A história do Mobfy começou quando Matheus Wichman, hoje com 27 anos, buscava uma renda extra como motorista de aplicativo fora do horário de trabalho. Depois, ele deixou o emprego para atuar apenas no transporte, mas a queda na demanda da plataforma em que rodava gerou dificuldades financeiras e o fez pensar em criar a própria operação.

Antes de ser motorista, Matheus também havia usado aplicativos como passageiro. Essa vivência dos dois lados ajudou a formar a ideia do Mobfy: aproveitar os pontos positivos das plataformas que conhecia e tentar melhorar o que considerava mais fraco no mercado.

“Eu fiz um checklist das coisas boas e das coisas não tão boas, tanto para passageiro quanto para motorista, e filtrei para desenvolver o Mobfy”, afirma.

Aplicativo nasceu sem dinheiro em caixa

Segundo Matheus, o Mobfy começou “na coragem”. Ele não tinha dinheiro disponível e usou o cartão de crédito para parcelar o desenvolvimento do aplicativo e as primeiras ações de marketing.

“Eu não tinha nenhum real no bolso. Simplesmente foi na coragem. O desenvolvimento custou R$ 2,5 mil, e o investimento inicial em marketing ficou em torno de R$ 1,8 mil. A captação de passageiros e motoristas, no começo, veio principalmente dos contatos que eu já tinha no setor e do boca a boca”, lembra.

Retorno veio no segundo ou terceiro mês

Apesar de ser a primeira empresa de Matheus, o retorno veio mais rápido do que ele esperava. Segundo o gestor, o investimento inicial, de cerca de R$ 4,5 mil, começou a se pagar já no segundo ou terceiro mês de operação.

Ele compara o resultado com outros negócios que abriu depois, em que o retorno demorou oito meses, um ano ou mais.

“A Mobfy foi completamente ao contrário do que a maioria dos empresários dizem. No segundo, terceiro mês ela já estava se pagando”, afirma.

Matriz fica em Caçador

O Mobfy foi lançado em 2023 e tem matriz em Caçador. A empresa também atua em Videira, cidade vizinha. Matheus chegou a ter outras duas filiais, mas decidiu fechar as operações que não deram certo.

No início da filial de Videira, ele chegou a ter um sócio local, responsável pela presença física na cidade. Com o tempo, a sociedade foi desfeita, e hoje as duas operações são administradas por Matheus.

Primeira dificuldade foi ter motoristas suficientes

A maior dificuldade inicial foi a aquisição de motoristas. Mesmo começando com 11 condutores, graças aos contatos que já tinha, a demanda cresceu rápido e o aplicativo passou a enfrentar reclamações por falta de carros disponíveis.

Segundo Matheus, durante os dois primeiros anos, a principal queixa dos passageiros era justamente a falta de motoristas. Em 2026, ele afirma que esse problema foi resolvido, com melhora na aceitação das corridas e tempo de espera menor.

“Hoje os clientes não precisam esperar mais do que dois ou três minutos para o carro estar no local de embarque”, diz.

Motoristas iniciais ajudaram a empresa crescer

Para Matheus, os primeiros motoristas tiveram papel decisivo no crescimento. Eles abraçaram a ideia do aplicativo e ajudaram a empresa a se desenvolver rapidamente.

“A operação conseguiu se consolidar antes mesmo de ter uma grande estrutura, impulsionada por relacionamento, demanda local e adesão dos motoristas”, afirma.

Aplicativo estabilizou a vida financeira do gestor

Matheus afirma que percebeu que o Mobfy estava dando certo entre o sexto e o oitavo mês de operação. Na época, ele ainda carregava dívidas do período em que insistiu em trabalhar como motorista em uma plataforma com baixa demanda.

“Com o crescimento do Mobfy, passei a pagar as contas do mês, quitar dívidas atrasadas, manter caixa de emergência e ainda investir na empresa. No oitavo mês, eu vi que realmente estava dando muito certo, porque consegui me estabilizar financeiramente”, afirma.

Matheus dirigiu no primeiro ano

No primeiro ano, Matheus também trabalhou como motorista do próprio aplicativo. Depois disso, passou a se dedicar apenas à gestão.

A transição para gestor, segundo ele, trouxe amadurecimento. Ele criou a empresa aos 24 anos e afirma que os três anos seguintes pareceram muito mais longos pela intensidade dos problemas e decisões do dia a dia.

“Três anos parece não ser muita coisa, mas para um empreendedor parece que são 30 anos”, diz.

Mobfy tem 220 motoristas ativos

Hoje, o Mobfy tem cerca de 220 motoristas ativos. Ao todo, a plataforma já recebeu quase 12 mil cadastros de motoristas, mas a base ativa é formada pelos condutores que realmente rodam.

Na base de passageiros, o aplicativo soma cerca de 111 mil cadastros, embora Matheus ressalte que nem todos são usuários ativos.

Plataforma faz entre 100 mil e 130 mil corridas por mês

O volume mensal fica entre 100 mil e 130 mil corridas. A operação está presente em Caçador e Videira.

A corrida mínima é de R$ 8,99 e cobre até aproximadamente 1,6 km. Depois disso, o valor aumenta conforme faixas programadas e, acima de determinada distância, passa a considerar tempo e quilômetro rodado.

Taxa é fixa em 10%

O Mobfy cobra taxa fixa de 10% dos motoristas. O modelo é pós-pago: o condutor trabalha durante a semana e, no fechamento feito aos domingos, paga 10% sobre o faturamento do período.

Matheus dá um exemplo: se o motorista faturou R$ 2 mil entre domingo e sábado à meia-noite, paga R$ 200 à plataforma.

Valor por quilômetro fica perto de R$ 3

Segundo Matheus, o valor médio por quilômetro para o motorista fica próximo de R$ 3, considerando a composição entre preço por quilômetro, tempo e valor base da corrida.

Recorde de motorista foi de R$ 18,7 mil

O maior faturamento registrado por um motorista do Mobfy foi de aproximadamente R$ 18,7 mil. O condutor, chamado Roberto, alcançou o valor em outubro do ano anterior, antes de se mudar por motivos pessoais.

Fora das épocas de fim de ano, quando o movimento aumenta bastante, Matheus estima que motoristas mais ativos possam faturar em média R$ 15 mil a R$ 16 mil.

Plataforma movimenta até R$ 1,4 milhão por mês

Com ticket médio próximo de R$ 14 por corrida e volume que pode chegar a 100 mil corridas mensais ou mais, Matheus estima que a plataforma movimente de R$ 700 mil a R$ 1 milhão por mês, podendo chegar a aproximadamente R$ 1,4 milhão em valor total de corridas.

Como os motoristas recebem o valor integral do passageiro e repassam 10% depois, a movimentação bancária da empresa corresponde à taxa da plataforma, não ao valor total das corridas.

Corridas por fora acontecem, mas não são mais o foco da gestão

Matheus afirma que as corridas por fora acontecem bastante, mas que chegou a um ponto em que deixou de monitorar tudo de perto. Com quase 300 motoristas cadastrados na operação e outros negócios para cuidar, ele diz que não consegue controlar individualmente cada condutor.

“Lidar com prestadores de serviço exige aceitar que nem tudo estará sob controle o tempo inteiro”, diz o gestor. 

Relação entre aplicativos melhorou em 2026

Sobre o mercado local, Matheus afirma que, em 2026, a relação entre aplicativos melhorou. Nos dois primeiros anos, a concorrência era mais difícil, com a sensação de que um queria derrubar o outro.

Hoje, segundo ele, a empresa está mais organizada em atendimento e gestão, e o ambiente competitivo está menos pesado.

Gestor avalia venda ou expansão

Para os próximos anos, Matheus diz viver um momento de decisão. Ele tem outros negócios e vê potencial em diferentes áreas. Por isso, avalia se continua escalando o Mobfy ou se, caso surja uma oportunidade justa, vende a empresa para investir em outros projetos.

O ramo imobiliário é uma vontade pessoal do gestor, mas ele reforça que não há necessidade de vender a plataforma.

Meta é chegar a cinco filiais até 2028

Se decidir seguir expandindo, a meta é abrir mais três filiais até o fim de 2027 ou início de 2028, chegando a cinco operações no total.

Segundo Matheus, o aplicativo tem potencial para escalar além das cidades atuais, mas exige presença operacional forte do dono, o que torna a expansão mais complexa.

Tecnologia das grandes ainda é difícil de alcançar

Matheus acredita que a tecnologia dos aplicativos regionais ainda fica atrás de Uber e 99. Segundo ele, o principal limite é depender de uma desenvolvedora externa para melhorias, já que a operação controla configurações de preço, aprovação de motoristas e ajustes do dia a dia, mas não o desenvolvimento estrutural do sistema.

“A gente acaba dependendo de uma desenvolvedora. A Uber e a 99 não têm esse limite, porque a plataforma é própria”, afirma.

Marca é vista como escalável

Apesar da diferença tecnológica, Matheus acredita que o nome Mobfy tem força para crescer.

“Eu acredito que a marca Mobfy é muito forte. Acho que o nosso nome é o mais nacional ou internacional possível perto dos concorrentes regionais o que pode ajudar em uma expansão”, diz.

Mercado em Caçador está saturado, avalia gestor

Sobre o futuro dos aplicativos regionais, Matheus avalia que Caçador já está saturada. Para ele, abrir um aplicativo do zero hoje na cidade seria muito difícil, porque a base de preços está parecida e a aquisição de motoristas ficou mais complicada.

“A demanda já consolidada do Mobfy dificulta que uma nova plataforma convença motoristas a migrarem”, afirma. 

Legado começou pela liberdade familiar

Ao falar sobre legado, Matheus conta que, no início, queria apenas ter liberdade para cuidar da família. Ele tem três filhos, dois deles autistas, e desejava poder levá-los às terapias, sair com eles e ter mais momentos em família sem ficar preso a horários de trabalho.

Hoje, diz que boa parte dessas vontades já foi realizada.

Crescimento virou símbolo de realização

Matheus lembra de uma carreata de fim de ano em que reuniu cerca de 90 motoristas com carros adesivados para distribuir doces às crianças. Naquele momento, percebeu o tamanho que a empresa havia alcançado. Hoje, afirma que o Mobfy está mais de três vezes maior.

Na reta final da entrevista, ele também falou sobre o período de dificuldade vivido antes da criação do aplicativo, quando ele e a esposa deixavam de comprar coisas para si para garantir o necessário aos filhos.

“A gente ficou mais de ano sem comprar roupa, sem comprar até carne. Mas nossos filhos tinham frutas e carne”, lembra.

Segundo Matheus, a ideia do Mobfy surgiu depois de um momento de oração, quando questionou por que o ramo de transporte havia aparecido em sua vida se parecia que nada estava dando certo. A partir dali, afirma que a empresa cresceu rapidamente, dobrando volume de corridas e faturamento ano após ano.

“Às vezes parece muito difícil, mas quanto maior a luta, maior a vitória. Basta um momento de dor para uma vida inteira de felicidade”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.