A Urban 90 nasceu da experiência direta de Rodrigo Stutz Eller Lopes como motorista de aplicativo. Aos 41 anos, natural do interior de Minas Gerais, ele entrou na mobilidade em 2018, depois de ficar desempregado e tentar abrir uma empresa que não deu certo. A ideia inicial era apenas rodar para fazer renda, mas a vivência nas ruas mostrou um mercado ainda pouco atendido pelas grandes plataformas em cidades pequenas.

Na região onde começou, o táxi era caro, as grandes empresas não chegavam com força e os aplicativos existentes cobravam taxas consideradas altas. Em 2019, Rodrigo decidiu criar a própria plataforma.

“Nem nos meus melhores sonhos eu imaginei que fosse me tornar motorista de aplicativo. Entrei porque estava desempregado, comecei a rodar, achei interessante e vi a necessidade de criar a plataforma”, conta.

Atendimento humanizado foi a principal dor identificada

Rodrigo afirma que as altas taxas ajudaram a motivar a criação da Urban 90, mas a principal dor estava na falta de atendimento humanizado. Para ele, tecnologia é algo que diferentes empresas conseguem oferecer. O diferencial está em ouvir motoristas e passageiros de perto.

A proposta foi criar uma operação mais próxima, com contato direto, suporte local e capacidade de entender a realidade de cada cidade.

“Mais do que tecnologia, é poder ouvir o motorista e o passageiro para propor uma solução. As plataformas grandes não têm esse contato direto, não entendem a dor do motorista”, afirma.

Começo foi em grupos de motoristas e postos de gasolina

A captação dos primeiros motoristas começou de forma orgânica. Como Rodrigo já rodava, conhecia colegas que se reuniam em postos de gasolina, pontos de maior fluxo e grupos de WhatsApp. A partir daí, apresentou a ideia, criou grupos e começou a explicar como a plataforma funcionaria.

A primeira cidade tinha cerca de 20 mil habitantes. Depois, a operação foi chamando atenção em municípios vizinhos de 7 mil, 10 mil e 15 mil habitantes, principalmente por meio dos carros adesivados com QR Code para o passageiro baixar o app.

“No interior, até você implantar na cabeça da pessoa que a tecnologia está aí e que ela pode pedir pelo aplicativo, leva um tempo”, diz Rodrigo.

Pandemia acelerou expansão

A pandemia foi um ponto de virada para a Urban 90. Segundo Rodrigo, muitos empresários que tiveram atividades suspensas ou comércios fechados passaram a procurar o aplicativo como alternativa de renda.

Nesse período, a plataforma cresceu rapidamente e chegou a abrir em cerca de 15 cidades em aproximadamente um ano. Hoje, está presente em 40 cidades de sete estados.

A sede fica em Miraí, em Minas Gerais, e a operação inclui cidades em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Mato Grosso, Pará e Rio de Janeiro.

“Na pandemia, o negócio deu um boom. Muita gente viu o aplicativo como uma porta de saída para trazer sustento”, lembra.

Foco está em cidades pequenas e médias

A Urban 90 atua principalmente em cidades de 20 mil a 50 mil habitantes, embora também esteja presente em municípios menores, de cerca de 4 mil habitantes, e em cidades que chegam a 100 mil habitantes.

Segundo Rodrigo, essas cidades têm uma carência maior porque as grandes plataformas nem sempre enxergam viabilidade econômica em operar nelas com força.

“Cidade de 20, 30 mil habitantes é onde existe uma carência muito grande. As grandes plataformas não têm interesse, acredito que não seja economicamente viável para elas”, afirma.

Cada cidade tem um gestor local

Um dos pilares da Urban 90 é a gestão local. Cada cidade tem um gestor próprio, responsável por entender a necessidade do município, aprovar motoristas, criar cupons de desconto, configurar preços e acompanhar a operação.

Para Rodrigo, esse modelo é essencial porque cada cidade se comporta de um jeito. O gestor local tem autonomia para ajustar preços, categorias e estratégias conforme a demanda da região.

“Cada cidade tem seu gestor porque cada cidade se comporta de um jeito. A gestão é local”, explica.

Três sócios dividem a operação

Hoje, a Urban 90 tem três sócios. Rodrigo fica mais próximo da conexão com motoristas, gestores e pessoas. Um dos sócios atua na tecnologia, painel e resolução de demandas, enquanto outro cuida da parte financeira.

Até pouco tempo atrás, Rodrigo tocava a operação praticamente sozinho, com apoio da esposa e de uma colaboradora. A entrada dos sócios veio para dividir o peso da gestão e acelerar a expansão.

“O grande desafio do empresário no Brasil é ser tudo ao mesmo tempo. Eu falei: está pesado, preciso de alguém para compartilhar e dividir o peso”, conta.

Investimento inicial foi de cerca de R$ 20 mil

O investimento financeiro inicial da Urban 90 ficou em torno de R$ 20 mil. Mas, para Rodrigo, o maior investimento não foi o dinheiro, e sim o esforço, a presença e a dedicação para vender a ideia.

Ele afirma que abrir uma cidade exige contato direto, panfletagem, diálogo com motoristas, presença física e marketing digital. O tráfego pago é importante, mas não substitui a construção de confiança com quem vai rodar.

“O motorista tem que comprar a ideia de que o negócio é bacana e que não é só mais um aplicativo que chegou”, afirma.

Dificuldade financeira marcou o início

No começo, a principal dificuldade foi financeira. Rodrigo rodava durante o dia para ajudar nas corridas e, ao mesmo tempo, tentava divulgar a plataforma. A operação crescia com recursos limitados.

Hoje, o desafio mudou. Para ele, a principal barreira para entrar em novas cidades é fazer uma divulgação forte o suficiente para que passageiros conheçam o app.

“Às vezes você vai ouvir muito não, vai quebrar muito a cara na caminhada. Hoje, para entrar numa cidade, o grande desafio é fazer um marketing bacana”, diz.

Motoristas mostraram que o app estava no caminho certo

Rodrigo diz que sempre acreditou no potencial da mobilidade, porque as pessoas sempre precisam ir e vir. Mas o momento em que percebeu que estava no caminho certo veio quando motoristas passaram a contar como a plataforma estava impactando suas vidas.

Ele ouviu relatos de motoristas que conseguiram pagar faculdade de filhos, trocar de carro ou deixar empregos CLT para ter mais liberdade.

“Quando motorista chegava e falava: ‘Rodrigo, muito obrigado, consegui pagar a faculdade do meu filho’, eu pensava: estou no caminho certo”, conta.

“A Urban 90 trabalha para vocês”

A relação com os motoristas é uma das marcas do discurso de Rodrigo. Ele costuma dizer que os condutores não trabalham para a Urban 90; é a plataforma que trabalha para eles.

A lógica, segundo ele, é que o motorista sustenta a engrenagem da operação e precisa estar satisfeito para que a empresa cresça.

“Eu sempre falo: vocês não trabalham para a Urban 90. A Urban 90 trabalha para vocês”, afirma.

Plataforma tem 1,4 mil motoristas

A Urban 90 reúne hoje 1,4 mil motoristas em 40 cidades e tem 78 mil clientes ativos. Mensalmente, realiza cerca de 46 mil viagens finalizadas.

Rodrigo diz que o maior orgulho da trajetória é ter ajudado a mudar a vida de pessoas que encontraram na plataforma uma oportunidade de renda.

“O que mais me orgulho é poder ter mudado vidas, estar mudando vidas. É ter somado na vida de muita gente”, afirma.

Motorista escolhe entre taxa fixa ou cobrança por corrida

A Urban 90 não trabalha com um modelo único de cobrança. Cada cidade pode oferecer ao motorista a opção de pagar uma taxa fixa, mantendo 100% dos ganhos, ou pagar uma taxa por corrida.

Em algumas cidades, a cobrança é por viagem; em outras, há taxa semanal ou diária. Rodrigo cita exemplos de cidades em que o motorista paga R$ 10 ou R$ 15 por dia. Em outras, a taxa pode chegar a 15% por viagem, dependendo dos custos locais, como licenças e exigências municipais.

“A gente dá a opção para o motorista. Ele adota o jeito que achar melhor para ele”, explica.

Corrida mínima não fica abaixo de R$ 10

A corrida mínima varia por cidade, já que cada gestor configura a operação local. O menor valor citado por Rodrigo é R$ 9,90, mas ele defende que corridas abaixo de R$ 10 são desrespeitosas com o motorista, considerando combustível, manutenção, pneus, óleo, seguro e tempo de trabalho.

Em algumas cidades, o valor da corrida sobe no período da noite para incentivar motoristas a ficarem online entre 22h e 6h. Essa decisão é tomada após ouvir passageiros e gestores locais.

“Uma corrida de menos de R$ 10, para mim, é até um desrespeito com o motorista. Não é só combustível; é tempo, pneu, óleo e desgaste do carro”, afirma.

Categoria rural paga quilômetro maior

Como a Urban 90 atua em muitas cidades com zona rural, estrada de terra e regiões cafeeiras, a plataforma criou uma categoria específica para esse tipo de deslocamento. Na categoria rural, o quilômetro pode variar de R$ 2,80 a R$ 3,50.

Na categoria carro X, o valor parte de R$ 2 por quilômetro. A diferença existe porque, em estradas sem pavimentação, o desgaste do veículo é maior.

“Tem motorista que pega corrida para a roça e precisa lavar o carro todo dia. O Brasil é muito grande, cada realidade é uma realidade”, diz.

Motorista já faturou R$ 24,5 mil bruto em um mês

Rodrigo afirma que já viu motorista da Urban 90 faturar R$ 24,5 mil bruto em um mês. Segundo ele, não se trata de uma média, mas de um recorde obtido por um condutor que rodou muito.

A média para motoristas que trabalham com regularidade fica em torno de R$ 5 mil líquidos, podendo chegar a R$ 5,5 mil ou R$ 6 mil, dependendo da cidade e da dedicação do condutor.

“A gente quer que seja saudável para o motorista e para o passageiro. Tem que ser bom para três: plataforma, passageiro e motorista”, afirma.

Pagamento direto evita segurar dinheiro do motorista

A Urban 90 orienta que o passageiro pague diretamente ao motorista, seja em dinheiro, Pix ou maquininha. A ideia é evitar intermediar valores e reduzir custos sobre a operação.

Quando o motorista opta pelo modelo de cobrança por corrida, a plataforma configura uma carteira com limite de crédito, que vai sendo descontada. Se negativar, o condutor recarrega. Quando escolhe taxa fixa semanal ou mensal, 100% do ganho fica com ele.

“A gente não quer ficar com o dinheiro do motorista, não”, diz Rodrigo.

Licenciados ficam com faturamento local

Como cada cidade tem um gestor licenciado ou franqueado, Rodrigo não informa um faturamento consolidado da empresa. A Urban 90 cobra valores dos licenciados, mas a receita local da operação fica com cada gestor.

A meta da empresa não está centrada apenas em faturamento, mas em presença territorial. O objetivo é estar em todos os estados brasileiros até o fim de 2027.

Para isso, a marca começou a intensificar campanhas de tráfego pago em nível nacional e a divulgar casos de cidades em que os licenciados já estão dando certo.

Prefeituras ainda criam barreiras

Rodrigo afirma que uma das dificuldades da expansão em cidades pequenas é lidar com regulações municipais e resistências locais. Embora exista legislação federal para o transporte por aplicativo, cada município cria suas regras e, em alguns casos, dificulta a entrada das plataformas.

Ele defende que os municípios facilitem a operação porque o aplicativo gera renda, amplia a mobilidade e reduz custos para a população.

“Teve cidade em que uma pessoa da prefeitura bateu no peito e falou: ‘aqui vocês não vão entrar’. Mas é uma lei federal; o município pode regulamentar”, afirma.

Motoristas de táxi também estão entrando

Apesar das resistências iniciais, Rodrigo vê mudança no comportamento de parte dos taxistas. A Urban 90 tem uma categoria chamada Urban 90 TX, voltada a motoristas de táxi que querem atuar na plataforma.

Para ele, a mobilidade ainda vai passar por muitas transformações, inclusive com corridas subsidiadas por empresas, parcerias com comércios e promoções integradas a restaurantes e mercados.

Corridas por fora são combatidas com segurança e cashback

Rodrigo reconhece que corridas por fora são difíceis de combater. Por isso, a Urban 90 usa a função “maçaneta” e orienta os motoristas a sempre abrirem a corrida na plataforma, mesmo quando pagam taxa fixa.

A justificativa é a segurança: com a corrida aberta, há rastreabilidade e seguro de acidentes pessoais. A empresa também aposta em campanhas para passageiros, como cashback por corrida, sorteios de Pix e cupons eletrônicos.

“Não é porque você paga taxa fixa que não vai abrir corrida. Abre, porque tem rastreabilidade e seguro”, afirma.

Falta de suporte ao motorista incomoda

O que mais incomoda Rodrigo no mercado é ver plataformas que são criadas sem oferecer suporte real ao motorista. Para ele, muitos condutores já enfrentam uma rotina difícil e precisam de atendimento próximo, não apenas de tecnologia.

“O motorista é uma classe sofrida. Criar uma plataforma e achar que não precisa dar suporte incomoda”, diz.

Tecnologia regional não fica atrás

Na avaliação de Rodrigo, a tecnologia dos aplicativos regionais não está atrás das grandes plataformas. Ele afirma que há sistemas robustos, estáveis e competitivos no mercado, e que a diferença dos regionais está na proximidade com motoristas e passageiros.

“A parte de tecnologia não está deixando nada a desejar. O que faz a gente sair na frente é a proximidade e o atendimento humanizado”, afirma.

Futuro dos regionais passa por união

Rodrigo acredita que os aplicativos regionais devem crescer, principalmente se as grandes plataformas mantiverem taxas altas e valores baixos para motoristas. Ele também vê possibilidade de união entre plataformas menores para enfrentar concorrentes maiores.

Ao mesmo tempo, reconhece que Uber e 99 estão avançando para cidades menores, o que exige mais investimento em marketing e fidelização.

“A plataforma que quiser mais chamado vai ter que investir mais em marketing”, avalia.

Valorização do motorista é o caminho

Para conquistar mais espaço, Rodrigo acredita que aplicativos regionais precisam entender melhor os motoristas e tratá-los como parceiros. A empresa que criar condições de trabalho melhores, buscar parcerias e valorizar quem dirige tende a se sobressair.

“O motorista é a engrenagem do negócio. A empresa de tecnologia não transporta o passageiro”, afirma.

Categoria Pink atende mulheres

A Urban 90 também tem uma categoria voltada à segurança de mulheres: a Urban 90 Pink. Nela, passageiras mulheres podem ser atendidas por motoristas mulheres. As condutoras também podem configurar o aplicativo para aceitar apenas chamadas de passageiras.

Rodrigo diz que fica feliz quando mulheres entram na plataforma, especialmente porque muitas tinham receio de trabalhar com aplicativo.

“Quando entra uma motorista mulher, eu fico muito feliz. Hoje vejo muita gente trabalhando com orgulho”, afirma.

Legado é levar mobilidade ao interior

O legado que Rodrigo quer deixar com a Urban 90 é mostrar que moradores do interior também têm direito à mobilidade, tecnologia e oportunidades de renda. Para ele, cidades pequenas enfrentam mais dificuldades de internet, transporte e acesso a serviços, mas isso não deve impedir a inovação.

A meta pessoal é ter contribuído para melhorar a vida de motoristas, criando independência financeira e oportunidades de trabalho.

“O legado que eu quero deixar é ter mudado a vida de algumas pessoas, poder ter contribuído de forma positiva para melhorar a condição de vida”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.