A Orion nasceu do desejo de Mikhael Lacerda de levar modernidade para Porangatu, no norte de Goiás. Bacharel em direito, com formação em sistemas de informação e funcionário público há 16 anos, ele já havia morado em diferentes estados e conhecido de perto o início da expansão dos aplicativos de transporte nas capitais. Ao voltar para a cidade natal, encontrou um cenário em que o transporte comercial ainda era dominado pelo táxi.
Porangatu tinha pouco mais de 50 mil habitantes e não contava com um serviço de mobilidade por aplicativo. A Orion surgiu nesse contexto, há quase nove anos, como o primeiro aplicativo da cidade.
“Eu sempre tive o sonho de trazer algum tipo de modernidade para a minha cidade”, afirma Mikhael.
Começo teve pessimismo e quatro motoristas
O início foi marcado por resistência e desconfiança. Segundo Mikhael, até familiares e amigos duvidavam que a ideia pudesse dar certo. A operação começou com apenas quatro motoristas, e ele precisou trabalhar junto para fazer o serviço chegar aos primeiros passageiros.
O desafio era mostrar que o morador poderia chamar um carro pelo aplicativo, ser atendido, pagar um preço justo e contar com um serviço diferente do táxi tradicional.
“Não foi fácil no início. A gente tinha pessimismo de todos os lados, mas implementou com muita luta”, lembra.
Central de atendimento foi criada para idosos
Uma das primeiras dores identificadas por Mikhael foi a dificuldade de idosos com o uso de smartphones. Para atender esse público, a Orion criou uma central de atendimento e SAC, com solicitações feitas pelo WhatsApp e disparadas pelo próprio aplicativo.
Até hoje, segundo ele, esse continua sendo um diferencial importante da operação. A equipe também trabalha para migrar o usuário para dentro da plataforma, incentivando o download e o uso direto do app.
“A gente faz esse retrabalho de colocar o cliente para baixar o aplicativo e usar pela plataforma. É um trabalho constante”, afirma.
Categoria para mulheres ajudou a consolidar a marca
Outro diferencial criado no início foi uma categoria voltada para mulheres. A proposta era permitir que passageiras fossem atendidas por motoristas mulheres, ampliando a sensação de segurança.
A categoria passou por mudanças ao longo dos anos para se adaptar ao mercado, mas Mikhael afirma que ela foi uma das iniciativas mais importantes para consolidar a Orion, tanto na matriz quanto nas franquias.
“A categoria para mulheres foi, acredito, o maior diferencial no início para a marca se consolidar”, diz.
Divulgação começou com carro de som, panfleto e mídia tradicional
No início, a Orion investiu em mídia tradicional para explicar à cidade o que era um aplicativo de mobilidade. Houve panfletos, cartões de visita com o número da central, carro de som e ações impressas. Segundo Mikhael, foram muitas horas de divulgação para mostrar que havia um novo serviço de transporte disponível.
Hoje, o tráfego pago em redes sociais se tornou o principal canal de marketing, com uso de Instagram, Facebook e WhatsApp. Mas, no começo, o maior desafio era educativo: explicar que “Uber” não era uma profissão, e sim o nome de uma empresa.
“No interior, ainda existe essa dificuldade de explicar o que é mobilidade urbana”, afirma.
Investimento se pagou em pouco mais de dois anos
Mikhael estima que o investimento inicial em marketing tenha ficado entre R$ 10 mil e R$ 12 mil. Além disso, houve custos com implementação e desenvolvimento do aplicativo. O investimento foi recuperado em pouco mais de dois anos.
Nos três primeiros anos, a Orion chegou a quase 40 prestadores na matriz. Com o tempo, Mikhael percebeu que a quantidade de motoristas não era, sozinha, sinal de eficiência.
Hoje, em Porangatu, a operação trabalha com cerca de 20 motoristas ativos, buscando equilibrar renda para os condutores, preço justo para passageiros e qualidade no atendimento.
Menos motoristas ajudaram a aumentar a produtividade
Mikhael afirma que, no início, acreditava que ter muitos prestadores seria o melhor caminho. Depois, percebeu que, em cidades pequenas, excesso de motoristas pode reduzir comprometimento, tempo online e renda média.
Com uma base mais enxuta e diálogo constante, a Orion reduziu a perda de corridas não atendidas. Segundo ele, a taxa de solicitações não aceitas caiu de cerca de 30% para uma média de 8% a 9%.
“Hoje, o motorista aqui na Orion não escolhe corrida. Tocou, ele vai”, afirma.
Marca está em oito cidades
A expansão começou depois do quarto ano de operação da matriz. A Orion abriu caminho para franquias e hoje atua em oito cidades, distribuídas em três estados.
Mikhael cita um franqueado em Minas Gerais, em uma cidade de cerca de 100 mil habitantes, que já opera com mais de 50 motoristas e chega a uma demanda próxima de 1 mil a 1,2 mil solicitações por dia.
Concorrentes nasceram de ex-motoristas
Uma das maiores dificuldades atuais é a concorrência em cidades pequenas. Mikhael afirma que, ao longo dos anos, a Orion acabou abrindo portas para outras empresas. Em Porangatu, todos os concorrentes locais passaram antes pela Orion como motoristas.
Para ele, o mercado é aberto, mas cidades pequenas têm limite de demanda e de prestadores. Quando há muitos aplicativos, clandestinos e motoristas por WhatsApp, a operação fica mais desafiadora.
“O interior tem um limite gerencial e de prestação de serviço. Essa tem sido a minha maior dificuldade”, afirma.
Aplicativo se consolidou no fim do primeiro ano
Mikhael percebeu que a Orion estava dando certo no fim do primeiro ano. A cidade já tinha uma rotina diária de atendimentos, central funcionando e uma média de solicitações estabelecida. Para ele, o projeto deixava de ser sonho e se tornava realidade.
O gestor também acredita que a chegada da Orion ajudou a modernizar outros serviços locais, como delivery, presença digital de empresas e uso de redes sociais para atendimento.
“A cidade onde nasci e cresci passou a ter um serviço moderno. Isso me deixou muito contente”, afirma.
Esposa é base da operação
Mikhael não tem sócios formais, mas afirma que a esposa é sua principal parceira no negócio. Foi ela quem o incentivou no início, quando muitas pessoas diziam que o projeto não daria certo. Hoje, também atua no dia a dia da empresa.
“Se eu posso dizer em questão de sociedade, hoje é ela”, afirma.
Porangatu é a cidade-sede
A matriz da Orion fica em Porangatu, no norte de Goiás, às margens da BR-153. A localização traz um público diversificado, com moradores fidelizados, trabalhadores, empresas e pessoas que passam pela cidade em razão da rodovia.
O atendimento, segundo Mikhael, combina esse fluxo de visitantes com uma relação muito próxima com clientes locais, que a equipe já conhece pelo nome, endereço e rotina.
Mobilidade mudou a forma de enxergar pessoas
Mikhael afirma que o empreendedorismo na mobilidade mudou sua forma de lidar com as pessoas. Depois de milhares de corridas, ele diz ter amadurecido e passado a enxergar melhor os sonhos, necessidades e dificuldades dos passageiros e prestadores.
“A mobilidade te traz isso: você passa a conhecer milhares de pessoas diferentes”, diz.
O atendimento humanizado se tornou um princípio que ele tenta transmitir aos motoristas, para que o cliente não seja visto apenas como fonte de renda.
Prestadores são motivo de orgulho
Além das premiações recebidas pela empresa em pesquisas locais, Mikhael afirma que seu maior orgulho é ver prestadores que entraram na Orion em dificuldade e conseguiram melhorar de vida. Ele cita motoristas que compraram casa, trocaram de carro, reorganizaram a família e recuperaram a dignidade.
“Meu sucesso vem através do sucesso deles”, afirma.
Segundo ele, a plataforma já teve prestadores de diferentes perfis e profissões, incluindo pessoas que depois se tornaram médicos, policiais, enfermeiros e advogados.
Orion tem mais de 100 mil clientes cadastrados
Somando matriz e franquias, a Orion tem mais de 100 mil clientes cadastrados. Desses, cerca de 60 mil são considerados ativos mensalmente, entre usuários diários, de fim de semana ou ocasionais.
A base de prestadores passa de 150, considerando matriz e franquias. A operação soma de 100 mil a 120 mil solicitações por mês.
Na matriz, a média é de 9,5 mil solicitações mensais, com cerca de 7,5 mil corridas finalizadas por mês.
Faturamento bruto passa de R$ 1,4 milhão
O faturamento bruto mensal da Orion, somando matriz e franquias, passa de R$ 1,4 milhão. Na matriz, o faturamento anual mais recente foi superior a R$ 500 mil.
Somente na matriz, a movimentação mensal fica, em média, entre R$ 100 mil e R$ 150 mil, dependendo do mês.
Modelo combina mensalidade e taxa por corrida
A Orion já trabalhou apenas com mensalidade, mas Mikhael afirma que esse modelo não estimulava produtividade. Hoje, na matriz, os motoristas pagam mensalidade fixa de R$ 150 e também uma taxa variável por corrida, que vai de 15% a 10%, conforme desempenho.
O motorista que começa com 15% pode reduzir a taxa se atingir metas de solicitações no mês. O limite mínimo é de 10%. Se não atingir a meta, volta para uma taxa maior.
“Com isso, estimulamos a produtividade, o tempo de trabalho e a disposição em atender chamadas”, afirma.
Corrida mínima começa em R$ 9,99
A Orion trabalha com duas bandeiras. Na tarifa diurna, das 6h às 18h, a corrida mínima começa em R$ 9,99 e cobre até 1 km nas principais categorias, como elétrico e econômico.
O preço por quilômetro é de R$ 1,50, com cobrança de R$ 0,20 por minuto. À noite, a partir das 18h, há adicional de 20%, aplicado em tarifa mínima, preço por minuto, tarifa base e quilometragem. Aos fins de semana, o adicional também é aplicado.
App tem categorias para elétrico, mulheres, sedã e SUV
A plataforma opera com diferentes categorias, incluindo carro elétrico, econômico, categoria voltada para mulheres, sedã, SUV e viagens para outras cidades. Cada uma pode ter configuração própria de preço mínimo.
A presença de carros elétricos é vista por Mikhael como tendência importante para reduzir custos e tornar as corridas mais atrativas para passageiros e motoristas.
Motorista já faturou R$ 31 mil em um mês
O maior faturamento registrado por um motorista da Orion foi de pouco mais de R$ 31 mil brutos em um único mês. O recordista é Sebastião, motorista ativo da matriz, ex-caminhoneiro e com experiência fora do país.
Segundo Mikhael, Sebastião costuma faturar, em média, entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por mês. Entre motoristas que trabalham exclusivamente com o aplicativo, a média da matriz fica em torno de R$ 7 mil a R$ 7,5 mil mensais.
“Quem vive exclusivamente do aplicativo tem média de R$ 7 mil a R$ 7,5 mil hoje”, afirma.
Taxa é descontada por carteira digital
A remuneração funciona com sistema de recarga. O motorista faz uma recarga inicial mínima de R$ 50 na carteira digital e, conforme atende solicitações, a taxa é abatida desse saldo. Quando o valor se aproxima de zero, ele faz nova recarga.
Além da recarga, há a mensalidade fixa de R$ 150. Para Mikhael, esse modelo preserva a flexibilidade do motorista, já que ele paga conforme trabalha.
Meta é passar de R$ 2 milhões no ano
A Orion tem como meta ultrapassar R$ 2 milhões de faturamento anual somando matriz e franquias. Outro objetivo é chegar a 1 milhão de downloads na plataforma até 2027.
A empresa também pretende continuar expandindo, mas Mikhael reconhece novos desafios no mercado, como bicicletas elétricas, ciclomotores e patinetes sem regulamentação adequada.
Mikhael defende modernização com regulamentação
Mikhael se diz favorável à modernização e à mobilidade barata e segura, mas defende que novas modalidades sejam regulamentadas. Para ele, a entrada desordenada de ciclomotores, bicicletas elétricas e patinetes pode se tornar um problema para a mobilidade local.
No caso dos carros, ele torce para que os aplicativos regionais incentivem a migração para veículos elétricos e híbridos, como forma de reduzir custos de operação.
Tecnologia não é o problema
Para Mikhael, aplicativos regionais não estão atrás de Uber e 99 por causa da tecnologia. Ele acredita que, em cidades com menos de 150 mil habitantes, o atendimento local e humanizado pesa mais do que o nome da marca nacional.
“Os aplicativos regionais são o que há de melhor para atender a mobilidade das cidades pequenas”, afirma.
Atendimento humanizado é a receita
Na avaliação do gestor, aplicativos regionais precisam investir em dedicação, marketing, remarketing e atendimento humanizado para conquistar mais espaço. Ele critica a robotização do atendimento nas grandes plataformas e vê nisso uma oportunidade para empresas locais.
“A receita é simples: trazer atendimento mais humano, respeito mútuo e bom atendimento para fidelizar o cliente”, afirma.
Corridas por fora são problema externo
Dentro da Orion, as corridas por fora já foram um problema maior, mas hoje estão mais controladas. A dificuldade principal está na concorrência externa de motoristas que trabalham apenas pelo WhatsApp, sem plataforma, cadastro ou estrutura de segurança.
Mikhael afirma que muitas pessoas só percebem o risco de andar fora de aplicativo quando acontece uma tragédia. Para ele, a plataforma oferece uma camada de segurança, com prestadores checados, exigência de seguro do carro e seguro para passageiro.
“Você se acostumou a andar com essa pessoa fora da plataforma; isso não quer dizer que você conhece”, afirma.
Falta de fiscalização incomoda
O que mais incomoda Mikhael no mercado é a falta de planejamento e fiscalização nas cidades pequenas. Segundo ele, o poder público ainda não está preparado para lidar com mobilidade por aplicativo em municípios menores.
A empresa já buscou regulamentação e fiscalização, mas encontrou dificuldades políticas e leis que não dialogavam com a realidade local.
Legado é provar que cidade pequena pode se modernizar
O legado que Mikhael quer deixar é mostrar que qualquer cidade pode se modernizar, independentemente do tamanho. Para ele, Porangatu é exemplo de que uma cidade do interior pode ter transporte por aplicativo, atendimento humanizado, tecnologia e orgulho local.
“Qualquer cidade pode se desenvolver desde que queira. É possível ter orgulho do lugar de onde a gente vem e fazer a nossa parte”, conclui.
