Antes de enfrentar gigantes globais da mobilidade urbana, Marcos Arruda conhecia o setor por dentro — do volante, das ruas e da rotina exaustiva de quem depende do aplicativo para viver. Taxista por anos e depois motorista de plataformas como Uber e 99, ele transformou a insatisfação com taxas altas e sistemas pouco adaptados à realidade local em um projeto próprio. Assim nasceu o MD Mudar Driver, aplicativo de mobilidade urbana criado para atender às especificidades das cidades, valorizar os motoristas e oferecer um modelo mais justo de operação.
Nesta entrevista, Marcos compartilha sua trajetória pessoal e profissional, os desafios de empreender sem grandes investidores, as decisões que moldaram o crescimento do MD e sua visão sobre o futuro dos aplicativos regionais no Brasil.
Para começar, conta um pouco da sua história antes do aplicativo. Onde você nasceu e como foi sua infância?
Marcos: Nasci e fui criado em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Minha infância foi bem comum, parecida com a de muita gente. A diferença é que sempre fui muito ativo, trabalhei desde cedo e também jogava xadrez. Passei por vários tipos de trabalho ao longo da vida.
Quando criança ou adolescente, você imaginava que trabalharia com mobilidade urbana?
Marcos: Não, de forma alguma. Não me lembro exatamente do que queria ser. Meu pai trabalhava na construção civil, então talvez eu pensasse em ser engenheiro civil, mas isso nunca foi algo muito claro.
Com quantos anos você começou a trabalhar?
Marcos: Comecei por volta dos 12 anos. Acho muito positivo começar cedo, porque cria responsabilidade, tira a pessoa da rua e de caminhos errados. O estudo é importante, mas o trabalho cedo também forma caráter.
Que aprendizados desses primeiros trabalhos você carrega até hoje?
Marcos: O principal é o sentimento de ser trabalhador. Quem começa cedo fica mais acostumado com a rotina pesada, reclama menos e aprende a suportar mais pressão. Isso faz muita diferença na vida adulta.
Você foi taxista antes da mobilidade por aplicativo?
Marcos: Sim. Trabalhei cerca de oito anos como taxista em Petrópolis. Fiquei cinco anos em um único ponto de táxi, o que me deu muita experiência com passageiros e com a dinâmica da cidade.
Depois disso, você também trabalhou em plataformas como Uber e 99?
Marcos: Trabalhei sim. Entrei na Uber e na 99 como todo mundo. Trabalhava muito, dava meu sangue mesmo. Foi ali que comecei a entender melhor os problemas da mobilidade urbana.
Quando surgiu a ideia de criar o seu próprio aplicativo?
Marcos: A ideia surgiu após conversar com um amigo que me incentivou. No início achei que ele estava maluco, porque parecia algo muito difícil. Mas depois de uma grande catástrofe em Petrópolis, com ruas interditadas, percebi que os aplicativos não funcionavam bem na realidade local.
Qual foi a principal dor do mercado que você identificou?
Marcos: Os aplicativos não entendiam a dinâmica da cidade. Passageiros chamavam de um lado da via interditada, o app não acusava o bloqueio e a corrida ficava inviável. Cancelamentos eram constantes e todo mundo perdia.
Como foi o início da operação do aplicativo?
Marcos: Procurei a Machine por indicação de amigos e fui direto, sem pesquisar outras plataformas. No começo, criamos um grupo de WhatsApp, que impulsionou muito o crescimento inicial.
O grupo de WhatsApp foi essencial no começo?
Marcos: Foi fundamental. Em pouco tempo entraram cerca de 800 usuários, o que surpreendeu até vocês da Machine. O grupo ajudou a formar a base inicial de motoristas e passageiros.
Quando o aplicativo foi oficialmente lançado?
Marcos: O lançamento oficial foi em 1º de maio de 2021. Antes disso, tivemos cerca de 15 dias de testes.
Como foi o processo de captação de motoristas e passageiros?
Marcos: Foi tudo muito orgânico. Um passageiro indicava um motorista, que indicava outro, e assim por diante. Quando o grupo ficou sobrecarregado, percebemos que era hora de migrar para o aplicativo.
Você investiu em marketing pago no início?
Marcos: No começo, não. Hoje usamos mais Instagram e estamos planejando investir em outdoors, mas sempre com cuidado para não atrair mais usuários do que motoristas disponíveis.
Você tem sócios?
Marcos: Não. Não tenho sócios. Tenho colaboradores que ajudam em tarefas específicas, como cadastro e suporte.
Qual foi o investimento inicial para lançar o aplicativo?
Marcos: Foi em torno de R$ 8.000 a R$ 8.500. Parte veio de economias minhas e parte de ajuda da família.
Em quanto tempo o aplicativo começou a se pagar?
Marcos: Começou a dar lucro após uns 5 ou 6 meses, mas levou cerca de um ano e pouco para se pagar totalmente.
Qual foi o momento mais difícil da trajetória?
Marcos: O início. Eu não tinha experiência com propaganda e apanhei bastante. Além disso, tentei dividir a empresa com motoristas, mas percebi que não funcionaria. Quando parei de rodar Uber e 99, o aplicativo começou a crescer de verdade.
Você ainda roda como motorista hoje?
Marcos: Sim. Rodo todos os dias. Hoje mesmo já fiz quatro corridas e faturei R$ 110 antes da entrevista. Isso me mantém conectado com a realidade dos motoristas.
Em quais cidades o aplicativo atua atualmente?
Marcos: Atuamos em Petrópolis, Teresópolis, Magé, Duque de Caxias e Rio de Janeiro Capital.
Houve alguém fundamental para a sobrevivência do negócio?
Marcos: Sim. Um motorista chamado Maurício ajudou muito no início, especialmente em Itaipava. Além dele, colaboradores como Michel e Elizabeth foram essenciais na organização, cadastros e criação de categorias específicas.
Como funciona a dinâmica de preços do aplicativo?
Marcos: Temos oito tabelas de preços diárias, com valores diferentes por horário. Além disso, trabalhamos com categorias como comum, embarque rápido, premium, pet, compras e mulher.
Como é sua rotina hoje entre gestão e direção?
Marcos: Começo por volta das 5h da manhã. Rodo principalmente no centro para não tirar corrida dos motoristas de Itaipava. Enquanto isso, os colaboradores cuidam da operação da plataforma.
Quantos motoristas a plataforma tem atualmente?
Marcos: Só em Petrópolis são mais de 2.050 motoristas. Em Teresópolis são cerca de 120 e em Magé, mais de 50.
Quantos passageiros já baixaram o aplicativo?
Marcos: Estamos com cerca de 21 mil passageiros cadastrados.
Existe alguma promoção para passageiros?
Marcos: Sim. Para os usuários, o aplicativo oferece desconto de 6% nas corridas pagas em dinheiro ou Pix, além de cashback de 1% em todas as corridas. Também temos o programa Indique e Ganhe, válido tanto para usuários quanto para motoristas. Já para os motoristas, a plataforma trabalha com desafios diários, que rendem R$ 1 extra por corrida, como forma de incentivo e valorização.
Quantas corridas são realizadas por mês?
Marcos: Aproximadamente 6 mil corridas finalizadas por mês.
Qual é o valor da corrida mínima?
Marcos: Em torno de R$ 10. O motorista recebe cerca de R$ 9, já que a taxa varia de 8% a 11%.
Quanto o motorista ganha, em média, por quilômetro?
Marcos: Em média, entre R$ 4 e R$ 5 por quilômetro, dependendo da corrida e do horário.
Quanto um motorista costuma ganhar por dia?
Marcos: Em média, cerca de R$ 300 por dia. Em Itaipava, pode ser um pouco mais por causa da dinâmica e das corridas em rodovia.
Qual é o faturamento médio mensal da empresa?
Marcos: Em média, R$ 120 mil por mês. Em dezembro, chegou perto de R$ 190 mil.
Vocês têm meta de faturamento para 2026?
Marcos: A principal meta é manter e crescer com responsabilidade. Preferimos crescer aos poucos para garantir bom atendimento.
Quais são os planos de expansão para os próximos anos?
Marcos: Consolidar Petrópolis, fortalecer Teresópolis e depois expandir para Magé, Caxias e Rio de Janeiro Capital. Só depois pensamos em outras cidades.
Você considera um modelo de franquia?
Marcos: Sim, estamos abertos. Quem quiser levar a MD para outra cidade pode entrar em contato. A ideia é ajudar para que não cometam os erros que cometemos no início.
Como você vê o futuro dos aplicativos regionais no Brasil?
Marcos: Eles vão dominar o Brasil. A pergunta não é “se”, mas “quando”. Cada cidade é diferente, mas os regionais entendem melhor a realidade local.
O que falta para os aplicativos regionais dominarem de vez?
Marcos: Trabalho. Muito trabalho. Quem acha que vai ganhar dinheiro sem se dedicar não vai conseguir. É preciso acompanhar preço, horário, demanda e motorista o tempo todo.
Qual legado você quer deixar na sua região?
Marcos: Quero deixar um aplicativo que não explore motoristas. Um modelo mais justo, que traga felicidade para motoristas e usuários. Esse é o legado da MD.
Gostaria de acrescentar algo para finalizar?
Marcos: Gostaria que a MD fosse mais conhecida. Quem quiser divulgar ou levar o aplicativo para sua cidade pode entrar em contato comigo. Nosso objetivo é ajudar, não explorar, e expandir de forma responsável pelo Brasil.
