Criado por Pedro Henrique Bartileotti, o Busca Brasil nasceu em Teófilo Otoni (MG), cidade natal do fundador, a partir da experiência do próprio gestor como motorista de aplicativo regional. Antes de empreender no setor de mobilidade, Pedro trabalhou em diferentes áreas, teve bar, atuou na captação de alunos de uma faculdade e já havia passado por outros negócios, mas foi após a pandemia, quando perdeu o emprego e o bar, que decidiu criar a própria plataforma.
O aplicativo começou com pouco recurso. Pedro afirma que tinha cerca de R$ 1 mil no bolso, um carro alugado para trabalhar e a dívida da plataforma que havia contratado para colocar o app no ar. Mesmo assim, decidiu seguir com a ideia porque enxergava falhas nos aplicativos existentes, especialmente na cobrança de taxas e na falta de suporte aos motoristas.
Hoje, o Busca Brasil está presente, além da cidade natal, em cinco municípios do extremo sul da Bahia, incluindo Teixeira de Freitas, Itamaraju, Eunápolis, Medeiros Neto, Porto Seguro e Arraial d’Ajuda. A expansão foi um pedido dos motoristas da região.
A plataforma realiza em média 60 mil corridas por mês, tem cerca de 4.757 motoristas cadastrados ao longo da operação e aproximadamente 1 mil motoristas ativos por dia.
A empresa cobra taxa por corrida, com percentuais que variam conforme a cidade, normalmente dentro da casa de até 15%. Em algumas praças, a taxa é de 10%; em outras, 13%. A corrida mínima também muda por região, indo de R$ 8,40 em Teixeira de Freitas, onde o app disputa espaço com a 99, até R$ 15,90 em Itamaraju.
“Eu vejo que o motorista trata mal o passageiro por falta de remuneração. Então a gente tenta colocar um preço que não seja pesado para o passageiro, mas que faça o motorista atender feliz”, afirma Pedro.
De vendedor de chip a empreendedor
Pedro conta que não veio de uma família rica e começou a trabalhar cedo. Aos 14 anos, ainda com o pai vivo, já ajudava no comércio da família. Aos 18, passou a vender chips da Oi em praça pública, na época do lançamento do Oi Controle.
Depois, trabalhou como instalador de antenas da SKY, em um período em que a TV por assinatura ainda era muito forte e o acesso à internet não era tão amplo quanto hoje. Também chegou a cursar Direito, influenciado por uma família ligada à área jurídica, mas percebeu que seu foco estava mais no empreendedorismo do que nos estudos formais.
“Meu forte sempre foi empreender. Eu queria montar alguma coisa para mim”, afirma.
O primeiro empreendimento foi uma locadora de CDs que comprou e transformou em uma loja de importados, capinhas de celular e utilidades. Mais tarde, abriu um bar, que funcionava à noite, enquanto trabalhava durante o dia na área de captação de alunos de uma faculdade.
A rotina era pesada: começava às 8h e muitas vezes só terminava às 2h ou 3h da manhã.
Pandemia, carro alugado e a ideia do aplicativo
A virada para a mobilidade aconteceu após a pandemia. Pedro perdeu o bar, perdeu o emprego e passou a alugar um carro para trabalhar como motorista em um aplicativo regional da cidade.
Foi nesse período que começou a enxergar problemas no modelo existente. Segundo ele, as taxas cobradas dos motoristas eram altas, o suporte era distante e faltava proximidade com quem estava na rua.
“O motorista não tinha um suporte legal, não tinha proximidade com a plataforma”, diz.
Ele cita situações simples, como uma passageira esquecer uma bolsa no carro. Em vez de ter apoio da plataforma para resolver, o motorista precisava lidar sozinho com o problema. No Busca Brasil, Pedro afirma que decidiu fazer o oposto: criar uma estrutura próxima para motoristas e passageiros.
Hoje, quando alguém esquece um item dentro de um carro, a equipe trata o caso como emergência. O atendimento responde na hora e pede o prazo de uma hora para resolver a devolução, não apenas para dar retorno.
Começo com R$ 1 mil no bolso
O Busca Brasil nasceu com poucos recursos. Pedro afirma que, no início, tinha apenas R$ 1 mil no bolso e ainda precisava pagar a plataforma contratada. Somando abertura de CNPJ, logomarca, divulgação e tecnologia, ele estima que o investimento inicial tenha ficado em torno de R$ 10 mil, sendo cerca de R$ 5 mil para estrutura inicial e outros R$ 5 mil para a plataforma, pagos de forma parcelada.
Para conseguir colocar o negócio de pé, contou com ajuda de amigos, permutas e divulgação orgânica. Pedia para conhecidos postarem nas redes sociais, negociava propaganda com blogueiros locais em troca de corrida e fazia panfletagem.
“Eu trabalhava de domingo a domingo. O dinheiro das corridas que eu fazia, eu colocava no aplicativo de volta”, relembra.
O aplicativo começou a se pagar em cerca de três a quatro meses.
Seis pessoas na equipe
Pedro é o único proprietário do Busca Brasil, mas conta com uma equipe de seis pessoas. A estrutura inclui área financeira, aprovação de cadastro, captação de clientes na rua e central de atendimento para passageiros e motoristas.
Segundo ele, a existência de uma pessoa dedicada a resolver problemas de clientes e motoristas é uma das diferenças da plataforma.
“Se o nosso cliente ou motorista tem algum problema, nós temos uma pessoa ali parada só para resolver”, diz.
A irmã de Pedro também trabalha na empresa, no período da manhã, enquanto estuda à tarde. Ele cita ainda a esposa, Nayara, como uma das pessoas fundamentais para a sobrevivência do negócio, ao lado da mãe e da irmã.
“Nos momentos difíceis, quem estava comigo foram elas”, afirma.
Rotina sem dia de descanso
A rotina de gestão é intensa. Pedro brinca que trabalha “oito por oito, faltando um dia”.
Ele afirma que escolheu ter proximidade com os motoristas, e isso faz com que seja procurado o tempo todo. Para ele, quem quer empreender com aplicativo precisa ter aquilo como atividade principal.
“Não tem como montar um aplicativo e vender pizza. A pessoa não vai conseguir dar atenção a motorista e cliente”, afirma.
Apesar do cansaço, ele diz que agradece pela rotina, porque um dia pediu por aquilo.
“É cansativo, é estressante, mas eu agradeço muito a Deus, porque um dia eu pedi por isso”, diz.
Benefícios para motoristas e passageiros
Uma das frentes do Busca Brasil é a busca por parcerias locais. Pedro afirma que dedica muito tempo a conseguir benefícios para motoristas e passageiros.
Entre os exemplos, cita farmácias parceiras que oferecem descontos a partir de 35% em medicamentos. Também há oficinas parceiras para troca de pneus, alinhamento, balanceamento e manutenção, além de postos de combustível.
Esses benefícios são oferecidos tanto para motoristas quanto para passageiros, reforçando a ideia de que o aplicativo precisa contribuir para a economia local e gerar valor para a comunidade.
4,7 mil motoristas cadastrados e 1 mil ativos por dia
Ao longo da operação, 4.757 motoristas já fizeram cadastro no Busca Brasil. Atualmente, a plataforma tem cerca de 1 mil motoristas ativos por dia.
O número expressivo acompanha o crescimento territorial da marca. O app saiu da cidade onde nasceu e passou a operar em diferentes municípios do extremo sul baiano.
Hoje, segundo Pedro, o Busca Brasil realiza em média 60 mil corridas por mês e tem cerca de 100 mil clientes com download do aplicativo.
Presença no extremo sul da Bahia
O Busca Brasil está presente em cinco municípios do extremo sul da Bahia. A sede operacional começou em Teófilo Otoni, mas a marca também atua em cidades como Itamaraju, Eunápolis, Medeiros Neto, Porto Seguro e Arraial d’Ajuda.
A expansão ocorreu a partir de demandas de motoristas e de pedidos de outras cidades. Pedro afirma que a ida para novos municípios foi o momento em que percebeu que o aplicativo estava dando certo.
“Quando comecei a expandir a marca para outros municípios, foi quando eu percebi”, afirma.
Segundo ele, motoristas procuravam a empresa pedindo que o Busca Brasil chegasse a suas cidades. A decisão exigiu cautela, mas foi viabilizada pela mudança de tecnologia.
Taxa varia por cidade
O Busca Brasil cobra taxa por corrida, mas o percentual varia conforme a região. Em cidades onde a operação está começando ou onde a concorrência é mais forte, a taxa pode ser de 10%. Em outras praças, chega a 13%, sempre dentro de uma média de até 15%.
Pedro afirma que a precificação é definida levando em conta a concorrência, mas também a conversa com motoristas. A empresa realiza reuniões periódicas para entender a necessidade dos condutores e ajustar os valores conforme a realidade local.
“A gente faz nossa precificação com base nas conversas com os motoristas. Claro, não esquecendo da concorrência, mas sempre tentando estar do lado do motorista”, afirma.
Corrida mínima de R$ 8,40 a R$ 15,90
A corrida mínima também muda conforme a cidade. Em Teixeira de Freitas, onde o Busca Brasil disputa com a 99, a mínima começa em R$ 8,40. Em Itamaraju, chega a R$ 15,90.
Em geral, a mínima cobre até 2 km.
Pedro afirma que a diferença de valores se explica pela necessidade de competir em algumas praças sem desvalorizar o trabalho do motorista. Para ele, o preço precisa ser acessível ao passageiro, mas não pode fazer o condutor trabalhar insatisfeito.
“Se a corrida deu R$ 8, você pagaria R$ 10 para ser melhor atendida? Eu penso dessa forma”, diz.
Quilômetro médio em torno de R$ 3
Segundo Pedro, a média do quilômetro rodado para o motorista fica em torno de R$ 3. Em algumas corridas, pode passar de R$ 3,20, dependendo da cidade e da tarifa aplicada.
Para ele, esse valor é importante porque ajuda a manter um atendimento melhor. O gestor acredita que parte dos problemas de mau atendimento no setor vem justamente da baixa remuneração.
“Não adianta ter muita corrida e o cara ganhar mixaria. A precificação ajuda a chegar nos resultados”, afirma.
Crédito pré-pago e repasse diário
O Busca Brasil trabalha com sistema de crédito pré-pago para motoristas. A taxa da plataforma é abatida conforme as corridas são realizadas.
Um diferencial citado por Pedro é o repasse diário dos valores de cartão de crédito via aplicativo. Segundo ele, algumas empresas fazem esse repasse apenas uma vez por semana. No Busca Brasil, se o motorista precisa sacar o dinheiro, a transferência pode ser feita todos os dias.
“Nosso motorista faz o pré-pago, mas, se precisar sacar aquele dinheiro, a gente faz a transferência diária”, afirma.
Motoristas faturam em média R$ 5 mil a R$ 5,5 mil
Pedro afirma que o faturamento dos motoristas varia muito conforme dedicação, cidade e horário de trabalho. Um motorista que trabalha todos os dias pode faturar em média de R$ 5 mil a R$ 5,5 mil por mês na plataforma.
Há também motoristas que rodam apenas nos fins de semana e conseguem bons resultados. Segundo ele, um condutor que trabalha só aos fins de semana pode fazer R$ 1 mil no período, com dias de R$ 600 a R$ 700.
O recorde lembrado por Pedro foi de um motorista que faturou R$ 12 mil em um mês, durante período de festas.
Franquias para expandir a marca
O Busca Brasil iniciou recentemente um plano de expansão por franquias. A ideia é permitir que pessoas empreendam com a marca em suas próprias cidades, pagando um valor próximo ao que gastariam para criar um aplicativo do zero, mas recebendo tecnologia, suporte e mentoria.
Pedro afirma que muitas cidades pedem a chegada do Busca Brasil, mas a operação centralizada dificulta manter a qualidade do atendimento. Com franquias, cada cidade teria um gestor local.
“Chegou um momento em que eu não consigo dar conta de atender todos os municípios que chamam”, afirma.
A proposta é oferecer não apenas a marca, mas também o conhecimento acumulado em seis anos: como lidar com motoristas, passageiros, propaganda, precificação e operação.
“Eu demorei seis anos para ter retorno. Hoje, com o conhecimento que adquiri, quero ajudar a pessoa a ganhar dinheiro com menos sacrifício”, diz.
Busca Food e plano de superapp regional
Junto com o modelo de franquias, o Busca Brasil prepara o lançamento do Busca Food. A ideia é transformar a plataforma em um superapp regional.
Dentro do aplicativo, o usuário poderá acessar transporte de carro, moto, entregas e delivery. O Busca Food deve reunir farmácias, restaurantes, conveniências e serviços como pedreiro, carpinteiro, faxineira e agendamento de corte de cabelo.
Segundo Pedro, a ideia é “digitalizar toda a cidade”.
“Quem vier trabalhar com a gente não vai ter só transporte por aplicativo. Vai ter delivery, restaurantes, farmácias, conveniências e serviços dentro do Busca Brasil”, afirma.
Segurança como preocupação central
Pedro afirma que vê com preocupação o futuro dos aplicativos regionais por causa da quantidade de novas plataformas surgindo. Para ele, qualquer pessoa hoje consegue montar um aplicativo, mas nem todas têm conhecimento ou responsabilidade para transportar vidas.
O Busca Brasil exige que motoristas tenham seguro. Segundo ele, ninguém entra em um carro do Busca Brasil sem estar assegurado.
“Você está carregando vidas. Meu medo é o serviço por aplicativo se tornar banal e inseguro”, afirma.
Ele cita casos de aplicativos que começam sem estrutura, têm acidentes com motos e deixam passageiros desamparados. Para Pedro, a falta de critérios pode prejudicar a imagem do setor como um todo.
Regulamentação municipal é essencial
Na visão de Pedro, o fortalecimento dos aplicativos regionais passa pelo poder público municipal. Ele defende que as prefeituras regulamentem o setor e exijam que as plataformas contribuam com a economia local.
Para ele, grandes empresas chegam às cidades, faturam muito e não deixam retorno proporcional para o município. Já os aplicativos regionais podem gerar emprego, renda, parcerias e benefícios locais.
“Os municípios precisam olhar para a economia local. Grandes plataformas vêm, ganham muito dinheiro e não contribuem nada com a economia local”, afirma.
Pedro diz que uma das principais estratégias do Busca Brasil é trabalhar junto às prefeituras, o que tem feito diferença para a operação.
O amadurecimento de Pedro
Ao falar sobre a mudança pessoal depois de empreender em mobilidade, Pedro cita o amadurecimento. Hoje, aos 33 anos, ele afirma que lidar com muitas pessoas, pensamentos diferentes, realidades distintas e ideologias variadas o fez crescer.
“Em termos pessoais, amadureci muito. Ainda continuo aprendendo”, afirma.
Segundo ele, empreender exige fazer as coisas com mais calma, ter paciência e entender que o crescimento não acontece da noite para o dia.
A palavra que resume seu aprendizado é perseverança.
“Empreender sem dinheiro é pior ainda. Se a gente não tiver perseverança para continuar e acreditar que o projeto vai dar certo, não vai”, afirma.
Orgulho da própria trajetória e legado
Pedro diz que o maior orgulho é olhar para trás e ver de onde saiu e o que se tornou.
“Eu lutei muito, corri muito atrás, tomei muita porrada. Eu me orgulho do Pedro que se tornou hoje”, afirma.
O legado que Pedro quer deixar é o de ajudar. Ele afirma que viu pessoas chegarem ao Busca Brasil em situação financeira difícil e conseguirem melhorar de vida por meio do trabalho no aplicativo.
Para ele, o objetivo é fazer com que o motorista seja valorizado também no âmbito público. Pedro acredita que as prefeituras precisam enxergar os microempreendedores e donos de plataformas regionais como canais para ajudar trabalhadores locais.
“Meu legado é fazer com que o trabalho do motorista de aplicativo seja valorizado”, afirma.
Segundo ele, ver as corridas acontecendo, o motorista voltando para casa com dinheiro e a plataforma gerando renda é o que dá sentido ao negócio.
“Quando vejo que o cara fez a grana dele, eu fico satisfeito. Meu legado é ajudar”, conclui.
