A trajetória de Jair Barcellos na mobilidade começou antes do Vai de Rota. Ele participou da fundação de outro aplicativo regional e atuou na expansão da operação no Sul do país. Depois de divergências societárias, deixou o projeto e decidiu criar uma nova marca ao lado da irmã, Marlene Barcellos, proprietária da empresa.

Jair, hoje com 53 anos, veio da área pública e se define como uma pessoa “analógica” que precisou se adaptar à tecnologia. A entrada no setor aconteceu ao perceber que o celular havia se tornado uma ferramenta central para o transporte.

“Eu não vim da tecnologia. Fui me adaptando. Vi que o celular era o negócio da vez e que o transporte estava tomando esse caminho”, afirma.

Empresa familiar divide operação e expansão

No dia a dia, Marlene fica mais ligada à operação local, enquanto Jair atua na abertura de novos municípios e na expansão comercial. Ele se considera um diretor de expansão do negócio, com procuração para conduzir as operações.

O investimento inicial para lançar o aplicativo foi de cerca de R$ 25 mil. Jair afirma que, até hoje, a operação reinveste boa parte do que gera e que o aplicativo ainda está em uma fase de amadurecimento.

“O que a gente ganha, a gente investe na própria empresa”, diz.

Primeira cidade foi Xanxerê

A primeira cidade do Vai de Rota foi Xanxerê, em Santa Catarina, onde Jair foi criado. Segundo ele, a maior dificuldade inicial era convencer a população e os motoristas de que o aplicativo daria certo em um município onde a tecnologia ainda encontrava resistência.

“Na época, a corrida custava R$ 6,99, enquanto o táxi saía por R$ 10. Mesmo assim, havia desconfiança sobre a viabilidade do modelo”, lembra.

Estratégia mudou após experiências em cidades pequenas

Ao longo dos anos, o Vai de Rota abriu operações em várias cidades, mas também fechou projetos que Jair considera terem sido escolhidos de forma errada. Hoje, ele afirma que evita entrar em cidades acima de 80 mil a 100 mil habitantes no modelo tradicional de mobilidade de rua.

“A nova estratégia é migrar parte importante da operação para contratos com empresas privadas e órgãos públicos”, explica. 

Foco passa a ser B2B e setor público

O Vai de Rota continua operando corridas de rua, mas Jair afirma que o futuro da empresa está em serviços para empresas e prefeituras. O aplicativo passou a oferecer uma solução em que a empresa contratante agenda corridas, transporta colaboradores, pacientes ou clientes e paga a operação de forma semanal, quinzenal ou mensal.

“Hoje a prefeitura de Chapecó movimenta cerca de 6 mil corridas por mês pelo sistema, principalmente no transporte de pacientes. A rua continua, mas o foco que estou colocando agora é o poder público e grupos privados, como supermercados e cooperativas”, afirma. 

Aplicativo faz cerca de 50 mil corridas por mês

O Vai de Rota realiza em torno de 50 mil corridas mensais, incluindo corridas de rua, atendimentos empresariais, entregas de supermercado e contratos públicos. Só em Chapecó, são de 250 a 300 pacientes transportados por dia, segundo Jair.

Nas corridas de rua, o volume estimado fica entre 20 mil e 30 mil viagens mensais.

Marca ainda está em amadurecimento

Apesar dos seis anos de atuação e de estar perto de alcançar 2 milhões de corridas acumuladas, Jair diz que ainda não considera que o aplicativo chegou ao ponto ideal. 

“Estamos chegando a 2 milhões de corridas, mas ainda estamos em amadurecimento. A gente não para de investir, testar pilotos e validar novos serviços”, afirma.

Mobilidade abriu novos negócios

O Vai de Rota também levou Jair a criar outros negócios ligados à operação. A necessidade de adesivar veículos fez com que ele entrasse no mercado de comunicação visual e publicidade em carros.

Hoje, além do aplicativo, ele atua com empresas de adesivos, banners, fachadas e mídia em veículos, em Santa Catarina e Mato Grosso. A ideia é usar carros que circulam pela cidade como alternativa a outdoors tradicionais.

“Eu precisava de adesivo para pôr nos meus veículos. Daí criei uma operação de comunicação visual e publicidade em carros”, conta.

Plataforma tem 60 mil clientes e 3,4 mil motoristas registrados

O Vai de Rota tem cerca de 60 mil clientes pessoa física cadastrados e 32 CNPJs, entre empresas e contratos institucionais. Na base de motoristas, são aproximadamente 3,4 mil registros, embora Jair estime que entre 500 e 600 motoristas estejam atuando de fato.

Vai de Rota atua em 39 cidades

A operação está presente em 39 cidades. Como cada praça tem uma realidade diferente, as tarifas variam. A corrida mínima mais baixa fica em R$ 9,99, enquanto a mais alta chega a R$ 17 em cidade turística.

A mínima de R$ 9,99 cobre cerca de 1,2 km. Já a de R$ 17 cobre até 2 km e é praticada em Treze Tílias, cidade turística de Santa Catarina onde os motoristas também podem atuar como guias.

“Tem cidade em que o motorista precisa falar inglês ou alemão, porque vem muito turista da Alemanha”, explica.

Valor médio do quilômetro fica perto de R$ 3

Segundo Jair, o valor médio do quilômetro rodado fica em torno de R$ 2,90 a R$ 3. O recorde de faturamento de um motorista foi de R$ 22 mil no fim do ano. Em operações mais fortes, há motoristas que chegam à média de R$ 15 mil a R$ 16 mil.

Aplicativo trabalha com taxa e mensalidade

O Vai de Rota tem dois modelos de cobrança. Em parte das operações, cobra comissão por corrida, que pode começar em 5% e chegar a até 20%, conforme a cidade e o estágio do projeto. Em outras praças, há motoristas mensalistas, que pagam de R$ 300 a R$ 500 por mês e não têm desconto por operação.

No modelo por comissão, o motorista compra créditos e o valor é descontado conforme realiza as corridas. Em cidades novas, a empresa costuma isentar os condutores por 30 ou 60 dias, depois começa com 5%, 8% ou 10%, até chegar ao teto.

Operação movimenta cerca de R$ 500 mil por mês

Jair estima que o Vai de Rota movimente cerca de R$ 500 mil por mês em corridas. Considerando a operação com taxas, o faturamento bruto da empresa pode chegar a algo próximo de R$ 100 mil, mas a liquidez real fica entre 6% e 8%, já que a maior parte é reinvestida.

Segundo ele, a empresa está revendo a permanência em cidades que exigem muito investimento e não geram retorno suficiente.

“Aquele sonho de estar em tantos lugares está acabando. Melhor estar em poucos e ganhar mais pelo trabalho”, afirma.

Venda de franquias deixa de ser prioridade

O plano futuro do Vai de Rota não é mais vender franquias apenas pela marca. Jair afirma que a empresa quer expandir somente com contratos empresariais, prefeituras ou operações já estruturadas com contrato assinado.

A preocupação é preservar o valor da marca, evitando que uma operação mal conduzida em uma cidade prejudique a reputação construída ao longo dos anos.

“Hoje, nosso maior patrimônio é o nome da empresa”, afirma.

Futuro da rua preocupa gestor

Jair avalia que o futuro da mobilidade de rua é incerto para empresas regionais. Segundo ele, a presença de motoristas autônomos, clandestinos e operações informais pressiona quem tem CNPJ, equipe, tributos e estrutura.

“Se não houver mais fiscalização dos órgãos públicos, parte das empresas tende a reduzir presença ou deixar o mercado de rua. O futuro da rua vai ser muito autônomo, não de empresas. O próprio motorista pode virar concorrente, mas sem CNPJ”, avalia.

Corridas por fora são problema recorrente

Jair afirma que as corridas por fora são um dos maiores desafios do negócio. Segundo ele, o motorista e o passageiro são os dois produtos centrais de uma plataforma, mas muitas vezes o próprio motorista cria relação direta com o cliente e tira a corrida do aplicativo..

“No momento em que eu souber de uma corrida clandestina usando meu adesivo ou meu crachá, eu excluo na hora e não retorna mais”, afirma.

Tecnologia e infidelidade comercial incomodam

Entre as maiores dificuldades do mercado, Jair cita tecnologia, concorrência informal e infidelidade comercial. Segundo ele, a empresa depende de fornecedores para desenvolver novas funções, o que pode levar meses ou anos. Por isso, passou a desenvolver internamente algumas ferramentas empresariais com apoio de um sobrinho, que atua como diretor de tecnologia.

Outro incômodo é ver pessoas treinadas ou parceiros saírem para criar operações concorrentes após absorverem conhecimento da empresa.

“Eu ensino, capacito, invisto tempo e dinheiro, e a pessoa me abandona na hora em que eu ia começar a ganhar dinheiro”, diz.

Regionais já têm boa tecnologia, mas demanda é desafio

Na visão de Jair, a tecnologia dos aplicativos regionais evoluiu bastante. Em cidades pequenas, onde Uber e 99 não estão presentes, a barreira não está necessariamente no sistema, mas na formação de motoristas e na criação de demanda.

Ele afirma que, ao entrar em cidades do interior, muitas vezes a própria empresa precisa formar o motorista desde o início.

Grandes plataformas dificultam disputa por motoristas

Jair não acredita que os regionais consigam conquistar uma fatia maior do mercado de rua sem grande investimento. Para ele, falta demanda suficiente para tirar motoristas de grandes plataformas, e o empresário regional nem sempre tem fôlego para bancar premiações, bônus e campanhas.

Por isso, diz estar revendo a meta de ser o maior aplicativo do Sul e direcionando energia para o B2B.

“Minha ideia era ser o maior e melhor aplicativo do Sul, mas hoje estou revendo esse conceito. É muito caro”, afirma.

Legado é ter criado oportunidade onde não havia

Ao falar sobre legado, Jair diz que o Vai de Rota ajudou a impulsionar um mercado antes invisível em algumas cidades pequenas. 

“Eu trouxe uma nova operação para o município, novas oportunidades de renda para  pessoas que passaram a trabalhar com transporte por aplicativo. Esse é o legado que eu deixo”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.