A trajetória de Matheus Sanchez no setor de mobilidade urbana começou muito antes da criação do aplicativo Chama o Zé Passageiro. Apaixonado por tecnologia, ele trabalhou durante anos com internet fibra óptica, provedores rurais e suporte técnico até entrar no mercado de aplicativos de transporte como motorista.
Depois de discordar dos valores pagos aos condutores em outro app regional — e acabar sendo removido da plataforma — decidiu criar o próprio aplicativo em Penápolis, interior de São Paulo. Hoje, o Chama o Zé Passageiro opera com foco em tarifas mais altas para motoristas, cashback para passageiros e campanhas de marketing locais voltadas à segurança e fidelização.
Na entrevista abaixo, Matheus detalha os bastidores da operação, fala sobre os desafios de gerir motoristas, as disputas com concorrentes regionais, os planos de franquia e as estratégias que utiliza para expandir o aplicativo.
Antes de falar do aplicativo, queria saber um pouco da sua história. Quem é o Matheus Sanchez?
Matheus: Eu me chamo Matheus Sanchez, tenho 38 anos e sempre gostei muito da área de tecnologia. Trabalhei por cerca de 15 anos com internet, fibra óptica, informática, atendendo pessoas, resolvendo problemas e conectando dispositivos.
Minha paixão sempre foi tecnologia. Depois, eu tive um provedor de internet rural via rádio. A gente atendia aproximadamente 10 cidades. Trabalhei cerca de oito anos com isso. Antes disso, já trabalhava com internet fibra óptica.
Eu vi uma necessidade no mercado rural, porque o pessoal do interior acaba ficando abandonado. Todo mundo pensa só nos grandes centros e na fibra óptica das cidades maiores. Então investi nesse nicho.
Depois, em 2021, aconteceu a separação da minha ex-esposa e eu acabei desanimando um pouco. Tive que vender a empresa. Como eu já era atirador esportivo, resolvi me formar na área de vigilante patrimonial e guarda-costas pela Polícia Federal.
Ao mesmo tempo, eu já era cadastrado na Uber desde 2014 ou 2015. Minha conta vai completar 11 anos agora. Nas horas vagas, eu trabalhava como motorista de um aplicativo local aqui da minha cidade.
Como surgiu o Chama o Zé Passageiro?
Matheus: Surgiu de uma revolta com o mercado, na verdade. Lá por fevereiro ou março do ano passado, comecei a discutir com o pessoal do aplicativo em que eu trabalhava porque a corrida mínima era R$ 10 e simplesmente não fechava a conta para o motorista.
Às vezes, o deslocamento até o passageiro era maior que a própria corrida. Quando você somava deslocamento mais trajeto da corrida e dividia pelo valor final, o quilômetro rodado ficava abaixo de R$ 1,50. Era inviável.
Eu comecei a estudar cálculo de corrida, quilometragem, tempo, taxa, tudo isso. Usei até inteligência artificial e ChatGPT para entender melhor as métricas. Aí comecei a cobrar melhorias.
Só que eles preferiram me excluir da plataforma. Disseram que eu era “polêmico”, porque eu questionava demais. Os outros motoristas concordavam comigo no grupo, mas não tinham coragem de falar.
Foi aí que eu pensei: “Agora eu vou mostrar como se faz”.
Então criei o Chama o Zé Passageiro.
E de onde veio o nome do aplicativo?
Matheus: Meu pai se chama José Luiz e trabalha como motorista de aplicativo há uns seis anos aqui na cidade. O pessoal conhece ele como “Zé do Uber”.
Então eu aproveitei esse gatilho. Peguei o nome dele e criei o Chama o Zé Passageiro.
O problema é que muita gente ainda acha que o nome é de uma pessoa, não de um aplicativo. E logo depois a Ambev lançou o Zé Delivery, então confundiu ainda mais a cabeça do povo.
Já pensei até em trocar o nome, mas como já está tudo registrado nas lojas da Apple e Android, acabaria dando muito trabalho.
Qual foi o principal problema do mercado que você identificou?
Matheus: O principal problema era a baixa remuneração do motorista e a falta de visão dos gestores sobre isso.
Eu sempre penso no quilômetro rodado. O motorista precisa entender quanto realmente está ganhando por quilômetro. Só olhar o valor final da corrida não adianta.
Hoje, por exemplo, nossa corrida mínima é R$ 10 para o passageiro, mas dependendo do deslocamento e do trajeto, o motorista pode estar fazendo R$ 3, R$ 4 ou até R$ 4,50 por quilômetro rodado.
Os motoristas muitas vezes não conseguem enxergar isso. Eles olham apenas: “Ah, a corrida deu R$ 9”. Mas não analisam o contexto completo.
Como foi captar os primeiros motoristas e passageiros?
Matheus: No começo foi muito no boca a boca e no marketing. Hoje eu invisto pesado em divulgação.
Minha página já foi monetizada. Tenho média de 5 mil visualizações por dia. Algumas campanhas passam de 50 mil visualizações mensais.
Também faço campanhas muito voltadas ao que está acontecendo na cidade. Se acontece um evento, um jogo importante, um assunto repercutindo, eu crio conteúdo em cima disso.
Recentemente aconteceu um caso muito grave na região envolvendo abuso sexual por parte de um motorista de aplicativo. Então eu aproveitei para reforçar a questão da segurança do aplicativo regional.
Criei artes comparando corrida por aplicativo rastreada com corrida feita diretamente por telefone particular. Mostrei que no aplicativo existe histórico, rastreamento, cadastro do motorista, placa, suporte.
Hoje eu trabalho muito forte em cima disso: segurança e confiança.
Vocês já pensam em expansão?
Matheus: Sim. Já estou estudando o modelo de franquias. Inclusive foi um dos motivos pelos quais vocês me encontraram no Instagram.
A ideia é expandir inicialmente até um raio de 200 km daqui, porque aí consigo prestar suporte presencial.
Hoje já tenho carro de som próprio, faço divulgação na rua sem depender de terceiros e isso ajuda muito a reduzir custo.
Qual foi o investimento inicial para lançar o app?
Matheus: Financeiramente, não foi um investimento absurdo. O maior custo é suor e dor de cabeça.
Hoje acredito que já investi cerca de R$ 5 mil apenas em tráfego pago no Facebook e Instagram ao longo de um ano.
Além disso, tivemos gastos com estrutura, propaganda, adesivos, carro de som e divulgação.
Hoje você ainda trabalha como motorista?
Matheus: Sim. Tanto eu quanto minha esposa rodamos quando necessário.
A gente praticamente vive o aplicativo 20 horas por dia. Dormimos poucas horas. Estamos sempre acompanhando as corridas, atendimento e suporte.
Qual foi o momento mais difícil desde o lançamento?
Matheus: O maior problema hoje é motorista.
Muitos entram dizendo que precisam de renda extra, que querem trabalhar, mas depois de um mês desaparecem.
Outro problema são motoristas tentando usar o aplicativo apenas para captar clientes particulares.
E tem também o problema dos passageiros que chamam corrida em dois aplicativos ao mesmo tempo. Às vezes o motorista chega e já tem outro carro no local.
Vocês têm regras rígidas para os motoristas?
Matheus: Hoje temos algumas regras para manter a qualidade. Se o motorista cancela corrida várias vezes, ele leva bloqueio de 24 horas. Se fica quatro dias sem rodar sem avisar, o cadastro é excluído.
Também bloqueamos o compartilhamento de telefone. O motorista não vê o número do passageiro e vice-versa. Até o Pix precisa ser feito por QR Code ou maquininha para evitar que o motorista transforme o aplicativo em “escada” para corrida particular.
Quantos motoristas e passageiros vocês possuem atualmente?
Matheus: Hoje temos cerca de 20 a 25 motoristas cadastrados. Online ao mesmo tempo costuma ficar entre cinco e seis por período.
Já atingimos cerca de 4 mil passageiros cadastrados e fazemos aproximadamente 1.500 corridas por mês.
Qual é o valor da corrida mínima?
Matheus: Hoje a corrida mínima está em R$ 10 até 1 km, mas o valor padrão geralmente fica em R$ 11 até cerca de 3 km.
Qual taxa vocês cobram dos motoristas?
Matheus: Hoje cobramos 10%.
Alguns motoristas parceiros pagam 8%, principalmente os que realmente vestem a camisa do aplicativo. E faço questão de deixar claro: não cobramos exclusividade.
Os concorrentes exigem exclusividade e até adesivagem completa do carro. Eu não concordo com isso. Na minha visão, para exigir exclusividade, você precisa garantir pelo menos R$ 200 por dia para o motorista.
Quanto um motorista consegue faturar no Chama o Zé Passageiro?
Matheus: Já tivemos motorista faturando R$ 10 mil no mês.
Hoje, um motorista que trabalha bem consegue fazer entre R$ 200 e R$ 400 por dia somando plataformas.
Qual foi o maior medo antes de lançar o aplicativo?
Matheus: Meu maior medo era o aplicativo demorar para ser aprovado nas lojas.
A homologação atrasou um pouco e isso me deixou muito ansioso porque eu sabia que outro concorrente estava entrando na cidade ao mesmo tempo.
Mas mantive firme.
Hoje posso dizer que já vi dois aplicativos deixarem a cidade desde que começamos.
O que mais te incomoda nesse mercado?
Matheus: O maior problema continua sendo motorista e passageiro.
Motorista que cancela corrida sem ler direito.
Passageiro que chama dois aplicativos ao mesmo tempo.
E também motorista tentando usar o app para captar cliente por fora.
Quais são os planos futuros do aplicativo?
Matheus: Quero implantar inteligência artificial no atendimento via WhatsApp para o passageiro pedir corrida sem precisar baixar o app.
Também quero colocar tablets com propaganda dentro dos carros e estudar monitoramento por câmera em tempo real.
Estou tentando transformar o aplicativo em algo cada vez mais profissional e seguro.
O que os aplicativos regionais precisam fazer para competir com Uber e 99?
Matheus: Precisam ter preço justo e benefício para o passageiro.
Hoje trabalhamos com cashback de 7%. O brasileiro gosta de ganhar vantagem.
Também fazemos sorteios de créditos.
E outra diferença importante: no aplicativo local existe gestão humana. Eu conheço motorista por motorista pessoalmente.
Isso é impossível em aplicativos gigantes.
Qual legado você quer deixar?
Matheus: Quero melhorar a relação entre motorista e passageiro.
Quero profissionalizar o mercado da cidade.
O motorista precisa entender que não é só ganhar dinheiro rápido. Ele precisa pensar no aplicativo, no passageiro e na experiência.
Se melhorar o motorista, melhora todo o restante da cadeia.
Você gostaria de acrescentar algo?
Matheus: Só quero dizer que acredito muito no potencial do aplicativo regional.
E que o motorista precisa se valorizar mais. Porque, quando ele se valoriza, melhora para todo mundo.

