Marcus Menezes trocou anos de experiência no setor farmacêutico e em tecnologia pela criação de um aplicativo regional de mobilidade urbana em Birigui (SP). O empreendedor começou dirigindo por aplicativo como renda extra e enxergou no mercado uma oportunidade de construir uma plataforma mais próxima dos motoristas, com taxas menores, suporte humanizado e foco regional. O primeiro app foi lançado em 2025, mas a grande virada aconteceu quando ele decidiu desenvolver uma nova versão do zero, criada por ele próprio.

Com investimento inicial entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, Marcus estruturou a operação apostando em divulgação local, panfletagem, anúncios e indicação de motoristas. Hoje, a plataforma soma cerca de 2.600 passageiros cadastrados, entre 60 e 70 motoristas registrados — sendo 30 a 40 ativos diariamente — e realizou 1.346 corridas apenas no último mês. O ticket médio das viagens gira em torno de R$ 15, enquanto os motoristas faturam, em média, entre R$ 4 mil e R$ 6 mil brutos por mês.

Atualmente, o aplicativo movimenta aproximadamente R$ 25 mil mensais em corridas. Com uma taxa de até 15% sobre as viagens, o faturamento da empresa fica entre R$ 3,7 mil e R$ 3,8 mil por mês — valor que, segundo Marcus, ainda é totalmente reinvestido em marketing e crescimento da operação.

Na entrevista, ele fala sobre os desafios de equilibrar oferta e demanda no início da operação, os erros ao contratar empresas de tecnologia, a decisão de criar seu próprio sistema, as dificuldades do mercado de mobilidade urbana e os planos para expandir o negócio por meio de licenciamentos regionais.

Como começou a sua trajetória até chegar ao mercado de mobilidade urbana?

Marcus Menezes: Tenho 38 anos e a maior parte da minha vida trabalhei no ramo farmacêutico. Já fui atendente de farmácia, balconista e também atuei na área de tecnologia dentro de uma farmácia, cuidando de sistema, segurança, câmeras, telefonia e toda essa parte de TI. Sempre gostei bastante de computadores e sempre tive facilidade com sistemas.

Depois que saí da farmácia, fui trabalhar em uma empresa de transmissão de energia. Só que, nas horas vagas, principalmente nos finais de semana, comecei a dirigir por aplicativo para fazer uma renda extra. Gostei bastante, porque quanto mais horas eu fazia, mais dinheiro eu ganhava. Ao mesmo tempo, eu sempre tive esse lado empreendedor. Já empreendi em outras áreas, como meios de pagamento, maquininha de cartão e outras coisas.

Foi aí que comecei a pensar: “Se eu já estou correndo como motorista e já vejo outros motoristas correndo, por que não criar meu próprio aplicativo e ganhar também com a taxa da plataforma?”.

O que te motivou a criar um aplicativo de mobilidade urbana?

Marcus Menezes: O que me motivou foi justamente enxergar que o mercado tinha potencial, mas também muitos problemas. Eu via que dava para ganhar dinheiro como motorista, mas ao mesmo tempo percebia que as plataformas iam apertando cada vez mais os ganhos da categoria. Então comecei a pesquisar empresas que vendiam tecnologia white label, aquelas que entregam o aplicativo pronto para você adaptar com sua marca, suas cores e seu modelo de cobrança.

Na época, a ideia era ter um aplicativo meu, com um modelo mais equilibrado para motorista e passageiro.

Qual foi o problema do mercado que você observou e pensou que poderia resolver com um aplicativo?

Marcus Menezes: O principal problema que eu observei foi a questão da remuneração do motorista. As corridas foram ficando cada vez mais baratas, e isso vai inviabilizando o trabalho. Ao mesmo tempo, aqui em Birigui e região já existiam vários aplicativos, incluindo Uber, 99, inDrive e alguns regionais. Eu percebi que dava para entrar nesse mercado, mas com uma operação mais próxima, mais local, com taxas mais claras e com um suporte mais humanizado..

Quando o aplicativo foi lançado?

Marcus Menezes: A primeira versão foi lançada em 2025, por volta de julho. Já esse novo aplicativo, que fui eu mesmo quem desenvolveu do zero, está rodando há cerca de um mês. Agora estou migrando toda a base de clientes e motoristas para essa nova versão.

Qual foi o investimento inicial?

Marcus Menezes: Eu calculo algo entre R$ 4 mil e R$ 5 mil no começo. O custo para colocar um app white label no ar nem é tão alto. O problema mesmo é o que vem depois: divulgação, marketing, panfleto, tráfego pago, influenciador. Aí vai bastante dinheiro.

No meu caso, gastei com setup, conta de desenvolvedor da Google Play, loja da Apple, panfletagem, anúncios pagos no Facebook e influenciador local.

Como foi o processo para captar motoristas e passageiros?

Marcus Menezes: O que ajudou bastante é que já havia uma concorrente aqui na cidade que exigia carros adesivados. Então era fácil localizar os motoristas na rua. Eu pegava panfleto com QR Code do aplicativo, telefone, WhatsApp e abordava esses motoristas pessoalmente, explicando a proposta, falando das taxas menores nos primeiros meses.

Consegui uns 15 a 20 motoristas assim, em pouco tempo. Depois criei uma campanha de indicação: cada motorista que trouxesse outro motorista ganhava R$ 10 de saldo na plataforma. Isso ajudou bastante.

Quanto aos passageiros, veio muito na base da divulgação local, panfletagem e do próprio trabalho dos motoristas. Eu sempre digo que nada funciona melhor do que o motorista dentro do carro falando do aplicativo. Pode investir em panfleto, tráfego, influenciador, mas quando o motorista explica para o passageiro e mostra a vantagem, isso gera muito cadastro.

Como foi o começo da operação?

Marcus Menezes: O começo foi bem difícil. Você tem que crescer as duas pontas ao mesmo tempo: passageiro e motorista. Se você tiver passageiro demais sem motorista, a pessoa pede e não encontra carro, desinstala rapidinho e vai para outro app. Se tiver motorista demais sem passageiro, o motorista liga o aplicativo, não toca corrida e desanima. Então esse equilíbrio é delicado.

Qual foi o momento mais difícil desde o lançamento?

Marcus Menezes: O momento mais difícil foi decidir desenvolver meu próprio aplicativo do zero. Eu achei que não ia conseguir. Foi muito estressante, porque você precisa fazer quatro aplicações se comunicarem ao mesmo tempo: aplicativo do passageiro, aplicativo do motorista, mapa, banco de dados, cálculo de tarifa, cupons, GPS. O fluxo da corrida precisa funcionar 100%. Essa foi, sem dúvida, a parte mais complicada.

Quando você percebeu que o app estava dando certo?

Marcus Menezes: Eu percebi quando fui olhar o sistema de pagamentos e vi que tinha mais dinheiro entrando do que eu imaginava. Eu estava tão focado em fazer o negócio rodar que nem estava acompanhando isso de perto. Quando parei para olhar e vi que realmente estava entrando valor acima do que eu esperava, aí pensei: “Esse negócio dá certo mesmo”.

Também comecei a perceber isso vendo o número de corridas crescer e vendo os motoristas realmente usando a plataforma.

Como é a sua rotina hoje como gestor?

Marcus Menezes: Hoje eu não consigo me dedicar 100% porque tenho outros negócios. Já fui motorista do próprio aplicativo, e ainda quero voltar a ir mais para a rua porque isso ajuda muito na divulgação. Mas atualmente fico mais na parte de gestão, suporte, marketing, divulgação e acompanhamento do painel.

Tem muito suporte via WhatsApp: passageiro que esquece objeto no carro, motorista com dúvida sobre recarga, cadastro, corrida, painel. Tudo isso eu resolvo pelo celular ou computador. Como o aplicativo ainda está em fase de crescimento, eu acompanho bastante de perto.

O que mais mudou na sua vida depois que você começou a empreender?

Marcus Menezes: Empreender é bem mais desgastante do que muita gente imagina. Tem gente que acha que vai empreender para trabalhar menos, mas é o contrário: você trabalha muito mais. Só que também é muito prazeroso, porque o retorno depende diretamente do seu esforço.

No meu caso, o que mudou foi isso: eu passei a me envolver profundamente com o negócio, com tecnologia, com estratégia, com atendimento, com divulgação. É cansativo, mas também muito recompensador.

Do que você mais se orgulha na sua trajetória?

Marcus Menezes: Eu me orgulho muito de ter conseguido desenvolver esse aplicativo novo exatamente da forma que eu idealizava. Eu queria um sistema com mais funcionalidades para o motorista, campanhas de incentivo, ranking, premiação, horários diferenciados, mapas de demanda. No white label eu não conseguia isso. Agora, com o aplicativo feito por mim, consegui chegar em algo que eu realmente acreditava.

Ver o aplicativo funcionando, ver os dados no painel, ver o dinheiro entrando, ver motorista e passageiro usando uma estrutura que eu construí do zero, isso é motivo de muito orgulho.

Quantos motoristas e passageiros vocês têm hoje?

Marcus Menezes: Hoje temos cerca de 2.600 passageiros cadastrados e entre 60 e 70 motoristas cadastrados, embora ativos diariamente sejam mais ou menos de 30 a 40 motoristas. Tem muito motorista que trabalha só à noite, só no fim de semana ou de forma complementar.

Quantas corridas vocês realizam por mês?

Marcus Menezes: No último mês foram 1.346 corridas.

Qual é o valor da corrida mínima?

Marcus Menezes: Hoje a corrida mínima é de R$ 10. Eu já acho pouco, mas não consigo subir muito por causa da concorrência. Tem app aqui que cobra menos de R$ 9, a 99 cobra até menos ainda. Só que eu não abaixo porque senão o motorista não ganha nada.

Quantos quilômetros a corrida mínima cobre?

Marcus Menezes: Não é uma configuração fixa por quilometragem. O sistema trabalha com tarifa base mais valor por quilômetro, e isso varia conforme o horário. Então eu não configuro assim: “até tantos quilômetros custa tanto”. O valor vai sendo calculado pela tarifa base e pelo km rodado, com reajuste em horários de pico e madrugada.

Como funciona a cobrança para os motoristas?

Marcus Menezes: O modelo é pré-pago. O motorista coloca saldo na carteira dentro do aplicativo, com mínimo de R$ 10, e conforme vai realizando as corridas, a taxa da plataforma é descontada desse saldo.

Nos primeiros três meses, a taxa é de 10%. Depois sobe para 15%. Não tem mensalidade. Se ele faz uma corrida de R$ 20, recebe os R$ 20 do passageiro, e o sistema desconta da carteira dele apenas os 10% ou 15%, dependendo da fase em que ele está.

Como funciona o pagamento das corridas?

Marcus Menezes: Hoje o passageiro pode pagar em dinheiro, Pix direto para o motorista ou no cartão, dependendo da forma combinada. Eu estou trabalhando para fortalecer o pagamento antecipado por Pix dentro do aplicativo, porque isso ajuda bastante na operação. Evita atraso no desembarque e agiliza para o motorista, mas só vou forçar isso mais para frente, quando tiver uma quantidade ainda maior de motoristas disponíveis.

Quanto os motoristas ganham por quilômetro rodado?

Marcus Menezes: Fora de horário de pico, a conta fica mais ou menos em uma taxa base de R$ 6 mais cerca de R$ 2,50 por km. Depois, em horários de pico e madrugada, esse valor sobe. Depois das 18h já aumenta, depois das 22h sobe mais, e de madrugada o km chega a ser ainda mais valorizado. Então depende bastante do horário.

Qual é o ticket médio das corridas?

Marcus Menezes: O ticket médio aqui gira em torno de R$ 15.

Quanto um motorista costuma faturar no aplicativo?

Marcus Menezes: É muito relativo. Depende do horário em que a pessoa trabalha. Tem motorista que trabalha mais à noite e ganha melhor, porque a tarifa sobe. Em média, eu diria que os motoristas tiram entre R$ 4 mil e R$ 6 mil brutos por mês. Tem um senhorzinho aqui, já de mais idade, que fatura muito bem e roda bastante, mas é um caso fora da curva.

Quanto a empresa movimenta em corridas e qual é o faturamento?

Marcus Menezes: Hoje a plataforma movimenta algo em torno de R$ 25 mil por mês em corridas. Como eu fico com 15%, o faturamento da empresa gira em torno de R$ 3.700 a R$ 3.800 por mês. Só que 100% disso está sendo reinvestido em panfletagem, influenciador, tráfego pago e divulgação. A empresa ainda não está tirando lucro para mim.

Quais eram os seus medos antes de lançar o app?

Marcus Menezes: Meu maior medo era contratar uma empresa para desenvolver e o serviço ser ruim. E foi exatamente isso que aconteceu. Esse foi o medo que virou realidade e me trouxe muita dor de cabeça.

Quais críticas você mais ouviu no começo?

Marcus Menezes: A maior crítica vinha de motoristas e passageiros que, na verdade, estavam reclamando da experiência com alguns profissionais, não necessariamente com a plataforma em si. O passageiro muitas vezes não entende isso e acaba avaliando mal o aplicativo porque o motorista atrasou, cobrou a mais ou não prestou um bom atendimento. Isso é difícil, porque prejudica a reputação da plataforma.

O que mais te incomoda no mercado hoje?

Marcus Menezes: O que mais me incomoda é a concorrência que fica prostituindo o preço. Ficam baixando cada vez mais a corrida, e isso prejudica o motorista e o mercado como um todo. Também me incomoda motorista que aceita corrida e não vai buscar, ou que tenta levar o cliente para fora da plataforma. Isso prejudica o passageiro, o app e o próprio motorista.

Você enfrenta problemas com corridas por fora?

Marcus Menezes: Sim, isso acontece. No começo me irritava muito mais, hoje eu já entendo que faz parte do mercado. Mas estou implementando mecanismos para monitorar isso, como pesquisas no fim da corrida, para saber se o motorista ofereceu corrida por fora ou indicou outro app. Se começar a virar um padrão, a gente faz advertência e, se persistir, bloqueia.

Como você vê o futuro dos aplicativos regionais?

Marcus Menezes: Eu vejo muito potencial, mas também vejo que cada cidade funciona de um jeito. O modelo de negócios muda muito de região para região. Então o meu foco hoje é desenvolver bem o produto e depois expandir por meio de licenciamentos. A pessoa ficaria responsável pela operação local e eu pela parte administrativa, suporte e treinamento.

O que os aplicativos regionais precisam fazer para conquistar mais espaço?

Marcus Menezes: Eles precisam apostar no suporte local e humanizado. O motorista e o passageiro valorizam muito poder falar direto com quem resolve. Isso é uma vantagem enorme dos apps regionais frente aos gigantes.

Qual legado você quer deixar?

Marcus Menezes: Eu ainda não penso muito nessa palavra “legado”, porque estou bem no começo. Mas quero construir um aplicativo simples, funcional, que resolva o problema de mobilidade das pessoas e que trate bem os motoristas e passageiros. Quero crescer com o pé no chão, evoluir a tecnologia e, no futuro, talvez deixar isso também como algo para meu filho.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.