Michael Ribeiro da Silva, de 37 anos, nasceu em Joaçaba (SC) e passou boa parte da vida trabalhando em áreas como agroindústria, supermercados e segurança privada — profissão que ainda mantém atualmente em uma empresa de carro-forte. A entrada no mercado de mobilidade urbana começou como motorista de aplicativo e rapidamente evoluiu para o empreendedorismo. Depois de uma primeira experiência societária no setor, Michael decidiu seguir sozinho e criou a ViaCar, aplicativo regional de mobilidade lançado em meados de 2025.

Hoje, a ViaCar atua não apenas com corridas urbanas, mas também com transporte para prefeituras, corridas da saúde e educação, entregas para farmácias e cobertura de eventos regionais. A estratégia de crescimento da empresa se apoia fortemente em marketing local, influenciadores e presença em eventos. O investimento inicial foi de aproximadamente R$ 15 mil, valor direcionado principalmente para divulgação, estrutura e captação de motoristas e passageiros.

A plataforma opera principalmente em Joaçaba, Herval d’Oeste e Luzerna, com cobrança de taxas entre 10% e 15% dos motoristas. A corrida mínima custa R$ 12 e cobre cerca de 1,3 km. Segundo Michael, motoristas que trabalham com frequência conseguem faturar entre R$ 7 mil e R$ 10 mil por mês, com casos que chegaram perto de R$ 12 mil em faturamento bruto mensal.

Somente no último mês, a ViaCar movimentou cerca de R$ 57 mil em corridas. Apesar disso, Michael afirma que ainda reinveste praticamente todo o dinheiro da operação em crescimento, divulgação, eventos e estrutura da empresa. A receita gerada pelas entregas para farmácias também ajuda a sustentar e expandir o aplicativo.

Na entrevista, o empreendedor fala sobre os desafios de construir uma plataforma regional em um mercado dominado por gigantes como Uber e 99, a importância da valorização dos motoristas, as dificuldades de equilibrar oferta e demanda, o papel das redes sociais no crescimento do negócio e o sonho de transformar a ViaCar em uma empresa regional forte, próxima dos motoristas e com suporte humanizado.

Antes de saber a história da ViaCar, queria saber um pouco da sua história. Você pode se apresentar, falar seu nome completo, sua idade, onde nasceu e em quais áreas trabalhou até chegar ao mercado de mobilidade?

Michael: Eu me chamo Michael Ribeiro da Silva, nasci em Joaçaba, Santa Catarina, e moro aqui há 37 anos, que é a minha idade. Antes de chegar na mobilidade, trabalhei em várias áreas. Trabalhei na agroindústria, na BRF, trabalhei em mercado e também trabalho como vigilante e segurança desde os meus 21 anos.

Atualmente, também trabalho em uma empresa de carro-forte aqui de Santa Catarina. É uma empresa que atua no Brasil inteiro, mas tem unidade aqui na nossa cidade. Então, minha trajetória sempre foi de trabalho, sempre fui ligado à área de segurança privada, mas também comecei a trabalhar como motorista de aplicativo aqui na cidade. Foi daí que surgiu a ideia de ter um aplicativo meu.

Como surgiu a ViaCar?

Michael: A ViaCar surgiu depois de uma outra empresa que eu já tinha montado antes, também na área de transporte e mobilidade. Na época, eu acabei pegando três sócios, que trabalhavam comigo na empresa de carro-forte. A gente estava fazendo uma viagem a trabalho, eu já tinha essa ideia de abrir um aplicativo, contei para eles e eles pediram para entrar no projeto.

Aí fizemos uma sociedade em quatro. Ficamos ali durante um ano, um ano e pouco. Só que, com o tempo, eu comecei a não me entender com um deles. Acabamos nos dividindo, eu vendi minha parte para eles e montei a ViaCar sozinho. Hoje sou proprietário sozinho da empresa.

Quando a ViaCar foi lançada?

Michael: Foi lançada mais ou menos em junho ou julho do ano passado. Está quase fazendo um ano.

Além das corridas urbanas, em quais outros segmentos a ViaCar atua?

Michael: Hoje eu não trabalho só com mobilidade urbana. Também atendo prefeituras aqui da cidade e da cidade vizinha. Faço corridas da saúde, corridas da educação, trabalho com entregas de farmácia de moto e tenho umas oito farmácias que atendo em duas cidades.

A gente trabalha em vários segmentos para conseguir sobressair. Não dá para depender só de uma coisa. Tem que buscar alternativa, evento, farmácia, prefeitura, corrida urbana, entrega. É isso que ajuda o aplicativo a se manter.

Qual foi a dor do mercado que você observou e pensou que poderia resolver com o seu aplicativo?

Michael: Eu percebi muito a importância da divulgação. Na outra empresa, teve uma época em que trabalhávamos com quatro rádios aqui da cidade. A empresa crescia, mas não desenvolvia tanto. Depois começamos a colocar banners pela cidade, cercamos a cidade de banner, e isso melhorou.

Mais tarde, contratamos um influenciador local para divulgar o aplicativo. Foi aí que eu vi que o negócio alavancou. Cresceu muito. Quando saí da outra empresa, eu já tinha esse pensamento: o caminho era rede social.

Hoje eu trabalho com o Éder Luiz, que é muito forte aqui na cidade. Ele trabalha com jornalismo, mas tem uma entrega enorme. Posta um vídeo e faz 40 mil, 50 mil visualizações em dois dias. Então, hoje, foco muito nisso.

Agora também criei uma ideia nova, que é contratar influenciadores para fazer vídeos mensais. Criamos um projeto chamado “Carona com a ViaCar”. A gente pega pessoas da cidade que têm influência, coloca dentro do carro, uma influenciadora entrevista essa pessoa, filmamos a viagem e depois postamos. O primeiro vídeo foi publicado há uns 10 dias e acho que deu um resultado legal. Vamos continuar fazendo.

Como foi o processo para conseguir os primeiros motoristas e passageiros?

Michael: Na primeira empresa, foi complicado achar motorista. A gente começou com um motorista só. Como eu trabalhava 12 por 36 na outra empresa, eu ficava um dia no aplicativo e um dia no trabalho fixo. Depois apareceu outro motorista, depois outro, e foi indo.

Agora, na ViaCar, foi mais tranquilo. Comecei com pouco e já estou com uma quantidade boa. O processo agora está mais fácil porque eu já tinha experiência, já conhecia o mercado e já sabia alguns caminhos.

Também estou focando bastante em eventos. Estou tentando fechar parcerias com casas de show e eventos locais. Tenho parceria com o Bambucha, que tem a Arena Ash e um bar universitário. Também fechei parceria com um torneio estadual que vai acontecer aqui na cidade, para atender o pessoal que vem de fora.

Essa é uma estratégia para alavancar o aplicativo: estar presente onde tem movimento, onde tem evento, onde tem gente precisando se deslocar.

Vocês já pensam em expandir para outras cidades?

Michael: Sim. Eu até tenho o aplicativo aberto em várias cidades, inclusive em São Paulo, mas ainda não divulguei e não fui atrás de cliente nem de motorista nesses lugares.

Hoje o foco é fazer crescer aqui primeiro. Quero fortalecer a operação em Joaçaba, Herval d’Oeste e Luzerna, que são as cidades onde a gente atua mais, com motoristas trabalhando dia e noite. Depois, sim, a ideia é expandir.

Hoje você tem sócios?

Michael: Não. Hoje sou sozinho.

Qual foi o investimento inicial para colocar o aplicativo em operação?

Michael: O aplicativo em si não é tão caro de adquirir. O complicado vem depois: divulgação, captação de motorista, captação de corrida, estrutura. É aí que o gasto é maior.

No início, gastei aproximadamente R$ 15 mil para tentar alavancar. E continuo gastando. Agora, por exemplo, adquiri tenda, balão, materiais para eventos. É um gasto elevado, mas espero que compense. A gente está trabalhando para isso, tentando entregar um trabalho bom.

Hoje você é motorista do próprio aplicativo? Como é sua rotina?

Michael: Sou. Eu acho que sou o motorista que mais fica online no aplicativo. Só não estou trabalhando quando estou na empresa de carro-forte. Fora isso, fico o dia inteiro e a noite inteira online.

Eu sempre procuro deixar as corridas para os motoristas, mas, quando eles não conseguem atender ou não estão trabalhando, eu assumo. Faço tanto corrida de carro quanto de moto.

Qual foi o momento mais difícil desde que você lançou a ViaCar?

Michael: O começo é sempre o mais difícil. Como a gente é novo, não tem tanta corrida. Então você pega os motoristas, mas não consegue entregar uma demanda grande para eles. Essa parte é bem difícil.

Mas, graças a Deus, tenho fechado bastante evento durante os meses. Nesses períodos, sempre tem bastante demanda. Pelo tempo que tenho com esse novo aplicativo, acho que estou fazendo um trabalho bom.

Em que momento você percebeu que o aplicativo estava dando certo?

Michael: Quando comecei a ver bastante gente baixando o aplicativo e quando consegui fechar parcerias. Você começa a perceber que está no rumo certo, que a coisa está funcionando.

Só que aqui na minha cidade tem bastante aplicativo. Deu uma onda de abrir muitos apps, então tem bastante concorrência. Isso torna mais complicado crescer. Mas quando você vê parceria fechando, gente baixando e a marca aparecendo, percebe que está dando certo.

Hoje vocês estão presentes em quais cidades?

Michael: O aplicativo está aberto em várias cidades, mas a operação fixa mesmo é em Joaçaba, Herval d’Oeste e Luzerna. São as cidades onde temos motoristas trabalhando com mais frequência.

Qual taxa vocês cobram dos motoristas?

Michael: Dos motoristas que estão comigo desde o começo, cobro 10%. Dos que começaram agora, estou cobrando 15%.

Isso porque estou fazendo bastante investimento em eventos. Os 10% não estavam suprindo os custos. Quando faço evento, às vezes aumento a taxa dos motoristas mais antigos também, igualando para todos, para conseguir arcar com parte do investimento que fiz para gerar corridas para eles.

Qual é o valor da corrida mínima e quantos quilômetros ela cobre?

Michael: A corrida mínima durante o dia é R$ 12. Ela cobre cerca de 1,3 km. Depois disso, começa a calcular tempo e quilometragem.

Eu trabalho com quatro bandeiras. Tenho uma bandeira das 6h30 da manhã até 18h30. Depois outra das 18h30 até 22h. Outra das 22h até meia-noite. E, depois da meia-noite, entra a bandeira da madrugada.

Faço isso para amortizar melhor os valores e adequar a cobrança aos horários.

Como funciona o pagamento da taxa pelos motoristas? É sistema de recarga?

Michael: Sim. Eles colocam saldo na carteira do aplicativo, como se fosse recarga de celular. A taxa vai sendo descontada das corridas que eles fazem.

Eles recebem o valor total da corrida e a taxa é descontada do saldo que têm na carteira.

Existe valor mínimo para recarga?

Michael: Não coloquei valor mínimo. Eles colocam R$ 5, R$ 10, R$ 15, o valor que quiserem.

Quanto um motorista consegue faturar na ViaCar? E qual foi o recordista?

Michael: Já tive motorista que faturou quase R$ 12 mil em um mês. Foi cerca de R$ 11 mil e pouco.

Aqui a nossa saída é alta, nosso valor por quilômetro é bom. Não é igual em cidades maiores, onde às vezes Uber e 99 jogam corrida de R$ 6, R$ 6,50. Aqui isso não funciona. Nossa cidade tem muito morro, muita subida. Se cobrar esse valor, não paga nem a gasolina.

E, em média, quanto um motorista consegue faturar?

Michael: Se trabalhar mesmo, o motorista faz R$ 10 mil tranquilo. Pode fazer R$ 10 mil, R$ 8 mil, R$ 7 mil. Depende do quanto ele trabalha.

Aqui é bem relativo. Se não trabalhar, não ganha. Vai depender muito da dedicação do motorista.

Quanto a ViaCar movimenta em corridas por mês?

Michael: Neste mês, que nem foi tão bom, movimentou cerca de R$ 57 mil em corridas. Desse valor, para mim fica a taxa de 10% ou 15%, dependendo do motorista.

Mas eu não pego esse dinheiro para mim. Tudo que entra do aplicativo eu reinvisto nele. O dinheiro que uso para minha sobrevivência vem do meu trabalho fixo e das corridas que faço. O restante vai para o aplicativo de novo.

A receita das farmácias também ajuda a sustentar o app?

Michael: Sim. Nas farmácias, a taxa é maior e tem bastante demanda. Então, ali eu ganho mais. Mas também reinvisto tudo no aplicativo.

Qual foi a maior mudança que você percebeu em você depois que começou a empreender?

Michael: Eu me orgulho de ter começado uma empresa sem capital, sem caixa, sem dinheiro imediato para investir. Fui construindo passo a passo, reinvestindo tudo que entrava.

Me orgulho de ter aberto duas empresas e ver as duas rodando. Sou uma pessoa de classe humilde, trabalho desde os 16 anos em empresa, tenho pouco estudo, mas consegui levantar esses projetos. Isso me dá orgulho.

O que mais te orgulha na sua trajetória?

Michael: Me orgulho de ter conseguido colocar as empresas de pé, mesmo sem ter muito recurso. De estar trabalhando, fazendo a história, crescendo aos poucos. Espero que elas continuem por anos e anos.

Qual era o seu maior medo antes de lançar o app? E quais são seus medos para o futuro?

Michael: Meu maior medo é ter uma demanda alta e não conseguir suprir. Ver corrida passando e não conseguir atender o cliente me deixa triste, porque a gente prometeu não deixar o cliente na mão.

Isso acontece principalmente em horário de pico, em dia de chuva, na saída de colégio e de empresas. Às vezes não conseguimos atender todo mundo. Essa é uma frustração que tenho, mas estamos trabalhando para melhorar, contratando mais motoristas conforme aparecem currículos.

Quais são suas expectativas para o futuro da mobilidade urbana?

Michael: Eu não sou totalmente contra o que o governo tenta impor aos aplicativos. Acho que, quanto mais proteção tiver para o motorista, melhor.

O nosso foco é o motorista ter estabilidade, ter dinheiro e sustentar a família. Mas tudo precisa ser bem pensado. Se a gente tiver que pagar alguma coisa a mais para o motorista com a taxa que cobramos hoje, pode ficar inviável. Mas acredito que a gente vai se adaptando, inovando e procurando soluções.

Você enfrenta problemas com corridas feitas por fora do aplicativo?

Michael: Sim, bastante. Aqui temos o sistema da “maçaneta”, que é como chamamos o taxímetro. Às vezes o motorista está parado em um local, o cliente chega direto no carro, principalmente porque usamos bastante carro adesivado com a marca da empresa.

Acontece de alguns motoristas fazerem por fora. Não sei se é má-fé ou hábito. Talvez pensem em ganhar um troquinho a mais. A gente sempre aconselha a não fazer, porque pode dar problema. Se o cliente tiver qualquer problema, ele não vai reclamar com o motorista; vai reclamar com a empresa.

Graças a Deus, tenho motoristas que vestem a camisa e são parceiros. Tenho esse problema, mas não tanto quanto alguns aplicativos têm.

O que mais te irrita ou incomoda nesse mercado? São as corridas por fora ou a concorrência desleal?

Michael: Concorrência desleal nem tanto, porque aqui a concorrência é meio padrão. A maioria que está no ramo não gosta de perder dinheiro, então os valores ficam mais parelhos.

O que incomoda é você explicar uma coisa para o motorista e, pouco tempo depois, ele fazer a mesma coisa de novo. Às vezes ele reclama que o aplicativo não toca, e a gente explica: o aplicativo joga corrida para quem está mais próximo, para quem aceita mais, para quem cancela menos.

O sistema vai aprendendo com o comportamento do motorista. Quanto mais ele pega corrida, quanto mais se dedica, mais o aplicativo tende a favorecer. A gente explica isso, mas depois vem a mesma reclamação. Isso irrita um pouco, mas é preciso saber lidar, porque são pessoas como a gente. Ninguém gosta de ser maltratado. Então tento levar da melhor forma possível.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar uma fatia maior do mercado dominado por Uber e 99?

Michael: Os motoristas precisam se unir mais. Principalmente contra plataformas que cobram taxas altas, de 20% ou mais. Eles precisam dar um basta, colocar limite, por exemplo: corrida mínima de R$ 10. Se não tiver R$ 10, não sai.

Tem motorista saindo por R$ 5, R$ 6, R$ 7. Enquanto o motorista não perceber que é o carro dele, a gasolina dele e o tempo dele que estão em jogo, nada muda.

Nós somos pequenos, nem dá para comparar com Uber e 99, que estão no Brasil inteiro há muito tempo. Eles fazem o que querem e os motoristas continuam lá fazendo as corridas. Tem motorista que acha que faturar R$ 300 por dia é muito bom, mas não coloca na ponta do lápis o que gasta.

Com o tempo, com internet, redes sociais e mais informação, acredito que os motoristas vão se adaptando e enxergando melhor o que vale a pena.

Qual legado você quer deixar na sua cidade com a ViaCar?

Michael: Meu sonho é que, daqui a um tempo, eu não precise mais trabalhar na empresa onde trabalho hoje e consiga focar só no aplicativo.

Estou correndo atrás de mais corridas, mais parcerias com prefeituras, mais eventos. Quero abrir uma sala comercial no centro da cidade para dar suporte melhor aos motoristas. Um lugar onde eles possam ficar quando estiverem sem corrida, conversar, olhar no olho, tomar um chimarrão.

Esse é o legado que quero construir: uma empresa regional forte, que tenha proximidade com os motoristas e consiga dar suporte de verdade.

Você gostaria de acrescentar algo que eu não tenha perguntado?

Michael: Eu só queria acrescentar que o motorista precisa se valorizar mais nas grandes plataformas. Assim, a gente consegue melhorar esse reajuste de valores, que hoje está muito defasado.

Se os motoristas se valorizarem mais, as plataformas regionais conseguem ter uma concorrência mais leal.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.