O SHARKjet nasceu de uma conversa entre dois motoboys. Lucas Camargo e Kelvily Peçanha já atuavam no setor de entregas em Piracicaba, conheciam sistemas da cidade e entendiam, pela prática, as dificuldades da categoria. A ideia surgiu em tom de brincadeira, mas logo virou um plano de negócio.
Assim que decidiram levar o projeto adiante, os dois entraram em contato com a Machine. Segundo Lucas, Kelvily já havia trabalhado em outro sistema da cidade e conhecia a tecnologia, o que ajudou a dar mais confiança para iniciar a operação. O primeiro contato aconteceu em janeiro de 2025, e o app começou a operar em maio, após cerca de seis meses entre estruturação, CNPJ e plataforma.
“Era uma ideia boba, até em tom de brincadeira no início. Mas surgiu, e a gente decidiu levar adiante”, conta Lucas.
Experiência como motoboy mostrou lacunas do mercado
Antes de criarem o SHARKjet, Lucas e Kelvily já trabalhavam como motoboys, tanto em serviços fixos quanto em sistemas de entregas. Essa experiência foi central para a criação do aplicativo, porque os dois viam de perto as necessidades da categoria e o quanto, segundo Lucas, pouco era feito para melhorar a rotina dos entregadores.
A percepção era de que as empresas tinham ferramentas importantes nas mãos, mas não usavam todo o potencial para beneficiar a categoria, além de buscar o próprio resultado financeiro.
“O primordial foi entender na pele as necessidades que a categoria tem no dia a dia, nas ruas”, afirma.
Sócios se reencontraram pelo trabalho
Lucas e Kelvily já se conheciam havia muitos anos, desde a época de escola, mas ficaram afastados por situações da vida. O contato foi retomado justamente por meio do trabalho como motoboys, quando voltaram a atuar na mesma empresa.
Hoje, a divisão de tarefas é compartilhada. Os dois atuam na parte comercial, pagamentos, relacionamento com motoboys, suporte e contato com estabelecimentos. Algumas funções são divididas no dia a dia, mas não há uma área totalmente concentrada em apenas um dos gestores.
“A gente ainda faz um pouco de tudo. Existe um alinhamento bom das funções do dia a dia”, diz Lucas.
Investimento em um ano ficou entre R$ 50 mil e R$ 60 mil
Em cerca de um ano de operação, Lucas estima que o SHARKjet tenha investido entre R$ 50 mil e R$ 60 mil. O valor inclui uniformes, bags, tags, marketing, contabilidade e outras despesas mensais.
Segundo ele, a plataforma em si não foi a maior dificuldade financeira. O custo da Machine se pagou nos primeiros meses, mas os gastos externos, como estrutura de empresa, contabilidade e recolhimentos, pesaram mais no início.
Primeira entrega saiu no aniversário de Lucas
A operação começou por autopeças, não por delivery de comida. A decisão foi estratégica: como a demanda inicial ainda era baixa e havia incerteza sobre a adesão dos motoboys, os sócios preferiram iniciar com um segmento de menor urgência, sem o risco de comida esfriar.
A primeira entrega saiu em 6 de maio de 2025, justamente no aniversário de Lucas. A operação começou com duas lojas de autopeças e, por cerca de um mês, ficou concentrada nesse segmento.
“Eu sei que a empresa começou em maio porque a primeira entrega saiu no dia do meu aniversário”, lembra.
Captação de motoboys foi feita nas ruas
No começo, os próprios sócios faziam as entregas, já com camisetas e bags personalizadas. Isso ajudou a tornar a marca visível e serviu como ferramenta de captação de motoboys. Lucas e Kelvily conversavam com conhecidos da categoria e também abordavam entregadores em semáforos e nas ruas.
A divulgação também envolveu Instagram, Facebook, tráfego pago e cartões de visita, mas a captação de motoboys foi muito baseada no contato direto.
“A gente estava na rua, com uniforme e mochila personalizada, e falava: esse aplicativo começou agora, a taxa é boa”, conta.
Delivery representa 80% da demanda
Hoje, cerca de 80% da demanda do SHARKjet vem de restaurantes e delivery de comida. As autopeças que marcaram o início da operação seguem na carteira, agora com aproximadamente quatro clientes desse segmento. A empresa também atende tabacarias e outros tipos de negócio.
Lucas afirma que o aplicativo não limita os segmentos atendidos. Se o produto couber na bag e for lícito, a empresa pode transportar. O maior cliente atual, por exemplo, é uma granja de ovos, com entregas de cartelas.
“A gente não se limita ao segmento. Se recebe a procura, cabe na bag e é lícito, a gente faz o transporte”, afirma.
Plataforma tem 1,7 mil motoboys cadastrados
O SHARKjet soma cerca de 1,7 mil motoboys cadastrados. Desse total, aproximadamente 500 estão com cadastro ativo, cerca de 800 estão em análise e entre 200 e 300 já passaram pela plataforma e tiveram baixa no cadastro.
Os gestores já não rodam todos os dias, mas ainda entram na rua quando necessário. Em dias atípicos, como chuva, datas comemorativas ou jogos, Lucas afirma que a experiência de quem já sabe fazer a entrega faz diferença.
SHARKjet atende 90 estabelecimentos ativos
A empresa atende cerca de 90 estabelecimentos ativos. No delivery de comida, a plataforma permite integração com cardápios como iFood, 99Food, Delivery Direto, Saipos e outros sistemas.
Com as integrações, os pedidos entram automaticamente na plataforma e o sistema solicita o motoboy de acordo com a configuração de disparo definida pelo cliente.
App faz 30 mil entregas por mês
O SHARKjet realiza cerca de 30 mil entregas por mês. Segundo Lucas, o volume cresceu todos os meses desde o início da operação. Nos primeiros quatro meses, a empresa chegou a dobrar ou triplicar a quantidade de pedidos mês a mês. Depois, o crescimento seguiu em ritmo menor, mas constante.
O volume mensal movimenta cerca de R$ 300 mil em faturamento.
Filial em Indaiatuba revelou outra cultura de operação
A empresa abriu uma filial em Indaiatuba no começo de junho deste ano. A operação ainda está no início, com um cliente ativo naquele momento, mas já mostrou uma diferença importante de cultura em relação a Piracicaba.
Em Piracicaba, os motoboys já estão acostumados com aplicativo, sistemas e automação. Em Indaiatuba, Lucas encontrou uma operação muito forte baseada em grupos de WhatsApp, nos quais estabelecimentos publicam entregas e motoboys respondem com o tempo de chegada.
“Aqui em Piracicaba, esse modelo de grupo de WhatsApp é primitivo. Em Indaiatuba, é o que manda na cidade”, afirma.
Taxa mínima ao cliente é de cerca de R$ 7,50
Em Piracicaba, a taxa mínima de entrega ao cliente fica em cerca de R$ 7,50, valor que Lucas considera padronizado com outras empresas da cidade. Para o motoboy, o pagamento costuma começar entre R$ 6,87 e R$ 7 até 2 km. A partir do terceiro quilômetro, sobe R$ 1 por quilômetro.
A taxa de retorno ao estabelecimento é de R$ 2, e os acréscimos em dias de chuva ou tarifa dinâmica também ficam por conta do estabelecimento.
Motoboy não paga taxa à plataforma
O SHARKjet não cobra repasse ou taxa dos motoboys. Em Piracicaba, o pagamento é semanal: o entregador trabalha de segunda a domingo e recebe na quarta-feira seguinte.
Em Indaiatuba, a empresa já iniciou outro modelo, com recarga do estabelecimento diretamente na plataforma. Quando o saldo do cliente zera, o sistema bloqueia novos chamados até nova recarga. A ideia também é permitir saque diário ao motoboy, com eventual taxa apenas para esse serviço, caso ele opte pela antecipação.
Motoboys chegam a R$ 8 mil por mês
Lucas afirma que há motoboys faturando entre R$ 1,8 mil e R$ 2 mil por semana. Em um mês, isso representa cerca de R$ 7 mil a R$ 8 mil, considerando entregadores que trabalham todos os dias.
“Se o motoboy faz entre R$ 1,8 mil e R$ 2 mil na semana, ele consegue fazer no mês cerca de R$ 7 mil a R$ 8 mil”, explica.
Expansão pode incluir franquias
Desde o começo, os gestores tinham o plano de estabilizar a matriz em Piracicaba e depois abrir novas cidades. A expansão para Indaiatuba é parte desse movimento, e novas praças seguem no radar.
Lucas afirma que o modelo de franquia também é considerado, porque a gestão de múltiplas cidades exige estrutura e pode dificultar a manutenção da excelência operacional.
“A gente não vai conseguir tomar conta de todos os lugares. Pode ser que tenha cidades em que a gente precise fazer parcerias ou franquia”, afirma.
Chuva e queda de plataforma foram o momento mais difícil
Um dos episódios mais difíceis da trajetória foi uma queda de plataforma em um dia de chuva forte, ainda no começo da operação. Segundo Lucas, a chuva já é o “terror” dos aplicativos de entrega, porque aumenta a demanda e reduz a mão de obra disponível. Com a plataforma fora do ar, a equipe não sabia como reagir.
Hoje, a empresa já tem protocolos para situações assim, como ligar para motoboys, deslocá-los para estabelecimentos de maior demanda e lançar pedidos manualmente depois. Mas, na primeira ocorrência, o estresse foi grande e gerou risco de perda de clientes.
“Depois do aplicativo, eu não posso ver uma nuvem no céu. Fiquei traumatizado com chuva”, brinca Lucas.
Reconhecimento veio ao atender grandes lojas
Lucas percebeu que o aplicativo estava dando certo quando olhou para a carteira de clientes e viu estabelecimentos que frequentava antes mesmo de imaginar que um dia teria uma empresa. Algumas lojas eram grandes franquias da cidade, que ele via de fora e hoje atende como responsável pela logística.
“Eu já prestei serviço como motoboy para essas lojas. Hoje presto serviço como dono da operação logística delas”, afirma.
Projetos para motoboys são principal orgulho
O que mais motiva Lucas hoje são os projetos voltados à categoria. Um deles é a proposta de pontos de apoio para motoboys em Piracicaba, desenvolvida com apoio de um vereador. A ideia prevê estruturas em containers, com banheiro, cozinha, micro-ondas, espaço para vestir capa de chuva e carregar celular.
A iniciativa nasceu das necessidades que Lucas conheceu nas ruas: falta de banheiro, lugar para se alimentar, abrigo em dias de chuva e ponto para carregar o celular, ferramenta essencial de trabalho.
“O motoboy tem carências básicas: ir ao banheiro, se alimentar, colocar capa de chuva em lugar coberto e carregar o celular”, afirma.
Empresa distribui materiais sem cobrar dos entregadores
Além do projeto dos pontos de apoio, o SHARKjet também se diferencia pela entrega de bags, camisetas e materiais de trabalho sem cobrar dos motoboys. Lucas afirma que empresas que já atuavam na cidade costumavam vender esses itens aos entregadores.
Para ele, esse conjunto de ações ajudou a criar reconhecimento na rua.
“O que mais me orgulha é sair na rua e ter o reconhecimento da categoria de que somos a empresa que mais ajuda os motoboys”, diz.
História pessoal de Lucas teve perdas e recomeços
Lucas, de 31 anos, nasceu em Piracicaba. Cresceu com a mãe até os 7 anos e depois com o padrasto, que considera como pai. Aos 12 anos, perdeu a mãe. Aos 15, perdeu também o padrasto e passou a morar com tios. Aos 16, conseguiu o primeiro emprego e foi morar sozinho.
Aos 17 anos, conheceu a primeira esposa. Aos 18, entrou na Hyundai, onde trabalhou por 11 anos na área de logística. Nesse período, enfrentou a perda de um filho durante a gestação e, no início de 2024, perdeu também a esposa. No mesmo ano, foi desligado da empresa em que trabalhava.
Hoje, Lucas está casado novamente, tem um filho de 3 meses e vê a empresa como parte de um processo de reconstrução.
“Foi um caminho complicado. Eu passei e estou passando”, afirma.
Futuro passa por novas cidades
Para os próximos anos, o plano é expandir para novas cidades, mantendo o sistema de operação atual. Lucas diz que, como muitos aplicativos que passam pela Machine, também pensa na possibilidade de ter um sistema próprio no futuro. Mas observa exemplos de empresas que enfrentaram dificuldades ao migrar para tecnologia própria e, por isso, ainda avalia se esse caminho seria rentável.
Enquanto isso, a prioridade é abrir novas praças, dentro ou fora de São Paulo, desde que haja estrutura para sustentar a operação.
Regionais não perdem na entrega, mas não têm vitrine
Na visão de Lucas, aplicativos regionais de entrega não perdem para grandes plataformas na execução da logística. Para ele, os motoboys ganham mais e o estabelecimento economiza quando usa empresas como o SHARKjet.
A diferença está na vitrine. Plataformas como iFood e 99Food oferecem visibilidade ao estabelecimento, enquanto o SHARKjet atua diretamente na entrega.
“Em questão de entrega, eu acho que a gente não perde nada para eles. A questão é a vitrine”, afirma.
Desafios e pontos premiam entregadores
O SHARKjet utiliza ferramentas de incentivo para motoboys. Uma delas é o desafio da própria Machine, que permite configurar metas diárias, semanais ou mensais, com resgate automático de prêmios na carteira do entregador. Em uma ação no Dia dos Namorados, por exemplo, os cinco primeiros que atingissem a meta ganhavam R$ 100 em crédito.
A empresa também tem programa de pontos integrado à ZL Hub, antiga Fly. Cada entrega e retorno geram pontos, que podem ser trocados por itens como troca de óleo, capa de chuva, kit de transmissão e lavagem detalhada da moto.
Além disso, há ranking mensal com premiação para os três primeiros motoboys.
Legado é não esquecer a categoria
O legado que Lucas quer deixar com o SHARKjet é ser lembrado como uma empresa que não visa apenas o lucro e que reconhece a importância dos motoboys, base de toda a operação.
Para ele, o plano é nunca esquecer de onde os gestores vieram e quais são as carências da categoria.
“Se os motoboys acordarem e falarem que não vão trabalhar, a empresa fecha. A base são eles”, conclui.
