A Mobilita nasceu depois que Mauro Lazzarotti decidiu transformar uma renda extra em negócio próprio. Aos 38 anos, ele conta que começou a trabalhar cedo, construiu carreira na área de logística e chegou a cargos de gestão, mas sempre teve vontade de empreender.

A entrada na mobilidade aconteceu quando ele comprou um carro mais novo com a ideia de trabalhar fora do horário para pagar o financiamento. Depois de alguns meses dirigindo por aplicativo, percebeu que a renda das corridas quase empatava com o salário que recebia na empresa em que trabalhava. Foi nesse momento que começou a pesquisar a possibilidade de criar uma plataforma própria.

“Minha ideia era comprar um carro mais novo e pagar com o aplicativo. Depois de alguns meses, percebi que estava quase empatando com o salário”, conta.

Marca foi criada em junho de 2023

Mauro criou a Mobilita em 20 de junho de 2023. Oito dias depois, pediu demissão da empresa em que trabalhava e decidiu apostar na nova operação. O início, porém, foi marcado por uma escolha de tecnologia que não funcionou como esperado.

Ele trabalhou nove meses com a primeira plataforma, mas enfrentou problemas técnicos e perdeu praticamente todo o dinheiro que havia separado para o negócio. Nesse período, começou sozinho, com o próprio carro, indo a eventos da cidade, com o veículo plotado, para divulgar a marca.

“Fiquei nove meses em uma plataforma que não funcionava. Todo o dinheiro que eu tinha para o negócio foi nesse período”, lembra.

Nova plataforma exigiu recomeço do zero

Em 22 de março de 2024, Mauro lançou uma nova plataforma, mantendo a marca Mobilita. A mudança exigiu recadastrar clientes e reconstruir a base praticamente do zero, já que ele perdeu os usuários da tecnologia anterior.

A diferença é que, desta vez, a plataforma funcionava bem. Em poucos meses, Mauro conseguiu recuperar os cerca de mil clientes que havia conquistado antes da troca.

Expansão chegou a Ipumirim e Seara

A Mobilita nasceu em Concórdia, cidade-sede da operação. Em setembro de 2024, Mauro expandiu para Ipumirim. Em março de 2026, abriu também em Seara, mas precisou recuar por problemas de gestão local. Há cerca de dois meses, retomou a operação na cidade.

Hoje, o aplicativo conta com 88 motoristas: 63 em Concórdia, 9 em Ipumirim e 16 em Seara. A operação realiza entre 15 mil e 20 mil corridas por mês e tem cerca de 7,9 mil passageiros cadastrados.

Experiência como motorista moldou o modelo

A principal dor que levou Mauro a criar o Mobilita não veio apenas de uma falha do mercado, mas da própria trajetória profissional. Ele diz que, depois de anos trabalhando para empresas, não via retorno proporcional ao esforço. Ao dirigir em dois aplicativos locais, passou a entender melhor as dificuldades dos motoristas e a viabilidade do negócio.

A experiência como condutor influenciou diretamente o modelo da Mobilita. O app oferece duas formas de pagamento para o motorista: percentual ou plano por período. A ideia é atender tanto quem trabalha pouco e quer fazer renda extra quanto quem roda bastante e não quer deixar uma fatia alta para a plataforma.

“Eu consegui entender melhor vendo o lado da empresa e também conhecendo o lado do motorista, para fazer uma coisa equilibrada e viável para os dois”, afirma.

Motorista pode escolher taxa ou período

Quando começou, a Mobilita cobrava apenas 10% por corrida. Hoje, o motorista pode escolher entre pagar por período ou trabalhar com percentual.

No plano por período, o motorista paga R$ 120 para trabalhar por 7 dias, R$ 220 por 15 dias ou R$ 375 por 30 dias. Quem prefere o modelo percentual paga 15% sobre o que faturar.

“A pessoa que trabalha pouco pode optar pelo percentual. Quem trabalha bastante pode escolher o período”, explica.

Política busca equilibrar cliente e motorista

Mauro afirma que também quis criar uma política mais equilibrada no tratamento de ocorrências entre passageiros e motoristas. Segundo ele, uma reclamação recorrente entre colegas era a ideia de que o cliente teria sempre razão, o que ele não considera justo em todos os casos.

A proposta da Mobilita é analisar cada situação com critério, considerando os dois lados da relação.

Plotagem e panfletagem deram mais resultado

No início, Mauro testou diferentes formatos de divulgação, incluindo tráfego pago em Instagram e Facebook, além de apoio de uma empresa de marketing. Mas, em Concórdia, o que mais deu resultado foi a presença visual nas ruas.

A estratégia incluía carros plotados, panfletagem, presença em eventos, balões, bandeiras e ações em pontos estratégicos, especialmente próximos à BRF, empresa que movimenta parte importante da economia local.

“Em Concórdia, a pessoa precisa ver. A rede social não funciona tão bem. O visual deu mais resultado”, afirma.

Primeiro desafio foi equilibrar demanda e oferta

Conquistar os primeiros motoristas foi uma das etapas mais difíceis. Como ainda não havia muitas corridas, era complicado convencer condutores a apostar na plataforma. Mauro diz que preferiu crescer devagar para não prejudicar a imagem da marca.

Para ele, divulgar sem ter carros suficientes poderia comprometer o aplicativo logo no começo.

“Não adianta ter propaganda e não ter carro para atender. Ou você começa bem ou suja o nome”, diz.

Mobilita nasceu sem sócios

Mauro toca o Mobilita sozinho. No começo, isso significava cuidar da gestão, suporte, plataforma e ainda dirigir. Durante cerca de um ano e meio, ele deixava o celular despertando a cada duas horas durante a madrugada para não perder chamadas.

O esforço teve impacto na rotina e na saúde. Ele relata que passou a ter dificuldade para dormir, chegou a tomar remédio por alguns meses e enfrentou problemas de memória por falta de sono.

“Foi punk o primeiro ano e meio. Eu praticamente cuidava de toda a gestão, todo o suporte e ainda dirigia”, afirma.

Investimento maior foi em marketing

Na primeira plataforma, que não deu certo, Mauro estima ter gasto cerca de R$ 3 mil com tecnologia. Na plataforma atual, o investimento inicial foi de aproximadamente R$ 10 mil. Mas, segundo ele, o maior peso financeiro sempre foi o marketing.

Adesivos, panfletos, plotagem de carros e ações de rua geraram custos constantes, mas também foram essenciais para atrair clientes.

“O problema nunca foi a plataforma. O que pesa mesmo é o marketing, e é isso que vai trazer clientes”, diz.

App começou a se pagar após um ano e meio

A Mobilita começou a se pagar depois de cerca de um ano e meio na nova plataforma. A transição mais difícil, segundo Mauro, foi parar de dirigir, já que ele tirava de R$ 5 mil a R$ 7 mil por mês como motorista.

Hoje, a operação de Concórdia sustenta a própria empresa, ajuda na abertura de novas cidades e também apoia outros negócios ligados à mobilidade, como um posto de lavagem de carros.

Custo de manter empresa pesa

Mauro afirma que, ao virar empresário, passou a enxergar custos que não via como motorista. Um dos pontos citados é a carga tributária e o custo de manter o CNPJ.

Ele diz que gostaria de oferecer ainda mais benefícios aos motoristas, mas precisou ajustar planos ao entender melhor a realidade financeira de uma empresa.

“Eu vim bem mais empolgado, querendo dar benefícios para os motoristas. Mas, quando você vira empresário, vê que nem tudo é possível”, afirma.

Concorrência em Concórdia é forte

Concórdia tem um mercado bastante competitivo. Segundo Mauro, a cidade tem aplicativos locais consolidados há mais de cinco anos e mais de 500 carros rodando quando somadas todas as plataformas.

No começo, a maior dificuldade era conquistar clientes e motoristas ao mesmo tempo. Hoje, o desafio é manter a operação e acompanhar mudanças de leis, concorrência e estrutura de mercado.

“Tudo é novidade para mim. Cada passo que eu dou, tenho que aprender”, afirma.

Empreender trouxe mais tempo em família

Apesar de trabalhar mais horas como empreendedor, Mauro diz que uma das maiores mudanças foi recuperar tempo com a família. Ele afirma que, na trajetória em empresas, trabalhava tanto que quase não acompanhou parte da infância da filha mais velha.

Hoje, com escritório em casa, consegue estar mais presente. A esposa não precisa mais trabalhar fora, e a filha mais nova cresceu com o pai e a mãe por perto.

“A melhor coisa que me aconteceu foi esse tempo com a família”, afirma.

“Sou um cara totalmente improvável”

Mauro considera sua trajetória improvável. Ele lembra que deixou a escola cedo, não veio de família rica, financiou o carro em 48 vezes, tinha a esposa grávida e pediu demissão de um emprego em que ganhava cerca de R$ 6 mil para arriscar no próprio negócio.

Mesmo depois de apostar tudo, ainda enfrentou nove meses com uma plataforma que não funcionou.

“Eu dei um passo que não tinha mais volta. Ou vai, ou vai”, diz.

A fé também aparece como parte importante da trajetória. Mauro se define como cristão e afirma que se apegou muito a Deus no período em que assumiu o risco de empreender.

Recorde de motorista foi R$ 15 mil

O maior faturamento registrado por um motorista da Mobilita foi de R$ 15 mil em um mês. A média varia bastante porque há motoristas que trabalham apenas como renda extra, fazendo cerca de R$ 1,5 mil, enquanto outros rodam com maior frequência.

Na média geral, Mauro estima que os motoristas fiquem na faixa de R$ 6 mil a R$ 7 mil por mês. A corrida mínima é de R$ 8,49 e cobre, em média, de 1,5 km a 1,8 km, dependendo do raio.

App movimenta até R$ 300 mil por mês

Somando de 15 mil a 20 mil corridas mensais, a Mobilita movimenta entre R$ 250 mil e R$ 300 mil por mês em viagens. O valor que fica para a plataforma varia conforme o modelo escolhido pelos motoristas, já que alguns pagam percentual e outros plano por período.

Segundo Mauro, a receita da empresa fica em torno de R$ 15 mil a R$ 30 mil, dependendo do mês.

Corridas por fora são comuns

A Mobilita enfrenta casos de motoristas que fazem corridas fora do aplicativo. Mauro diz que não fica perseguindo condutores, mas trabalha com a lógica de que cada um colhe o que planta. Para ele, além de prejudicar a plataforma, a corrida por fora gera risco para o próprio motorista.

Ele relata já ter visto motoristas presos após transportar pessoas com drogas em corridas fora da plataforma.

“É segurança para eles. É a lei, é o correto não fazer, mas infelizmente acontece”, afirma.

Corrida mínima baixa incomoda

O que mais incomoda Mauro no mercado é a dificuldade de valorizar o motorista em cidades pequenas, especialmente diante de corridas mínimas muito baixas. Ele compara a lógica de grandes cidades, onde o motorista pode pegar outra corrida logo depois, com a realidade do interior, onde às vezes o condutor se desloca para longe e volta vazio.

Para ele, cobrar muito pouco torna algumas viagens inviáveis. Ainda assim, a concorrência impede que o aplicativo aplique todos os ajustes que gostaria, como taxa de deslocamento em certas corridas.

“Em cidade pequena, não tem como cobrar um valor mínimo tão baixo. É uma matemática simples”, afirma.

Mauro quer criar negócios ao redor da mobilidade

Nos próximos cinco anos, Mauro quer sair da operação diária e se dedicar mais à expansão e à análise de novas cidades. A meta é ter alguém cuidando das demandas que hoje ocupam todo o seu tempo.

A expansão, porém, não é apenas geográfica. Ele quer criar empresas que facilitem a vida do motorista, como lavagem de carros e, futuramente, até alternativas em combustível.

“Todo o meu planejamento gira em torno do motorista. Eu quero ganhar, mas quero que o motorista ganhe também”, afirma.

Leis e impostos preocupam

Para Mauro, uma das maiores incertezas do futuro da mobilidade regional está nas leis e na carga tributária. Ele teme que mudanças regulatórias inviabilizem aplicativos menores, deixando espaço apenas para empresas com mais estrutura.

Segundo ele, conforme a empresa cresce, surgem novos impostos, obrigações e obstáculos. Essa preocupação também motivou a decisão de diversificar negócios ligados à mobilidade.

Tecnologia das grandes está à frente, mas não garante interior

Mauro afirma que a entrada da 99 em Concórdia mostrou a diferença de estrutura tecnológica e financeira das grandes plataformas. Ele avaliou que o sistema da 99 é muito avançado, com automações de preço e dinâmica que aplicativos regionais não conseguem replicar manualmente.

Ainda assim, ele acredita que o modelo das grandes plataformas não se sustenta facilmente em cidades pequenas quando as promoções acabam, porque as taxas voltam a ser mais altas e a lógica de preço baixo deixa de funcionar.

“A gente sentiu bastante o faturamento durante a promoção deles, mas em cidade pequena não vai funcionar no preço normal”, avalia.

Ter plataforma própria aceleraria expansão, mas exige estrutura

Mauro afirma que a plataforma funciona bem e oferece o suporte necessário, mas reconhece que, para expandir mais rápido, ter tecnologia própria daria mais flexibilidade.

O problema é o custo e a estrutura exigida. Para ele, só faria sentido pensar em plataforma própria com uma base muito maior de motoristas, já que seria necessário montar equipe de suporte, desenvolvimento e manutenção.

Legado é mostrar que é possível

O legado que Mauro quer deixar com a Mobilita é a ideia de que empreender é possível mesmo para quem começa sem estudo, sem dinheiro sobrando e sem estrutura ideal. Para ele, a própria trajetória mostra que resiliência pode abrir caminho.

“Não existe estudo que vai te impedir, não existe dinheiro. Se você esperar ter tudo, não conquista nada”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.