“O conhecimento faz a diferença nesse ramo.” Valquíria Roxo, mais conhecida no mercado de mobilidade, e agora também no de delivery, como Val Roxo, de 37 anos, acumula sete anos de atuação no setor de transporte, sempre na área operacional de aplicativos. Nascida e criada em Barreiras, no Oeste da Bahia, trabalhou com operações de táxi, mototáxi, carro e gestão de equipes antes de decidir que era hora de usar o próprio conhecimento para construir algo seu.
Val passou os últimos anos viajando pelo Brasil para abrir e expandir aplicativos de mobilidade. Mesmo morando hoje em São Paulo, foi na cidade natal que escolheu lançar a Roxo Entregas. Ela diz que a decisão veio porque, em Barreiras, ela tinha história, contatos, reconhecimento e, principalmente, a vontade de devolver algo ao lugar de onde veio. “Barreiras é uma cidade com muito comércio, então o delivery é importante”, observa.
Mas, para Val, a plataforma não nasceu apenas de uma identidade forte, foi fruto também da observação de uma lacuna. Ao trabalhar com aplicativos de mobilidade, ela percebeu que muitos motociclistas estavam mais presentes nas entregas do que no transporte de passageiros. Começou a pesquisar o mercado, conversou com entregadores e entendeu que havia queixas profundas, mas que considerava simples de serem resolvidas: “Quando eu entendi as dores deles, foi o que me deu o ‘X da questão’”.
Como foi sua trajetória até começar a empreender neste setor?
Valquíria Roxo: Sou especialista em operação de aplicativos de mobilidade voltados para carro e trabalho há sete anos na área. Nesse período, comecei a enxergar o potencial da moto no mercado, principalmente porque via que muitas motos estavam mais presentes nas entregas do que nas categorias de mobilidade. Quando saí da empresa em que estava, em agosto do ano passado, decidi que queria abrir algo meu, mas não queria fazer mais um aplicativo de carro. Queria algo diferente, onde eu pudesse aplicar meu conhecimento e ajudar quem já tinha performance.
Onde você nasceu e cresceu?
Valquíria Roxo: Nasci e cresci em Barreiras (BA). Há cerca de seis anos viajo pelo Brasil abrindo aplicativos e trabalhando com expansão. Hoje, moro em São Paulo por conta do trabalho, mas sigo tocando a Roxo Entregas à distância, com o apoio da equipe local.
Como é a rotina da cidade?
Valquíria Roxo: Barreiras tem cerca de 165 mil habitantes e é conhecida como a capital do Oeste da Bahia. É uma região muito forte no agro, no comércio e também nas faculdades. Muitas cidades menores ao redor giram em torno de Barreiras, então há bastante circulação e demanda por delivery. Quando chegamos, já existiam aplicativos regionais, mas percebi que faltava experiência operacional. Foi aí que a Roxo começou a se diferenciar.
Você já pensava em empreender quando era mais nova?
Valquíria Roxo: Sempre pensei em ter algo meu. Quando era mais nova, imaginava ter uma loja de roupa, porque sempre tive espírito de vendedora. Ao longo da vida, trabalhei em várias áreas e quase sempre era promovida rapidamente para gerente. Gestão de pessoas é algo que vejo como dom e também como algo de que gosto muito.
Como suas experiências anteriores ajudam hoje na gestão?
Valquíria Roxo: Ajudam muito. Gestão de pessoas, entender comportamento, limites e saber a hora certa de agir fazem toda diferença. Principalmente sendo mulher, é preciso manter postura, serenidade e saber lidar com várias situações. Atualmente, gerimos mais de 130 motoboys, e o suporte é majoritariamente feito por mulheres. O respeito que existe ali foi conquistado pela forma como fazemos gestão.
Você chegou a trabalhar como motorista?
Valquíria Roxo: Não como profissão, mas já fiz algumas corridas de forma estratégica, para entender o mercado, mas minha atuação sempre foi no administrativo. Comecei em um aplicativo próprio de táxi e mototáxi, já na parte operacional.
Quando você decidiu criar seu próprio aplicativo?
Valquíria Roxo: Eu comecei a pensar por que estava há tanto tempo trabalhando para os outros se o conhecimento era meu. Alguns mototaxistas de Barreiras me procuraram perguntando se eu abriria um aplicativo de mototáxi, mas, ao fazer as contas e analisar o mercado, percebi que entrega fazia mais sentido. Pesquisei, conversei com a desenvolvedora de software da minha plataforma e, quando vi que eu já dominava a parte operacional, decidi começar mesmo sem muito dinheiro.
Por que decidiu começar por Barreiras em vez de onde mora atualmente?
Valquíria Roxo: Eu queria começar em Barreiras, na Bahia, porque é minha cidade. Tenho muito conhecimento, networking e contato com as pessoas de lá. Além disso, tenho um sócio, Uarles Rocha, que foi motoboy por muitos anos e conhece bem essa realidade. A Roxo Entregas nasceu dessa união entre minha experiência em mobilidade e a vivência dele com entregas.
O que você queria resolver em relação aos outros aplicativos?
Valquíria Roxo: Conversei com motoboys antes de abrir e entendi que a principal dor deles era o repasse do dinheiro. Muitos aplicativos retêm os ganhos e pagam só semanalmente. Só que esse dinheiro é do motoboy, não da empresa. Às vezes eles precisam colocar combustível e não têm dinheiro disponível. Na Roxo Entregas, eles podem sacar 24 horas, na hora em que quiserem. Esse foi o nosso grande diferencial.
Além do pagamento, quais outras dores dos motoboys você percebeu?
Valquíria Roxo: A forma como eles são tratados. Em caso de acidente, muitas vezes a primeira preocupação é se o pedido vai ser entregue, e não se o motoboy está bem. Isso me marcou. Por isso, também estou desenvolvendo um projeto de auxílio financeiro para motoboys e motoristas de aplicativo, pensando nessas situações em que eles precisam de apoio para consertar a moto, alugar um veículo ou continuar trabalhando.
Quando a Roxo Entregas começou a operar?
Valquíria Roxo: Começamos em 19 de setembro de 2025, exatamente no dia em que completei sete anos na mobilidade. Foi estratégico.
Como foi o começo para captar motoboys e estabelecimentos?
Valquíria Roxo: Começamos pelos motoboys, usando redes sociais, contatos do Uarles e conversas presenciais nos pontos onde eles ficavam. Alguns ficaram receosos porque outros aplicativos proibiam que eles trabalhassem em plataformas concorrentes, algo comum em cidade pequena. Quando chegamos a 50 motoboys cadastrados, começamos a captar estabelecimentos. Iniciamos com 50 motoboys e 30 estabelecimentos.
Quais diferenciais vocês apresentaram aos estabelecimentos?
Valquíria Roxo: Não cobramos taxa de recarga nem taxa para o estabelecimento ter motoboy fixo. Também oferecemos um suporte mais humanizado. A insatisfação dos estabelecimentos com outros aplicativos era grande, então juntamos as falhas que percebíamos no mercado e organizamos uma operação diferente. No momento, temos cerca de 140 motoboys e 170 estabelecimentos.
Qual foi o investimento inicial?
Valquíria Roxo: O investimento inicial foi em torno de R$ 38 mil, contando plataforma, marketing, material, premiações e tudo que precisava para lançar. A maior parte foi para materiais dos motoboys, como bags e camisas. Fiz questão de produzir camisas de manga longa, com proteção e capuz, porque em Barreiras faz muito calor e eles precisam se proteger.
Como é a relação dos motoboys com a Roxo Entregas?
Valquíria Roxo: É uma relação muito próxima. Eles dizem que “a Roxo é uma mãe”. Gostam de participar dos vídeos, das trends e das ações de marketing. Quando preciso gravar, às vezes é até disputa para ver quem vai. Isso mostra que eles se sentem parte do projeto.
O aplicativo já começou a se pagar?
Valquíria Roxo: Ainda não. Barreiras foi nosso piloto, nosso MVP, para entendermos o que fazer e o que não fazer antes de franquear. Aprendemos muitos detalhes operacionais, inclusive coisas que não quero que os franqueados repitam. Agora estamos estruturando o modelo de franquia com mais segurança.
Qual foi o momento mais difícil até agora?
Valquíria Roxo: Dezembro foi muito difícil, principalmente manter motoboys online nos dias 24, 25 e 31. O Carnaval também foi complicado, porque Barreiras tem um dos maiores carnavais da Bahia. Muitos comércios vão para a avenida, montam stands, e a logística de entrega fica muito mais difícil.
Quem foi essencial para o negócio sobreviver e crescer?
Valquíria Roxo: Minha filha Samara Roxo e o Uarles Rocha foram essenciais. Eles começaram comigo. O Uarles virou meu sócio porque fiz questão de reconhecer o esforço dele. A Jéssica veio depois, mas no início foram os dois que seguraram comigo.
Quando você percebeu que o aplicativo estava dando certo?
Valquíria Roxo: Desde o primeiro mês. Fizemos quase 2 mil entregas logo no início. Depois chegamos a mais de 5 mil entregas em um mês, com apenas quatro meses de operação. Hoje, estamos nessa média de cerca de 5 mil entregas mensais, com pequenas variações.
Quem faz parte da equipe da Roxo Entregas?
Valquíria Roxo: A equipe é formada por mim, meu sócio Uarles Rocha, minha filha Samara Roxo e a esposa dele, que também é minha comadre. Minha filha atua no operacional e no marketing. O Uarles cuida dos estabelecimentos, das visitas, do relacionamento comercial e também fica próximo dos motoboys. Às vezes ele vai fazer entregas junto com eles, não pela renda, mas para entender as dificuldades e ouvir o que eles têm a dizer.
Qual foi a maior mudança em você depois de empreender nesse setor?
Valquíria Roxo: Entendi que existe um mercado ainda muito pouco explorado e que eu estou pronta para alcançá-lo. O conhecimento operacional faz muita diferença. Muita gente acha que aplicativo de entrega concorre com iFood, mas não entende que podemos ser parceiros dessas plataformas. Esse domínio da operação é o que diferencia a Roxo Entregas.
Como é sua rotina hoje como gestora?
Valquíria Roxo: Minha rotina é mais estratégica, operacional e administrativa. Analiso atendimentos, financeiro, dados, dificuldades do dia anterior e o que pode melhorar. Também penso em desafios, ações, relacionamento com estabelecimentos e estrutura para franquear. A Samara e a Jéssica ficam no suporte, e o Uarles cuida da área comercial e dos estabelecimentos.
Além da Roxo Entregas, você atua em outros projetos?
Valquíria Roxo: Sim. Sou diretora operacional de um aplicativo regional de mobilidade, trabalho com treinamento e suporte para franqueados, tenho uma agência de marketing especializada em mobilidade em parceria com a desenvolvedora de software da minha plataforma, e também estou desenvolvendo um projeto que auxilia na área de mobilidade.
Você tem planos de expansão?
Valquíria Roxo: Queremos começar pelo litoral sul de São Paulo, em cidades como Itanhaém, Peruíbe, Mongaguá, depois Praia Grande e Santos. A ideia é começar pelas menores e ir para as maiores. Queremos um modelo de franquia acessível, com baixo custo inicial e taxa de manutenção para apoiar o franqueado.
Qual é o valor mínimo da entrega?
Valquíria Roxo: O valor mínimo é R$ 7, cobrindo até 1 km. Depois, os valores são precificados por bairros. Os motoboys participam muito desse processo e dão retorno quando acham que alguma taxa está alta ou baixa.
Como funciona a divisão dos valores?
Valquíria Roxo: Os motoboys ficam com 85% e a Roxo Entregas fica com 15%. Eu sempre digo que eles são donos da operação, porque a maior parte é deles.
Existe cobrança para os estabelecimentos?
Valquíria Roxo: Não, o estabelecimento não paga taxa. Ele faz a recarga e chama os motoboys. Diferentemente de outros lugares, não cobramos taxa de depósito nem para o estabelecimento.
Como funciona o saque dos entregadores?
Valquíria Roxo: Funciona de forma automática. Quando o estabelecimento faz a recarga e o motoboy finaliza a entrega, o valor entra na carteira dele. Se quiser sacar naquele momento, ele saca. Essa disponibilidade imediata é um dos nossos diferenciais.
Quanto ganha, em média, um entregador pela Roxo Entregas?
Valquíria Roxo: O que ganha menos faz em torno de R$ 300 por semana. Os que ganham mais fazem entre R$ 900 e R$ 1 mil por semana. Hoje, temos uma divisão equilibrada entre quem trabalha só com entrega e quem faz como renda complementar.
Qual é a movimentação mensal da empresa?
Valquíria Roxo: A movimentação mensal fica em torno de R$ 40 mil a R$ 43 mil. O faturamento da empresa corresponde a 15% desse valor.
Você falou sobre o nome do aplicativo ter seu sobrenome, por que isso é importante?
Valquíria Roxo: As pessoas perguntam se eu gosto de roxo, mas Roxo é meu sobrenome. A Val Roxo já é conhecida nacionalmente no ramo de mobilidade e também em Barreiras. Então, quando usei o nome Roxo, as pessoas já associaram: “É da Val?”. Foi uma estratégia, mas também tem a ver com a minha história.
Qual é a meta de faturamento para quando fechar 2026?
Valquíria Roxo: A meta é chegar a pelo menos 10 novas cidades este ano. Prefiro colocar uma meta mais cautelosa e me surpreender. Até o meio do ano, queremos alcançar cerca de R$ 40 mil de faturamento. Com 300 estabelecimentos, já seria possível chegar a uma média de R$ 15 mil a R$ 16 mil de faturamento em uma cidade.
Além da expansão, há outros planos para os próximos anos?
Valquíria Roxo: Por ser uma startup, prefiro não planejar três ou cinco anos agora. Startup pode surpreender muito. No meio do ano, gosto de montar a estratégia para o ano seguinte, com mais cautela.
Do que você mais se orgulha na sua trajetória até aqui?
Valquíria Roxo: Me orgulho da profissional que sou. Meu conhecimento veio da curiosidade, porque não tenho formação acadêmica. Sempre corri atrás, motivada principalmente pelos meus filhos. Hoje, sou reconhecida como uma das grandes profissionais de mobilidade no país, e isso é muito gratificante. Trabalhei certo, levei muita rasteira, mas meu nome ficou.
Como você vê o futuro dos aplicativos regionais de delivery no Brasil?
Valquíria Roxo: Vejo um mercado enorme, mas ainda pouquíssimo explorado. Os aplicativos regionais de delivery ainda não dominam por falta de conhecimento dos gestores. É mais fácil crescer nesse segmento do que competir diretamente com grandes plataformas de carro, como Uber e 99. Falta conhecimento, e isso a gente tem para passar.
Qual legado você quer deixar na sua cidade?
Valquíria Roxo: Quero que a Roxo Entregas seja vista não só como um aplicativo, mas como um meio de mudança de vida. Meu desejo é que ajude pessoas a conquistarem seus sonhos, sem cobrança e sem pressão, mas com parceria. Para mim, o mais importante é ser vista como uma parceira dos motoboys e da cidade.

