A mobilidade urbana em cidades turísticas de Santa Catarina foi o ponto de partida para a criação da Upzy, aplicativo regional fundado por Rickson Lima e André Ferrari. Motoristas de aplicativo em Garopaba, os dois sócios decidiram transformar a experiência nas ruas em um negócio próprio, com foco em melhorar o atendimento aos passageiros, valorizar os condutores e profissionalizar um mercado que, segundo eles, ainda sofre com precarização e falta de suporte.

A empresa nasceu em Garopaba, mas já ultrapassou os limites do município e hoje opera em mais de 45 cidades catarinenses. Em entrevista ao 55content, os dois empresários contaram como a Upzy saiu de um grupo de motoristas excluídos de outras operações, ganhou escala em menos de um ano e passou a se posicionar como uma alternativa regional diante do domínio de plataformas multinacionais.

Como vocês chegaram ao mercado de mobilidade urbana e o que levou à criação da Upzy?

Rickson: Eu moro em Garopaba e trabalho com aplicativo de mobilidade desde 2016, quando esse mercado começou a ganhar força no Brasil. Ao longo dos anos, fui conciliando a atividade com a minha profissão, mas há cerca de um ano e meio passei a focar integralmente nesse setor. Sou de Porto Alegre, mas vim morar em Garopaba e foi aqui que conheci o André, dentro de um grupo de motoristas de aplicativo.

André: Eu sou de Curitiba e moro em Garopaba há três anos. Comecei a trabalhar com aplicativo aqui, primeiro com Uber e 99. No dia a dia, eu e o Rickson fomos nos aproximando, conversando sobre as corridas, as dificuldades da cidade, a dinâmica do mercado e o comportamento dos passageiros. Foi dessa convivência diária que surgiu a ideia de criar um aplicativo próprio.

Qual problema do mercado vocês enxergaram e quiseram resolver com a Upzy?

André: O principal problema era a falta de valorização do motorista e a dificuldade de atendimento em uma cidade como Garopaba. Aqui existem muitas ruas ruins, bairros afastados e regiões em que o motorista vai, mas não consegue retorno. Isso fazia com que muitas corridas fossem recusadas, deixando o passageiro na mão.

Além disso, o transporte público praticamente não funciona na cidade. Então existia uma lacuna: havia demanda, mas não havia uma solução eficiente e sustentável, nem para quem precisava do carro, nem para quem dirigia.

Rickson: Outro ponto importante foi a questão das corridas particulares via WhatsApp. Isso vinha crescendo muito, mas ao mesmo tempo ficava cada vez mais arriscado do ponto de vista de fiscalização e de organização. A gente percebeu que precisava profissionalizar esse serviço, tirar a corrida do improviso e colocar tudo dentro de um aplicativo.

Como foi o início da operação da Upzy?

Rickson: O início foi bem traumático, para falar a verdade. Já existia um aplicativo aqui na cidade que cobrava preços muito altos. Era bom para o motorista, mas muitas vezes dava vergonha de cobrar aquilo do passageiro. Além disso, eles excluíam passageiros e motoristas de grupos por qualquer motivo. Se a pessoa pedisse corrida fora do aplicativo deles, era cortada.

Eu e o André começamos a pegar justamente essas pessoas excluídas e criamos um grupo à parte. A partir daí, começamos a atender de forma mais humana, mais próxima. Chamamos sete motoristas que também tinham sido excluídos e começamos a desenhar o aplicativo.

Vocês começaram com quantas pessoas?

Rickson: Começamos com sete motoristas, além de nós dois. Só que, com o tempo, alguns foram desistindo. Um achou ruim uma coisa, outro não aguentou a pressão do início, e no fim ficaram só eu e o André tocando o projeto.

Hoje a realidade é bem diferente. Os motoristas entram organicamente. Tem dia em que entram dois, três novos motoristas. A operação foi crescendo e deixou de ter só um pensamento regional. A Upzy hoje é um aplicativo com matriz fiscal em Garopaba, mas já está presente em mais de 45 cidades de Santa Catarina.

A Upzy já se paga ou ainda exige aporte de vocês?

Rickson: Hoje, o que entra para mim e para o André como motoristas é o que sustenta a nossa vida pessoal. Já o lucro do aplicativo, a gente reinveste praticamente todo. Vai para contador, sistema, marketing, fiscal, manutenção da estrutura. Então, o aplicativo caminha, mas a gente ainda opta por reinvestir tudo para crescer.

Como vocês dividem as funções dentro da empresa?

André: No começo, a gente fazia de tudo. Como nós dois somos da área de tecnologia, participamos juntos da implantação e da configuração do sistema. Depois, conforme a operação cresceu e algumas coisas pessoais também aconteceram — como o nascimento da minha filha —, a divisão foi ficando mais natural.

Hoje o Rickson fica mais concentrado na parte administrativa, no suporte, na relação com motoristas e passageiros e também nas configurações do sistema. Eu fico mais na rua, na operação, fazendo corridas e ajudando a manter o índice de atendimento alto, evitando cancelamentos e corridas perdidas.

Rickson: Como eu fiquei um período com o carro parado, naturalmente fiquei mais focado no suporte e na parte administrativa. E o André assumiu mais esse papel operacional, de garantir que a cidade não fique descoberta.

Qual foi o momento mais difícil desde a criação da Upzy?

Rickson: O momento mais difícil é o atual. A gente começou com o nome UpCity. Só que tivemos um problema jurídico relacionado à fonética da marca e fomos obrigados a mudar o nome para Upzy. Isso exigiu troca de domínio, redes sociais, reposicionamento de marca, comunicação com motoristas e passageiros.

O passageiro quase não sente, porque ele simplesmente atualiza o aplicativo e continua chamando. Mas para nós e para os motoristas foi uma fase bem desgastante, porque gerou muita dúvida e muita curiosidade. Psicologicamente foi bem pesado.

Quais eram os maiores medos de vocês no começo?

Rickson: Nosso maior medo era simples: não encaixar corrida. Era montar tudo, investir, colocar o aplicativo na rua e ele não gerar demanda suficiente. A gente sabia que conseguiria correr e segurar alguma coisa no começo, mas não dava para sustentar tudo apenas na expectativa.

Então o medo maior era esse: fazer a ponte entre passageiro e motorista funcionar de verdade, ainda mais enfrentando uma Uber já muito forte na cidade.

Quando vocês perceberam que a Upzy estava dando certo?

Rickson: No início a gente se guiava muito por feedback, porque os números ainda eram pequenos. Dez corridas, doze corridas, um elogio aqui, outro ali. Mas o ponto de virada veio quando começamos a bater consistentemente 50, 60, 70 atendimentos por dia em Garopaba.

Para a realidade da cidade, isso já era muito relevante. Garopaba é uma cidade turística, sazonal, cheia de peculiaridades. Quando a operação começou a bater essas metas todos os dias, a gente percebeu que ela já estava caminhando com as próprias pernas.

André: E junto com isso vieram situações simbólicas. Já aconteceu, por exemplo, de uma passageira que mora em Garopaba estar em Florianópolis, precisar de carro e automaticamente abrir a Upzy, sem nem pensar em Uber. Isso mostra que o aplicativo entrou no hábito da pessoa.

Do que vocês mais se orgulham nessa trajetória?

Rickson: O que mais me orgulha é ouvir elogio sem a pessoa saber que eu sou um dos donos. O passageiro entra no carro e fala: “Ainda bem que vocês vieram”, “Esse aplicativo está salvando a cidade”, “Os donos estão de parabéns”. Esse reconhecimento espontâneo é muito forte.

André: Concordo. A gente nunca fez questão de se apresentar como dono. Sempre falou do aplicativo como se fosse de outra pessoa, justamente para sentir a reação real de quem usa. E ver que a pessoa gosta, que ela sente diferença no atendimento, na disponibilidade e na proposta, isso mostra que estamos no caminho certo.

Qual foi a maior mudança que a Upzy trouxe para vocês como empreendedores?

Rickson: A principal mudança foi aprender a pensar menos no retorno imediato e mais no processo. A gente percebeu que, se tentar ganhar tudo muito rápido, não constrói nada duradouro. Então aprendemos a reinvestir, a ouvir mais, a aceitar que o crescimento é passo a passo.

André: E também mudou muito a forma como a gente enxerga a cidade. Hoje, quando estou na rua, não estou só pensando em fazer uma corrida. Estou observando o comportamento das pessoas, os horários, os gargalos, as regiões onde falta motorista. A gente passou a pensar mobilidade de uma forma muito mais estratégica.

Em quantas cidades a Upzy está presente hoje?

Rickson: Hoje a Upzy já está presente em mais de 45 cidades. A expansão ainda é lateral, ou seja, a gente abre o mapa, começa a operar de forma gradual e vai consolidando aos poucos. Garopaba ainda é a base mais forte, mas já temos presença em várias outras cidades de Santa Catarina.

Quantos passageiros e motoristas vocês têm cadastrados?

Rickson: Hoje temos cerca de 300 motoristas cadastrados e estamos chegando a aproximadamente 5 mil passageiros cadastrados. Pode parecer pouco para 45 cidades, mas é porque a operação mais consolidada ainda está em Garopaba e a expansão aconteceu recentemente em outras regiões, como Tubarão.

Quantas corridas a Upzy realiza por mês?

Rickson: Em média, cerca de 3 mil corridas por mês. Em Garopaba, nesses primeiros 10 meses, a gente já passou de 30 mil corridas realizadas.

Qual é o valor da corrida mínima e quantos quilômetros ela cobre?

Rickson: Em Garopaba, a corrida mínima hoje é de R$ 10,95 e cobre até 2,5 km.

Qual é o ticket médio da plataforma?

Rickson: O ticket médio hoje fica em torno de R$ 15,40.

Quanto o motorista ganha por quilômetro rodado na Upzy?

Rickson: Fizemos essa média recentemente e hoje ela fica em aproximadamente R$ 2,64 por quilômetro, já com a taxa descontada.

Qual é a taxa cobrada dos motoristas?

Rickson: Em Garopaba a taxa está em 17%. Em cidades como Tubarão, por exemplo, já estamos operando com 12%. Mas, de forma geral, pode-se dizer que trabalhamos com algo em torno de 15%, dependendo da praça.

Quanto um motorista costuma faturar com a Upzy?

Rickson: O motorista que trabalha com regularidade consegue fazer em torno de R$ 6 mil a R$ 7 mil por mês. O maior faturamento que tivemos, no meu caso, ficou em algo entre R$ 6 mil e R$ 6,5 mil em um mês. Se o cara puxar mais forte, dá para fazer R$ 7 mil tranquilo.

Como funciona o pagamento para os motoristas?

Rickson: O passageiro pode pagar em cartão, dinheiro, Pix ou maquininha. Quando é no cartão pelo app, o valor entra numa carteira virtual. O motorista solicita o saque e a gente faz esse repasse em até 72 horas.

Quanto a Upzy movimenta por mês em corridas?

Rickson: Hoje, por baixo, a gente gira algo em torno de R$ 30 mil em corridas. Sobre isso incide a taxa da plataforma.

Vocês enfrentam muitos problemas com corridas por fora?

Rickson: Existe, claro, mas a gente não vê isso como o maior problema. Aqui o motorista cobra muito caro na corrida particular. Uma corrida que no aplicativo sai por R$ 12 ou R$ 15, por fora ele vai cobrar R$ 25, R$ 30 ou até mais. Então o passageiro até pode virar particular de um motorista, mas não fideliza com facilidade, porque no fim o aplicativo acaba sendo mais interessante para ele.

O que mais incomoda vocês no mercado hoje?

Rickson: Para mim, o maior problema hoje é a cultura que parte dos motoristas herdou das grandes plataformas. Muitos querem ganhar demais em cima do passageiro e se recusam a fazer corridas que estão plenamente aceitáveis dentro da lógica da cidade.

Nós tentamos manter um equilíbrio para não trair o passageiro e não sacrificar o motorista, mas tem muita resistência. O motorista reclama de uma corrida que paga bem no nosso aplicativo e, ao mesmo tempo, aceita corridas muito piores na Uber. Essa lógica ainda me incomoda bastante.

André: Eu assino embaixo. O maior desafio hoje é lidar com vícios antigos do mercado. Tem motorista que já vem formatado por anos de Uber e 99 e acha que tudo tem que funcionar daquela mesma maneira. Mudar essa cabeça é difícil.

Como vocês veem o futuro dos aplicativos regionais?

Rickson: Eu acho que muita gente ainda vai entrar nesse mercado achando que é fácil e muita gente vai sair frustrada. Virou moda vender aplicativo regional como se fosse uma fórmula mágica. Mas não é.

Vai sobreviver quem se profissionalizar, quem tiver estrutura e quem entender que não dá para pensar só em lucro imediato. Nós acreditamos muito nesse mercado, mas acreditamos num mercado profissional, não amador.

André: Eu também vejo assim. Hoje tem muita plataforma sendo vendida como produto hype. O cara acha que vai pagar barato, ligar o app e sair faturando, mas não é assim. Nós pegamos tudo praticamente do zero, ajustamos taxa por taxa, dia por dia, horário por horário, até encontrar um modelo sustentável.

O que um aplicativo regional precisa fazer para conquistar espaço diante de Uber e 99?

Rickson: Precisa entender que vai ter que competir com empresas muito fortes e que oferecem incentivos pesados. Então o regional precisa ser inteligente, trabalhar promoção, fazer campanha, fidelizar passageiro e recompensar motorista.

A gente tem que se adaptar ao mercado, porque senão o passageiro vai preferir o desconto da Uber e pronto. Não dá para ignorar isso.

Quais são os receios de vocês para o futuro?

Rickson: Sinceramente, eu não tenho medo da regulamentação. Pelo contrário, acho que ela pode até acelerar o crescimento da Upzy, porque nós já nascemos organizados e preparados para funcionar de forma correta. Se vier regulamentação, muita gente vai cair pelo caminho e nós vamos continuar.

Onde vocês se veem daqui a cinco anos?

Rickson: Em todo o Brasil. Esse é o nosso objetivo. Respeitando limites de mercado, parcerias e regiões onde talvez já existam acordos, mas a meta é nacional. A gente quer levar a Upzy para o maior número possível de cidades e transformar isso num projeto muito maior do que uma operação local.

Qual legado vocês querem deixar com a Upzy?

Rickson: O nosso legado vai muito além da mobilidade. A gente quer mostrar que um aplicativo pode também servir pessoas, acolher, estar presente e ser instrumento de transformação. Temos projetos sociais em andamento, ações com alimentos, apoio a instituições e, acima de tudo, uma visão muito humana do negócio.

A gente já encontrou pessoas em situações muito delicadas, com problemas emocionais sérios, até casos de tentativa de suicídio. E muitas vezes o motorista é quem está ali, ouvindo, acolhendo, orientando. Para nós, a Upzy é mais do que corrida. É também cuidado com o próximo.

André: Eu assino embaixo. O propósito é esse: ser diferente, servir bem e deixar uma marca boa nas pessoas.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.