“Quando precisa, eu monto na moto e vou trabalhar também.” Alisson Teixeira, 31 anos, é gestor do aplicativo regional de delivery 321GO!, em Contagem (MG). Nascido e criado na cidade, ele conta que o empreendedorismo não fazia parte dos seus planos. Antes de entrar no setor de entregas, trabalhou no regime CLT no setor industrial e chegou a tentar outros negócios, como loja virtual de roupas e venda de celulares. “Nunca passou na minha cabeça ter uma empresa.”
Foi só em 2020 que começou atuar como entregador, mas, naquele momento, apenas para ter uma renda extra. A mudança veio no ano seguinte, quando deixou o emprego fixo e passou a depender do delivery. Alisson compartilha que rodou por grandes aplicativos e também para comércios locais, como pizzarias, hamburguerias e restaurantes da cidade, até conhecer a 321GO!. Na época, o aplicativo ainda dava seus primeiros passos e, segundo ele, tinha pouca visibilidade na cidade. O empreendedor começou a trabalhar na plataforma durante o dia, conciliando com outras, até decidir apostar tudo: “As taxas eram muito boas, aí fiz um teste e acabei ficando só nela”.
Essa escolha, aparentemente simples, foi decisiva. O desempenho chamou a atenção do fundador, Hugo, amigo de Alisson, que pouco tempo depois decidiu vender o negócio. “Falei: ‘Cara, eu não tenho dinheiro, não sei nem mexer com isso’”, recorda. Ainda assim, aceitou o desafio. O acordo foi feito de forma parcelada, conforme relata, em uma negociação baseada na confiança. Desde o fim de 2024, Alisson assumiu sozinho a gestão da empresa, que havia sido fundada em 2022.
Ele acredita que o crescimento do aplicativo veio, sobretudo, no boca a boca. Sem grandes investimentos em marketing, o empreendedor apostou no contato direto com clientes e entregadores, visitando estabelecimentos e divulgando vagas em grupos. Hoje, o 321GO! conta com 27 entregadores ativos, cerca de 70 estabelecimentos cadastrados e realiza entre 2.500 e 3 mil entregas por mês.
A operação, que começou restrita à Contagem, se expandiu para cidades vizinhas como Belo Horizonte, Betim e Igarapé. A decisão de crescer veio após pesquisa e também por estratégia: “Se você fica só em um lugar, não cresce”. Nem tudo deu certo no início da expansão, ele admite prejuízos, mas o movimento acabou se consolidando. Financeiramente, o investimento inicial de cerca de R$ 50 mil levou pouco mais de um ano para se pagar. Hoje, a empresa se sustenta e movimenta valores mensais que variam entre R$ 60 mil e R$ 90 mil.
Mais recentemente, Alisson apostou em uma nova frente: o atendimento a e-commerces. A ideia surgiu de forma espontânea, inspirada em modelos como o da Shopee, conforme ele menciona, mas com frete fixo por região. Em poucos meses, já conquistou entre oito e dez clientes. Na visão do gestor, esse segmento tende a impulsionar ainda mais o crescimento do negócio.
Como foi sua trajetória profissional até chegar ao 321GO?
Alisson Teixeira: Na verdade, a 321GO! eu não fundei. Foi um amigo meu, o Hugo, que fundou. Eu trabalhava de motoboy nessa empresa. Antes disso, sempre trabalhei em iFood, restaurantes, pizzarias. Aí surgiu a oportunidade de ele vender a empresa e me perguntou se eu queria comprar. Falei que não tinha dinheiro, então a gente conversou, ele facilitou, e fui pagando aos poucos. Estou com a empresa desde 2024, e ela foi fundada em 2022. No começo, eu não sabia mexer com isso, nunca tive empresa, mas arrisquei. Ele me ensinou como mexer no sistema e captar cliente.
Você sempre trabalhou como motoboy ou teve outras experiências antes?
Alisson Teixeira: Já trabalhei de carteira assinada na indústria. Comecei como motoboy em 2020, quando troquei meu carro por uma moto. No começo, era só renda extra. A partir de 2021, virou minha renda principal, depois que saí do serviço.
Como foi sua atuação como entregador antes de assumir o 321GO!?
Alisson Teixeira: Entre 2020 e 2021, eu rodava no iFood, em pizzarias, hamburguerias, restaurantes locais. Depois, apareceu a 321GO! e comecei a rodar nela no horário de almoço. Fiz um teste porque a taxa era boa e acabei ficando só nela. Larguei tudo e comecei a trabalhar só na 321GO!, acho que isso gerou confiança.
Você tinha algum sonho de infância relacionado a empreender?
Alisson Teixeira: Nunca passou pela minha cabeça. Já tive loja virtual de roupa, de celular, mas o que eu mais me identifiquei foi com logística mesmo. Nunca pensei em ter uma empresa, acho que aprendi tudo na marra.
Onde você nasceu e como foi sua infância?
Alisson Teixeira: Nasci e cresci em Contagem, Minas Gerais, perto de Belo Horizonte. É uma cidade tranquila, com bastante comércio e muitos motoboys. Minha infância foi bem tranquila.
O que você aprendeu nos trabalhos anteriores que leva até hoje?
Alisson Teixeira: Aprendi responsabilidade. Quando você trabalha para alguém, acha que tudo é fácil. Quando tem o próprio negócio, vê que não é. Aprendi a valorizar o nome, que é mais importante do que dinheiro, e a não deixar o dinheiro dominar.
Como estava o aplicativo antes de você assumir?
Alisson Teixeira: Não era muito conhecido, porque o antigo dono tinha outros negócios e não tinha tempo de divulgar.
Quais problemas você identificava como entregador nos aplicativos?
Alisson Teixeira: O principal problema sempre foi o suporte. Esses aplicativos grandes não têm suporte de verdade, tudo é inteligência artificial. Às vezes, o motoboy vai fazer uma entrega, o cliente não responde, aí ele precisa mandar no chat e demora para resolver. Então, eu sempre pensei que o suporte precisava ser rápido, o cliente ou o motoboy mandou mensagem, já tem que resolver.
Como você resolveu essa questão do suporte?
Alisson Teixeira: Coloquei uma pessoa real no chat para responder rápido e resolver os problemas.
Como foi o processo de assumir e aprender a gerir o negócio?
Alisson Teixeira: Pedi apoio ao antigo dono, ele gravou vídeos me ensinando. Eu ficava até 3h, 4h da manhã aprendendo, anotando tudo e pesquisando. Aprendi tudo na prática, inclusive calcular taxas e rotas.
Como você captou entregadores e clientes no início?
Alisson Teixeira: Foi porta a porta e boca a boca. Com os entregadores, como eu estou em muitos grupos de motoboy, divulgava as vagas lá. Também tinha um programa de indicação na desenvolvedora do software da plataforma, que quem indicava um entregador ganhava R$ 150. Muitos entregadores e clientes vinham por indicação também. Além disso, eu ligava, visitava os estabelecimentos e fazia esse contato pessoalmente.
Você investiu em marketing também?
Alisson Teixeira: Fiz um pouco de tráfego pago, mas não funcionou muito. O pessoal prefere contato direto.
Você teve sócios ou sempre trabalhou sozinho?
Alisson Teixeira: Comecei com três sócios. Com o tempo, cada um seguiu sua vida. Desde o final de 2024, estou sozinho.
Como é sua equipe hoje?
Alisson Teixeira: Sou eu na gestão e uma pessoa no suporte. Quando precisa, eu também faço entregas.
Qual foi o investimento inicial para assumir o negócio?
Alisson Teixeira: Cerca de R$ 50 mil.
Em quanto tempo o investimento retornou?
Alisson Teixeira: Em cerca de um ano e pouco. Hoje, o negócio se paga.
Qual foi o momento mais difícil da sua trajetória?
Alisson Teixeira: O começo, mas quando eu fiquei sozinho foi mais difícil. Antes, com os sócios, estava mais tranquilo. O maior medo era pensar: “Será que vou conseguir levantar dinheiro para pagar os sócios?”. Eu tinha medo de o negócio quebrar, de ficar com dívida e não conseguir pagar eles. Depois, foi ficando mais firme.
Quem foi fundamental para o crescimento do negócio?
Alisson Teixeira: Três entregadores que ficaram comigo e estão até hoje. Eles ajudaram muito, foram pessoas fundamentais nesse processo.
Quando você percebeu que o negócio estava dando certo?
Alisson Teixeira: Quando consegui pagar os sócios.
O que mudou em você depois de empreender?
Alisson Teixeira: Muita coisa. A gente cria responsabilidade e começa a ver a vida e o mundo de outra forma. A cabeça de quem é funcionário é diferente da de quem é dono de alguma coisa. Quem tem negócio vive preocupado, atento a tudo. Hoje, eu olho para coisas que nunca olhava antes, como dólar, imposto, política, essas coisas. A gente aprende muito, mas também fica mais preocupado, às vezes, até sem dormir. Mas, no final, vale a pena.
Como é sua rotina atual na empresa?
Alisson Teixeira: Eu fico na gestão. Às vezes, quando precisa, também vou para a rua fazer entrega. Visito alguns clientes de vez em quando. Agora a gente abriu uma categoria para atender e-commerce, então quem faz as coletas sou eu mesmo para depois entregar. Minha rotina é essa.
Como surgiu a categoria de e-commerce no aplicativo?
Alisson Teixeira: Foi do nada. Eu queria fazer um modelo parecido com a Shopee, mas com frete fixo. Por exemplo, para determinada região o frete seria um valor, para outra região outro valor, sem surpresa para o cliente. A pessoa já sabe quanto vai pagar no frete. Aí consegui, acho que, de 8 a 10 clientes em um mês, muito rápido.
Que tipos de produtos vocês entregam hoje?
Alisson Teixeira: Roupa, maquiagem, pet shop, lavanderia, farmácia, autopeças… Não trabalhamos com alimentos.
Em quais cidades vocês atuam atualmente?
Alisson Teixeira: Contagem, Belo Horizonte, Betim e Igarapé. Eu parei para pesquisar e percebi que, se você fica só em um lugar, não cresce. Depois pode aparecer outra empresa, expandir antes de você e tomar espaço. Então, eu resolvi arriscar. No começo, muita coisa deu errado, tomei muito prejuízo, mas hoje está dando certo.
Vocês pretendem expandir para outras cidades?
Alisson Teixeira: Sim, pretendemos. Ainda mais agora com esse negócio do e-commerce. A ideia é expandir tudo sob a mesma gestão, não trabalhar com franquia.
Quantos entregadores e clientes vocês têm hoje?
Alisson Teixeira: São 27 entregadores e cerca de 73 clientes.
Quantos downloads o aplicativo já teve?
Alisson Teixeira: Mais de 5 mil. Aparece muita solicitação para aceitar entregador, mas eu não saio aceitando todo mundo. A gente trabalha com grupo fechado. Por exemplo, se saem três motoboys, entram mais três. É para não virar bagunça.
Quantas entregas vocês fazem por mês?
Alisson Teixeira: Entre 2.500 e 3 mil.
Como funciona o modelo de cobrança do aplicativo?
Alisson Teixeira: No e-commerce, a gente trabalha com valor fixo, dependendo da região. Já nas outras empresas, a corrida tem valor mínimo de R$ 15 até 8 km. Desses R$ 15, R$ 11,25 vão para o motoboy. Depois de 8 km, aumenta o valor por quilômetro rodado e também tem valor adicional por parada. Dependendo da entrega, também existe retorno, mas o retorno não é cobrado integralmente, é só uma porcentagem.
Como funciona o pagamento dos entregadores?
Alisson Teixeira: É semanal.
Quanto um entregador ganha em média na plataforma?
Alisson Teixeira: Cerca de R$ 1.200 por semana.
Qual foi o maior ganho que você já viu de um entregador?
Alisson Teixeira: R$ 2.420 em uma semana, trabalhando de domingo a domingo.
Quanto a empresa movimenta, em média, por mês e qual é o faturamento médio da empresa?
Alisson Teixeira: A empresa movimenta uns R$ 140 mil por mês. Sobre faturamento, varia bastante, mas fica numa média de R$ 60 mil a R$ 90 mil por mês. No anual, dá cerca de R$ 170 mil a R$ 180 mil.
Vocês têm alguma meta de faturamento para quando fechar 2026?
Alisson Teixeira: Chegar a R$ 1,5 milhão.
Do que você mais se orgulha na sua trajetória?
Alisson Teixeira: De não ter desistido, porque no começo eu fiquei com muito medo. No dia que eu aceitei entrar no negócio, quando fui dormir, pensei: “Nossa, o que eu fiz na minha vida?”. Então, acho que foi a coragem mesmo.
Como você vê o futuro dos aplicativos regionais?
Alisson Teixeira: Com a chegada da tecnologia, eu acredito que ainda tem muita coisa para acontecer. Tem o iFood querendo trabalhar com drones, tem robôs também. A gente precisa ficar de olho e se atualizar, porque, se não acompanhar, acaba ficando para trás.
O que os aplicativos regionais precisam para competir com grandes plataformas?
Alisson Teixeira: Tem que se atualizar e ficar de olho no mercado. Às vezes, a empresa fica só pensando em ganhar dinheiro e não olha o que está acontecendo em volta. O iFood já domina muita coisa, a Uber também, e dinheiro para isso eles têm muito. Então, se nós, que somos pequenos, não prestarmos atenção e não acompanharmos as mudanças, eles acabam engolindo a gente.
Qual legado você quer deixar na sua região?
Alisson Teixeira: Quero deixar esse exemplo de empreendedorismo, de coragem, assim como eu tive. Também quero deixar um legado de respeito e valorização dos motoboys, porque eu também sou motoboy e sei como é difícil: é muito sofrimento na rua, chuva, acidente. Todo dia a gente vê acidente com moto. Então, acho que precisa ter mais cuidado e mais valorização com essas pessoas.
