Arapiraca, no agreste de Alagoas, vive a rotina de uma cidade onde o transporte por aplicativo se tornou essencial para motoristas e passageiros. A demanda por corridas é constante, especialmente em regiões centrais e em horários de pico, mas a rentabilidade tem sido um desafio crescente. Custos altos de combustível, tarifas defasadas e repasses cada vez menores obrigam os condutores a jornadas longas e a estratégias de seletividade para equilibrar as contas no fim do mês.

Nesta reportagem, três motoristas de perfis diferentes — Alex Roque, Sidcley Lisboa e Ayrton Barros — compartilham suas experiências e revelam os bastidores de uma atividade que, embora indispensável para a mobilidade local, segue marcada por incertezas e desgaste.

Alex Roque: “Ainda conseguimos fazer a diária, mas só trabalhando muito”

Motorista da Uber e 99, Alex cumpre jornadas de 10 a 12 horas por dia, percorrendo 150 a 250 km e gastando R$ 120 a R$ 200 de combustível diariamente. Apesar do esforço, seus ganhos variam de R$ 200 a R$ 350 por dia, valor que considera insuficiente.

Ele realiza em média 35 corridas por dia, com maior movimento a partir das 7h da manhã e no fim da tarde. Ainda assim, a seletividade é inevitável: “Não tem condições de aceitar tudo que toca”.

Entre os problemas mais comuns, cita passageiros que tentam dar calote: “Já aconteceu de no fim da corrida dizerem que não tinham dinheiro ou até correrem para não pagar”.

Para ele, os aplicativos atuais erram ao cobrar taxas altas e repassar valores defasados. “O ideal seria um app que oferecesse valores justos para os dois lados.”

Sidcley Lisboa: “Hoje rodamos muito mais para ganhar menos”

Sidcley também divide sua rotina entre Uber e 99, mas já chegou a testar um aplicativo regional. Atualmente, roda em média 12 horas por dia, percorre 150 a 170 km e gasta cerca de R$ 100 com combustível. Seus ganhos ficam em torno de R$ 150/dia, o que, segundo ele, não cobre todos os custos.

A comparação com o passado é dura: “Há quatro anos, uma corrida mínima na 99 era R$ 6,00 e ficávamos com R$ 5,75. Hoje a mínima é R$ 8,10 e recebemos apenas R$ 6,00”.

Ele realiza 25 a 30 corridas por dia, concentradas nos bairros próximos ao centro, iniciando cedo, às 6h30, e muitas vezes estendendo até a meia-noite. Sempre seletivo, busca corridas que paguem pelo menos R$ 2,00 por km.

Entre as experiências negativas, já passou por situações graves: passageiros que vomitaram ou danificaram o carro e até episódios de assalto.

Apesar das dificuldades, ainda considera viável ser motorista: “Com muito esforço, vale a pena. Mas rodamos mais horas e ficamos longe da família.”

Ayrton Barros: “O problema não é a falta de corrida, é o valor pago por km”

Há cinco anos no volante, Ayrton hoje roda apenas pela 99, após perder sua conta na Uber. Trabalha de 10 a 12 horas por dia, percorre entre 140 e 170 km, gasta R$ 100 com combustível e fatura de R$ 100 a R$ 230 por dia — valor que considera insuficiente.

Ele faz entre 20 e 30 corridas diárias, concentradas no centro da cidade, e é bastante seletivo: só aceita chamadas que paguem pelo menos R$ 1,50 por km.

Apesar de lidar com passageiros de perfis variados — “educados e ignorantes” — nunca ficou no prejuízo: quando alguém não paga, o aplicativo cobre a corrida.

Sua maior crítica é às tarifas: “A maioria das corridas paga R$ 1,20, R$ 1,30 ou R$ 1,40 por km. É muito pouco. O mínimo deveria ser R$ 10 por corrida.”

Entre abundância e desgaste

Assim como em outras cidades brasileiras, os relatos mostram que em Arapiraca não falta corrida, mas os valores pagos aos motoristas estão cada vez mais baixos. A equação diária exige longas jornadas, custos elevados e constante seletividade para manter a renda mínima.

Se, por um lado, os aplicativos continuam sendo uma alternativa de trabalho e de mobilidade urbana, por outro, os motoristas alertam: sem reajuste nas tarifas e condições mais justas, a atividade se torna cada vez mais inviável como fonte principal de sustento.

A visão da passageira: confiança e segurança ainda são desafios

Se por um lado os motoristas de aplicativo em Arapiraca enfrentam dificuldades para manter a rentabilidade, do lado dos passageiros a percepção também revela nuances importantes — especialmente quando o tema é segurança.

A passageira Lysanne Ferro, usuária frequente do serviço, relata que costuma utilizar o aplicativo da Uber, embora já tenha recorrido ao 99 em algumas ocasiões. Para ela, a escolha depende principalmente de dois fatores: o tempo de aceitação da corrida e o valor cobrado.

“Hoje em dia uso o da Uber, mas já usei o 99. Depende do tempo que o motorista aceitar a corrida e o valor.”

Lysanne conta que costuma solicitar corridas em horários de pico, como no almoço ou no fim do expediente, além de usar o serviço aos finais de semana, especialmente à noite. No entanto, menciona que já teve corridas canceladas, mesmo sem um motivo claro que consiga recordar.

“Já tive corridas cancelas, principalmente em horários de pico, almoço e volta pra casa e também finais de semana tarde da noite, mas sem motivo aparente ou que eu me lembre agora.”

O ponto mais sensível, segundo ela, é a segurança das usuárias mulheres, sobretudo em viagens feitas sozinhas. Para Lysanne, seria importante que os aplicativos oferecessem mais formas de garantir a tranquilidade das passageiras.

Por morar em uma cidade de porte médio, Lysanne também recorre a deslocamentos a pé ou por carona com amigos, o que acaba funcionando como complemento ao uso dos aplicativos no dia a dia: “Aqui na cidade, por ser ainda pequena, tenho o costume de fazer as coisas a pé, quando não uso o app, ou carona com amigos.”

O que diz o poder público em Arapiraca

Em resposta ao 55content, a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) informou que, atualmente, não existe legislação específica que regulamente a atividade dos motoristas de aplicativo na cidade. As plataformas que operam em Arapiraca não pagam taxas municipais, e os condutores também não precisam de cadastro junto à Prefeitura para trabalhar — exigência que se aplica apenas a permissionários de táxi e mototáxi.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.