Em entrevista ao podcast The Twenty Minute VC (20VC), publicada na última segunda-feira (17), o presidente da Uber, Andrew McDonald, falou sobre os planos da companhia para o futuro da mobilidade, com destaque para o avanço dos veículos autônomos, o impacto da tecnologia sobre as viagens realizadas por motoristas e os desafios para ampliar o uso da plataforma.
Durante a conversa, o executivo afirmou que a autonomia é uma questão “existencial” para a Uber e representa seu maior investimento individual, mas avaliou que a tecnologia ainda deve levar décadas para competir com o custo do trabalho humano em mercados como Brasil e Índia, dois dos três maiores países da empresa em volume de viagens.
“Vai levar décadas até o custo de autonomia chegar ao ponto de competir com o custo de trabalho humano”, afirmou o executivo.
McDonald também abordou a estratégia da Uber para reduzir o preço das corridas, expandir a base de usuários, desenvolver novos negócios e fortalecer o Uber One, além de comentar a antiga operação própria de veículos autônomos da companhia e o papel que empresas como Waymo e Tesla podem desempenhar nesse mercado.
Autonomia é tratada como questão “existencial”
Ao ser questionado sobre o impacto dos veículos autônomos sobre o negócio da Uber, o executivo afirmou que a tecnologia tende a se tornar um produto superior ao serviço atual em um número crescente de situações.
Ele reconheceu que, atualmente, a experiência autônoma ainda enfrenta limitações, como velocidade, locais de embarque, condições climáticas e cobertura geográfica. Ainda assim, disse acreditar que essas restrições serão reduzidas à medida que a tecnologia evoluir.
“Eu acho que, com o tempo a autonomia, não vai ser apenas segura, vai ser uma experiência melhor.”
Segundo o executivo, a possibilidade de viajar com mais privacidade também pode tornar o produto mais atraente: “A maior parte das pessoas prefere a experiência de ter privacidade dentro do carro e poder trabalhar, dormir, falar com seu parceiro ou o que for que você queira fazer”.
McDonald acrescentou que a empresa está investindo diretamente para integrar a tecnologia à plataforma.
Veículos autônomos são o maior investimento individual da Uber
O presidente da companhia afirmou que veículos autônomos representam o maior investimento isolado da Uber atualmente, embora tenha ponderado que isso depende de como os aportes são definidos. Segundo ele, os recursos destinados à autonomia estão distribuídos de diferentes formas.
“Nós estamos fazendo uma mistura de investimentos de equidade em empresas, comprometimentos de compras, construção de infraestrutura autônoma, de flechas de dados… há muitas formas diferentes de distribuir os dólares”, compartilhou.
A estratégia atual ocorre anos depois de a Uber ter encerrado a operação própria de desenvolvimento de tecnologia autônoma. McDonald lembrou que os primeiros esforços da empresa nessa área começaram ainda sob a liderança do cofundador Travis Kalanick.
“Eu acho que o Travis, eu não quero enganá-lo, mas anos antes ele sabia que isso seria o futuro e como muitos tipos de fundadores visionários ele podia ver em frente de onde o resto de nós poderia ver e começou a levar a empresa nessa direção”, declarou.
Venda da divisão autônoma ocorreu durante crise da covid-19
McDonald também relembrou a decisão da Uber de se desfazer da ATG, sua divisão interna de condução autônoma, durante a pandemia. Segundo ele, naquele momento, o negócio de mobilidade havia perdido 84% da receita em três semanas e a empresa precisava priorizar sua atividade principal.
Apesar disso, o executivo reconheceu que seria vantajoso, atualmente, se a antiga divisão tivesse se tornado uma das principais empresas de tecnologia autônoma e permanecesse sob controle da Uber.
Brasil e Índia devem ter transição mais longa
Ao ser questionado sobre quantas viagens poderão ser realizadas por robotáxis nos próximos cinco anos, McDonald destacou a escala da plataforma: são cerca de 300 milhões de viagens por semana, diante de alguns milhões de corridas autônomas por mês. Segundo ele, as viagens com motoristas humanos também continuam crescendo.
O executivo destacou ainda que Brasil e Índia estão entre os três maiores mercados da Uber em volume. A tarifa média dos motoristas ficaria em torno de US$ 3,50 a US$ 4 no Brasil e de US$ 2,50 a US$ 3 na Índia, o que influencia o ritmo da transição.
“Esses mercados fazem a maioria de nossas viagens”, afirmou.
Por isso, McDonald disse não conseguir prever quando a maior parte das corridas da plataforma será autônoma: “Eu posso te dizer que vai levar muito tempo.”
Waymo e Tesla são vistas como vencedoras
Questionado sobre Waymo e Tesla, McDonald afirmou acreditar que ambas estarão entre as vencedoras do mercado de veículos autônomos, mas espera que outras empresas também tenham espaço.
Mesmo companhias com aplicativos próprios de robotáxis, segundo ele, poderão disponibilizar seus veículos pela Uber para aumentar a utilização das frotas. Nesse cenário, McDonald aposta na capacidade da plataforma de conectar esses serviços aos consumidores.
“Eu acho que, no final, a distribuição ganha.”
Preço precisa cair para Uber ampliar número de usuários
Além da autonomia, McDonald apontou o preço como um obstáculo para a Uber passar dos atuais cerca de 200 milhões de consumidores mensais para 500 milhões e aumentar a frequência média de uso de seis para 25 vezes por mês.
“Se nós queremos 500 milhões de usuários e ir de pessoas que usam, em média, 6 vezes por mês para 25 vezes por mês, o custo médio dessa transação tem que cair”, opinou.
Entre as alternativas citadas estão ônibus, bicicletas, patinetes e veículos autônomos. Em uma perspectiva mais longa, o executivo também prevê redução da importância do carro particular, com diferentes modais assumindo parte dos deslocamentos: “Eu acho que em algum mundo futuro, talvez não em cinco anos, mas em 15 ou 20 anos, ninguém vai ter um carro nem licença de motorista”.
Uber One e novos negócios
McDonald também afirmou ter mudado de opinião sobre o Uber One, que considera atualmente um dos investimentos mais eficientes da empresa em consumidores no longo prazo. Segundo ele, os membros tendem a concentrar mais de seus gastos em serviços da Uber, incluindo mobilidade e delivery.
O executivo abordou ainda a dificuldade de desenvolver novos produtos diante da escala da companhia. Para ser relevante, uma iniciativa precisa ter potencial para se transformar em um negócio bilionário.
“Para qualquer coisa passar no teste, tem que ser um negócio de multibilhão de dólares”, determinou.
Para incubar essas iniciativas, a Uber mantém o programa Growth Bets, com recursos e equipes dedicados. McDonald apontou a atual base de consumidores como uma vantagem para escalar produtos que tenham sucesso.
