A trajetória de José Tomaiz Júnior na mobilidade começou antes do aplicativo. Aos 43 anos, ele acumula passagens por diferentes frentes do transporte: trabalhou quatro anos com moto entrega, oito anos como taxista e, há quase cinco anos, atua com aplicativo.

A virada aconteceu quando percebeu que os aplicativos começavam a dominar o mercado e que o táxi tradicional ficava para trás. Primeiro, Júnior trabalhou como motorista parceiro em uma plataforma regional. Depois, decidiu criar a própria operação.

“Eu percebi que os aplicativos estavam dominando. Falei: está na hora de mudar. Fui trabalhar em um aplicativo regional, mas vi que não tinha a independência que queria”, conta.

Experiência no táxi ajudou a identificar oportunidade

Antes do JT Transportes, Júnior trabalhou no táxi em Serra Negra. Segundo ele, o modelo tradicional prendia os motoristas a uma lógica de preços e organização que não dava muita margem para inovação.

“Ao estudar o mercado de aplicativos, vi a chance de criar uma alternativa regional com motoristas conhecidos, atendimento próximo e uma estrutura mais flexível para quem dirige. No táxi, a gente ficava preso. Eu pesquisei sobre aplicativo e resolvi partir para essa área”, afirma.

Aplicativo surgiu após exigência da prefeitura

No início, Júnior pensou em migrar os próprios clientes do táxi para uma operação mais direta. Porém, segundo ele, a prefeitura exigiu decretos, leis e regularização para que o serviço funcionasse como transporte por aplicativo. A partir daí, decidiu estruturar de fato uma plataforma.

A proposta foi criar um modelo diferente, em que o motorista pagasse um valor fixo semanal, em vez de percentual por corrida.

“Eu queria fazer diferente dos outros. Os motoristas são livres para atender clientes do aplicativo e também podem ter os próprios clientes”, explica.

Investimento inicial foi de R$ 30 mil

Para lançar o JT Transportes, Júnior estima ter investido cerca de R$ 30 mil. O valor incluiu estrutura inicial, placas, camisetas, marketing, cartões e logomarca.

O aplicativo começou a se pagar depois do segundo ano, quando passou a bancar a própria operação e gerar rentabilidade.

Operação atua no Circuito das Águas

A base principal do JT Transportes é Serra Negra, no interior de São Paulo. A operação também atende cidades da região do Circuito das Águas, como Lindóia, Amparo, Monte Alegre, Itapira e Socorro, além de realizar muitas viagens para aeroportos e fora do estado.

O perfil turístico da região também influencia a demanda. Segundo Júnior, passageiros costumam chamar para deslocamentos locais, viagens mais longas e atendimento em hotéis.

Júnior toca o aplicativo sozinho

O JT Transportes não tem sócios. Júnior é o responsável pela gestão, divulgação, relacionamento com motoristas e orientação da central de atendimento.

Mesmo como dono da operação, ele afirma que faz questão de manter o olhar de motorista, algo que considera essencial para entender preços, qualidade e necessidades da ponta.

“Mesmo dono de aplicativo, continuei pensando como motorista. Existe o Júnior motorista para entender como funciona”, afirma.

Qualidade virou caminho para crescer

O JT Transportes começou a engrenar quando Júnior entendeu que não conseguiria disputar apenas por preço com grandes plataformas. A saída foi apostar em qualidade, motoristas conhecidos na cidade e condutores com perfil mais profissional.

“Há passageiros que buscam a corrida mais barata, mas também há um público que valoriza confiança, atendimento e qualidade. Quando eu percebi isso, parei de concorrer com algo que não conseguiria ganhar, que era o preço. Aí fui para a qualidade, motoristas conhecidos e profissionais”, diz.

No começo, gestor era central e motorista

Nos primeiros anos, Júnior chegou a atuar como motorista do próprio aplicativo, atendendo passageiros e, ao mesmo tempo, funcionando como a central da operação. Com o tempo, a empresa ganhou estrutura e passou a ter atendimento pelo WhatsApp.

Hoje, a central funciona das 6h à meia-noite para receber pedidos e acionar motoristas. A partir desse avanço, Júnior conseguiu deixar gradualmente a rotina de motorista e também a operação direta da central.

“Quando consegui colocar uma central para falar com os clientes, percebi que o aplicativo poderia girar até sem a minha presença”, afirma.

Rotina hoje é focada em gestão e divulgação

Atualmente, Júnior se dedica à gestão do aplicativo. Ele faz divulgação, leva cartões a hotéis, conversa com motoristas, orienta a central e ajusta processos de atendimento.

“Mesmo assim, eu ainda realizo algumas viagens para clientes antigos que se lembram de mim como Júnior Motorista. Aí, às vezes, eu faço alguma viagem”, conta.

Plataforma tem 5 mil usuários no app e quase 10 mil no WhatsApp

O JT Transportes tem de 25 a 30 motoristas que trabalham online quase todos os dias. Além deles, há cerca de dez motoristas esporádicos, que rodam em fins de semana, feriados ou apenas alguns dias da semana.

Na base de passageiros, o aplicativo tem cerca de 5 mil usuários cadastrados. Já pelo WhatsApp, o número é maior: a central reúne quase 10 mil contatos. Segundo Júnior, em Serra Negra muitos passageiros preferem pedir pelo WhatsApp para que a central envie o carro.

Corrida mínima começa em R$ 9,90

A corrida no JT Transportes começa em R$ 9,90 durante o dia, das 6h às 18h. O cálculo considera quilômetro e minuto rodado desde o início da corrida.

À noite, os valores mudam. Depois das 22h, há aumento de 30%. Da meia-noite às 6h, o acréscimo é de 50% sobre o valor.

Motoristas pagam taxa semanal fixa

O modelo do JT Transportes é baseado em taxa semanal, não em percentual por corrida. Motoristas que trabalham online quase todos os dias pagam R$ 150 por semana. Já os esporádicos, que rodam apenas um ou dois dias, pagam R$ 100.

Segundo Júnior, a cobrança fixa dá liberdade para que o motorista atenda tanto as corridas do aplicativo quanto os próprios clientes.

Quilômetro fica em média acima de R$ 2

O cálculo das corridas considera uma base de cerca de R$ 1,70 por quilômetro, mais R$ 0,80 por minuto rodado. Dependendo do percurso, principalmente em rodovias, a composição muda, mas Júnior estima que o valor médio fique entre R$ 2 e pouco por quilômetro rodado.

Pagamento fica com o motorista

Os motoristas recebem diretamente dos passageiros. Pix, maquininha de cartão e dinheiro ficam com o condutor. A exceção são corridas por voucher, de clientes que pagam antecipadamente à plataforma; nesses casos, o acerto com o motorista é feito na segunda-feira.

Motoristas chegam a faturar até R$ 13 mil

Em meses bons, o recorde de faturamento de um motorista do JT Transportes ficou entre R$ 12 mil e R$ 13 mil. Segundo Júnior, motoristas que trabalham todos os dias, folgando um ou dois dias por semana, fazem em média R$ 9 mil a R$ 10 mil em meses tranquilos.

Para motoristas que rodam de forma esporádica, a renda pode ficar entre R$ 3 mil e R$ 4 mil por mês.

Empresa fatura cerca de R$ 3 mil a R$ 4 mil por semana

Como o modelo é de cobrança semanal fixa, o faturamento da empresa vem principalmente das taxas pagas pelos motoristas. Júnior estima uma média de R$ 3 mil a R$ 4 mil por semana, além de receitas eventuais com publicidade ou divulgações de empresas parceiras.

Meta é chegar a 50 motoristas na região

Para o próximo ano, Júnior quer ampliar a presença do aplicativo em outras cidades, especialmente Lindóia e Águas de Lindóia. A meta é chegar a 50 motoristas na região.

Ele também planeja começar a trabalhar com motos, caso consiga viabilizar a modalidade em cidades onde o mototáxi ainda não é aceito.

Dedicação sem retorno imediato foi maior dificuldade

O momento mais difícil, segundo Júnior, foi lidar com a dedicação intensa sem ver retorno imediato. Com o tempo, ele entendeu que esse processo faz parte da construção da empresa.

“A gente se dedica tanto e, às vezes, parece que não tem o retorno esperado. Depois acostuma, porque quanto mais se dedicar, mais o aplicativo funciona”, afirma.

Central permitiu que o app girasse sem o gestor

O segundo ano marcou uma virada importante para o JT Transportes. Foi quando Júnior conseguiu estruturar a central de atendimento e percebeu que o aplicativo poderia funcionar mesmo quando ele não estivesse presente o tempo todo.

Na semana anterior à entrevista, ele chegou a tirar alguns dias de férias, e a operação seguiu funcionando normalmente.

Expansão deve ter gestores locais

Nos próximos cinco anos, Júnior pretende expandir o JT Transportes para outras cidades. A ideia, porém, não é que ele esteja pessoalmente em todas as operações, mas que motoristas de confiança assumam a gestão local em cada município.

“Quero expandir com uma pessoa de confiança em cada cidade tomando conta para mim”, explica.

Pirataria é desafio em Serra Negra

O JT Transportes enfrenta problemas com corridas feitas por fora e com motoristas não cadastrados. A empresa faz campanhas com a mensagem “diga não à pirataria” para conscientizar passageiros sobre segurança, legalidade e monitoramento das viagens.

“Quando uma corrida é aberta no aplicativo, há dados registrados, monitoramento, seguro para passageiro e possibilidade de acionar outro motorista em caso de problema com o veículo. Fora da plataforma, isso não acontece da mesma forma. Isso porque quando o cliente pede um carro não cadastrado, a gente não sabe nem se tem seguro para passageiro”, afirma.

Falta de integração afeta a categoria

Além da pirataria, Júnior vê falta de integração entre motoristas e donos de aplicativos. Segundo ele, muitos se tratam como inimigos, e não como profissionais do mesmo setor.

Em Serra Negra, há quatro aplicativos cadastrados. Júnior afirma que evita disputar motoristas de outras plataformas. Quando um condutor o procura, ele pergunta antes se já trabalha em outro app. Se a resposta for sim, encerra a conversa.

“Não gosto dessa guerra de um tomar motorista do outro. Prefiro não me meter”, diz.

JT Transportes faz cerca de 200 corridas por dia

O volume de corridas varia conforme a época do ano, especialmente por causa das férias e do turismo na região. Considerando meses bons e meses ruins, Júnior estima uma média de 200 corridas por dia.

Futuro exige pensar fora da caixa

Para Júnior, o mercado de aplicativos regionais está cada vez mais saturado, com mais aplicativos e motoristas do que demanda em algumas cidades. Ele acredita que a expansão da Uber para o interior deve pressionar os regionais, especialmente os que tentam competir apenas por preço.

Por isso, já pensa em alternativas como moto por aplicativo, que poderia oferecer uma opção mais barata e talvez mais simples de gerir.

“A gente vai ter que pensar fora da caixa. Bater de frente em preço com a Uber vai ser muito difícil”, avalia.

Tecnologia não é a maior diferença, diz gestor

Na visão de Júnior, a tecnologia dos regionais pode ter oscilações e instabilidades, mas, hoje, não é o principal problema na comparação com grandes plataformas. Para ele, a maior disputa está no fluxo de passageiros e no preço.

Regionais precisam apostar em qualidade

Para conquistar mais mercado, Júnior acredita que aplicativos regionais não devem buscar clientes apenas pelo preço. O caminho, segundo ele, é oferecer qualidade, diferencial e proximidade. Em cidades menores, o passageiro valoriza saber quem é o motorista e ter referência sobre a pessoa que vai buscá-lo.

Os aplicativos regionais precisam buscar algum consenso entre si, para evitar uma disputa predatória entre operações menores enquanto grandes plataformas avançam pelo interior. Se a gente começar a se degradar entre nós, que somos menores, vai ser pior ainda contra os grandes”, afirma.

Legado é ser lembrado pela confiança

O legado que Júnior quer deixar com o JT Transportes está ligado à confiança local. Para ele, o diferencial do aplicativo é oferecer motoristas conhecidos, próximos e com referência na cidade.

Em Serra Negra, muitos passageiros ainda o conhecem como “Júnior do táxi” ou “Júnior do aplicativo”, o que ajuda a reforçar a identidade regional da operação.

“Quando a pessoa pede um JT, ela sabe que vai ter um motorista conhecido próximo dela. O pessoal sabe quem somos, de onde viemos e o que fizemos”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.