Criado dentro de um projeto maior voltado para cidades inteligentes, sustentabilidade e impacto social, o Cidadela Transport nasceu com a proposta de ir além da intermediação de corridas. Idealizado por Alberto Reis, CEO da Cidadela, o aplicativo surgiu durante a pandemia, quando ele observou a importância dos motoristas de aplicativo para a sociedade e, ao mesmo tempo, os desafios enfrentados pela categoria, como taxas elevadas e baixa rentabilidade.
A proposta da plataforma é transformar a mobilidade urbana em uma ferramenta de geração de impacto social. Por meio de um sistema de parceiros e QR Codes, parte da movimentação gerada pelos usuários pode beneficiar instituições como hospitais, igrejas, clubes de futebol, associações e projetos sociais. Além disso, o aplicativo mantém iniciativas ligadas à sustentabilidade, destinando recursos para ações relacionadas a créditos de carbono e preservação ambiental.
Atualmente, o Cidadela Transport está presente ou em processo de expansão em cerca de 50 cidades, principalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo, além de atuar em aproximadamente 10 capitais. A plataforma trabalha com taxa fixa de 15% para os motoristas, corridas mínimas entre R$ 8 e R$ 9,50, e aposta em recursos como motorista favorito, cashback para passageiros, programas de indicação e funcionalidades voltadas à segurança.
Nesta entrevista, Alberto Reis detalha a origem do projeto, explica como funciona o modelo de impacto social do aplicativo, fala sobre os desafios de competir em um mercado dominado por grandes plataformas e apresenta sua visão para o futuro da mobilidade urbana regional no Brasil.
Alberto Reis afirma que aplicativo quer redistribuir parte do dinheiro das corridas para igrejas, hospitais, clubes, comunidades e motoristas parceiros.
Antes de falar sobre o aplicativo, queria saber um pouco da sua trajetória. Quem é o Alberto Reis?
Alberto: Eu sou CEO da Cidadela, uma iniciativa que comecei há mais de 15 anos. A Cidadela nasceu como um projeto voltado para cidades inteligentes e sustentáveis.
Desde o início, nossa ideia era trabalhar ações ligadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Então, durante esses anos, fomos criando iniciativas em várias áreas diferentes: segurança pública, meio ambiente, tecnologia, eventos, ações sociais e qualidade de vida.
Tudo que a gente desenvolve precisa gerar algum impacto social ou ambiental. Esse sempre foi o princípio da Cidadela.
O aplicativo de mobilidade surgiu dentro desse ecossistema maior. O Cidadela Transport não nasceu simplesmente como um app para disputar corrida com Uber e 99. Ele nasceu dentro de uma visão de cidade inteligente e de transformação social.
Como surgiu a ideia do Cidadela Transport?
Alberto: A pandemia foi o grande ponto de virada.
Quando o mundo parou, a gente percebeu que poucas áreas continuavam funcionando de verdade. E duas delas eram fundamentais: saúde e mobilidade urbana.
Os motoristas de aplicativo estavam na linha de frente levando comida, levando pessoas para hospitais, transportando trabalhadores da saúde. Eles continuaram rodando enquanto muita gente estava em casa.
Naquele momento, comecei a estudar ainda mais o mercado de mobilidade e percebi algo que me incomodou muito: enquanto os motoristas sustentavam parte da economia, muitas plataformas aumentavam suas margens e continuavam cobrando taxas altas.
Foi aí que começamos a pensar em um modelo diferente.
Eu comecei a refletir muito sobre como seria possível ajudar pessoas sem obrigar ninguém a mudar sua rotina. E a resposta veio justamente na mobilidade.
As pessoas já usam aplicativo todos os dias. Então por que não transformar essas corridas em algo que também ajudasse comunidades, instituições e pessoas em necessidade?
Você comentou que o aplicativo nasceu de uma conversa muito pessoal. Como foi isso?
Alberto: Sim. Tudo aqui dentro da Cidadela é muito movido pela fé. Eu sempre falo que esse projeto nasceu de uma conversa com meu pai lá em cima.
Eu me perguntava como poderia ajudar pessoas do meu país sem obrigar elas a mudar nada no dia a dia delas. Sem pedir que elas doassem dinheiro, mudassem hábitos ou alterassem suas rotinas. A ideia foi justamente usar aquilo que elas já fazem diariamente.
Se a pessoa já pega um aplicativo para trabalhar, para sair, para ir ao médico ou para pedir comida, então aquela movimentação já poderia gerar algum retorno social automaticamente. Foi daí que surgiu toda a lógica do Cidadela Transport.
Qual foi o principal problema que vocês identificaram no mercado?
Alberto: Foram vários.
O primeiro foi a situação do motorista. Hoje o motorista é quem movimenta a plataforma, mas muitas vezes ele trabalha com taxas muito altas, combustível caro e corridas pouco rentáveis.
O segundo problema foi perceber que bilhões de reais circulam dentro da mobilidade urbana, mas quase nada disso retorna diretamente para a sociedade.
Então pensamos: e se parte dessas corridas pudesse voltar para hospitais, comunidades, igrejas, projetos sociais, clubes ou ações ambientais?
Foi daí que nasceu nosso modelo.
Como funciona esse modelo social na prática?
Alberto: Nós criamos um sistema baseado em parceiros e QR Codes.
Uma igreja, por exemplo, pode ter seu próprio link dentro da plataforma.
Toda vez que alguém baixa o aplicativo através daquele QR Code e passa a utilizar o app, parte das corridas realizadas por aquela pessoa gera retorno financeiro para a igreja.
Isso vale também para hospitais, clubes de futebol, associações, comunidades e instituições sociais.
Então, ao invés de o dinheiro circular apenas dentro da plataforma, ele também retorna para a sociedade.
Você deu exemplos muito específicos durante a conversa. Pode explicar alguns deles?
Alberto: Claro. Hoje temos negociações com hospitais e Santas Casas. Fizemos simulações mostrando que, se apenas funcionários dessas instituições utilizassem o aplicativo para ir e voltar do trabalho, isso poderia gerar centenas de milhares de reais por mês de retorno financeiro para o hospital.
Também estamos trabalhando com clubes de futebol. Mostramos para alguns dirigentes que, se parte da torcida e dos motoristas ligados ao clube utilizarem o aplicativo, isso pode gerar milhões de reais por mês em receita indireta para a instituição.
A ideia é usar a paixão das pessoas e a força comunitária para fortalecer o próprio ecossistema local.
O aplicativo também possui ações ambientais?
Alberto: Sim. Nós destinamos parte das corridas para crédito de carbono. É como se cada corrida ajudasse no plantio de árvores.
Inclusive fomos convidados para eventos ligados à pré-COP justamente para apresentar essa proposta. A gente acredita que a mobilidade pode contribuir também para sustentabilidade ambiental.
Vocês trabalham com um modelo de cotistas. Como isso funciona?
Alberto: Quando entendemos o tamanho do desafio, percebemos que não fazia sentido competir financeiramente com multinacionais bilionárias.
Então criamos um modelo diferente. Ao invés de depender de um único investidor grande, decidimos pulverizar o projeto.
Hoje temos cerca de 180 a 190 cotistas. São pessoas de diversas áreas: empresários, motoristas, profissionais liberais, servidores públicos, comerciantes, influenciadores e até pessoas mais simples. Temos desde presidente de multinacional até faxineira como cotista.
A ideia nunca foi buscar apenas dinheiro. Sempre buscamos pessoas que também pudessem contribuir com conhecimento, contatos e construção da marca.
Quanto foi investido inicialmente no projeto?
Alberto: Os primeiros 10 cotistas colocaram cerca de R$ 20 mil para começarmos a estruturar tudo. Depois o projeto foi crescendo aos poucos.
Hoje quantos sócios existem?
Alberto: Hoje temos três sócios principais na operação.
Os cotistas participam como investidores e recebem participação nos lucros de acordo com o modelo criado.
Como vocês dividem as funções?
Alberto: Eu fico muito na parte comercial, expansão e relacionamento.
Minha esposa trabalha bastante no marketing e também ajuda em áreas ligadas à tecnologia.
O outro sócio é ligado ao marketing e publicidade.
Como foi conquistar os primeiros motoristas?
Alberto: Desde o início nós focamos no motorista. Muita gente dizia que o correto seria investir primeiro em passageiro, mas eu discordava.
As grandes plataformas já investem bilhões em marketing para o passageiro. O que ninguém fazia era olhar de verdade para o motorista.
Então fomos conversar com associações, federações, lideranças e os próprios motoristas. Também rodamos no aplicativo para entender os problemas reais do dia a dia.Tudo que criamos veio da prática.
Você ainda faz corridas?
Alberto: Sim, às vezes ainda faço. Eu gosto de testar as funcionalidades pessoalmente.
Uma coisa interessante é que criamos um sistema de “motorista favorito”. O passageiro pode escolher até três motoristas de confiança dentro da plataforma. Isso gera uma relação muito mais próxima e segura.
Eu, por exemplo, tinha uma rotina em Lagoa Santa. Levava meu filho na escola, depois pegava sempre a mesma passageira para ir trabalhar e mais tarde outra cliente fixa.
Virou uma rotina. Essas pessoas passaram a confiar em mim. Já sabiam horário, trajeto e tudo mais. Isso humaniza muito o serviço.
Quais funcionalidades vocês criaram pensando em segurança?
Alberto: Temos várias. Uma delas é o sistema de motorista favorito.
Outra é o suporte para mulheres vítimas de violência. Se uma mulher precisar ir para uma delegacia após sofrer violência, o aplicativo cobre a corrida.
Também criamos várias ideias pensando em monitoramento e proteção, principalmente para mulheres e crianças.
Quantas cidades o aplicativo atende atualmente?
Alberto: Hoje estamos presentes ou em processo de expansão em cerca de 50 cidades, principalmente em Minas Gerais e São Paulo.
Também temos atuação em aproximadamente 10 capitais.
Qual é a cidade-base da operação?
Alberto: Belo Horizonte é nossa base principal, mas Lagoa Santa foi uma cidade muito importante no desenvolvimento da operação.
Qual é a taxa cobrada do motorista?
Alberto: Trabalhamos com taxa fixa de 15%.
Qual é o valor da corrida mínima?
Alberto: Nas capitais a corrida mínima é R$ 9,50. No interior ela varia entre R$ 8 e R$ 8,50. O quilômetro gira em torno de R$ 2.
Vocês criaram sistemas de recompensa para motoristas e passageiros?
Alberto: Sim. O motorista pode indicar outros motoristas e passageiros e ganhar em cima disso. O passageiro também pode indicar novos usuários e receber cashback em corridas.
A ideia é criar um ecossistema em que todos ganhem juntos.
Qual foi o momento mais difícil da trajetória?
Alberto: O mais difícil foi conquistar confiança. O motorista já está acostumado com plataformas gigantescas. Então convencer as pessoas de que o projeto era sério levou tempo.
Também tivemos problemas com pessoas tentando copiar ideias ou fazendo promessas falsas de investimento. Mas faz parte da caminhada.
Quando você percebeu que o projeto realmente estava dando certo?
Alberto: Quando percebemos que, mesmo nos momentos mais difíceis, sempre surgiam novas pessoas querendo ajudar.Sempre aparecia um novo parceiro, um novo cotista, uma nova cidade interessada. Isso mostrou que o propósito estava fazendo sentido.
O que mais te incomoda no mercado de mobilidade urbana?
Alberto: O excesso de foco apenas no lucro. Hoje muita gente esqueceu que existe um ser humano dirigindo o carro. Nós tentamos criar algo mais humano.
Vocês têm problemas com corridas feitas por fora da plataforma?
Alberto: Criamos funcionalidades justamente para evitar isso. Temos QR Code direto no aplicativo do motorista. Então, mesmo que o passageiro encontre o motorista presencialmente, a corrida pode ser formalizada rapidamente dentro do app.
Qual é sua visão para o futuro da mobilidade urbana regional?
Alberto: Eu acredito muito nos aplicativos regionais. Cada cidade tem suas próprias necessidades. Tem lugar em que o forte é mototáxi. Tem lugar em que pode funcionar triciclo, quadriciclo ou até transporte náutico. Nós queremos adaptar o aplicativo conforme a realidade de cada cidade.
Qual legado você quer deixar com o Cidadela Transport?
Alberto: Quero deixar um legado de transformação. Quero ver corridas ajudando pessoas, comunidades, hospitais, projetos sociais e o meio ambiente. Se conseguirmos provar que a mobilidade pode gerar impacto coletivo positivo, então teremos cumprido nosso papel.

