A MT Entregas é uma plataforma de delivery que nasceu no Mato Grosso a partir de uma demanda do mercado local: a dificuldade dos estabelecimentos em encontrar entregadores disponíveis e a falta de modelos mais justos para quem está na rua fazendo as entregas. 

O gestor, Gustavo da Silva Mendes, antes de fundar o aplicativo, trabalhou como vendedor, entregador e motorista de app. Insatisfeito com o transporte de passageiros, Gustavo investiu em uma moto com baú e passou a oferecer seus serviços de entrega pela cidade de Sinop (MT). Foi então que teve a ideia de abrir o próprio aplicativo e, aconselhado por uma colega motorista, contratou a plataforma que faria o desenvolvimento.

O plano do fundador era fazer diferente da concorrência. Você tinha que trabalhar uma semana e receber na outra semana. […] no início a MT era assim: o entregador fazia a entrega e já recebia na hora”, afirma. Com o tempo esse modelo precisou se adaptar, mas o gestor afirma que a empresa segue em expansão. Hoje, a MT Entregas atende seis cidades mato-grossenses e realiza cerca de 3 mil entregas por dia.

Nesta entrevista, o gestor apresenta a estrutura da operação, fala sobre os desafios iniciais, os diferenciais do aplicativo e as perspectivas de crescimento da empresa no estado.

Onde você nasceu?

Gustavo: Eu sou de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Sempre fui daqui e esse foi um dos motivos de ter colocado o nome do app de MT Entregas, por causa da sigla do estado.

Você já trabalhou com entregas antes de criar a MT? O que você fazia?

Gustavo: Eu trabalhei muito tempo de vendedor ambulante. Eu puxei mercadoria do Paraguai, fui vendedor interno, externo. Depois teve uma época que eu trabalhei nas entregas. Aí eu parei e fui trabalhar de motorista de aplicativo em um app regional grande aqui do Brasil. Trabalhei acho que uns 3 anos com eles.

Mas eu estava desanimado porque as coisas estavam meio caras e eu comecei a pensar em voltar para as entregas. Falei: “Rapaz, eu acho que eu vou pegar uma moto, arrumar um baú, fazer uns cartõezinhos e divulgar meu serviço na cidade”.

Em que momento você percebeu que dava para criar um delivery na sua cidade? Como surgiu a ideia?

Gustavo: Quando eu trabalhava como entregador na diária, eu atendia vários estabelecimentos diferentes e percebi que todos eles sofriam com a falta de entregador. Era praticamente o dono do estabelecimento implorando para que a gente atendesse eles. Isso nunca saiu da minha cabeça. Aí eu falei: “Poxa, se eu abrir o aplicativo e colocar os entregadores para atender esses estabelecimentos, a gente consegue fazer um serviço bacana”.

O que te incomodava nos outros aplicativos e que você resolveu fazer diferente na MT Entregas?

Gustavo: Minha ideia era: enquanto eu não tivesse a minha clientela própria, trabalhar em alguns aplicativos da cidade. Mas fui procurar e não achei nenhum legal. Você tinha que trabalhar uma semana e receber na outra semana. E como eu estava trabalhando na Uber, eu achei legal a forma que você faz a corrida e já recebe.

A princípio eu quis criar a empresa para fazer diferente das outras e no início a MT era assim: o entregador fazia a entrega e já recebia na hora. Mas conforme eu fui cadastrando alguns estabelecimentos que tinha uma demanda maior de entrega, eu não conseguia fazer o pagamento para o entregador toda hora, aí tivemos que mudar isso.

Quando inauguraram oficialmente?

Gustavo: Em janeiro agora tem quatro anos que estamos atuando aqui em Sinop. Eu abri em 2022.

No início, como foi o processo para colocar o app no ar?

Gustavo: Eu nem sabia quem desenvolvia o app, mas soube através de uma motorista que trabalhava com a gente. Eu estava conversando com ela pelo rádio e disse que queria abrir um aplicativo de entrega, mas não sabia onde conseguir a plataforma. Ela me falou da Machine. Ela já tinha tentado outra plataforma de mobilidade que deu muita dor de cabeça e processos, mas disse que a Machine estava funcionando bem. Contatei o vendedor e chamei meu irmão, o Robson, que hoje é meu sócio.

Seu irmão trabalhava com entregas também?

Gustavo: Não. O Robson tinha uma loja de celular. Ele aceitou investir, mas disse que não teria tempo para cuidar por causa da loja. Eu disse: “Não, pode deixar que eu cuido sozinho”. Iniciei sozinho, mas hoje ele faz de tudo. No período de chuva, quando a demanda aumenta e o número de entregadores diminui, ele vai para a rua também fazer entrega. Hoje ele trabalha 50/50 na gestão comigo.

Quais foram os principais desafios no início da gestão?

Gustavo: O mais difícil foi conseguir entregador. Os aplicativos que já atuavam proibiam o entregador de rodar em outra plataforma. Como eu estava começando, não tinha demanda para o cara ficar só comigo e ele tinha medo de ser excluído das outras plataformas. Tive que convencê-los a fazer um “extra” com a gente. O meu diferencial era o pagamento na hora, presencial, enquanto os outros pagavam semanal ou quinzenal.

Iniciei sozinho, abordando entregadores na rua e apresentando o serviço para os estabelecimentos. Eu via uma rodinha de entregadores, parava e apresentava o aplicativo. Nos estabelecimentos era a mesma coisa: passava na frente, entrava e apresentava o serviço.

Teve alguém que foi marcante nesse começo?

Gustavo: Tem um entregador que roda com a gente até hoje. Ele fazia R$ 3 mil por mês em outro aplicativo e recebia por quinzena. Começou a fazer 500 reais com a gente e usava esse dinheiro imediato para abastecer e para pequenas despesas, sem precisar pegar “vale” no outro serviço. Quando o outro aplicativo o removeu, ele ficou preocupado, mas aí começou a me ajudar a trazer novos estabelecimentos para a MT para aumentar a demanda dele.

Hoje vocês atendem quantos estabelecimentos?

Gustavo: Acredito que, ativos, mais de 70 estabelecimentos.

Quantos entregadores vocês têm hoje?

Gustavo: Em média 150 entregadores.

E vocês têm bags personalizadas e uniformes para eles?

Gustavo: Nós fornecemos os uniformes, mas a bag (mochila) geralmente é do próprio entregador, exceto em Alta Floresta, onde o aplicativo fornece a mochila.

Quais cidades a MT Entregas está operando atualmente? E como é a concorrência?

Gustavo: Atendemos Sinop, Cuiabá, Alta Floresta, Colíder, Rondonópolis e Primavera do Leste. A cidade de Sinop tem entre 200 e 250 mil habitantes e deve ter em torno de uns 15 aplicativos de entrega aqui. É muita coisa para o tamanho da cidade.

Essas outras cidades são gestão própria ou franquias?

Gustavo: São todos franqueados. A gente dá todo o suporte no começo, ensina a mexer no aplicativo e a oferecer o serviço, mas depois de um ano e pouco eles já andam por conta própria.

Qual o maior desafio operacional hoje?

Gustavo: A chuva. Quando chove, principalmente domingo à noite, o número de pedidos explode e o de entregadores diminui. Fica tudo mais lento e perigoso. Para resolver isso, usamos o “Desafio do Entregador” e a tarifa dinâmica, aumentando o valor da entrega para incentivar o pessoal a dar preferência para a nossa plataforma.

Vocês atendem só restaurantes ou atendem outros estabelecimentos também?

Gustavo: Atendemos cerca de 80% das farmácias da cidade, lojas de peças também, lojas de roupas e restaurantes. Eu nunca foquei muito em marmitarias por causa da pressão extrema do tempo de almoço, mas hoje atendemos uns oito restaurantes que têm esse movimento forte.

Quantas entregas vocês realizam atualmente?

Gustavo: Em Sinop, fazemos em média 1.400 entregas por dia. Somando todas as cidades franqueadas, dá em torno de 3 mil chamadas por dia.

Como funciona a cobrança para o estabelecimento? E para o entregador?

Gustavo: Com o estabelecimento, trabalhamos com recarga (pré-pago) e alguns poucos no faturado semanal.  Para o entregador a cobrança é por porcentagem por entrega, varia de 14% a 17%.

Como funciona o pagamento dos entregadores hoje?

Gustavo: Então, quando a demanda aumentou, o entregador fazia a entrega e não tinha como receber direto do estabelecimento. Aí começamos a usar a carteira de crédito e eles gostaram. Hoje temos pagamento presencial e carteira de crédito.

Qual o valor mínimo da entrega na MT?

Gustavo: A taxa mínima é de R$ 7 para até 2 km ou 3 km. O pagamento é diário e o entregador pode sacar direto pelo aplicativo.

Quanto um entregador fatura com vocês em média?

Gustavo: Em torno de R$ 200 por dia. Alguns fazem mais, outros menos.

Quais são os planos para o futuro?

Gustavo: A ideia é abrir em novas cidades, focando nas maiores do estado do Mato Grosso. O desafio é achar pessoas boas, franqueados que estejam dispostos a “arregaçar a manga” e ir para a rua. Também tem a preocupação com a nova carga tributária que gera uma certa insegurança, mas nossa meta é aumentar os números aqui na região.