Da oficina mecânica e da rotina intensa como motoboy até a criação de uma das principais plataformas de entregas de São Carlos (SP), a trajetória de Levi Matos, CEO da Otto Entregas, é marcada por resiliência, fé e reinvenção. Após descobrir um problema sério de visão que o afastou da profissão para a qual havia se formado, ele encontrou no delivery não apenas uma alternativa de sustento, mas o ponto de partida para empreender no setor de logística urbana.
Fundada em 2021, a Otto Entregas nasceu de forma orgânica, construída “na unha”, sem franquias ou modelos prontos, e cresceu apostando em tecnologia própria, processos desenvolvidos internamente e uma relação próxima com entregadores e estabelecimentos. Nesta entrevista, Levi fala sobre sua trajetória pessoal, os desafios de empreender sem capital, as dificuldades do mercado, os aprendizados ao longo do caminho e sua visão sobre o futuro dos aplicativos regionais de delivery no Brasil.
Onde você nasceu, onde cresceu e como foi sua trajetória até chegar à Otto Entregas? Você imaginava trabalhar com delivery ou logística?
Levi: Eu nasci em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, mas estou em São Carlos desde 1994. Minha trajetória até o delivery não foi algo planejado. Sou mecânico automotivo e mecânico aeronáutico formado, mas aos 18 anos descobri que tinha ceratocone, um problema sério de visão. Isso só ficou claro quando reprovei em um exame admissional de uma grande empresa da aviação, depois de já ter passado em todas as provas técnicas.
Aquilo me abalou muito. Entrei em depressão e, em vez de desistir de tudo, comprei uma moto e comecei a trabalhar como motoboy. Entregava marmitex durante o dia e jornal de madrugada. Foi assim que entrei no mundo do delivery — não por sonho, mas por necessidade.
Em que momento você percebeu que era possível criar um aplicativo de entregas? Como surgiu a ideia da Otto Entregas?
Levi: Eu sempre fui muito ligado à fé e acreditava que Deus abriria uma porta para mim, mesmo sem eu saber qual seria. Enquanto entregava jornal de madrugada, eu ouvia entrevistas e conteúdos sobre filosofia e empreendedorismo. Foi ali que comecei a ouvir muito o Flávio Augusto e o Pablo Marçal.
O Flávio Augusto dizia que quem não levasse o negócio para o digital iria ficar para trás. Aquilo me incomodava, porque eu pensava: “Qual é o meu negócio? Eu sou motoboy”. Até que um dia caiu a ficha: levar o motoboy para o digital era criar um aplicativo.
Comecei a pesquisar e encontrei várias franquias, mas todas eram muito caras. Aquilo criou em mim a crença de que aplicativo era inacessível. Depois entendi que isso era só uma crença limitante. Continuei pesquisando até encontrar a tecnologia da Machine, que tornou o projeto viável.
A Otto Entregas foi lançada em que ano?
Levi: A Otto foi lançada em 2021, aqui em São Carlos.
Você começou a trabalhar muito cedo. O que aprendeu com essa trajetória e leva até hoje?
Levi: A principal lição é a resiliência. Nada começa grande. Quando lancei o aplicativo, eu ganhava mais como motoboy do que como empresário. Eu tinha uma renda estável e precisei abrir mão disso para apostar no negócio.
Durante meses, eu ganhei menos do que antes. Isso gera uma tentação enorme de desistir e voltar para a zona de conforto. Mas eu entendi que aquele era um processo necessário. Persistir mesmo quando o retorno financeiro ainda não aparece foi uma das maiores lições da minha vida.
Como foi o investimento inicial para tirar a Otto Entregas do papel?
Levi: Naquele momento eu não tinha absolutamente nenhum capital. Eu já tinha pesquisado o mercado, visto franquias e soluções que eram totalmente fora da minha realidade financeira. Quando encontrei a tecnologia que atendia o que eu precisava, o custo ainda era algo impossível para mim. Foi aí que eu conversei com um antigo patrão, apresentei a ideia, expliquei o projeto e pedi ajuda. Ele confiou em mim, emprestou o cartão de crédito, parcelou o investimento e eu paguei abrindo mão do meu salário por alguns meses. Aquilo foi decisivo para o nascimento da Otto Entregas — se não fosse essa confiança, o aplicativo simplesmente não teria existido.
Quais foram as maiores dificuldades no início da Otto Entregas?
Levi: A maior dificuldade foi criar todos os processos do zero. Quando você compra uma franquia, você recebe tudo pronto: modelo de cobrança, recrutamento de entregadores, tabela de preços. No meu caso, eu comprei apenas a tecnologia.
Todo o resto — cobrança, repasse, porcentagem do entregador, modelo de pagamento — foi desenvolvido de forma empírica, na tentativa e erro, por mim e pela minha esposa. Isso consome muita energia, mas também ensina muito.
Como foi o processo para captar restaurantes e entregadores? Houve investimento em marketing?
Levi: Foi tudo muito orgânico. Eu atribuo isso a Deus, mas também à estratégia que foi surgindo aos poucos. Conhecendo entregadores, donos de restaurantes, associações comerciais, apresentando o projeto pessoalmente.
Não houve grandes investimentos em marketing no início. Foi tudo no relacionamento, no olho no olho, crescendo devagar e com consistência.
Houve pessoas fundamentais para a sobrevivência da Otto Entregas?
Levi: Com certeza. Cada fase teve alguém essencial. No começo, o Fabiano, um contador que acreditou em mim e emprestou o cartão para eu pagar o setup do aplicativo. Depois, o Euclides, que trouxe muitos restaurantes para a plataforma por meio de integrações de sistema.
Minha esposa foi fundamental em vários momentos, segurando a empresa quando ninguém acreditava. E a Aline Ribeiro, que chegou a trabalhar meses sem salário por acreditar no projeto. Eu acredito que, em cada fase difícil, Deus levantou a pessoa certa para me ajudar.
Quantos estabelecimentos, entregadores e pedidos a Otto Entregas movimenta hoje?
Levi: Hoje temos cerca de 600 estabelecimentos cadastrados. São mais de 2 mil entregadores na base, sendo cerca de 800 ativos no mês. Desses, entre 140 e 150 trabalham semanalmente, que são os que realmente movimentam a operação.
Em volume, a plataforma realiza em torno de 80 mil pedidos por mês.
Qual é o ticket médio dos pedidos realizados pela plataforma e qual o faturamento?
Levi: Esses são dados que a gente não costuma abrir. São informações sensíveis, que impactam diretamente decisões estratégicas da empresa e a relação com o mercado.
Como funciona a remuneração dos entregadores?
Levi: Nós cobramos do restaurante uma taxa de entrega e ficamos com um percentual entre 20% e 25%. O restante é repassado ao entregador. Por exemplo, em uma entrega de R$ 10, R$ 8 ficam com o motoboy e R$ 2 com a plataforma.
Quanto um entregador pode ganhar trabalhando com a Otto Entregas?
Levi: Isso varia muito. Tem entregador que faz R$ 400 no mês e outros que chegam a R$ 7 mil, R$ 8 mil. Já tivemos casos fora da curva, de entregadores que faturaram R$ 10 mil ou R$ 11 mil, mas são pessoas que trabalham 15, 16 horas por dia — algo que não é sustentável por muito tempo.
Qual é o faturamento médio mensal da Otto Entregas e quais são as expectativas para 2026?
Levi: Essa é uma informação estratégica que eu prefiro não divulgar. O que posso dizer é que temos metas de crescimento bem agressivas para os próximos anos, com foco em consolidação da operação, diversificação de produtos e fortalecimento da marca.
Qual foi a maior mudança em você depois de empreender?
Levi: A principal mudança foi a dignidade. Hoje eu posso ir a um restaurante e escolher o prato pelo que eu quero comer, não pelo preço. Para quem já passou necessidade, isso não tem valor.
Ao mesmo tempo, eu fiquei mais duro emocionalmente. O empreendedor apanha muito, aprende a desconfiar mais e perde um pouco da ingenuidade.
Em que momento você percebeu que a Otto Entregas estava dando certo?
Levi: Quando um concorrente forte saiu do mercado e incorporamos uma carteira grande de clientes. A partir dali, profissionalizamos a empresa, estruturamos processos e demos um salto de crescimento. Foi um divisor de águas.
Quais são os planos da Otto Entregas para os próximos anos?
Levi: Hoje o foco é consolidar São Carlos, nossa cidade matriz. A expansão sempre é uma possibilidade, mas só quando tivermos certeza de que a base está sólida.
Que legado você quer deixar na sua cidade e na sua trajetória?
Levi: Mostrar que qualquer pessoa pode sair do lugar onde está. Talvez você não chegue exatamente onde sonhou, mas com disciplina, persistência e fé, você certamente não fica parado no mesmo lugar.
