A plataforma de delivery, Hello Moov, surgiu em meio à pandemia no interior do Goiás. O aplicativo foi fundado pelo casal Lorrane Rodrigues, de 31 anos, e Bruno Otávio, de 35, naturais de Quirinópolis (GO). Ambos são formados em Direito, mas acabaram deixando de lado as carreiras jurídicas para apostar em um mercado que até então desconheciam.
Antes da Hello Moov, Bruno chegou a trabalhar no setor público e também teve experiências no comércio local. Já Lorrane tinha como objetivo seguir carreira policial e chegou a passar de fase em um concurso para delegada, mas a cesárea recente a impediu de realizar o teste físico e continuar o processo seletivo.
A mudança de rumo do casal aconteceu em 2020, quando a pandemia alterou a rotina do comércio e aumentou a demanda por entregas. Segundo o casal, muitos comerciantes da cidade ainda trabalhavam com entrega gratuita e mantinham motoboys contratados diretamente, o que começou a pesar financeiramente durante o período de lockdown. Foi então que surgiu a ideia de criar uma plataforma terceirizada de entregas.
“Era um mercado novo que a gente não conhecia, mas não dava para fazer mais nada, estava tudo em lockdown, então resolvemos tentar”, conta Lorrane. A operação começou de forma simples, com apenas dois entregadores trabalhando em turnos diferentes.
O ponto de apoio era a lavanderia da casa dos gestores, mas em dois meses de operação, conseguiram partir para um escritório próprio.
De acordo com Bruno, o crescimento aconteceu de maneira orgânica, impulsionado principalmente pela necessidade do comércio local e pela confiança que comerciantes e entregadores depositaram no casal. “A pandemia trouxe um desastre financeiro muito grande para o comércio. Essa ideia de ter entregadores terceirizados era viável tanto para os estabelecimentos quanto para os motoboys”, afirma.
Os gestores atribuem o sucesso rápido da plataforma à credibilidade construída ao longo dos anos. Os dois já eram figuras conhecidas na cidade antes mesmo da criação da Hello Moov. Vindos de famílias tradicionais da região, ligadas aos fundadores do município, Bruno e Lorrane afirmam que isso ajudou na aceitação do novo modelo de negócio.
“Às vezes não entendia direito o que era, mas confiavam na Lorrane e no Bruno”, ressalta a gestora. Segundo eles, essa proximidade com a população foi fundamental para conquistar os primeiros estabelecimentos e entregadores em uma cidade considerada tradicional.
Atualmente, a Hello Moov conta com mais de 100 entregadores cadastrados, número que, de acordo com a gestão, pode chegar a 150 em períodos de maior demanda, como o final do ano, por exemplo. Além de restaurantes, a empresa atende lojas de roupas, farmácias, autopeças, padarias, pet shops e diversos outros segmentos do comércio local. Segundo Lorrane, hoje a plataforma atende aproximadamente 412 empresas.
A taxa mínima de entrega é de R$ 6, variando conforme a distância percorrida. Já os valores cobrados dos estabelecimentos parceiros mudam de acordo com o porte da empresa e o volume de entregas realizadas.
Segundo os fundadores, alguns entregadores conseguem faturar até R$ 9 mil por mês em períodos de alta temporada.
Além do delivery, a Hello Moov também começou a investir em novos serviços de mobilidade. A empresa está em fase de testes para atuar com mototáxi e transporte por carros. “Queremos atuar na mobilidade de forma completa, com carros, motos e entregas”, destaca Bruno.
A expansão para outras cidades também já começou e faz parte da estratégia da marca para os próximos anos.
Mas apesar do crescimento, o casal afirma que a principal característica da empresa continua sendo a proximidade com entregadores e comerciantes. Segundo eles, o atendimento humanizado é o principal diferencial frente aos grandes aplicativos nacionais. “As pessoas marginalizaram o motoboy e a gente faz questão de reestruturar essa visão”, afirma Lorrane.
Bruno acredita que os aplicativos regionais conseguem se destacar justamente por entenderem melhor a realidade das cidades menores. “As grandes plataformas utilizam muita tecnologia, mas mascaram uma humanidade que não existe. Em cidades pequenas isso não funciona”, diz.
Além das confraternizações e ações internas com os entregadores, a Hello Moov também realiza projetos sociais na comunidade, como distribuição de cestas básicas, apoio a instituições locais e campanhas beneficentes.
Para o futuro, os fundadores afirmam que o objetivo é continuar expandindo a operação para pequenas e médias cidades brasileiras. “A gente vai ser o maior aplicativo de logística terceirizada do país”, afirma o gestor.
Qual a história de vocês antes da Hello Moov? Me contem um pouco da trajetória de vocês antes de entrarem para o mercado das entregas.
Lorrane: Somos nascidos e criados aqui, por famílias extremamente tradicionais. Eu sou descendente de nortistas e de pessoas locais. A minha família até se diferencia nisso: dos fundadores da cidade e das pessoas que vieram trabalhar para os fundadores.
Fui a primeira geração da minha família que não precisou trabalhar para estudar. Então fiz minha faculdade com tranquilidade, enquanto minha mãe trabalhou muito, meus pais, meus avós trabalharam muito e eu não precisei trabalhar tanto. Meu foco foi nos estudos.
Me formei em Direito, meu foco era carreira de delegada. Cheguei a passar na primeira fase para delegada no estado do Tocantins, porém eu tinha acabado de fazer uma cesárea e antes de dois anos você não pode fazer exame de aptidão física com cirurgia exposta. Foi bem nesse momento que me deu uma ansiedade muito grande sobre o que fazer, porque eu tinha passado, mas não podia fazer a prova física, já que tinha feito uma cesárea há oito meses.
Eu e o Bruno nos conhecemos quando eu tinha 17 anos e ele 21. Um relacionamento muito tradicional mesmo, literalmente pedir para o pai para namorar, noivar e casar. Somando tudo, temos 15 anos juntos. E todo mundo fica, pelo fato de eu ter 31 e ele 35, muita gente fica chocada, porque a gente é muito jovem, conquistou muitas coisas, mas nunca ganhamos nada dos nossos pais.
Então fomos educados para ter as nossas próprias coisas. Auxílio de pai e mãe nunca aconteceu, porque muita gente fala: “Ah, mas seu sogro”, “Ah, mas o histórico da sua família”. Então assim, ninguém da família nunca nos deu nada, nunca nos emprestou nada, nunca pedimos dinheiro no banco. Fiz minha faculdade, meus pais pagaram, fiz Direito, como eu te disse, fiz pós-graduação em Psicologia Forense e Perícia Criminal, que era realmente o foco que eu queria.
Hoje saímos completamente disso, porque eu entendi que amo pessoas. E o pessoal pergunta: “Vocês não ficam loucos? Vocês não pensam em ter mais filhos?” Eu tenho só uma filha e eu falo: “Nós não temos tempo”. Porque a gente acorda cedo e vai dormir às duas, três da manhã todos os dias.
O pessoal sempre fala assim: “Qual é o segredo para vocês serem tão jovens nos dias de hoje e estarem juntos?” Eu falo: “Abra uma empresa”. Porque é o seguinte: ou o seu casamento desanda de vez ou ele se fortalece. Porque toda vez que a gente tenta ter uma DR como casal, alguma coisa acontece na empresa.
No fim do dia a gente tenta lembrar pelo que estávamos brigando e não lembra mais.
Bruno: A própria discussão some, porque a gente começa falando de coisa pessoal e termina em alguma coisa que a empresa precisa fazer.
Eu também sou nascido e criado em Quirinópolis. Sempre trabalhei com essa parte de escritório e computador, desde que meu pai era oficial de justiça. Na época em que não existia computador, eu usava máquina de datilografia.
Então, desde sempre, ajudei meu pai digitando certidões. Sempre me dei bem com essa questão de escrever, trabalhar com computação. Até fingia trabalhar em escritório quando era criança e aos poucos tudo foi acontecendo.
E eu sempre falo para a Lorrane que essa nossa empresa foi um chamado. Às vezes existem pessoas que têm inveja da gente, já tentaram prejudicar, fazem concorrência desleal, porque infelizmente aqui a concorrência não é saudável. Mas quando você tem uma missão, quando você tem um chamado, só Deus para encerrar aquilo. E às vezes as pessoas tentam te derrubar ou passar por cima de você, mas aquilo que era para te prejudicar acaba fazendo você se levantar.
Antes de abrir eu trabalhei na prefeitura também. Fui chefe de transporte escolar, fui auditor fiscal. Nós fomos donos de estabelecimento comercial também, então sentimos todos os aspectos da pandemia que você possa imaginar. E vimos a deficiência e a necessidade do mercado. Então a gente veio e investiu nisso.
Acho que vem daí: a gente se doou, se sacrificou muito como pessoa. Igual a Lorrane falou, a gente não tem muita vida pessoal, porque tudo é empresa. A gente levanta cedo pela empresa, almoça na empresa, passa o tempo na empresa.
Lorrane: Quem escolhe nossa comida são as nossas assessoras e a gente fica sabendo na hora. E inclusive a gente estava em negociação com patrocinadores até as 5h da manhã.
Por isso eu falo que para mim é difícil de manhã, porque eu preciso descansar até umas dez, onze horas, porque chega tarde e à noite os empresários, os parceiros, todo mundo quer falar com a gente. Então de manhã eles ainda estão tranquilos e a gente tenta dormir nesse período. Mas geralmente entre dez e onze horas a gente já está acordado de novo. A gente trabalha muito no período noturno, porque a maioria dos nossos clientes é noturno.
Eu também recebo muitos brindes, mimos, porque as pessoas são gratas pelo que a gente faz. Há épocas em que a gente nem compra comida. Eu não faço comida em casa, porque o dia inteiro alguém chama: “Bruno, hoje eu fiz uma costela”, “Bruno, fiz um cuscuz”. Aí nós ficamos circulando. Inclusive tivemos que fazer bariátrica, porque estávamos acima do peso. No início eu comia tanto, era bolo aqui, pão de queijo ali, que eu fui para 120 kg e o Bruno para 130 kg.
Bruno: A gente aproveita muito para visitar os clientes, conversar, comer, porque vou falar um negócio: tudo é bom, tudo que todos nossos clientes fazem é bom. Eles inventam coisas e a gente aprova tudo, come, tira foto.
Às vezes vamos em um local e pagamos normal, fazemos a refeição e pagamos. A Lorrane tira foto, faz vídeo, divulga, manda para os clientes, então a gente é a empresa.
Lorrane: As pessoas até brincam que a gente pode colocar qualquer nome na empresa, até “asinhas batendo”, que eles vão estar com a gente.
Vocês ainda têm o estabelecimento que abriram juntos?
Lorrane: Não. É inviável. A gente não tem saúde mental para isso. Encerramos nosso projeto comercial para atender todos os comércios e abrimos mão das nossas carreiras jurídicas também. Na época recebemos propostas para dar aula também, o Bruno por muito tempo orientou trabalhos bibliográficos e TCCs, porque ele é escritor. Então as pessoas gostam da gente.
Como surgiu a ideia de criar um aplicativo de mobilidade? Vocês já trabalhavam na área antes?
Lorrane: Tudo começou do nada. A gente fala que a pandemia trouxe questões e questões. A gente tem muitos amigos que estavam no exterior e esses amigos foram embora da nossa região para procurar melhor qualidade de trabalho. Durante a pandemia tiveram que regressar porque nesse caso de emergência eles dão preferência para as pessoas do país. Então, muitos brasileiros regressaram.
E uma dessas pessoas que regressaram, me chamou e falou: “Bruno, aqui em Quirinópolis todo mundo entrega de graça”. Você ia vender um açaí, uma pizza tinha entrega grátis, porque todo mundo tinha os motoboys na carteira de trabalho, motos próprias e as pessoas não tinham esse hábito de pagar entrega. Aí essa pessoa veio do exterior e falou: “A gente vai para fora para trabalhar até debaixo de neve, de chuva como entregador”.
Ambos somos bacharéis em direito, mas a gente não optou pela carreira. Na época, estávamos com uma filha pequena, de dois anos, o Bruno trabalhava no setor público e eu no setor privado. E eu falei assim: “Bruno, é um mercado novo que a gente não conhece, mas não dá para fazer mais nada, está tudo em lockdown, então vamos tentar”.
Começamos na lavanderia de casa. Conquistamos essa pessoa que nos deu a ideia e mais uma pessoa, porque eu falei: ”preciso de um que roda de dia e um que roda de noite”. Então a gente começou as nossas operações bem simples mesmo, da forma que dava.
Por sermos muito conhecidos no município também, as pessoas todas nos conheciam e a gente até brinca: “se não fecham com a Hello Moov, fecham com a Lorrane e com o Bruno. Até por isso que aqui a gente não tem recepcionista, não existe esse cargo, porque a recepcionista não consegue resolver seu problema. Temos coordenadores, gerentes, assistentes pessoais, porque todo mundo tem capacidade de resolver o problema.
Então, a gente começou e com 30 dias já deu um up. Com 60 dias a gente já tava no escritório com a equipe e assim foi indo.
Eu fiquei mais na área comercial no início e o Bruno nas operações. Fomos assim, sem saber o que estávamos fazendo direito. E as pessoas confiando no nosso trabalho e na nossa credibilidade.
Foi entrando motoboy, trocamos programadores, fomos caindo e aprendendo ao mesmo tempo.
Há quanto tempo estão no mercado?
Bruno: Há mais de cinco anos. E é interessante porque, na época, a pandemia trouxe um desastre financeiro muito grande para o comércio. Então o comércio não tinha condições para arcar com entregadores e essa entrega grátis começou a pesar para os comerciantes. Essa ideia de ter entregadores terceirizados era uma coisa viável tanto para o comércio, quanto para o motoboy que tinha maior flexibilidade. Então, começamos a trabalhar para auxiliar o comércio.
Além das entregas, a gente tem um foco muito grande no marketing com os nossos parceiros, então um auxilia o outro.
Os primeiros entregadores foram esses amigos, mas como foi feita a captação dos demais entregadores?
Lorrane: Hoje esses que estavam no começo nem estão atuando como motoboys mais, eles estão no administrativo em outras cidades.
E a captação eu costumo dizer que é um efeito manada. Durante a pandemia o pessoal estava desempregado, muita gente perdeu o emprego, muita gente sem saber o que fazer, querendo ou não querendo, as mulheres tiveram que ficar mais tempo em casa com as crianças e os maridos às vezes não sabiam o que fazer. A gente enfrentou esse risco e uniu a necessidade com essa questão financeira.
Naquela época só trabalhavam os médicos, o pessoal da saúde, da ciência, do IML e nós. A gente costumava dizer que éramos os anjos da rua, porque não deixamos o comércio parar completamente. Existiu a necessidade e a razão social para isso.
Bruno: E essa captação de entregadores foi orgânica, porque como o comércio estava defasado e muitas empresas precisaram desligar funcionários, surgiu essa oportunidade.
A segunda questão é que nossa empresa é uma empresa familiar. Mesmo trabalhando com entregas, com delivery, com operação de logística, a gente acolhe muito a nossa equipe. Desde o início, na lavanderia de casa, a gente já servia um café, água, mantinha o suporte aberto enquanto tinha entregador na rua.
Hoje mantemos 18 horas de funcionamento por dia seguidos.
Lorrane: As pessoas conseguem tanto falar com a gente no nosso telefone pessoal, quanto nos nossos telefones da empresa. Então nós não somos aqueles tipo de pessoas que se desligam da empresa.
Recentemente eu recebi um WhatsApp de um entregador que queria pedir a moça em namoro, que referência de lugar eu poderia dar para ele ir. Então a gente tem essa conexão verdadeira de conversar, de perguntar como é que está o pai, a mãe, e isso é com todos, tanto a empresa quanto os motoboys.
No nosso feed, por exemplo, nos testemunhos dos motoboys, dos empresários que têm, eles falam: “se outra empresa vir nos fornecer esse trabalho, a gente não aceita”. São coisas que eu não consigo pagar.
E como foi a captação dos primeiros estabelecimentos?
Lorrane: Eu acho que foi uma junção de tudo. Pelo nosso histórico familiar, nossas famílias são fundadoras da cidade. Nossa árvore genealógica é desde fundadores, até pessoas políticas, então todo mundo sabia quem era a Lorrane e o Bruno. Às vezes não entendia direito o que era, mas confiava na Lorrane e no Bruno.
Até por isso temos assessoras particulares, porque elas conseguem saber o que realmente é necessário passar por nós, porque senão é o dia inteiro.
Bruno: Nós temos clientes hoje que estão conosco há mais de cinco anos, estão desde o primeiro dia. E boa parte, na verdade, posso dizer que mais de 80%, são clientes recorrentes.
Lorrane: Aqui é uma cidade muito próspera, porém, muito tradicional. Então, às vezes, seu produto é incrível, mas eles não sabem quem você é. Tem empresas que a gente negociou por dois anos, por dois anos eu tinha que ir lá tomar um café, ir lá visitar, comprar uma roupa. Para aí sim a pessoa vir e falar: “Então vamos tentar”. E um mês depois falam: “Foi a melhor coisa da minha vida, porque eu não escutei antes?”.
Bruno: Além da transformação que a gente faz na vida das pessoas, temos vários casos de pessoas que, por exemplo, queriam montar uma quitanda e tinham medo do delivery, tinham medo de como isso ia funcionar e a gente ali trabalhando as operações, trabalhando a questão do marketing, encorajando eles nas operações e hoje é um sucesso.
A gente tem cliente que chegou a fechar lojas de roupa, de calçado para mexer somente com delivery. Então a gente fica muito feliz de participar ativamente do comércio, da economia e também da vida dos entregadores.
Temos entregadores que estão se formando em engenharia e entregadores que estão se formando em agronomia que viram a nossa empresa como uma oportunidade para poder pagar uma faculdade, para poder dar uma qualidade melhor de vida para os filhos e para a família.
Lorrane: A mãe que tem criança pequena, que principalmente na primeira infância fica muito doente, não consegue ficar pegando atestado para o trabalho, então ela consegue trabalhar aqui. Ela fica três dias em casa com o bebê, ele volta para a escolinha e ela vai para as entregas.
Bruno: Mãe de família que durante o dia deixa o filho na creche, mas que não pode ter um emprego fixo.
Lorrane: Pessoas que têm depressão, ansiedade, ficavam em casa, então vão para a rua para poder trabalhar.
Nós temos empresários aqui que a gente fechou com eles, só que ele não fica na empresa, tem casa com piscina, caminhonete, mas paga funcionário para ficar na empresa e vai ser motoboy.
Vocês atuam em quais cidades?
Lorrane: Hoje temos em Ituiutaba, Santa Helena, são muitas cidades vizinhas próximas. Não vou conseguir falar o nome de todas.
Bruno: Mas faz parte de uma expansão estratégica no momento também. Vamos estar operando e ativando algumas cidades ao mesmo tempo. Mas nosso intuito, nosso objetivo é ser o melhor e maior aplicativo de delivery terceirizado do Brasil nas pequenas cidades e médias cidades.
Lorrane: Agora estamos expandindo para transportar pessoas, na modalidade mototáxi, e também os carros. Ainda está na parte de documentação.
Vocês já começaram a expansão para carros e motos ou ainda está no projeto?
Lorrane: A gente está em fase de testes aqui na nossa cidade.
Bruno: Nossa intenção é que o nosso aplicativo possa servir tanto empresas quanto pessoas. Se você quer uma coleta e uma entrega, você pode usar o nosso aplicativo normalmente. Dessa maneira a gente também fornece uma demanda boa para os profissionais, para não depender somente de uma demanda. Queremos atuar na mobilidade de forma completa, com carros, motos e entregas.
Quantos entregadores estão cadastrados na plataforma?
Bruno: Hoje nós temos mais de 100 entregadores. Depende da demanda do mês, é muito rotativo.
Lorrane: Mas esse número pode oscilar para mais, porque tem época, por exemplo, o Natal, que a gente já chegou a ter 150.
E quantos estabelecimentos estão atendendo?
Lorrane: Atendemos desde roupa, ração, sapato, roupas íntimas, auto peças, padaria, medicamentos.
Hoje eu acho que a gente atende 412 empresas.
Qual a taxa mínima de entrega?
Lorrane: Aqui vai de acordo com a distância, porque pode ser perto, pode ser longe, mas o mínimo padrão é R$ 6.
E para o estabelecimento?
Lorrane: É tudo digital. Dentro da nossa própria plataforma, você paga o motoboy, e o motoboy recebe.
A cobrança não tem como ser fixa, porque nem o valor que o estabelecimento recebe é fixo. Então é de acordo com a demanda.
O valor dessa porcentagem oscila conforme o contrato, porque temos contratos antigos. Eu não posso cobrar uma porcentagem muito alta de um estabelecimento pequeno. A gente analisa muito o mercado, a situação da empresa e essa porcentagem pode subir ou baixar.
Quanto fatura um entregador da Hello Moov mensalmente?
Lorrane: Olha, varia muito porque tem mês muito bom e mês muito ruim. A gente sabe como funciona o mercado. Porém, já aconteceu de motoboys tirarem R$ 9 mil por mês. Mas um entregador que vive de entrega consegue tirar em torno de R$ 7 mil por mês e R$ 9 mil em alta temporada. Agora, aqueles que fazem mais ou menos tiram uns R$ 3 mil, R$ 4 mil.
Tem muitas pessoas que fazem apenas um extra na plataforma ou a maioria vive das entregas?
Lorrane: A maioria são funcionários de outras empresas e trabalham em outro horário conosco, faz um complemento. Aqui em Quirinópolis é muito rica essa questão do comércio, nós já temos a maior usina de cana-de-açúcar do país, então muita gente trabalha na usina, tem fábrica, confecção de portas e janelas. A indústria é muito forte aqui. Vem pessoas de fora trabalhar nessas indústrias.
Temos curso de medicina e outras faculdades, outros cursos particulares. Tem outros que fazem faculdade no município de Rio Verde, então às 16h já estão indo. Essas pessoas precisam de flexibilidade.
Quantos colaboradores tem atualmente na empresa?
Lorrane: Isso eu não vou saber informar exatamente. Porque tem os freelancers, os diaristas, Como a gente trabalha sete dias por semana, 365 dias por ano, tem a galera que cobre folga, os programadores, por exemplo, são terceirizados, o marketing também tem uma parte terceirizada e outra fixa, tem médico, pessoal de segurança do trabalho, advogados.
Mas diretamente para mim e para o Bruno, em questão de agenda e tudo mais, cada um tem umas três pessoas. E aí tem os outros cargos: cobrança de Quirinópolis, cobrança da outra cidade, representantes de venda, o pessoal que ganha comissão, é uma galera muito flutuante.
Como é a divisão das funções da gestão entre vocês dois?
Lorrane: O nosso maior problema é porque, por exemplo, decidimos criar o cargo de marketing, então primeiro eu e o Bruno aprendemos o que era marketing, nós estudávamos para depois colocar outra pessoa, porque a gente tinha que saber o que estava acontecendo para treinar alguém. Para você cobrar, você tem que saber o que é. Então literalmente todos os cargos foram projetados e vivenciados por nós.
Se algum colaborador faltar, se há uma demissão, a gente consegue resolver esse problema e não enlouquecer.
Qual foi o momento mais desafiador até agora?
Lorrane: Então, o que que aconteceu é que nós começamos com o nome Multimob e na época a gente tinha dois sócios, um para ajudar com programação e o outro com gestão. Mas chegou um ponto em que eles não faziam o que era proposto, mas recebiam. O nosso pró labore, meu e do Bruno, ficava todo para a empresa, porque a gente reinvestia, reinvestia e eles não. Então compramos a parte deles e mudamos para Hello Moov.
Sentamos eu e minha assessora pessoal, que está comigo desde o começo, e aí eu falei: “Eu quero um nome que tenha a ver com a empresa, com a família.” Estuda daqui, estuda dali, foram dias e ninguém tinha resposta, porque tinha que ter química. E para substituir um nome que já estava há quase três anos no mercado, que todo mundo já falava, era um nome forte. Até hoje ainda tem gente que chama a gente pelo antigo nome.
Aí minha filha tinha cinco anos na época e ela faz inglês desde novinha. Aí ela veio e falou: “Hello, mother”. Eu e minha assessora olhamos uma para a outra e escrevemos a palavra “hello”. E aí já tinha o “Mob”, de move, mobilidade, movimento, aí colocamos “moov’ e criamos o Hello Moov.
Minha assessora ainda cortou no meio e falou: “Quais são as suas iniciais, Lorrane?” Eu falei: “L e O” e ela: “E quais são as iniciais da sua filha?”. Minha filha se chama Helena. Então virou, sem querer, por uma fonética, um nome 100% familiar. Então é o nome da minha filha com o meu nome, do “hello” que ela falou para mim e do “Moov”, de movimento. Então até no nome a gente tentou trazer o máximo possível de familiaridade.
Acho que foi um dos momentos mais difíceis, porque começamos a mexer com registro e eu e o Bruno tínhamos que tomar conta de tudo, era só nós. E aí fomos sofrendo de novo, reinvestindo de novo. Quando você pensa que vai ganhar dinheiro, começa a perder de novo, tampa aqui, tampa ali.
E aí o Bruno um dia acordou e falou: “Vamos expandir.” Eu acho que esse foi o segundo momento crítico. A gente começou uma expansão para outras cidades e, na época, optou por ter sócios em cada cidade, para ficar mais orgânico. E aí, na primeira cidade que a gente fundou, a pessoa nos roubou. Tivemos um prejuízo de quase R$ 100 mil em dois, três meses. E era um dinheiro que não era só de faturamento.
Era uma pessoa que tinha vindo as entregas, ele era motoboy nosso aqui e queria ir para essa cidade. A gente disponibilizou tudo e essa pessoa foi. Então essa primeira cidade a gente arriscou muito porque não sabíamos como seria fora do nosso território e estava dando tudo certo. Até que as contas começaram a não bater e nosso jurídico nos chamou. Essa pessoa fugiu e o prejuízo ficou para nós. Então entendemos que, dali em diante, não teríamos mais sócios em lugar nenhum. Todas as cidades seriam nossas.
Além dos planos de expansão, vocês têm outras metas e planos para esse ano? E para os próximos?
Lorrane: Nós não temos metas anuais, porque quando a gente cria ela, somos muito ansiosos, somos dois aquarianos, então não temos paciência. Criamos a meta e em cinco dias, uma semana a coisa já está pronta. Nossas metas nunca são anuais e eu acho que é por isso que rompe tão rápido as coisas que fazemos.
Bruno: Nosso objetivo é expandir o mais rápido possível, para reinvestir mais na empresa, levar mais tecnologia, mais novidades e o nome da empresa cada vez mais longe. Esse é o nosso intuito.
E, assim, o importante é que a nossa empresa é uma empresa familiar. A gente valoriza muito a tecnologia, mas também valoriza muito a questão da humanidade. Então eu acho que é por isso que a gente fez e faz sucesso até hoje.
Quando você tem uma empresa que ultrapassou três anos, você já está dentro de uma média muito pequena de empresas no Brasil que conseguiram passar dessa fase. Geralmente, até três anos as empresas fecham. Então a gente já ultrapassou isso e tem experiência com esse processo.
Então o nosso intuito é avançar cada vez mais. E aqui na nossa cidade a gente trabalhou muito a questão da valorização do entregador. Porque não é uma profissão valorizada, não é um profissional valorizado, e as empresas deste ramo também não são muito valorizadas.
Lorrane: As pessoas marginalizaram o motoboy e a gente faz questão de reestruturar essa visão.
Então a gente senta com eles, faz um trabalho social e até terapêutico mesmo. Pergunta: “Olha, se você fosse uma empresa, desse jeito ou daquele jeito, quem você gostaria que te atendesse?”.
Bruno: A gente tenta mostrar tanto para eles quanto para as empresas que, se eles tiverem um bom atendimento, os dois lados ganham. Empresa e entregador precisam um do outro. E a gente precisa dos dois, e eles precisam de nós.
Lorrane: Porque a maioria das empresas do nosso segmento está focada só em ganhar dinheiro e acaba penalizando o entregador. Eu conheço empresas que têm penalizações para motoboy. “Ah, não trabalhou tantos dias, então fica tantos dias sem trabalhar.”
Nós não fazemos isso. Se alguém ficou um dia sem trabalhar, já acende um sinal vermelho. “O que aconteceu? Você está bem?” Então a gente faz esse atendimento, essa triagem para entender realmente o que está acontecendo. E com os empresários também. Às vezes ficou dois dias sem chamar, a gente pergunta.
O que vocês acreditam que falta nos aplicativos regionais do Brasil para que ganhem mais espaço no mercado?
Lorrane: Eu acho que é humildade. Muitos empresários sobem muito rápido para a cabeça. Você tem que pensar até em como você se veste para atender as pessoas. Porque imagina eu falando com um motoboy que às vezes nem é alfabetizado direito e eu venho vestida com uma Louis Vuitton. Até a forma de eu atender eles, tem que ser diferente. A forma que eu me posiciono aqui. Uma coisa é quando eu estou viajando, uma coisa é quando eu estou com as minhas amigas, em festa, em férias. Outra coisa é quando eu estou aqui atendendo ele.
Você acha que ele vai escutar um igual ou ele vai respeitar alguém que quer ser mais do que ele? Eu sou pós-graduada em psicologia forense, perícia criminal, então eu aprendi isso e entendi. Eu e o Bruno nos vestimos como eles aqui, a gente é simples como eles, a gente toma uma Coca-Cola com eles, a gente come um pão de queijo com eles.
Você precisa entender o seu público. O meu público não é milionário. O meu público não é multimilionário. O meu público é simples. Então eu preciso ser simples com eles, estar com eles. Enquanto as pessoas não entenderem isso, vai ficar muito difícil.
E outra questão que eu falo sempre: muitas empresas vestem camisetas políticas e eu não acho que esse seja o caminho. Então, aqui a gente tem regras básicas, não falamos de política, não falamos de religião, não toleramos racismo e nem misoginia.
Outra coisa, empresas maiores que nós já tentaram vir para cá, como iFood, 99, Delivery Much, mas sem sucesso e tiveram que fazer parceria conosco. Eles não conseguem e não conseguirão ter essa humanização. Entender e atender.
Bruno: O maior problema do mercado de delivery é que ele quer pegar tudo e colocar de um único jeito, sem dar muitas explicações. Tudo é robotizado demais. Eles utilizam a tecnologia e mascaram uma humanidade que não existe.
Lorrane: Isso pode funcionar em grandes metrópoles, agora em cidades menores, isso não vai funcionar. Por isso nosso foco sempre foram as cidades interioranas.
Eu já vi representantes de empresas falando mal de motoboy: “Ah, porque é maconheiro, porque é ladrão” e você tem que pensar muito bem antes de verbalizar essas coisas.
Bruno: Eu já escutei também, por exemplo: “Ah, eu quero que bloqueie porque ele não sabe escutar ordem de patrão”. Eles não têm patrão, ninguém é patrão de ninguém.
A gente sente também que na cidade do interior é onde o nosso trabalho é mais importante, porque ali a gente consegue desenvolver um trabalho que ajuda de fato a economia local. O nosso intuito não é fazer só a entrega, a gente quer ver você se desenvolver economicamente na sua empresa.
Lorrane: E a frase que eu sempre falo para os meus clientes é: ninguém tem mais interesse nas suas vendas do que eu, porque se você vende, eu entrego. É simples.
Os grandes marketplaces não atuam mais na cidade ou eles não possuem entregadores próprios?
Lorrane: Eles não conseguiram ter entregadores na cidade. Já tentaram, mas não conseguiram. Nós temos interação com eles, mas preferimos que as empresas tenham seu cardápio.
Eu não compro briga com ninguém. Então, se a empresa quer atender pelo iFood, pelo Delivery Much, enfim, ela vai atender por eles. Geralmente o pedido cai para você e você vai lá no nosso aplicativo e solicita. Hoje nós estamos como parceiros de todos, porque, a princípio, eles queriam fidelidade, mas a gente sabe que não pode comprar certas guerras.
Então o que a gente fala é o seguinte: “Olha, estamos aqui para todos, mas não somos de ninguém. Nós fazemos o nosso trabalho e vocês fazem o de vocês. Não vamos interferir”.
Vocês fazem encontros para reunir os motoboys?
Lorrane: A gente faz, mas a gente não divulga, porque se o empresário fica sabendo, ele fica bravo porque nós não fazemos para eles.
Aqui no nosso escritório, a gente tem uma área aberta, então a gente faz confraternização, premiações, sorteios. Às vezes o Bruno acorda e fala assim: “Vamos assar uma carne”. Aí ele compra não sei quantos quilos de carne e ele mesmo gosta de assar. Às vezes está frio e a gente fala: “Vamos fazer um caldo, um chocolate quente”.
Dia das crianças a gente aluga brinquedos, manda as crianças vir, só que a gente não divulga tanto por causa disso, eu acho que o empresário não precisa dessa mão, mas o motoboy sim.
Bruno: E eu já até escutei de cliente: “Ah porque vocês ficam passando a mão na cabeça de entregador”. E não é bem assim.
E, na verdade, a gente faz isso até para ajudar o comércio. Porque, se eu tenho um entregador recorrente, se ele está aqui comigo há dois, três, quatro, cinco anos, é uma mão de obra que o comércio tem à disposição.
Lorrane: Na Páscoa, a gente distribui ovo de Páscoa, temos as nossas ações solidárias, no Natal, a gente dá cestas básicas. Antes a gente dava para os motoboys, mas como hoje eles ganham bem, graças a Deus, a gente distribui em localidades onde realmente há necessidade. E eles vão junto, eles ajudam nessas cestas básicas. Quando a gente vê que existe alguma entidade pública na cidade precisando de ajuda, por exemplo, recentemente a gente doou um ar-condicionado para um CMEI, mas isso a gente não divulga. É um trabalho que a gente faz aqui para a comunidade local.
Bruno: A gente comprou material para uma ONG que cuida de cachorros de rua vender nos carros e ainda doamos as entregas. Então a gente sempre gosta de participar ativamente dentro da sociedade, auxiliando com o que a gente tem. E o que a gente tem é a entrega.
Lorrane: Muitas vezes chega motoboy aqui, pessoas que estão passando fome mesmo, porque as vezes saiu do emprego, separou da mulher, separou do marido. Então a gente flexibiliza muitas coisas nesse início para algumas pessoas que têm necessidade de estabilidade.
Vocês têm desafios para os motoboys?
Lorrane: Tem o melhor do mês, tem o melhor da semana, tem tudo. Aí fica a critério dele o que ele quer ganhar, se quer uma bag, uma revisão na moto, o que ele estiver precisando.
O que vocês aprenderam ao longo desses anos empreendendo? Qual foi o maior aprendizado?
Lorrane: Acho que a coisa mais importante, além de ter humildade, é ter fé, seja ela qual for. Porque às vezes você não vai ter tempo para terapia e o mundo às vezes faz você querer ser uma pessoa ruim. Mas quando você tem fé, seja ela qual for, desde que exerça com carinho e respeito, você consegue o que quiser.
Às vezes você vai ser milionário aos 20, às vezes aos 60. Tudo é no tempo de Deus. E esse tempo que a vida leva para você chegar aos seus objetivos, se você não tiver fé, você desiste.
Escolher bons profissionais também, porque às vezes a pessoa não sabe fazer, mas você ensina. Agora, a moral dela você não muda. Eu escolho meus colaboradores pela moral, porque o profissional eu posso moldar, qualificar. A moral, não. Então é ter fé, paciência e respeitar o próximo.
Onde vocês querem estar daqui a cinco anos? O que esperam do futuro da Hello Moov?
Bruno: Queremos estar colhendo os frutos dos 10 anos, se Deus quiser. A gente vai ser o maior aplicativo de logística terceirizada do país. As pessoas ainda vão ver muito essa marca, se Deus quiser. Tem tudo para isso acontecer futuramente.
Lorrane: Nosso foco é internacional também, então nós já temos brasileiros em outros países que já estão interessados.

