O Berlandacar nasceu quando Juliane Pacheco Berlanda e o marido, Ronnie Peterson Berlanda, decidiram voltar para Medianeira, no Paraná, cidade de origem da família. Ela, funcionária pública em Santa Catarina, e ele, sócio-administrativo da empresa, enxergaram na mobilidade urbana uma oportunidade de criar um serviço mais próximo, especialmente para uma cidade de interior.
A proposta, desde o início, foi oferecer um atendimento mais humanizado do que aquele que os usuários costumam encontrar em plataformas maiores. Para Juliane, o diferencial não estaria apenas no preço ou na tecnologia, mas na capacidade de resolver problemas reais de passageiros e motoristas.
“Quando a gente pensou em abrir o Berlandacar, pensou em fazer melhor, fazer diferente. Atendimento humanizado é o que muito precisa hoje na mobilidade urbana”, afirma.
Reclamações de passageiros viraram ponto de partida
Um dos problemas que motivaram a criação do Berlandacar foi a dificuldade de atendimento em regiões mais afastadas e ruas de barro, comuns em cidades do interior. Segundo Juliane, havia reclamações de usuários que ficavam esperando porque outros aplicativos ou motoristas não aceitavam determinadas corridas.
A empresa decidiu transformar essas dores em regra de operação: reduzir cancelamentos, atender bairros menos procurados e manter contato com o cliente após a corrida quando algo acontece.
“Se no interior ninguém atende, vamos mudar isso. Se tem cancelamento de corrida, vamos mudar isso”, diz.
Começo teve cartãozinho, outdoor e corrida grátis
Para captar os primeiros clientes, Juliane e Ronnie foram para a rua. A divulgação começou com cartões entregues em frente a mercados, baladas e locais públicos. Também houve outdoors pela cidade e ações diretas para explicar aos moradores que havia um novo aplicativo disponível.
No começo, a empresa também oferecia corrida grátis para clientes em ações promocionais. A primeira corrida ou a quinta corrida podiam ser pagas pela própria Berlandacar, que repassava o valor ao motorista.
“Eu e meu esposo íamos na frente dos mercados, perguntávamos se a pessoa precisava de carro e chamávamos o motorista para atender”, lembra.
Motoristas recebiam ajuda de custo
A captação dos primeiros motoristas também exigiu investimento. Para manter condutores disponíveis enquanto o aplicativo ainda conquistava passageiros, a empresa pagava uma ajuda de custo para que eles ficassem na rua.
Juliane afirma que a expectativa inicial era passar um período apenas com despesas, sem lucro. O plano era ajudar motoristas e sustentar a operação até que o aplicativo ganhasse tração.
O retorno, porém, veio antes do previsto. Em cerca de quatro meses, o app já tinha volume de clientes e motoristas suficiente para começar a se pagar.
Aplicativo começou com quatro motoristas
A maior dificuldade no começo era a falta de motoristas. O Berlandacar iniciou com apenas quatro pessoas rodando: Juliane, Ronnie, um colega e a cunhada dela. Como havia pouca oferta, muitas vezes era preciso atravessar a cidade para buscar um passageiro.
“Dia e noite a gente tinha que atravessar a cidade porque não tinha motorista, mas tinha que atender o cliente”, conta.
Hoje, a dificuldade mudou. Para Juliane, o desafio é continuar conquistando e fidelizando clientes todos os dias. Desde a abertura, segundo ela, a base de usuários e o volume de corridas cresceram mês a mês.
Crescimento exigiu mudança no sistema em cinco meses
Juliane percebeu que o aplicativo estava dando certo por volta do quinto mês de operação. Na época, a empresa precisou acionar a desenvolvedora da plataforma porque os motoristas já tinham ultrapassado rapidamente o limite de corridas que o sistema esperava para aquele estágio da operação.
Segundo ela, a fornecedora esperava fazer esse tipo de ajuste somente depois de mais de um ano de operação, mas o volume do Berlandacar cresceu antes.
“A empresa achou que isso só aconteceria depois de um ano e alguns meses. Com a gente, em cinco meses já precisou alterar”, afirma.
A tecnologia usada atualmente pelo Berlandacar é da DevBase.
Juliane cuida da gestão e Ronnie dos carros
Juliane e Ronnie dividem a gestão do negócio. Ela fica mais à frente de sistemas, entrevistas, vídeos e rotina do escritório. Ronnie cuida dos adesivos nos carros, das avaliações dos clientes e da cobrança mais direta aos motoristas quando há necessidade.
A empresa também conta com sede própria, estagiários na central telefônica e uma recepcionista. O escritório físico deve reforçar a estrutura de atendimento ao público e aos motoristas.
“A parte de puxar um pouquinho a orelha do motorista fica por conta dele”, brinca Juliane.
Empresa atua em Medianeira e Matelândia
O Berlandacar tem matriz em Medianeira e também atua em Matelândia, cidade vizinha. A empresa reúne 177 motoristas cadastrados: 158 em Medianeira e 19 em Matelândia.
A base de clientes passa de 61 mil cadastrados. Embora a operação tenha motoristas disponíveis nas duas cidades, o aplicativo também atende viagens para municípios próximos, como Itaipulândia, Missal e Serranópolis do Iguaçu, quando há demanda de passageiros.
Mais de 72 mil corridas finalizadas em julho
Em julho, o Berlandacar registrou mais de 83 mil solicitações de corrida e mais de 72 mil viagens finalizadas. Segundo Juliane, a diferença entre pedidos e corridas concluídas ocorreu por falta de motoristas disponíveis para atender toda a demanda.
O número mostra a força da operação em uma cidade de porte médio e também aponta um desafio de crescimento: ainda há demanda reprimida.
“Foram mais de 10 mil corridas que a gente ainda não conseguiu atender”, afirma.
Corrida mínima é de R$ 8,20
A corrida mínima do Berlandacar é de R$ 8,20 e cobre 1,2 km. Na opção de carro elétrico, a mínima fica em R$ 8.
Segundo Juliane, o ganho por quilômetro varia conforme o tipo de corrida, especialmente porque há muitas viagens para o interior, com distâncias maiores e condições diferentes de estrada. Mas ela cita relatos de motoristas que consideram as corridas do Berlandacar boas, com valores a partir de R$ 2,10 por quilômetro rodado.
Motoristas pagam mensalidade, não taxa por corrida
O Berlandacar não cobra porcentagem sobre as corridas. O modelo é de mensalidade fixa: em Medianeira, o motorista paga R$ 450 por mês; em Matelândia, R$ 350. Depois disso, tem 30 dias para rodar e fica com o valor das corridas.
Para Juliane, esse modelo ajuda a reduzir a prática de corridas por fora e dá igualdade entre os motoristas, já que todos pagam a mesma mensalidade dentro da cidade em que atuam.
“A partir do momento que todos pagam uma mensalidade igual, todos têm direito igual”, afirma.
Motorista já passou de R$ 17 mil no mês
O maior faturamento registrado por um motorista do Berlandacar ultrapassou R$ 17 mil em um mês. Segundo Juliane, há motoristas que chegam a tirar em média R$ 15 mil, beirando R$ 16 mil, dependendo da dedicação e do volume de corridas.
A empresa estima que a movimentação total em corridas passe de R$ 1 milhão por mês, embora Juliane tenha dito que poderia confirmar o número exato posteriormente pela plataforma.
O faturamento da empresa, considerando as mensalidades dos motoristas, fica aproximadamente entre R$ 80 mil e R$ 85 mil por mês.
Atendimento telefônico é essencial para idosos
Além do aplicativo, o Berlandacar mantém central telefônica das 6h30 às 18h30. O serviço é importante para idosos, clientes com dificuldade de usar celular e pessoas que preferem atendimento humano.
A empresa também mantém grupos de clientes e de empresas, como clínicas e mercados, que chamam corridas para pessoas que precisam de transporte.
Corrida particular é a infração mais grave
Embora o modelo de mensalidade ajude a inibir corridas por fora, Juliane diz que a prática ainda é uma preocupação. Para ela, o caso mais grave é quando o motorista atende um passageiro pelo aplicativo e depois tenta transformar aquele cliente em contato particular.
A regra é importante porque, em uma cidade de cerca de 70 mil habitantes, praticamente todo mundo se conhece. A empresa entende que a plataforma deve manter uma distribuição justa de chamadas entre os condutores.
Expansão será com cautela
A empresa já recebeu propostas para vender franquias, mas Juliane não pretende liberar cidades muito próximas de Medianeira e Matelândia. A razão é proteger o volume de trabalho dos motoristas atuais, que já fazem viagens para municípios vizinhos.
Ela admite a possibilidade de abrir novas cidades por conta própria ou vender franquias em regiões mais distantes, a partir de cerca de 150 km. Mas afirma que só faz sentido expandir se o padrão de atendimento for mantido.
“Se for para ficar em duas cidades, perfeito, desde que seja bem feito”, diz.
Crescer exige empenho diário
Juliane acredita que há espaço para aplicativos regionais, mas alerta que abrir uma plataforma não significa enriquecer rapidamente. Ela conta que alguns motoristas já saíram para abrir os próprios aplicativos e depois acabaram voltando.
Para ela, o mercado exige criatividade, esforço diário, investimento e capacidade de conquistar clientes continuamente.
“Não adianta achar que abrir um aplicativo vai resolver. Tem que ter muito empenho e muita criatividade”, afirma.
Tecnologia não é o problema
Na avaliação de Juliane, os aplicativos regionais não estão tecnologicamente atrás das grandes plataformas. Ela destaca que o Berlandacar foi o primeiro aplicativo da região a se cadastrar na MoveBrasil, iniciativa voltada a ajudar motoristas a financiar carro novo.
Formada em direito, Juliane diz que as empresas precisam buscar atualizações e oportunidades para seus motoristas, mesmo que a adesão dependa de cada condutor.
“A empresa tem que fazer a sua parte. Se os motoristas vão aderir ou não, já é outra situação”, afirma.
Incentivo às mulheres é motivo de orgulho
Juliane diz que uma das partes de que mais se orgulha é incentivar outras pessoas, especialmente mulheres, a trabalharem e acreditarem que podem ocupar espaço na mobilidade. Ela reconhece que há medo e vulnerabilidade para mulheres motoristas, principalmente em plataformas nacionais, mas afirma que o Berlandacar tenta criar um ambiente de confiança.
“A gente incentiva que mulher pode o que ela quer. Acredito que qualquer um pode o que quer”, diz.
A gestora também vê a empresa como responsável indireta por dezenas de famílias, já que os motoristas dependem da plataforma como fonte de renda.
Legado é atendimento humanizado
O legado que Juliane quer deixar com o Berlandacar é o atendimento humanizado. Na cidade, ela diz que já é conhecida como “Ju da Berlandacar”, alguém a quem clientes e motoristas recorrem quando precisam resolver um problema.
A proximidade aparece em gestos simples, como chamar clientes para tomar café no escritório, oferecer brindes em situações desconfortáveis e cuidar especialmente dos idosos.
“Fala com a Ju da Berlandacar que ela resolve. Acho que é isso: humanizar”, conclui.
