A história do Liint começou em 2020, quando Thiago Zani trabalhava com desenvolvimento de bancos digitais. No mês do lockdown da pandemia, em março daquele ano, ele vendeu a empresa que tinha e passou a procurar uma nova área para empreender.

O primeiro olhar foi para as entregas, impulsionadas pelo crescimento do iFood naquele período. Mas Thiago também percebeu uma demanda no transporte de passageiros: empresas e famílias estavam pagando corridas para evitar que funcionários, como empregadas domésticas e secretárias, usassem ônibus durante a pandemia.

“A demanda nossa era essa: empregada doméstica e secretária indo para o trabalho sem pegar transporte urbano. Aí foi crescendo”, conta.

Primeira versão foi lançada em julho de 2020

O primeiro aplicativo foi colocado no ar em julho de 2020, em meio ao lockdown. Segundo Thiago, o público formado por empresas ajudou a operação a ganhar tração logo no começo.

Apesar de nunca ter sido motorista, ele chegou a fazer duas corridas no próprio aplicativo para entender a operação na prática, em um momento de alta demanda.

“Fiz duas corridas na vida. Estava no escritório, tinha demanda alta e falei: vou lá ver como é isso”, lembra.

Dor inicial era taxa alta e tarifa baixa para motoristas

Ao conversar com motoristas, Thiago identificou duas reclamações principais: taxas altas das grandes plataformas e tarifas baixas, sem reajuste suficiente. A estratégia inicial foi oferecer um modelo simples, com cobrança fixa de R$ 1 por corrida.

A proposta chamou a atenção dos motoristas e ajudou na adesão inicial.

“A Uber funciona para o passageiro, mas a gente precisava passar um plus para o motorista. Na época, cobrar R$ 1 por corrida chamou muita atenção”, afirma.

Grupo hoje tem oito marcas

Hoje, Thiago administra oito aplicativos de transporte. Além do Liint, ele cita marcas como VIP Car, Mob Marília, Mob Vitória e Cubo. Ao todo, o grupo atua em 58 cidades. O Liint, especificamente, está presente em 14 cidades.

A escolha da marca varia conforme a localidade. Em algumas cidades, o nome Liint funciona; em outras, a população prefere uma marca mais regional ou ligada ao nome do município.

“Tem lugar que a marca vai, tem lugar que não vai. A pessoa quer uma coisa regional, com o nome da cidade. Então a gente desenvolve conforme a demanda”, explica.

Tecnologia não deixa a desejar 

Na avaliação dele, a tecnologia dos aplicativos regionais não perde de forma relevante para Uber e 99. A principal diferença, segundo o gestor, está em alguns recursos financeiros, como permitir que o passageiro deixe uma corrida para pagar na próxima.

“Tecnologia não é o problema. O regional não perde nada, tirando uma coisa ou outra, como deixar pagar na próxima corrida”, diz.

Motoristas foram o principal canal de divulgação

No começo, a captação de motoristas e passageiros foi feita principalmente pelos próprios condutores. Como a taxa era atrativa, a empresa distribuía panfletos, e os motoristas faziam o boca a boca.

Para Thiago, o motorista é o melhor marketing de um aplicativo regional, mas também é o público mais difícil de conquistar.

“O melhor marketing que existe são os motoristas. Cativar eles é que é o problema”, afirma.

Investimento inicial foi de cerca de R$ 50 mil

Na primeira cidade, Thiago estima ter investido cerca de R$ 50 mil, incluindo montagem de escritório e estrutura inicial. Desse total, aproximadamente R$ 20 mil foram destinados a marketing.

O aplicativo começou a se pagar no terceiro mês de operação. No primeiro mês, a empresa deu isenção aos motoristas; havia volume de corridas, mas ainda não havia lucro.

Faturamento mostrou que o app estava dando certo

Thiago afirma que percebeu rapidamente que o aplicativo tinha potencial quando o faturamento começou a aparecer. Segundo ele, algumas cidades deram certo e outras não, algo que considera normal no processo de expansão.

O grupo não tem sócios. Thiago conduz a operação dos aplicativos e afirma que seu foco principal hoje está no setor de mobilidade, embora também tenha outros negócios.

Gestão mudou percepção sobre motoristas

Depois de empreender no setor, Thiago diz que passou a enxergar com mais responsabilidade a rotina dos motoristas. Como gestor, percebeu que qualquer falha da plataforma impacta diretamente o sustento de famílias que dependem do aplicativo.

“Se a gente der uma mancada e parar tudo de uma vez, é o ganha-pão do cara, é a família dele. Fora que, antes, como usuários, eu via cancelamentos e atrasos de outra forma. Hoje, ao acompanhar a operação, eu entendo melhor a dificuldade da profissão”, afirma.

Liint faz até 160 mil corridas por mês

O Liint realiza entre 150 mil e 160 mil corridas finalizadas por mês. Em uma das cidades, o volume chega a cerca de 50 mil corridas mensais.

Thiago não soube informar de cabeça o número de motoristas e passageiros cadastrados apenas no Liint, mas afirmou que o dado poderia ser levantado pela equipe de suporte.

Corrida mínima varia de R$ 6 a R$ 15

O valor da corrida mínima muda conforme a cidade. Segundo Thiago, há praças com mínima de R$ 6 e outras com valor de até R$ 15. A cobertura costuma ser de até 3 km, e a operação é calibrada para que o motorista não receba menos de R$ 2 por quilômetro.

Motorista escolhe taxa, diária ou mensalidade

O modelo de cobrança varia conforme a localidade. No Liint, o motorista pode escolher entre taxa, diária ou mensalidade. Quando a cobrança é por taxa, fica na faixa de 12%. Já a diária pode variar de R$ 4,99 a R$ 30.

Segundo Thiago, a flexibilidade ajuda a adaptar o aplicativo à realidade de cada praça.

Motoristas faturam em média até R$ 10 mil

A média de faturamento dos motoristas do Liint fica entre R$ 8 mil e R$ 10 mil brutos mensais. Há, porém, casos fora da curva. O motorista que mais fatura faz, em média, R$ 16 mil a R$ 17 mil por mês.

Esse condutor trabalha em uma cidade próxima a São Paulo e realiza muitas viagens para a capital, com corridas de R$ 300 a R$ 350.

“Ele é fora da curva. Todo dia faz corrida para São Paulo, quatro ou cinco vezes. A média mesmo é R$ 8 mil, R$ 9 mil, R$ 10 mil”, explica.

Uma cidade movimenta até R$ 900 mil por mês

Thiago estima que apenas uma cidade do Liint movimente entre R$ 800 mil e R$ 900 mil por mês em corridas. O faturamento da empresa nessa praça fica em média em 10% desse valor, antes das despesas.

O grupo tem 15 funcionários e precisa arcar com tecnologia, equipe, folha de pagamento e demais custos operacionais.

Corridas por fora caíram

Segundo Thiago, as corridas feitas por fora já foram um problema maior, mas hoje diminuíram. Para ele, os motoristas passaram a preferir uma corrida segura, especialmente porque todas as viagens da plataforma contam com seguro.

Meta é expandir para mais 40 cidades

O grupo lançou uma linha de expansão e está em fase de captação de novas cidades. A meta é chegar a dez novas praças até dezembro e somar mais 30 cidades no ano seguinte.

A expansão deve seguir o modelo já usado pela empresa, com adaptação de marca, cobrança e estratégia conforme a localidade.

Mercado vai selecionar os melhores, diz gestor

Na visão de Thiago, muitos aplicativos regionais ainda devem surgir, mas apenas os melhores vão permanecer. Ele acredita que parte dos novos gestores entra no setor achando que vai ganhar muito dinheiro sem investir, o que tende a gerar fechamento de operações mal estruturadas.

Ao mesmo tempo, ele vê crescimento contínuo no mercado de mobilidade, impulsionado por uma geração que, segundo ele, tem menos interesse em tirar CNH e passa a depender mais de transporte por aplicativo.

Falta de união dos motoristas é o que mais incomoda

Para Thiago, o que mais incomoda no setor é a falta de união entre motoristas. O problema aparece principalmente na entrada em novas cidades, quando ainda não há volume e os condutores demoram a aceitar as primeiras corridas.

“Eu comparo com o mercado de moto-entrega, onde há mais união entre os profissionais. Quando os entregadores param, para tudo. Os motoristas de carro já não param igual”, diz.

Custo da corrida ainda é desafio

Ao falar sobre como os aplicativos regionais podem conquistar mais espaço, Thiago afirma que quem descobrir a melhor forma de reduzir o custo da corrida terá uma vantagem importante. Para ele, esse é um dos pontos centrais para ampliar mercado frente às grandes plataformas.

Legado é sustentar famílias de motoristas

O legado que Thiago quer deixar com o Liint está ligado ao crescimento da renda dos motoristas. 

“ O objetivo é fazer com que o motorista consiga sustentar a família, trocar de carro e se realizar financeiramente trabalhando pela plataforma, esse é o legado”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.