Em um mercado de mobilidade urbana cada vez mais concentrado nas mãos de grandes plataformas, aplicativos regionais tentam se firmar oferecendo preços mais justos, proximidade com motoristas e soluções adaptadas à realidade local. É nesse cenário que surge a Uniporto Mobilidade Urbana, criada para atender as cidades de União da Vitória (PR) e Porto União (SC). 

Nesta entrevista, Felipe Milczuk, sócio-proprietário da Uniporto, relembra sua trajetória profissional, detalha os desafios de colocar um aplicativo regional em operação, fala sobre o modelo de cobrança adotado pela plataforma e defende que a sustentabilidade do setor passa pelo equilíbrio entre ganhos do motorista, preço ao passageiro e compromisso com a cidade onde o serviço atua.

Para começar, quem é você e quem está com você na operação da Uniporto?

Felipe Milczuk: Eu sou o Felipe, sócio-proprietário, e tenho meu sócio Emídio, que é sócio-administrador. Nós nascemos em União da Vitória (PR), na divisa com Porto União (SC), bem ao sul do país.

Como foi sua infância e adolescência?

Felipe Milczuk: Minha infância e adolescência foram marcadas por períodos difíceis. Antigamente, aqui na região sul, era muito difícil ter acesso a praticamente tudo. O que eu mais lembro desse período são os esforços da minha mãe para manter e sustentar a família.

Quando você era criança, o que imaginava ser profissionalmente?

Felipe Milczuk: Quando eu era criança e adolescente, eu achava que queria ser policial.

Com quantos anos você começou a trabalhar e quais foram seus primeiros empregos?

Felipe Milczuk: Comecei a trabalhar com uns 14 anos em um supermercado. Fiquei ali dos 14 aos 18. Depois, aos 18, fui servir o Exército Brasileiro e fiquei por três anos.

O que você aprendeu nesses trabalhos que carrega até hoje?

Felipe Milczuk: Disciplina, foco e aprender a lidar com o público.

Depois do Exército, por onde sua carreira passou?

Felipe Milczuk: Depois que saí do Exército, voltei para o ramo de supermercado. Depois fui vendedor externo, vendedor de alimentos. Trabalhei também em empresa que fabrica compensados, e depois em uma empresa do ramo de iluminação pública.

Você chegou a ser motorista de aplicativo antes de criar a Uniporto?

Felipe Milczuk: Sim. Eu iniciei na Uber. Só que aqui na nossa cidade — União da Vitória e Porto União — a Uber não chega a ter muita demanda de corridas e, principalmente, repassa um valor muito baixo para os motoristas.

Então, no início, eu trabalhava pela Uber até para captar clientes e migrar para outra plataforma regional onde eu também trabalhei. Fiquei nela por cerca de um ano a um ano e meio.

Foi nessa fase que surgiu a ideia de criar o aplicativo de vocês?

Felipe Milczuk: Foi por esse outro app que eu tive a ideia, junto com meu sócio, de montar o Uniporto Mob.

A gente percebeu que dava para criar um aplicativo para gerenciar melhor a demanda de corridas na cidade e também ter um retorno financeiro com isso.

Quando o aplicativo foi criado e quando começou a operar?

Felipe Milczuk: Foi em 2025, no dia 16 de fevereiro, quando o desenvolvedor criou a plataforma para a gente e a gente iniciou a operação em União da Vitória e Porto União.

Logo no começo, em cerca de um mês, tivemos por volta de 400 downloads. E, além do app, a gente também trabalhava com um sistema via WhatsApp para pedir corrida.

Hoje, quais são os números da Uniporto?

Felipe Milczuk: Hoje, a gente tem em torno de 1.300 a 1.500 passageiros cadastrados e aproximadamente 25 motoristas na plataforma.

A gente realiza em torno de 4 mil corridas por mês.

Qual é o modelo de cobrança para o motorista?

Felipe Milczuk: A taxa é R$ 100 mensais por motorista. Eles não pagam nada além disso, não existe taxa por corrida. Eles podem fazer quantas corridas conseguirem no app.

Qual é o valor mínimo da corrida para o passageiro?

Felipe Milczuk: O valor mínimo para o passageiro é R$ 10.

Vocês trabalham com tarifa dinâmica?

Felipe Milczuk: Sim. A gente trabalha com tarifas dinâmicas no fim de semana para o motorista se sentir valorizado e ficar mais disposto a rodar nos horários em que a demanda é maior.

Como funciona o pagamento ao motorista? O dinheiro passa pela empresa?

Felipe Milczuk: Na maioria das vezes, o motorista recebe diretamente do passageiro. O valor aparece no aplicativo, tanto do passageiro quanto do motorista, e o motorista recolhe.

Quando o passageiro paga pela plataforma, como cartão ou Pix, aí a gente faz o repasse ao motorista.

Quanto o motorista consegue ganhar rodando pela Uniporto?

Felipe Milczuk: Em média, o motorista pode ganhar entre R$ 5 mil a R$ 6 mil, dependendo da disponibilidade e da quantidade de horas online.

Qual foi o investimento inicial e em quanto tempo ele se pagou?

Felipe Milczuk: Foi em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil. Em cerca de sete meses, o investimento se pagou.

Quanto a empresa movimentou em 2025?

Felipe Milczuk: Em 2025, a empresa teve um total de mais de R$ 400 mil movimentados em corridas.

Qual é a principal dificuldade hoje para o app crescer?

Felipe Milczuk: A maior dificuldade é ter motoristas comprometidos com a plataforma. Muitos trabalham em mais de uma plataforma e acabam deixando passar corridas.

Para você ter uma ideia, em janeiro a gente já passou de 500 corridas que não foram atendidas.

Vocês têm alguma estratégia para não perder corridas e não deixar cliente sem atendimento?

Felipe Milczuk: Temos. Meu sócio Emídio também faz corridas. Eu rodo depois das 18:00 e aos finais de semana.

Além disso, a gente tem motoristas-chave com isenção de tarifa em horários de alta demanda. E também motoristas que atuam como “suporte”: eles pegam corridas que muitas vezes são rejeitadas pelos outros motoristas, para a gente não perder cliente.

Quais ações promocionais vocês usam para atrair passageiros?

Felipe Milczuk: A gente tem cashback em todas as corridas finalizadas, com um retorno mais vantajoso do que outras plataformas.

Terça-feira tem desconto automático em todas as corridas, porque é um dia fraco. O cliente não precisa colocar cupom: o desconto já aparece na simulação.

Sexta-feira a gente faz cashback em dobro: se finalizar a corrida na sexta, ele recebe o dobro do cashback na carteira para usar depois. E também fazemos promoções relâmpago para trazer o público.

Qual é o perfil de público que vocês priorizam atender?

Felipe Milczuk: A Uniporto foca no público do dia a dia: trabalho, escola, supermercado, academia, tarefas rotineiras.

O público de “fim de balada” não é nosso foco principal, porque não traz tanto retorno e, muitas vezes, traz dor de cabeça. A gente prefere o passageiro do cotidiano.

Vocês atendem só por aplicativo ou também têm um canal alternativo?

Felipe Milczuk: A gente tem suporte também pelo WhatsApp e telefone. O pessoal que vem de fora, por exemplo, pesquisa no Google e encontra a Uniporto. Ele pode chamar pelo WhatsApp, sem precisar baixar o app ou se cadastrar — se quiser, faz, mas não é obrigatório.

Por que ainda existe tanta corrida “por fora” e como vocês lidam com isso?

Felipe Milczuk: Infelizmente, ainda tem muita corrida fora do aplicativo. A gente incentiva o passageiro a baixar e solicitar pelo app, mas existe a prática de chamar motorista particular.

Essas corridas clandestinas dão dor de cabeça e, muitas vezes, têm preço muito elevado, porque o motorista coloca o valor acima do que a plataforma cobra. Então é um trabalho de educação: mostrar que corrida clandestina é um problema.

A Uniporto tem planos de expansão?

Felipe Milczuk: Sim. A gente pretende expandir por franquia para outras regiões do país com um preço acessível. Com um investimento inicial de R$ 5 mil, a pessoa já consegue abrir uma franquia da Uniporto Mob em qualquer lugar do Brasil.

Quem compra a franquia tem liberdade para definir valores de motorista e das corridas. A gente supervisiona para manter o padrão do que rege a Uniporto.

Qual é o plano para os próximos cinco anos?

Felipe Milczuk: Chegar em novas cidades, ter novos parceiros que queiram comprar a franquia e, no futuro, chegar até grandes cidades.

Como você enxerga o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?

Felipe Milczuk: Eu vejo como incerto, principalmente por causa da possibilidade de regulamentação. Ela pode ajudar em alguns aspectos, mas em outros pode prejudicar.

Por exemplo: a gente não exige carro com “idade máxima” rígida. Aqui, aceitamos a partir de 2003, carro quatro portas e em bom estado. A gente acredita que todo mundo deve ter a oportunidade de gerar renda — extra ou principal — com o app.

Se houver regulamentação impondo exigências mais duras, pode ser que muitos aplicativos regionais não consigam continuar.

Na sua avaliação, o que prejudica a evolução dos apps regionais?

Felipe Milczuk: Concorrentes que chegam colocando preço muito baixo. Corrida mínima de R$ 7,99 ou R$ 6,99 não compensa. Na hora que o motorista faz a manutenção e vê o custo real, ele percebe que esses valores não cobrem o gasto.

No fim, o próprio motorista se prejudica, e isso atrapalha aplicativos que já vinham trabalhando com valores mais justos.

Qual marca e legado você quer deixar nas cidades onde atua?

Felipe Milczuk: A marca e o legado que a gente quer deixar é que cada passageiro possa se deslocar com qualidade e preço justo em qualquer lugar da cidade, sem precisar pagar tão caro para grandes empresas de monopólio.

A nossa missão é mostrar que o aplicativo regional tem grande potencial e é isso que a gente faz diariamente.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.