O Me Levi Car Brasil foi o primeiro aplicativo de mobilidade da cidade de Bataguassu (MS). Segundo o IBGE, a cidade possui pouco mais de 23 mil habitantes e, por ser um município do interior, enfrentava dificuldades relacionadas ao transporte.

Eliel Lima, fundador da plataforma e natural da região, afirma que nunca teve grande afinidade com tecnologia. “Eu fui para a oficina justamente por isso, porque eu não era muito de mexer no computador”, relata.

Começou a trabalhar aos 11 anos de idade em uma bicicletaria, depois passou a vender sorvetes e salgados, até que aos 15 anos começou a trabalhar em uma oficina mecânica onde permaneceu até os 21. Ali desempenhou funções que iam desde a compra de peças até a manutenção elétrica dos veículos.

O gestor conta que conheceu um aplicativo de mobilidade em uma viagem ao Nordeste, em 2019. A experiência despertou interesse pelo modelo de negócio e motivou a criação de uma solução semelhante em Bataguassu. “Vi que minha região tinha um grande potencial”, afirma. Após um período de estudos sobre o setor, inaugurou a Me Levi em 2020.

A plataforma opera com apenas uma categoria de corridas, estratégia adotada para simplificar o uso pelos passageiros em cidades pequenas. Segundo Eliel, a proposta é evitar confusão com múltiplas opções e permitir que o usuário solicite um motorista de forma rápida.

Para os passageiros, a corrida mínima custa R$ 18 para trajetos de até 4 km. Após essa distância, é cobrado um valor entre R$ 1,80 e R$ 2 por quilômetro rodado. Já os motoristas pagam uma taxa de 15% sobre cada corrida finalizada.

Segundo o gestor, a Me Levi Car Brasil levou alguns anos para consolidar a operação, mas atualmente passa por um período de crescimento. Hoje, a plataforma realiza entre 4 mil e 6 mil corridas por mês, mas com a chegada de uma fábrica de celulose à cidade, a expectativa é de aumento populacional e maior demanda por transporte. “A expectativa é duplicar o que fazemos hoje”, afirma.

Além disso, a empresa planeja expandir a operação por meio de franquias e licenciamento da plataforma para outras cidades. Eliel afirma que um dos principais motivos de orgulho é ter conseguido consolidar um aplicativo em uma cidade onde esse tipo de serviço ainda não existia. “E quando as coisas começaram a dar certo a gente viu as pessoas que falaram que não ia dar certo, pedindo para trabalhar como motorista”.

Ao comentar sobre o futuro dos aplicativos regionais no Brasil, Eliel afirma que a criação de plataformas próprias se tornou mais acessível, o que contribuiu para o aumento da concorrência no setor. “Antes, montar uma plataforma não era barato. Tinha um certo custo inicial e até para contratar a plataforma era difícil. […] aquilo que é fácil acaba aumentando muito no mercado e saturando”, afirma.

Para se diferenciar da concorrência, a Me Levi mantém uma quantidade adequada de motoristas para que o atendimento seja feito de forma rápida e atraia mais passageiros, mesmo quando aos outros aplicativos abaixam significativamente os preços.

Me conte um pouco da sua trajetória até chegar ao mercado da mobilidade. Qual a sua história?

Eliel: Eu nasci em Bataguassu mesmo. Eu trabalhei com várias coisas, comecei com 11 anos trabalhando com bicicletaria, depois vendi sorvete, vendi salgado. 

E aí eu comecei no ramo da oficina aos 15 anos e fui até os 21. Nesse meio-tempo mexi com parte elétrica de veículo, ar-condicionado, radiador, toda essa parte. E para ser bem sincero eu nunca fui muito a par da tecnologia, eu não gostava muito de ficar no computador. Eu fui para a oficina justamente por isso, porque eu não era muito de mexer no computador.

Quando comecei na oficina, iniciei na parte de compra de peças. Só que tinha que ficar fazendo compra, cotação e não era muito meu forte. Então na mesma oficina eu mudei para a parte operacional.

Mas quando eu tive essa visão, eu vi mais como uma oportunidade e não como algo que eu gostava. Quando eu tive essa oportunidade de conhecer o ramo da mobilidade, a história mudou um pouco. E eu gostava de dirigir, então já juntou as duas coisas: gostar de dirigir e esse contato com o público.

Como surgiu a ideia de criar o próprio app?

Eliel: Eu tive a oportunidade de viajar para o Nordeste e conhecer alguns amigos que, na época, tinham um outro aplicativo regional que estava no início das operações. Foi a partir desse momento que comecei a ter contato com a mobilidade urbana e vi que minha região tinha um grande potencial.

Por ser uma cidade pequena, o pessoal não estar acostumado com o desenvolvimento da tecnologia, ainda não tinha chegado aqui. Então tivemos a ideia de trazer para a cidade em 2019. Mas inaugurei em 2020.

Como foi o processo desde a ideia até ter o aplicativo pronto?

Eliel: No início eu comecei a analisar a ideia para ver se realmente tinha um potencial aqui na cidade e a gente viu que tinha mesmo devido ao tamanho da cidade.

Eu procurei formas de montar essa parte da plataforma e, como todo iniciante, a gente começou pelo caminho mais difícil, pelos picaretas da vida.

E quando eu montei a gente bateu muito a cabeça com a plataforma, porque começou a dar muito problema, não funcionava, começava a ter cliente e perdia. Então eu comecei a procurar outras formas para trabalhar.

Depois o que a gente migrou para outra tecnologia foi que as coisas começaram a andar de verdade.

Como não tinha outras plataformas na cidade ainda, como foi a captação dos motoristas nesse início?

Eliel: Esse início foi bem difícil porque eu acabei tendo que rodar na maior parte das vezes. Não era conhecido, ninguém tinha noção de que realmente dava certo, compensa. Em cidade do interior o pessoal tem muito aquele: “ah mas vai destruir meu carro, vai acabar com meu carro”.

No início a gente só tinha um ou dois motoristas, no máximo, que conseguia ajudar. Aí rodava, daqui a pouco saía, parava e arrumava outro, até que o negócio engatou de vez e a gente começou a fazer essas novas captações e hoje conseguiu ter uma quantidade estável de motorista.

Como a demanda aumentou, a gente conseguiu mostrar que realmente dava resultado, que fazia sentido trabalhar como motorista.

Hoje são quantos motoristas cadastrados?

 Eliel: Aqui em Bataguassu, em média 25. No total deve ter uns 100.

A Me Levi está presente em outras cidades?

Eliel: Sim, tem operação em mais três cidades aqui da região.

Como funciona a seleção dos motoristas? Quais os critérios?

Eliel: Primeiro de tudo é a questão da nossa demanda, porque não adianta você ter muitos motoristas, mas não ter demanda para todo mundo. Então, a gente analisa muito qual é o perfil da cidade, se realmente está com necessidade, se dá para melhorar com os que já estão rodando e aí sim faz a captação.

Quanto ao perfil do motorista, a gente pergunta se tem história, se já trabalhou antes e a gente não costuma colocar, por exemplo, pessoas que trabalham em dois, três aplicativos na cidade. Colocamos os que trabalham especificamente com uma marca, porque são cidades pequenas, então fica complicada essa concorrência. 

Verificamos a documentação, se está tudo certinho com o veículo também. A gente analisa muito a questão do veículo para não pegar aqueles carros muito antigos.  Embora a cidade ainda não exija nada, a gente já procura trazer essa média, procurar um padrão.

Como foi a captação dos passageiros?

Eliel: No começo foi na amizade. Avisa para o avô, para a avó, vai contatando, conversando com um, com outro, deixando o cartãozinho em pontos comerciais.

Mas a gente estava com um receio se realmente ia dar certo, então para injetar investimento no início sem ter essa certeza, ficamos com um pé atrás.

Então foi mais no boca a boca mesmo, trazendo conhecidos e por isso demorou um pouquinho mais. Hoje já mudamos o cenário, como é algo que está mais firme, que tem um potencial, a gente trabalha muito com as mídias sociais, com as páginas da cidade que as pessoas acessam muito também. No princípio eu também usei muito o WhatsApp, fiz divulgação em massa lá.

Então, hoje o nosso marketing está mais na mídia mesmo. Todas as redes sociais e eventos que também.

Você tem sócios?

 Eliel: Não. Só nas outras cidades que tem como se fosse um licenciado.

Qual foi o investimento inicial para ter a plataforma no ar? Em quanto tempo ela começou a se pagar?

Eliel: Pelo menos uns R$ 50 mil. Isso lá em 2015 foi pouca coisa em comparação com o que o mercado poderia pegar. Daria para expandir mais se eu tivesse depositado mais. 

Tenho que dizer que é só agora que ela está se pagando. Como foi um processo um pouquinho longo, como eu costumo dizer: o trabalho de formiguinha acontece, mas acontece devagar. Então, a gente pode dizer que está colhendo os frutos hoje, ficamos quatro, cinco anos só no sofrimento.

Em que momento você percebeu que o app estava dando certo?

Eliel: Como eu trabalhava ainda CLT, mesmo dirigindo a plataforma há uns anos atrás, eu vi que estava aumentando a demanda, que tinha ali dois, três motoristas rodando, que tinha potencial. Então, acabei abandonando o serviço de CLT para ficar somente na plataforma.

Até porque, como eu tinha que focar no CLT, porque era minha renda e no aplicativo, eu acabava ficando muito amarrado, não crescia, não conseguia ter ideias novas. Quando eu tomei a decisão de sair de algo que era certo para ir para algo incerto, começou a funcionar, porque aí eu comecei a ter visão de mercado e acompanhar mais de perto. Para evitar perdas também, porque como eu estava no serviço e às vezes prestava socorro fora da cidade, quando eu chegava estava cheio de corridas perdidas.

Qual foi o momento mais desafiador até agora?

Eliel: Eu acho que o pós-pandemia. Durante a pandemia, eu digo que foi uma das melhores épocas que a gente teve, embora fosse uma época complicada, a nossa região, por ser cidade pequena, o pessoal vai muito para a cidade vizinha para ir ao médico e como fechou tudo, os ônibus acabaram parando de rodar, foi um momento em que a gente teve uma alta demanda.

No pós-pandemia, quando começou a liberar tudo, começou a diminuir essa demanda e a gente sentiu esse impacto.

Em média, quantas corridas estão fazendo por mês? Tem alguma época do ano que tem mais demanda?

Eliel: Entre 4 mil e 6 mil. 

De outubro até o final do ano é a época que tem uma demanda maior, mas por incrível que pareça não cai muito quando começa o ano. Em fevereiro, março a gente começa a sentir a saída. Mas eu não me lembro de ter tido um mês de janeiro horrível. Cidade interior as pessoas continuam vivendo da mesma forma, não afeta tanto.

O que movimenta a cidade? Tem indústrias, universidade?

Eliel: O que mais movimenta a cidade são as indústrias, temos bastante aqui na região.

Hoje a cidade vive uma expansão, porque agora, nos próximos meses, vai ser montada uma mega fábrica de celulose que a tendência é trazer pelo menos 12 mil pessoas ainda esse ano para a cidade. Então vai ter um crescimento bom na região.

Vocês têm categorias diferentes ou é uma categoria única?

Eliel: A gente tem uma categoria única, porque as pessoas não sabem usar. Não adianta colocar 10 categorias se o pessoal vai chamar sempre na primeira. Cidade pequena não dá para ficar inventando muito, ter diferença de preço, categoria, isso e aquilo. Tem que ser um só e pronto. O importante é que eles tem que saber que vão chamar e vão ser atendidos.

Qual o valor da corrida mínima para o passageiro? Vai até quantos quilômetros? Qual o valor do quilômetro rodado?

Eliel: Hoje a gente aumentou para R$ 18. Esse valor vai até  uns 3 km ou 4 km. Depois disso o quilômetro rodado está em média R$ 1,80, R$ 2.

Qual o valor da taxa do motorista? É cobrado por porcentagem?

Eliel: Hoje a gente trabalha no modelo de porcentagem, com uma cobrança de 15% por corrida.

Quanto um motorista consegue faturar mensalmente?

Eliel: Vamos colocar de R$ 6 mil a R$ 10 mil uma média.

Vocês trabalham com bandeiras diferentes ao longo do dia?

Eliel: Sim, a gente muda o valor a noite. No período após as 19h até a meia-noite e da meia-noite em diante também faz a mudança dos valores. Só que a gente não trabalha tanto por tempo no perímetro urbano.

Você pensa em expandir a Me Levi para outras cidades? Pretende manter na gestão própria ou fazer no modelo de franquias?

Eliel: A ideia é manter o licenciamento e o modelo de franquia. A gente está finalizando o registro da marca para poder fazer as franquias. Essa é a ideia.

Além da expansão, tem outras metas que vocês pretendem alcançar até o final de 2026?

Eliel: A gente tem expectativa com essa chegada da fábrica aqui na cidade. A cidade inteira está na expectativa desse crescimento. Tem potencial de duplicar o que a gente já faz. Pela quantidade de pessoas que estão chegando, a expectativa é duplicar o que fazemos hoje.

O que diferencia a Me Levi dos outros aplicativos da cidade?

Eliel: Eu acho que o principal diferencial é o fato de ter começado primeiro. Isso fez com que a gente tenha uma demanda boa hoje em dia, onde a gente consegue manter os motoristas, a qualidade do serviço e a rapidez no atendimento.

O que acontece em muitas cidades é que demora o atendimento, mas com a gente é bem bacana que temos uma quantidade boa de motoristas, conseguimos fazer esse atendimento de forma rápida e isso acaba atraindo. Embora a concorrência, no início, tenha jogado o preço pela metade do nosso, o fato de a gente ter essa quantidade de motoristas e conseguir fazer o atendimento fez com que a gente conseguisse se manter no mercado sem precisar baixar o nosso preço.

Do que você se orgulha nessa trajetória?

Eliel: Eu vejo que tem dado certo, porque no princípio praticamente ninguém acreditava que daria. A gente via o pessoal falando: “Ah, mas a cidade de interior não tem potencial”.

E quando as coisas começaram a dar certo a gente viu as pessoas que falaram que não ia dar certo, pedindo para trabalhar como motorista. Então a gente vê que as coisas fluíram.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?

Eliel: Eu vejo que hoje em dia os aplicativos estão crescendo muito, mas ao mesmo tempo, está ficando um pouco saturado nas cidades pequenas. Porque o primeiro monta o aplicativo, aí alguns dos motoristas às vezes ficam insatisfeitos e montam outra plataforma para se tornar concorrente. E três, quatro, cinco aplicativos numa cidade só, acaba ficando ruim porque ninguém ganha.

Antes montar uma plataforma não era barato. Tinha um certo custo inicial e até para contratar a plataforma era difícil. Hoje, para você começar, você acha muito barato, se tornou fácil. E aquilo que é fácil acaba aumentando muito no mercado e saturando.

Porque antes, quando você tinha a ideia e ia procurar como montar e quanto custava, muitos desistiam. Hoje em dia não. 

Qual legado você quer deixar com a Me Levi Car Brasil?

Eliel: A gente quer deixar que existe um potencial de crescimento, embora você comece pequeno, pode se tornar grande um dia. Não importa o desafio que a gente tenha que vencer, tem que correr atrás das coisas para dar certo.