A trajetória de Júlio Campos na mobilidade começou no período da pandemia. Mineiro de 40 anos, morador de Cássia, cidade de cerca de 17 mil habitantes no Sul de Minas Gerais, ele arrendou um táxi do pai de seu cunhado e passou a trabalhar no carro, pagando um salário mínimo por mês pelo uso do veículo.
Na época, a cidade se preparava para a inauguração do Santuário de Santa Rita de Cássia, apontado por Júlio como o maior do mundo dedicado à santa. A movimentação esperada fez com que ele enxergasse uma oportunidade no transporte por aplicativo.
“Eu pensei: vou montar um aplicativo e parar de arrendar o táxi. Pesquisei, corri atrás e comecei. O app foi entregue dois dias antes da inauguração”, conta.
Aplicativo nasceu em maio de 2022
O Urbs Car começou a funcionar em maio de 2022. A operação está presente em Cássia e em Capetinga, cidade vizinha. Segundo Júlio, a expansão ainda é limitada porque exige capital para divulgação e estrutura, principalmente diante de concorrentes maiores.
Hoje, ele afirma que ainda não consegue se dedicar 100% ao aplicativo porque viaja com frequência prestando serviços para outra empresa.
Primeiros motoristas vieram por indicação e conversa direta
Por estar em uma cidade pequena, Júlio tentou captar os primeiros motoristas a partir de contatos locais. Primeiro, conversou com taxistas, mas o grupo não aderiu à ideia e chegou a reagir mal ao surgimento do aplicativo. Depois, buscou amigos e conhecidos.
No começo, ele conseguiu cadastrar 15 motoristas.
“Para uma cidade pequena, 15 motoristas no começo foi muito bom. Mas os taxistas não quiseram, ficaram até bravos comigo na época”, lembra.
Júlio toca a operação sozinho
O Urbs Car não tem sócios. Júlio resume a gestão dizendo que está sozinho à frente da plataforma. A operação depende diretamente dele, tanto na parte de relacionamento com motoristas quanto na divulgação e na retomada da base de passageiros.
A falta de equipe também torna a rotina mais pesada, especialmente porque ele ainda precisa trabalhar fora para complementar a renda.
Táxi motivou entrada no aplicativo
Antes de criar o Urbs Car, Júlio trabalhou no táxi e viu limitações no modelo tradicional da cidade. Segundo ele, o transporte funcionava como uma espécie de cartel, com preços definidos pelo grupo e pouca abertura para novas formas de operação.
A entrada do aplicativo gerou resistência. Taxistas se mobilizaram, fizeram reuniões com prefeito, tenente e vereadores, e levaram o tema à Câmara. Mesmo assim, como a operação estava legalizada, o aplicativo continuou funcionando.
“Fizeram um escarcéu, mas estava tudo legalizado, não tinha o que fazer. Hoje eles já estão acostumados, mas foi bem difícil”, afirma.
Investimento inicial foi baixo, mas custos cresceram
Para colocar o aplicativo no ar, Júlio investiu inicialmente R$ 1.500. Depois, com a necessidade de adicionar cidades, bandeiras e ajustes de valores automáticos, o custo foi aumentando. Até hoje, ele estima ter investido cerca de R$ 10 mil na operação.
No início, quando havia mais motoristas, o investimento se pagou em cerca de seis meses.
“Achei bem barato no começo. O que vai pesando é que o aplicativo vem simples, e depois você vai pagando para adicionar cidade, bandeira e outras funções”, explica.
Convencer passageiro a usar o app foi o primeiro desafio
A maior dificuldade inicial foi convencer passageiros de uma cidade pequena a baixarem o aplicativo, fazerem cadastro e chamarem pelo sistema, em vez de pedir corrida diretamente pelo WhatsApp.
Segundo Júlio, como passageiros e motoristas se conhecem, o hábito de chamar direto continua forte.
“O motorista conhece praticamente todo mundo. Então, a maior dificuldade era convencer as pessoas a baixarem o app e chamarem por ali”, afirma.
Tempo é o principal obstáculo hoje
Atualmente, o maior desafio é a falta de tempo. O aplicativo ainda não gera renda suficiente para que Júlio viva apenas da operação. Por isso, ele presta serviço para uma empresa que entrega equipamentos de internet para provedores e passa boa parte da rotina viajando.
“Essa limitação fez com que o Urbs Car perdesse espaço para um concorrente com mais capital e maior capacidade de divulgação”, afirma.
Empreender trouxe noites sem dormir
Júlio afirma que empreender mudou sua relação com o trabalho. A falta de uma renda fixa mensal e a responsabilidade de manter a operação geram preocupação, mas ele diz que não pretende voltar ao modelo CLT.
“A gente passa algumas noites sem dormir, preocupado, mas é gratificante correr atrás, resolver problemas e ter ideias para bater de frente com concorrente”, diz.
Gestor também dirige e panfleta
Júlio também atua como motorista do próprio aplicativo. Além disso, quando precisa divulgar a operação, ele mesmo faz panfletagem, especialmente porque já teve problemas ao pagar terceiros para distribuir material e perceber que os panfletos eram descartados.
A divulgação ainda é limitada, mas ele começou a receber ajuda de um amigo que entende de marketing e o orientou a criar uma conta no Instagram para o aplicativo.
Urbs Car está em Cássia e Capetinga
O Urbs Car atua em Cássia e Capetinga. Hoje, a operação está reduzida em relação ao início. Júlio afirma ter poucos motoristas ativos, depois de um período em que quase desistiu do aplicativo.
Mesmo assim, ele vê potencial de retomada, principalmente porque a região tem perfil turístico e cidades próximas que poderiam receber a operação.
Corridas caíram para cerca de 300 por mês
Atualmente, o Urbs Car realiza cerca de dez corridas por dia, o equivalente a aproximadamente 300 corridas mensais. Júlio reconhece que o volume está baixo, mas afirma que a operação já teve mais demanda quando o aplicativo estava mais ativo.
Segundo ele, o concorrente local mais forte realiza cerca de 100 corridas diárias em Cássia, o que mostra que há demanda na cidade.
Corrida mínima é de R$ 7,99
A corrida mínima no Urbs Car começa em R$ 7,99. O valor cobre cerca de 800 metros a 1 km e funciona como chamariz para atrair passageiros. Depois dessa distância inicial, o valor é recalculado.
A taxa cobrada dos motoristas é de 10%, abaixo dos 15% cobrados pelo concorrente, segundo Júlio. A estratégia é atrair mais condutores e aumentar a disponibilidade do aplicativo.
“Estou lutando para cobrar menos e ter mais motoristas disponíveis 24 horas. Se o cliente chama e não tem motorista, ele desinstala”, afirma.
Motoristas costumavam faturar até R$ 5 mil
Segundo Júlio, motoristas da região costumavam faturar entre R$ 4,5 mil e R$ 5 mil por mês. Alguns ainda alcançam esse patamar, especialmente os parceiros que estão com ele desde o início.
“Os que estão comigo desde o início trocaram de carro. Hoje estão todos com carro novo”, conta.
WhatsApp ainda concentra 80% das viagens
Apesar de os motoristas pagarem taxa para usar o aplicativo, grande parte das corridas continua acontecendo pelo WhatsApp. Júlio estima que cerca de 80% do trabalho dos motoristas ainda venha por fora do app.
Na visão dele, isso é reflexo da cidade pequena, onde passageiros chamam diretamente amigos, parentes ou motoristas conhecidos.
Corrida aparece com taxa descontada
No modelo do Urbs Car, a corrida já aparece para o motorista com a taxa descontada. Júlio afirma que ele próprio foi o recordista de faturamento da plataforma, por trabalhar mais diretamente na operação.
“É o olho do dono que engorda o gado”, brinca.
Operação movimenta cerca de R$ 10 mil por mês
Com o volume atual de cerca de 300 corridas mensais, o Urbs Car movimenta em torno de R$ 10 mil por mês em corridas. Como a taxa é de 10%, a receita da plataforma fica próxima de R$ 1 mil mensais, o que ainda não permite que Júlio viva apenas do aplicativo.
A meta dele é chegar a pelo menos R$ 10 mil de renda mensal com o app e deixar as viagens de trabalho externo.
Plano é chegar a 15 cidades
Para os próximos anos, Júlio quer tornar o Urbs Car mais sólido, conhecido e presente em pelo menos 15 cidades.
“Daqui a cinco anos, espero que o aplicativo esteja mais sólido, mais conhecido e em pelo menos 15 cidades. A ideia é aproveitar o potencial turístico da região e expandir para municípios próximos”, afirma.
Corridas por fora são o que mais incomodam
Ao falar sobre os principais incômodos do mercado, Júlio cita os motoristas que trabalham por fora do aplicativo. Para ele, concorrência existe em qualquer setor, mas convencer o motorista a operar pelo app ainda é um desafio maior.
A disputa com outras plataformas faz parte do mercado, mas o uso do WhatsApp enfraquece a plataforma e dificulta a geração de receita.
União poderia fortalecer regionais
Na visão de Júlio, aplicativos regionais poderiam conquistar mais espaço se houvesse mais união entre gestores e motoristas. Ele cita que um concorrente forte da cidade chegou a procurá-lo no início para trabalharem juntos, mas, como já havia feito seu investimento, decidiu seguir sozinho.
Para ele, seria possível criar um modelo de trabalho que fortalecesse os regionais e incentivasse passageiros a usarem plataformas locais.
“Se tivesse mais união, dava para criar um modelo de trabalho que funcionasse para todo mundo”, avalia.
Instabilidade política preocupa mais que concorrência
Júlio acredita que há espaço para aplicativos regionais crescerem, mas diz que sua maior preocupação não é a concorrência com outras plataformas. O que mais o deixa em alerta é a instabilidade política e a sobrecarga de impostos no Brasil.
“Eu não tenho medo de concorrência, de 99, nada. Meu maior medo é a instabilidade política”, afirma.
Legado é deixar uma empresa sólida para o filho
Ao falar sobre legado, Júlio diz que ainda se vê pequeno e em fase inicial, mas quer construir uma empresa sólida. O sonho é ver carros adesivados do Urbs Car nas ruas e, no futuro, deixar uma operação funcionando para que o filho possa dar continuidade.
“Quero ver os carros na rua adesivados e, daqui 20 ou 30 anos, meu filho tomando conta de uma empresa solidificada”, conclui.
