Embora seja uma cidade interiorana, Taubaté guarda histórias conhecidas por todo o país. Além das narrativas de Monteiro Lobato, que nasceu lá, motivo pelo qual hoje o município é Capital da Literatura Infantil, a região é lar do meme da grávida, de parte do Vale do Paraíba e de um trecho da Via Dutra, importante estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro.
Com a urbanização, o município cresceu, e, entre vias públicas e casas, como relata a moradora e motorista de aplicativo Rita Oliveira, de 56 anos, foi aberto um grande espaço para o transporte por aplicativo se inserir na rotina dos habitantes.
A vida em movimento dos motoristas de aplicativo da cidade
O trabalho nos aplicativos em Taubaté reúne perfis variados e histórias de reinvenção. Em comum, todos compartilham a experiência de adaptação a um mercado instável. Rodrigo Melo, de 48 anos, que é motorista na categoria há cerca de sete anos, descreve a transição pela qual passou: “A gente entra achando que vai ser um bico, mas acaba virando o sustento da família. Eu trabalho praticamente todos os dias, sem folga fixa”.
Já Elizabeth Victória, 29 anos, a Elizza Driver que, hoje, cria conteúdo nas redes sociais, começou a dirigir pelos aplicativos em 2019. Antes disso, trabalhava como representante comercial e relata que sempre esteve no trânsito, “de um lado para o outro”. Quando ficou desempregada, viu no aplicativo uma saída. “Fiz meu cadastro, aluguei um carro e comecei.”
Para ela, a nova atividade significou mais do que um trabalho: “O aplicativo me ajudou não só financeiramente, mas também emocionalmente, porque eu estava entrando em depressão depois de sair do meu último trabalho”.
Enquanto isso, Rita Oliveira está no volante pelos aplicativos há seis anos e meio. Depois de se separar e ter que fechar o comércio que tinha com o ex-marido, além de dificuldades de saúde para trabalhar no salão de cabelereiro do qual era dona, encontrou no trabalho por plataformas uma forma de recomeço. “O aplicativo salvou minha vida. Eu gosto de dirigir, gosto de conversar. É cansativo, mas me sinto útil”, declara, mostrando uma satisfação emocional assim como Elizza.
Para além das experiências de cada um deles, Elizza ainda destaca outro benefício que observa com o movimento crescente do transporte por aplicativo em Taubaté. “Um dia, eu fui na casa de uma amiga tomar um café e tinha muita motorista mulher lá também. Eu fiquei muito feliz, porque a mulherada está crescendo”, narra. E defende: “Para a mulher, ter sua independência financeira é muito importante”.
Nem tudo são flores: as dificuldades de quem dirige em Taubaté
Por quatro anos, Elizza rodou com jornadas longas nas ruas da cidade, mas o aluguel do carro, ainda assim, era pesado: começou pagando cerca de R$ 360 por semana, valor que chegou a R$ 700 depois de um tempo. Para conseguir pagar os custos e ainda garantir lucro, era preciso rodar cada vez mais. “As corridas em Taubaté pagam muito mal. Para valer a pena, a gente tinha que rodar 10, 11 horas por dia; muitas vezes, mais de 40 corridas em um só turno. Era muito desgastante”, recorda.
A rotina de Rita também é puxada: “Saio de casa às 6h e só volto entre 20h e 21h. Muitas vezes, passo 12 horas no aplicativo”. Ela diz que as grandes plataformas, principalmente a 99, única em que roda hoje, oferecem incentivos, mas critica a falta de reconhecimento. “Os aplicativos não valorizam o motorista. A gente rala, fica no sol de 30º C, e o repasse não cobre o desgaste do carro”, reclama.
Ela faz referência a um momento em especial, em que não houve valorização: “Já faz uns três anos. Por causa da câmera do celular, que estava com a imagem ruim, a Uber me bloqueou”. Rita explica que não sabia do prazo de 90 dias que deram para que ela resolvesse a situação da fotografia. “Só soube quando fui bloqueada. Tentei contato, mandei e-mails, expliquei que estava com problema na câmera, mas não teve jeito: fui bloqueada definitivamente”, narra. A motorista reflete que rodar só pela concorrente acabou não trazendo prejuízo. “A 99 me atende bem, com premiações e tudo.”
Rodrigo compartilha da mesma visão. Ele começa o dia às 5h e chega a trabalhar até 14 horas seguidas, dependendo da ocasião: “Eu preciso tirar de R$ 300 a R$ 400 por dia. Mas se você não colocar na ponta do lápis, vai acabar pagando para trabalhar”. Nesse sentido, o motorista cita os valores baixos de algumas chamadas. “Tem corrida que toca por R$ 8, e fica R$ 0,66 para você.” Rodrigo fala também da instabilidade de ganhos: “Tem dia que dá para fazer R$ 400, mas no dia seguinte mal chega a R$ 200. Não existe previsibilidade, a gente depende totalmente do movimento”.
Outra questão que Elizza aponta é o impacto direto na saúde de quando trabalhava exaustivamente na cidade. “Passaram três anos e, quando eu vi, não estava vivendo, só fazendo dinheiro para pagar minhas contas”, recorda. E lamenta: “Você trabalha muito, se alimenta mal, sente dores no corpo, não vê a família. É insustentável”. Ela conta que muitos motoristas abrem mão de seguros, manutenção preventiva e até da contribuição ao INSS. “Quando o carro quebra, muitos fazem rifas em grupos de WhatsApp pedindo ajuda. Isso mostra como falta organização e apoio. A maioria vive no limite.”
Também, a criadora de conteúdo observa que, nos últimos anos, aumentou o número de motoristas na cidade, inclusive de mulheres, o que ela considera positivo: “Fiquei feliz quando vi várias motoristas mulheres em Taubaté. Isso dá mais segurança para as passageiras, principalmente à noite”. No entanto, ela reconhece que a entrada massiva de novos condutores acaba pressionando o mercado, o que reduz a demanda para cada um.
No centro desse debate está a relação com os aplicativos. “O combustível sobe, o carro fica mais caro, o aluguel aumenta, mas a corrida mínima quase não muda. O aplicativo tira a parte dele, mas não entende o que a gente precisa para sobreviver. Está se tornando insalubre”, critica Elizza. Ela também aponta a falta de união da categoria: “Cada um pensa em si. Sem organização, não temos força para pressionar os aplicativos”.
Rodrigo concorda sobre a necessidade do INSS que Elizza mencionou, mas classifica que isso deve ser um dever da plataforma. “O problema é que deveria haver um valor mínimo justo e o desconto do INSS dentro do aplicativo, para que a gente pudesse ter direito à aposentadoria”, avalia. Rita concorda: “Comecei a pagar o INSS por conta própria porque a gente não tem garantia nenhuma. Se acontecer alguma coisa, quem vai te socorrer? E quando a gente envelhece, a saúde pesa, né?”.
Preferência dos passageiros: a visão dos moradores
Se, por um lado, motoristas encaram desgaste e incerteza, do outro, passageiros encontram nos aplicativos a resposta para necessidades urgentes. Em uma cidade onde a malha de ônibus não cobre todas as regiões, os horários são pouco confiáveis e a infraestrutura viária apresenta falhas, segundo descrevem os moradores, o transporte por aplicativo se tornou garantia.
“O ônibus é ruim e, para certos percursos, o preço da Uber sai mais barato que pagar duas passagens”, conta o empreendedor Beny Robert de Bastos Soares, de 56 anos. Ele reforça que, embora tenha um veículo pessoal, dá preferência às plataformas, em especial, à 99, por causa dos valores que considera mais baixos: “Normalmente é meu carro mesmo, mas quando há necessidade, eu uso carro de aplicativo. O ônibus, aqui, não utilizo”.
O empreendedor explica que um dos benefícios que enxerga nesse meio de transporte é a praticidade. “Para mim, é mais prático pegar um aplicativo que já vai me trazer direto no endereço onde eu quero”. Além do conforto, o preço também pesa na escolha. Para Beny, os aplicativos não se diferenciam apenas dos ônibus: “A principal vantagem é a agilidade em relação ao ônibus e o preço, em relação ao táxi”.
Outro morador, o metalúrgico, hoje aposentado, Adilson Rodrigues, 62 anos, expõe que sua rotina no centro da cidade também o faz optar pelo aplicativo. “Eu tenho preferência pelo aplicativo, acho melhor por causa do conforto e rapidez. Ônibus, eu nem lembro a última vez que peguei”, afirma. Além disso, ele encontra insegurança nos ônibus em alguns momentos do dia: “À noite, não me arrisco a esperar ônibus em ponto escuro. O aplicativo me dá mais tranquilidade, mesmo que custe um pouco mais”.
Ele, porém, critica a queda na qualidade do serviço com o tempo: “Quando a Uber começou, era uma maravilha. Hoje, a gente pega carro sujo, sem tanto cuidado”. O morador diz que a limpeza é a principal queixa ao serviço oferecido. “O que eu queria era só isso: que voltasse a ter carro limpo. Balinha e água, entendemos que estão mais caros hoje”, reflete.
Apesar disso, Adilson segue escolhendo pela Uber em vez da 99, pois acha a tela do aplicativo amarelo mais complicada. E, para ele, os carros dos motoristas que dirigem pela Uber são melhores: “Eu não sei por que, mas os carros são mais velhos na 99”.
A experiência também recebe críticas porque varia conforme a hora, segundo Beny. “Os horários mais complicados são os de final de tarde. Já cheguei a esperar 30, 40 minutos por um carro”, relata. Apesar disso, ele afirma que os cancelamentos são raros: “De cada 10 pedidos, tive um cancelamento”.
Adilson destaca como vantagem dos aplicativos a possibilidade de solicitar uma viagem para alguém que não está com a pessoa, mas que está em contato pelo celular, por exemplo. “Às vezes, peço um carro para minha filha ou para alguém da família, quando precisa sair e eu não posso levar”, conta. Ele também fala da função de entrega nos aplicativos: “Uma coisa que eu acho muito bacana é esse negócio de entrega, sabe? Se você quiser entregar alguma coisa para alguém, o motorista pega a mercadoria de você e leva para a pessoa”.
Por outro lado, o metalúrgico chama a atenção para o impacto financeiro do uso dos aplicativos no orçamento das famílias. “Tem um rapaz que trabalha aqui na portaria do prédio, ele fala assim: ‘Ah, eu só não pego o Uber porque sai mais caro pra mim. O ônibus fica mais em conta’. Mas ele chega muito tarde na casa dele’”, lembra. O morador entende o dilema: “Ele daria a preferência para o aplicativo, né? Mas é um grande custo para ele. Ainda mais no horário que está saindo daqui, é o horário de pico, então, dobra o valor”.
Apesar disso, Adilson julga que o serviço continua atendendo bem a quem utiliza. “O aplicativo aqui funciona bem. Por mais que tenha esse atraso que a gente fala, dá uma canseira, mas funciona bem”, afirma.
Quando a segurança envolve mais do que acidentes de trânsito
A segurança aparece como preocupação constante não só para os passageiros, mas também para os motoristas. Os acidentes são citados, mas também a insegurança em não saberem quem estão transportando e a que é relativa a momentos de vulnerabilidade, como a pandemia.
Rodrigo recorda um caso trágico que não aconteceu enquanto dirigia, porém, que afeta sua postura no trânsito. “Minha prima faleceu em um acidente de aplicativo. A Uber indenizou a mãe dela em R$ 100 mil, mas isso não paga a vida”. Ele defende: “Se houvesse mais controle e fiscalização, talvez não tivesse acontecido”.
Ele também relata uma situação de risco pela qual passou. “Já tive passageira que tirou a máscara dentro do carro na pandemia. Pedi que ela botasse de volta, ela não quis, então, pedi que ela descesse. Depois, ela me acusou de agressão no aplicativo”, narra. Rodrigo conseguiu ser inocentado da situação, pois tinha provas: “Se não fosse a câmera de bordo, eu teria sido penalizado injustamente”. Para ele, a solução é a obrigatoriedade de todo carro ser equipado com câmera. “Isso ajudaria motoristas e passageiros.”
Rita, por sua vez, destaca que muitos colegas discriminam passageiros por bairro ou aparência, algo que ela considera injusto. “Eu trato todo mundo igual. Meu trabalho é levar a pessoa ao destino.” Apesar do cuidado que ela tem com os passageiros, ela entende que os aplicativos não têm o mesmo zelo com os condutores: “Seria bom um novo aplicativo que olhasse mais para o motorista, porque os atuais olham muito para o passageiro. Qualquer reclamação, você perde nota, leva punição”. Além disso, ela enfatiza que os repasses são insuficientes para o serviço oferecido, e que as plataformas não ouvem os motoristas. “E as corridas baratas? Tinha que ter um valor mínimo decente, porque a gente gasta muito com carro, combustível, manutenção… Um novo aplicativo teria que ter também suporte melhor para o motorista, um canal real de escuta”, argumenta.
A motorista, assim como Rodrigo, levanta o ponto da insegurança no trabalho. “Também, um aplicativo que oferecesse mais segurança, porque segurança é tudo.” Rita compartilha dicas para os demais trabalhadores da categoria: “Eu sempre falo para os colegas: ‘Não tire nunca do aplicativo. Não faça fora, porque, se acontecer alguma coisa, você está seguro. Se a polícia te parar e o passageiro estiver com algo ilícito, você está resguardado'”. Ela explica que essa postura é preventiva. “Se for uma viagem por fora do aplicativo, é problema. Dentro do carro a gente tem que ter certos cuidados. Mesmo assim, eu pego todo tipo de pessoa, todo tipo de bairro, não discrimino ninguém”, defende.
Elizza, que apontou o crescimento das mulheres trabalhando no setor, se preocupa ainda com outra questão: “Meu maior medo é a mulher entrar para trabalhar no aplicativo e sofrer alguma coisa”. Ela esclarece que, por considerar essencial a independência financeira delas, gostaria de que as condições de trabalho oferecessem segurança. “Eu nunca sofri nada, nem assalto, nem abuso, graças a Deus. E eu rezo muito para todas as minhas colegas mulheres, para que elas entrem no aplicativo e tenham uma experiência boa. Se elas trabalham num ambiente que estão inseguras, é horrível”, ilustra.
Entre a demanda e a ausência de regulamentação
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Taubaté informou, por meio de sua assessoria de Comunicação, que “não há legislação vigente que regulamente a atividade do transporte por aplicativo no município”. Segundo o comunicado, “a nova gestão realiza um estudo por meio da Secretaria de Mobilidade Urbana para que se possa saber com exatidão quantos e quem são os motoristas que prestam serviço por meio dos aplicativos Uber, 99 e inDrive”.
A administração não indicou previsão de novas regras ou de regulamentação para o setor.
Um mercado crescente, mas incerto
Ainda que sem dados oficiais, os entrevistados ajudam a dimensionar o espaço que os aplicativos conquistaram na cidade. Para passageiros, representam a chance de chegar ao destino de forma direta, sem os atrasos do transporte público. Para motoristas, significam, ao mesmo tempo, oportunidade de renda e sobrecarga.
Rita reforça a todo momento que deveria existir um canal de escuta dos motoristas, bem como maior valorização do trabalho.”Os aplicativos não consideram os elogios, basta um comentário de passageiro que esteja de mal com a vida.” E resume: “Às vezes penso em parar, mas lembro que é isso que me mantém em pé. Gosto de dirigir, gosto das pessoas. Só queria que fosse mais justo”.
Já Rodrigo é mais pragmático: “Eu não pretendo ficar para sempre. Tenho formação em Educação Física e Pedagogia, e quero prestar concurso. Mas, enquanto não consigo, continuo no aplicativo”.
No entanto, apesar de planejar voltar a rodar com mais frequência, Elizza já pensa em outros caminhos. “Agora que o outro trabalho que tinha foi concluído, eu vou voltar às ruas para fazer mais corridas”, aspira. Mas ela também reflete sobre o futuro: “Eu queria uma hora não depender mais do aplicativo. Então, bater minha meta de valor ali e investir o meu tempo livre num outro aprendizado”.
E, assim como Rodrigo, a motorista pensa no futuro fora dos aplicativos. “Eu não quero dirigir para sempre. Eu quero ter um trabalho que eu saiba a hora que começa e a hora que termina.” Enquanto isso não acontece, Elizza segue na categoria, mas tentando equilibrar o trabalho com planos futuros. “Hoje, eu só penso em juntar um dinheirinho para poder abrir alguma coisa minha. Pode ser pequena, mas que seja minha, sabe?”, determina.

