Criado por Caio Cesar Souza, o Carpix nasceu em Rio Paranaíba, no interior de Minas Gerais, a partir de uma demanda percebida durante a pandemia. Antes do aplicativo, Caio chegou a cursar Ciência da Computação, trabalhou como servente de pedreiro com o pai, abriu uma loja de informática e, mais tarde, tocou um delivery de açaí com a mãe. Foi enquanto fazia entregas de moto que passou a enxergar espaço para um serviço local de transporte por aplicativo.

“Eu percebi uma demanda por um aplicativo de carro, tipo Uber, e não via ninguém que atendia essa demanda aqui na nossa cidade”, conta.

A primeira motivação veio dos estudantes. Rio Paranaíba é uma cidade universitária, e a faculdade fica a cerca de 2,5 km da entrada da cidade. Na época, segundo Caio, os alunos dependiam de um ônibus que passava de duas em duas horas, táxi, carona, bicicleta ou deslocamento a pé.

“Era uma dor que existia na cidade e ninguém percebia”, afirma.

Do delivery ao volante

A ideia inicial de Caio era abrir a empresa, cadastrar motoristas e continuar trabalhando no delivery. Mas, em uma cidade pequena, conquistar os primeiros condutores foi mais difícil do que ele esperava.

“Minha intenção era só abrir a empresa e colocar motoristas para trabalhar. Só que aqui, como é uma cidade muito pequena, o pessoal é muito desconfiado. Foi muito difícil conseguir motorista”, relata.

Com poucos interessados, ele decidiu alugar um carro e começar a rodar sozinho. Segundo o gestor, o único candidato que apareceu no início tinha um Celta de duas portas e não possuía carteira de habilitação.

“Eu já tinha investido mesmo, já estava na água. Então vamos nadar”, diz.

Primeiros clientes vieram antes do lançamento

Antes mesmo do Carpix começar oficialmente, passageiros já procuravam Caio perguntando sobre viagens para outras cidades. A demanda por deslocamentos intermunicipais ajudou a sustentar os primeiros meses da operação.

“Antes de ter um motorista, as pessoas já mandavam mensagem: ‘você está fazendo corrida? Queria ir para tal lugar’. Aí eu percebi que tinha uma demanda muito grande de viagens para fora”, afirma.

Com essas viagens, ele conseguiu pagar as parcelas do aplicativo, o aluguel do carro e ainda manter uma pequena sobra.

WhatsApp ainda concentra a maioria dos pedidos

Em cidades pequenas, o uso do aplicativo não substituiu completamente o atendimento por WhatsApp. Caio estima que perderia entre 60% e 70% dos clientes se não tivesse uma operação humana pelo aplicativo de mensagens.

“Infelizmente, em cidade muito pequena igual a nossa, o pessoal não se adapta muito bem a aplicativos. Se eu não tivesse essa operação de atendimento no WhatsApp, eu perderia cerca de 60%, 70% dos clientes”, afirma.

Para manter controle das viagens, todas as corridas solicitadas pelo WhatsApp também são lançadas no sistema. Assim, o motorista precisa aceitar a chamada pelo aplicativo e a taxa é debitada automaticamente do saldo.

Atendimento humano virou parte do modelo

O atendimento por WhatsApp também ajuda a lidar com o perfil do público local. Segundo Caio, em cidades pequenas, muitos passageiros ainda preferem falar com uma pessoa antes de chamar uma corrida.

No começo, as mensagens chegavam no WhatsApp pessoal dele. Depois, o número virou empresarial e a namorada passou a ajudar no atendimento quando estava em casa.

“Eu queria que as pessoas pedissem no aplicativo. Não rolou. Todo mundo mandava mensagem”, diz.

Hoje, o modelo conta com atendentes e uma IA que ajuda a responder parte das solicitações. Para Caio, mesmo com tecnologia, o contato direto segue sendo decisivo para manter a operação funcionando.

Operação em duas cidades

O Carpix atua em Rio Paranaíba e Serra do Salitre, ambas em Minas Gerais. A segunda cidade entrou recentemente na operação e ainda está em fase de crescimento.

Em Serra do Salitre, Caio também enfrentou dificuldade para encontrar motoristas com carro próprio. Para iniciar a operação, conseguiu dois veículos e os alugou para dois condutores locais. Nos primeiros meses, decidiu não cobrar aluguel para que eles ajudassem a formar a base de clientes.

“Eles estão trabalhando e adquirindo esses clientes para mim. Esse é o meu lucro hoje lá”, afirma.

Investimento inicial de R$ 15 mil

O investimento inicial no aplicativo foi de cerca de R$ 15 mil, pago nos cartões. Caio afirma que, se dependesse apenas de motoristas terceiros pagando taxa, o aplicativo ainda não teria se pago. O que sustentou a operação foi a própria mão de obra dele como motorista.

“O investimento inicial com o aplicativo foi cerca de R$ 15 mil. Se não fosse a minha mão de obra como motorista, ele não teria se pagado ao longo desse tempo”, afirma.

Mesmo assim, desde a primeira semana, a empresa conseguiu cobrir custos por causa da demanda por viagens para fora da cidade.

Seis motoristas e cerca de 5 mil passageiros únicos

O Carpix tem quatro motoristas em Rio Paranaíba, contando com Caio, e dois em Serra do Salitre. No total, cerca de 5 mil passageiros únicos já passaram pela plataforma, embora o gestor não consiga precisar quantos seguem ativos.

A escolha de manter poucos motoristas é estratégica. Caio prefere adicionar novos condutores apenas quando há demanda suficiente para garantir bons ganhos.

“A filosofia do Carpix é só adicionar mais motoristas quando realmente necessário. Se hoje tem quatro, é porque os quatro estão ganhando bem”, afirma.

Média de 3,5 mil corridas por mês

O Carpix realiza, em média, cerca de 3,5 mil corridas por mês. Em meses de maior movimento, o volume já foi superior. A sazonalidade da faculdade influencia a demanda, especialmente durante as férias.

“Tem motorista que fez 830 corridas. A média é 700 para cada”, afirma.

As corridas solicitadas por WhatsApp também entram nessa conta, já que são registradas dentro do sistema para controle da empresa, aceite do motorista e cobrança automática da taxa.

Corrida mínima de R$ 10

A corrida mínima do Carpix é de R$ 10 e cobre cerca de 1 km a 1,5 km. Nas corridas solicitadas pelo WhatsApp, a mínima é maior: R$ 12. A diferença, segundo Caio, é uma forma de incentivar o uso do aplicativo.

“Eu cobro um pouco mais dos clientes em corridas que eles pedem pelo WhatsApp do que em corridas pedidas pelo aplicativo, exatamente para incentivar esse pessoal a pedir pelo aplicativo”, explica.

A taxa dos motoristas é fixa: 15% tanto para chamadas feitas pelo app quanto pelo WhatsApp.

Sistema de saldo reduz inadimplência

No Carpix, a taxa é debitada automaticamente quando o motorista aceita a corrida. Para isso, ele precisa manter saldo no aplicativo. Quando o saldo se aproxima de zero, precisa recarregar para continuar recebendo novas chamadas.

“Se ele pegou uma corrida de R$ 10, a taxa é R$ 1,50. Vai debitar do saldo dele. Quando estiver aproximando de zero, ele tem que recarregar novamente”, afirma.

Segundo Caio, esse modelo ajudou a reduzir problemas de inadimplência e melhorou o controle operacional.

Motoristas faturam a partir de R$ 13 mil

O faturamento bruto mensal dos motoristas costuma partir de R$ 13 mil. Alguns passam de R$ 16 mil com frequência.

“Um valor comum é a partir de R$ 13 mil. Tenho motoristas que estão constantemente acima de R$ 16 mil”, afirma.

Caio diz que, no início, era o motorista que mais faturava na plataforma. Hoje, já foi superado por condutores que trabalham da manhã à noite.

“Entraram alguns motoristas que gostam muito de trabalhar. Não tem como eu competir com eles”, diz.

Plataforma movimenta de R$ 60 mil a R$ 70 mil por mês

Somando o faturamento dos motoristas, o Carpix movimenta entre R$ 60 mil e R$ 70 mil por mês, dependendo do período. Com a taxa de 15%, o faturamento da empresa gira em torno de R$ 9 mil quando a movimentação fica perto de R$ 60 mil.

A entrada de Serra do Salitre deve ampliar gradualmente esse volume, mas Caio afirma que, em cidades pequenas, a cultura de uso leva tempo para se formar.

“As pessoas vão aprendendo a usar dentro da cidade. A cultura delas é andar a pé, andar de bicicleta. Aqui em Rio Paranaíba demorou quase um ano para estabilizar”, afirma.

Corridas por fora são combatidas com rigidez

Caio afirma que é rígido com motoristas que tentam fazer corridas por fora. Por ter uma operação pequena, consegue acompanhar melhor a conduta dos profissionais e já desligou condutores por esse motivo.

“É uma prática que eu não aceito de forma nenhuma. No final das contas, vai atrapalhar eles e a mim”, afirma.

Em um dos casos, um motorista saiu distribuindo cartões próprios aos clientes do Carpix.

“Chega nesse nível”, diz.

Para o gestor, a melhor forma de evitar esse comportamento é fazer com que o motorista enxergue vantagem em continuar na empresa.

“Não adianta só querer controlar. Tem que proporcionar vantagens para a pessoa falar: não vale a pena eu fazer isso, vale a pena ficar aqui”, afirma.

Cidade pequena exige controle próximo

O principal incômodo de Caio no mercado é o que ele chama de falta de consciência de passageiros e motoristas. Em cidades pequenas, passageiros tendem a criar vínculo com um condutor específico e tentam chamá-lo diretamente. Isso, segundo ele, pode incentivar o motorista a sair da plataforma e tentar trabalhar por conta própria.

“Eles se autossabotam constantemente”, afirma.

Na visão do gestor, uma empresa consegue oferecer atendimento mais estável do que vários motoristas autônomos trabalhando separadamente.

“Qualquer hora que a pessoa mandar mensagem, vai ter um atendente para responder e um motorista para fazer a corrida”, diz.

Planos para mais cinco cidades

Nos próximos cinco anos, Caio quer levar o Carpix para pelo menos mais cinco cidades da região. A meta também é chegar a uma base de 30 a 40 motoristas.

Ele enxerga potencial em municípios próximos, especialmente onde há cartéis, aplicativos locais com atendimento ruim ou preços combinados entre concorrentes.

“Tem cidade que tem vários aplicativos, mas todos combinam um valor. É a mesma coisa de ter só um”, afirma.

Maior dificuldade foi dirigir e atender ao mesmo tempo

No início, Caio não imaginava que precisaria ser o principal motorista da operação. Dirigir, especialmente em estradas, foi uma das maiores dificuldades. Outra foi organizar o atendimento, que começou de forma improvisada pelo WhatsApp pessoal.

“Eu lancei imaginando que as pessoas iam usar o aplicativo para pedir corridas de outros motoristas. Então, eu ter que dirigir já foi a maior dificuldade”, afirma.

Com o tempo, a operação foi aprendendo a lidar com outros problemas, como clientes que pediam viagens para outras cidades e desapareciam antes da chegada do motorista. Hoje, esse tipo de corrida só é feito com pagamento adiantado.

Uber tem dificuldade no interior, diz gestor

Caio acredita que grandes plataformas têm dificuldade em cidades pequenas não por falta de tentativa, mas por diferença de filosofia. Para ele, a lógica de extrair o máximo de lucro por corrida não funciona tão bem no interior.

“Em uma cidade pequena, é impossível você cobrar os valores da Uber”, afirma.

Ele cita Patos de Minas como exemplo de cidade maior onde a Uber existe, mas ainda perde força para aplicativos locais.

“A Uber funciona, só que perde feio para os aplicativos locais”, diz.

Na visão dele, há espaço para empresas que remunerem melhor motoristas e cobrem taxas menores, especialmente se o mercado de trabalho formal melhorar e reduzir a dependência de grandes plataformas.

Tecnologia ajuda, mas não substitui relação pessoal

Caio reconhece que aplicativos regionais podem ficar atrás das grandes plataformas em recursos como algoritmo de preço dinâmico e retenção automática de motoristas e clientes. Mesmo assim, acredita que essa diferença pesa menos em cidades pequenas.

“Se eu deixasse por conta do aplicativo, o Carpix já teria fechado há muito tempo”, afirma.

Para ele, o diferencial está na conversa direta com motoristas e passageiros.

“Se você não lida com os motoristas pessoalmente, um a um, não existiria o Carpix hoje”, diz.

A empresa também começou a usar IA no atendimento, mas ainda com acompanhamento humano.

Grandes plataformas exigem muito capital

Para Caio, conquistar fatia relevante do mercado dominado por Uber e 99 em cidades grandes exige muito dinheiro. A estratégia envolveria cupons, promoções para passageiros, incentivos a motoristas e taxas mais atrativas.

“Para conquistar, você tem que jorrar dinheiro. Não tem outra opção”, afirma.

Já em cidades pequenas, a disputa passa menos por tecnologia e mais por confiança, atendimento e controle da operação.

Legado: levar praticidade ao interior

O legado que Caio quer deixar com o Carpix é levar praticidade e acesso ao transporte por aplicativo para cidades do interior que antes dependiam de táxi, carona ou deslocamentos mais limitados.

Ele diz que gosta de ouvir passageiros que não sabem que ele é o dono do aplicativo elogiando o serviço.

“Eles falam: foi a melhor coisa que aconteceu, antes a gente tinha que pagar caro no táxi”, conta.

Para Caio, expandir esse tipo de facilidade para mais cidades seria a marca mais importante da empresa.

“Quanto mais cidades do interior eu conseguir levar essa facilidade, essa praticidade para essas pessoas, acho que seria um legado interessante de deixar”, afirma.

Foto de Giulia Lang
Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.