Em um mercado de mobilidade dominado por grandes plataformas, aplicativos regionais vêm ganhando espaço ao prometer taxas menores, suporte mais próximo e maior retorno financeiro para os motoristas — especialmente em cidades médias e pequenas. É nesse contexto que surge o Vale Driver, criado em 2020 e hoje presente em cerca de 100 municípios, com mais de 50 mil passageiros e mais de 50 mil corridas finalizadas por mês, segundo a empresa. 

Nesta entrevista, Edson Rodrigues, CEO do Vale Driver, conta como saiu do trabalho como motorista para criar a própria plataforma, relembra os desafios para colocar o app de pé — incluindo embates com legislação municipal — e defende que o crescimento dos aplicativos locais depende, sobretudo, da adesão e da conscientização dos motoristas.

Para começar, queria saber onde você nasceu, como foi sua infância e com quantos anos você começou a trabalhar. Você imaginava atuar com mobilidade urbana?

Edson Rodrigues: Eu sou do Sul, do Paraná, de Campo Mourão. Tenho 50 anos e comecei a trabalhar muito cedo, com 8 anos de idade. Na infância, eu nem sonhava em trabalhar com mobilidade urbana. Eu trabalhava em outras áreas e não conhecia nada desse mercado.

O que me levou a me interessar por isso foi quando eu comecei a trabalhar como motorista por aplicativo. Eu fui o primeiro motorista da Uber na minha cidade. Foi ali que eu comecei a pensar: “Por que eu não posso ter o meu próprio aplicativo?”.

Você trabalhou em quais áreas antes de entrar no transporte por aplicativo?

Edson Rodrigues: Trabalhei de tudo. Eu fui morar em uma casa com energia elétrica quando eu já tinha 20 anos, então a realidade era bem dura. Trabalhei em indústria, e no Sul tem muito frigorífico, então trabalhei em abatedouros e com frios.

Depois, em Minas Gerais, trabalhei em empresas de eletrônica — minha cidade é conhecida como Vale da Eletrônica. Já fui tratorista, caminhoneiro, tenho categoria E. Fiz muita coisa na vida.

O que você acha que trouxe desses trabalhos para a sua trajetória como empreendedor?

Edson Rodrigues: Acho que a principal coisa foi persistência. Eu nunca desisti. Mas eu confesso: antes de conhecer essa área, eu não tinha motivação. Sabe quando chega domingo à tarde e você já sofre porque no dia seguinte é segunda-feira? Eu era assim.

Quando eu conheci o transporte por aplicativo, eu me apaixonei. Não tinha mais domingo, feriado, nada disso. Eu gostava de ganhar dinheiro, de conversar com as pessoas, de estar em contato com o cliente. Isso foi muito gratificante para mim.

E como foi seu período como motorista de aplicativo? O que te incomodava nas plataformas maiores?

Edson Rodrigues: Houve mudanças nas grandes plataformas — taxas cada vez mais altas e outras alterações que foram prejudicando o motorista. Eu percebi que, se a gente criasse um aplicativo com taxas menores e um jeito diferente de trabalhar, isso podia dar certo. E deu certo.

Você lembra do momento em que percebeu que era possível criar um aplicativo? Como começou esse processo?

Edson Rodrigues: Lembro bem. No fim de outubro de 2019, teve uma chuva de granizo aqui muito forte. Acabou com os carros, inclusive o meu, que era praticamente novo. O carro ficou três meses no conserto e eu fiquei sem trabalhar.

O seguro me deu carro por 15 dias e depois eu fiquei parado. Foi aí, no fim de dezembro de 2019, que eu comecei a pesquisar. Eu tinha tempo e precisava encontrar uma solução.

Cheguei a conversar com engenheiros, mas eu nem sabia o que pedir. Eu não sabia que uma plataforma envolve quatro aplicativos e um painel (dashboard). Eu não sabia de nada. No fim de janeiro de 2020, o Vale Driver foi entregue e começamos a operar, sempre melhorando desde então.

O que você viu como motorista que o Vale Driver resolveu na prática?

Edson Rodrigues: Principalmente o suporte e o contato direto. O motorista consegue falar com quem entende e ter resposta rápida. Resolver problema na hora muda tudo.

Além disso, o modelo precisa ser diferente: presença dos administradores, porcentagem menor para os condutores, valores de corridas mais altos e suporte de verdade. Se a gente fizesse igual às plataformas grandes, não teria sobrevivido.

Você tem sócio? Como foi essa estrutura inicial?

Edson Rodrigues: Sim. Eu convidei um colega meu daqui, o Inguerson, que tem idade para ser meu filho. É uma pessoa que eu considero meus dois braços. Ele cuida mais da parte de marketing, parcerias comerciais e suporte ao passageiro. Eu cuido da “máquina”: calibragem da plataforma, regras e suporte ao motorista.

A gente também está fechando com uma empresa especializada para fazer suporte para motorista e passageiro, porque a Vale Driver cresceu tanto que só eu e ele não damos mais conta.

Vocês precisaram de muito investimento para criar a plataforma?

Edson Rodrigues: Criar a plataforma é barato. O caro é “startar”: marketing, divulgação, materiais, ações na rua. Ter nome e marca registrada é difícil. Fazer funcionar é difícil. Mas a parte técnica de criar a plataforma, hoje, é a parte mais simples.

Em quanto tempo o aplicativo começou a se pagar?

Edson Rodrigues: Foi rápido: em três ou quatro meses a gente parou de tirar dinheiro do bolso.

A gente rodava muito. Quase 24 horas. Eu brincava que a gente dormia de uniforme, porque se tocasse corrida na madrugada, a gente ia. Andava longe para buscar cliente só para manter o passageiro e criar base. Acho que isso ajudou o retorno a acontecer rápido.

Como foi captar motoristas e passageiros no começo?

Edson Rodrigues: A cidade é pequena e eu era conhecido, porque fui o primeiro motorista de aplicativo aqui. Então foi mais tranquilo. Fizemos uma reunião com 18 ou 20 motoristas, cadastramos e começamos.

Hoje, a procura é muito grande para trabalhar com a Vale Driver, pelo menos na matriz, que é Santa Rita do Sapucaí.

Qual foi o momento mais difícil desde o início?

Edson Rodrigues: Foi quando a prefeitura tentou criar uma lei municipal para regulamentar o aplicativo. Isso, na prática, prejudica motoristas e plataformas. Em cidades grandes se usa lei federal, mas aqui tentaram impor regras locais.

Eu entrei com ação no Ministério Público e conseguimos derrubar quatro artigos inconstitucionais. Queriam limitar preço da corrida, vincular a tarifa ao bilhete de ônibus, exigir CNH do estado, exigir placa do município… isso tudo é inconstitucional. Foi um período difícil e me preocupou bastante.

Qual foi a maior mudança em você depois de empreender?

Edson Rodrigues: Financeiramente, é uma virada enorme. Pensa em alguém que nunca comprou nem uma bicicleta nova e depois consegue comprar carro novo, melhorar de vida, realizar sonhos.

Mas minhas raízes não mudam. Continuo humilde, tranquilo. E eu sempre reforço para motoristas: investir em ferramenta boa, um carro melhor, faz diferença no retorno.

Em que momento você percebeu que o aplicativo realmente estava dando certo?

Edson Rodrigues: Eu não gosto de pensar “deu certo”. Eu acho que um negócio é como uma planta: você cuida todo dia. Eu vejo como algo que está sempre crescendo e com espaço para crescer mais.

Como é sua rotina hoje? Você ainda roda como motorista?

Edson Rodrigues: Hoje é mais tranquilo. A plataforma gira bem sozinha depois que você calibra. O que pega mais é o atendimento e as demandas do dia a dia. Às vezes eu fico uma hora sem responder e já acumula coisa.

Eu gosto de fazer corrida para ouvir cliente e motorista, mas este ano eu ainda não rodei. E eu digo: é difícil alguém criar aplicativo sem viver a rua. Tem gente que me procura dizendo que quer criar aplicativo, mas nem dirige. Eu acho muito difícil dar certo assim. Tem que viver aquilo.

Do que você mais se orgulha na sua trajetória?

Edson Rodrigues: De ver quantas famílias vivem disso. Tem motorista que, em dezembro, faturou R$ 18 mil no mês. E você fica feliz quando alguém diz: “Formei meu filho trabalhando na Vale Driver”, “paguei minhas contas”, “comprei carro”, “mantive minha família”.

Aqui não tem idade: tem gente com 75 anos rodando, fazendo corrida no horário que quer, descansando quando precisa.

Saber que eu não tinha experiência, não tinha recurso, nunca tinha empreendido… e hoje ver uma empresa que movimenta milhões no mês, isso dá orgulho. Eu fico até emocionado.

Hoje, em quantas cidades o Vale Driver está presente? E vocês pretendem expandir?

Edson Rodrigues: A gente está liberado em cerca de 100 cidades. Tem cidade que já dá lucro, outras estão começando, e outras ainda nem iniciaram operação de fato. Existe um processo: você precisa entender a legislação local e só depois começar um trabalho consistente.

Nos próximos cinco anos, eu acredito que a gente pode dobrar o número de cidades. Hoje ficou mais fácil porque o Vale Driver ficou conhecida e muita gente do Brasil inteiro procura parceria.

Quantos passageiros e motoristas a plataforma já tem? E quantas corridas acontecem por mês?

Edson Rodrigues: São milhares de motoristas e mais de 50 mil passageiros. Por mês, são mais de 50 mil corridas finalizadas.

No acumulado, já são mais de 2,3 milhões de corridas finalizadas.

Como funcionam os valores e a taxa cobrada do motorista?

Edson Rodrigues: A corrida mínima é R$ 9 e a maior taxa cobrada do motorista é 10%. Em algumas cidades, principalmente no começo, a taxa pode ser de 5%.

A gente também tem preço dinâmico e cinco bandeiras ao longo do dia. Em certos horários, o mínimo pode dobrar — por exemplo, em horários de maior demanda pode chegar a R$ 18 de mínimo. E esse mínimo inclui apenas 1 km. A partir disso, soma o valor por quilômetro.

Em média, o motorista recebe algo em torno de R$ 2,50 a R$ 3 por km, mas isso varia conforme a corrida.

Você comentou sobre ganhos de motoristas. Qual foi o maior faturamento do mês?

Edson Rodrigues: Em dezembro, o motorista que mais produziu fez R$ 18 mil no mês. Esse mesmo motorista é recorrente no topo do ranking — ele já havia faturado cerca de R$ 13,5 mil em outros meses. Por isso, inclusive, deixamos de fazer campanhas de premiação: sempre que criávamos um bônus, como um Pix de R$ 100 para quem mais produzisse, ele acabava ganhando.

Um ponto interessante é que esse motorista trabalha com um carro 100% elétrico, o que reduz drasticamente os custos com combustível. Muita gente ainda tem receio desse tipo de veículo, mas, na prática, ele mostra que pode ser uma excelente alternativa — e, na minha visão, é o caminho natural para o futuro da mobilidade.

Como funciona o pagamento ao motorista? O passageiro paga no app ou direto?

Edson Rodrigues: A maioria paga direto ao motorista, dentro do carro: dinheiro, Pix, cartão ou maquininha. Pagamento online ainda é menor.

Quando tem pagamento online, existe sistema de saque, mas como cobra taxa alta, a gente faz manualmente via Pix: o motorista chama o suporte e a gente transfere e dá baixa na carteira.

A gente também trabalha muito com voucher corporativo: empresas pagam depois e o motorista recebe na hora. Em Santa Rita, temos muitas empresas parceiras e isso ajuda bastante.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?

Edson Rodrigues: Eu digo para os motoristas: valorizem os aplicativos regionais. Se todo mundo apoiasse, o motorista lucraria mais. Plataforma grande tem muito gasto e tira do motorista.

A regional tem porcentagem menor, contato direto com os gestores e pode dar retorno melhor.

E cidade pequena também dá lucro. Santa Rita do Sapucaí tem 43 mil habitantes e chega a fazer 1.500 a 2.000 corridas por dia. É uma cidade pequena e é a que mais roda na Vale Driver.

O que falta para os aplicativos regionais dominarem mais o mercado?

Edson Rodrigues: Conscientização dos motoristas. Muitos acham que só plataforma grande dá dinheiro, mas às vezes é melhor fazer menos corridas e lucrar mais, gastando menos combustível e desgastando menos o carro.

O valor da corrida é maior e a porcentagem é menor. Falta valorizar o que é local e mudar essa ideia de corrida a R$ 5 ou R$ 6, que não paga nem um litro de combustível.

Para finalizar: qual legado você quer deixar para sua região e para as cidades onde a Vale Driver atua?

Edson Rodrigues: Quero que as pessoas lembrem que um dia nós passamos por aqui e ajudamos a criar oportunidade de trabalho. Muita gente que não conseguia mais entrar no mercado encontrou no aplicativo uma forma de manter a família.

Eu não tinha conhecimento, não tinha experiência na área, e mesmo assim conseguimos montar uma empresa que gera trabalho e renda para muita gente. Esse é o legado.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.