online. Eu ia arrecadar um valor em alimentos para dar continuidade, só que tive que parar, porque, infelizmente, tudo o que o motorista quer é corrida. Ele não quer saber se é bom, se tem vantagem, se é produtivo, ele quer saber se vai ter corrida. Se não tiver corrida, pode ser a melhor oferta do mundo que ele não quer.

A gente estava perdendo muito motorista. Porque, em vez de eu colocar um valor a mais pra divulgar, eu pegava alimentos e ajudava as pessoas. Eu acreditava que só no boca a boca do próprio motorista já ia trazer corrida, e todo mundo ia lucrar. Mas é bem difícil. Aí eu desanimei.

Como é a cobrança atualmente? Por porcentagem?

Não. É um valor fixo por corrida. Antigamente, a Machine era por mensalidade, mas hoje é por corrida. Então eu fiz igual. Só que, claro, se eu cobrasse um valor maior por corrida, ia ficar quase igual Uber e isso desmotiva mais ainda. Então eu optei por um valor menor: R$1 por corrida. Eu tiro o da Machine, alguns gastos, e ainda sobra um pouquinho.

Você investiu sozinho para iniciar a plataforma ou teve alguma ajuda?

Janderson: Eu investi o que eu ganhei trabalhando na Uber. Às vezes não consigo dinheiro para pagar, não tem motorista suficiente, aí eu pago do meu bolso. Trabalho de Uber e vou pagando a plataforma.

Tô nessa luta tentando manter a plataforma, porque não é fácil. Se eu fosse um cara com grana, eu investiria no aplicativo. Mas infelizmente não. Eu sou motorista de aplicativo, estou trabalhando aqui e se eu parar, não pago as contas.

Onde o Confirmado atua hoje?

Janderson: Hoje eu tô em Rio Grande como matriz e Santarém como filial. Rio Grande tem cerca de 250 mil habitantes, é uma cidade média. Santarém já é maior, tem aeroporto, shopping. Eu tô conseguindo manter, mas não cresce muito. Cresce e para, cresce e diminui. Eu vou “joqueando” pra não deixar cair. 

Tenho uma irmã que mora em Santos, a Marizane, e isso faz parte da história porque ela me ajudou a montar o aplicativo lá também, mas não deu certo.

Por que não deu certo em Santos?

Janderson: Foi a mesma coisa, tem muita corrida na Uber e na 99. Elas têm muita demanda. Quando o motorista está levando um passageiro, antes mesmo de deixar ele no destino já toca outra corrida boa. Ele já aceita, porque não vai parar pra esperar tocar corrida de um aplicativo novo. E, se ele cancelar pra pegar do app novo, perde a taxa de aceitação e o salário no final do mês diminui. Então é muito difícil um aplicativo local se desenvolver por causa dessa dinâmica da Uber.

Você começou em Rio Grande e em Santos ao mesmo tempo?

Janderson: Comecei em Rio Grande primeiro. Em Santos eu comecei, mas como não tinha muita corrida eu não consegui dar conta. Era por mensalidade: vinha boleto e ninguém pagava, porque não tinha corrida no meu aplicativo. Tive que parar e continuar só aqui em Rio Grande.

Depois eu recebi uma oferta de um motorista, pelas minhas redes sociais, lá em Santarém, no Pará. Ele quis montar do nada e me ajudou bastante, motivou os motoristas. Aí começou a crescer muito, bombou, foi lá em cima. Só que hoje tem mais de 10 aplicativos lá, com investidor, propaganda e mais recursos. Encheu de corrida e os motoristas saíram do Confirmado.

Como foi a captação dos primeiros motoristas e passageiros?

Janderson: No início era cartãozinho e combinamos entre nós que toda corrida que fizéssemos na Uber, tinha que anunciar o Confirmado para os passageiros. Poucos faziam, mas dava bom resultado.

Hoje é menos, porque muita gente desanima. Mas sempre entra gente nova. Tem muito desemprego, então sempre aparece alguém. 

Já tinha Uber, 99 ou outros aplicativos de mobilidade quando você iniciou em Rio Grande? 

Janderson: Tinha. Aqui em Rio Grande tinha uns 10, 12 aplicativos, inclusive Uber e 99. Mas muitos quebraram. Isso não é legal, porque ninguém quer o mal dos outros, mas eu vejo o quanto é difícil e o quanto eu consegui chegar longe sem dinheiro, sem estudo, sem nada. 

Quantos motoristas têm ativos hoje?

Janderson: Eu tenho 400, 600 e poucos cadastrados. Ativos mesmo, 600 e pouco. Mas com crédito, rodando sempre, uns 200.

E passageiros?

Janderson: Mais de 30 mil já baixaram, mas que usam mesmo, uns 5 mil.

Quantas corridas estão fazendo por mês?

Janderson: Uma média de 80 a 100 por dia. É pouco para 200, 300 motoristas, mas tem gente que não faz corrida. Teria que ter muita propaganda, porque a gente nunca sabe onde vai tocar. Às vezes toca pro motorista, mas ele tá com passageiro ou tá longe e não dá pra aceitar. Aí o passageiro acaba chamando outro.

Qual o valor mínimo hoje para o passageiro?

Janderson: Eu aumentei agora. Era R$7,66, mas botei R$8 pra ver se animava. E pro motorista o valor fixo eu mudei esse mês para R$1,10.

Como é feita a remuneração dos motoristas? E quanto eles faturam em média?

Janderson: Pra rodar no Confirmado, ele coloca um “crédito” de pelo menos R$10 para começar. Se não fizer corrida o dinheiro tá ali, e se quiser sair ele pede os R$10 de volta e eu devolvo. Sobre faturamento, é muito pouco, porque é cento e poucas corridas por dia e tem 600 motoristas, 300 com crédito… então é pouco. Mas já fui até processado por essa questão de ganho do motorista.

Por que? O que aconteceu?

Janderson: No início, tinha gente feliz e postava no grupo para chamar atenção. Mas isso virou problema. Teve briga porque achavam que os mais amigos ganhavam mais corrida. Fui processado injustamente. Achavam que eu privilegiava alguém. 

Eu tirava foto com motorista para motivar e isso se virou contra mim. Um deles me colocou na Justiça, mas a juíza viu que eu sou justo e que é por satélite: não tem como eu dar corrida pra um e pra outro. Se desse, eu estaria bombando, eu só daria corrida pra quem finaliza, não pra quem cancela. Mas isso não existe, é automático. 

Só que um processo puxou outro. Trocaram o juiz. Agora o novo quer saber por que eu não assino a carteira de todo mundo. E não tem como: motorista é independente. Mas eu gasto com advogado, contador, juntar cadastro e mandar pra Justiça, é muito incômodo. Foi um dos motivos de eu parar com a ideia de arrecadar alimentos, porque eu precisava ter dinheiro pra essas coisas. 

Qual foi o momento mais desafiador do app até aqui?

Janderson: A pandemia. Não tinha corrida em nenhum aplicativo. E, na época, era por mensalidade. O motorista não fazia corrida e, mesmo assim, tinha que pagar. Eu cobrava baratinho, R$25 por mês, mas sempre tem choro. No mês seguinte, aquilo já virava R$50 aí o cara voltava pra Uber. Ficaram só os de fé.

E qual foi o momento que você percebeu que estava dando certo?

Janderson: Foi uma época em que bombou lá em Santarém. A produção era boa, rentável. Isso me deu motivação. Tudo é esperança e fé: se eu vi que dava retorno, eu posso me reerguer e voltar maior.

Meu maior orgulho é ter chegado até aqui sem nada. Os aplicativos que quebraram aqui eram de profissionais, administrador formado, com sala comercial, posto de gasolina, lavagem grátis, máscara na pandemia e tudo. Mas eu cobrava e sempre falei: “quer aplicativo bom e lucrativo, tem que divulgar e todo mundo se ajudar”. Eu fazia rateio: adesivo, R$5 para cada um,  manda Pix, eu compro e distribuo. Sempre consegui fazer.

Como você acredita que os aplicativos regionais podem conquistar mais espaço e crescer no mercado da mobilidade?

Janderson: Para um app novo ter sucesso rápido, tem que ser muito famoso, ter muita mídia e investir pesado com tráfego pago lá em cima, profissional bom para fazer corrida rodar. Aí o motorista consegue se desvincular da Uber. Esse é o sucesso do negócio.

Tem a cidade de Pelotas aqui perto, uma cidade grande: cerca de 400 mil habitantes e mais de 9 mil motoristas. Aqui são uns 3 mil motoristas. Se eu colocar o aplicativo lá, explode, mas precisa de grana porque Uber e 99 não param de tocar.

Quais são os planos para os próximos meses?

Janderson: Então, eu tenho uma ideia de fazer empréstimo, é uma carta na manga, mas ainda tenho medo. No tempo certo acredito que vai funcionar.

Tenho a ideia de um dia ir pra outra cidade e fazer tudo de novo, só que melhor. Nessa caminhada a gente aprende: erra e aprende. Quem sabe eu faça melhor e avance mais rápido, e com essa cidade eu consiga sustentar as outras. Por isso eu digo: alguma coisa vai acontecer, eu sempre acredito.