Você já parou para calcular quanto a Uber realmente fica do seu faturamento por semana ou por mês? E mais: quanto ela diz que ficou, quanto de fato ficou, e quanto mudaria se a taxa fosse como a da inDrive (10%), como a da 99 (20%) — ou se chegasse aos famigerados 40% que, em algumas corridas, a Uber acaba levando? É isso que eu quero mostrar aqui na prática, usando um relatório real meu de uma semana de trabalho.

Eu vou te dar um exemplo concreto. Peguei uma semana específica, do dia 6 de outubro a 13 de outubro. Trabalhei de segunda a sábado, seis dias, somando 48 horas e 42 minutos online. Nessa semana, meu ganho foi de R$ 2.457,67. Foi um bom resultado. Mas o que interessa mesmo é: quanto disso ficou comigo e quanto ficou com a Uber? E, principalmente, quanto teria ficado comigo se a taxa fosse menor.

Antes de entrar na conta, tem um detalhe importante. Eu uso ferramenta de cálculo de ganhos. Isso significa que eu não sou como a maioria dos motoristas que aceitam tudo que aparece na tela. Eu só faço corrida que vale a pena. A ferramenta me ajuda a escolher as viagens que não dão prejuízo e garantem que meu ganho por quilômetro e meu ganho por hora fiquem acima do parâmetro que EU defini como mínimo aceitável. Quem aceita tudo está jogando o jogo da Uber — e, no fim do dia, a porcentagem que a plataforma arranca desses motoristas é muito maior. Então o que eu vou te mostrar aqui é: mesmo escolhendo corridas, a Uber ainda pega pesado.

Voltando para o relatório. O valor que entrou na semana foi aquele R$ 2.457,67, mas ali dentro também teve R$ 7,81 de “outros ganhos”, que foi um cancelamento que eu reivindiquei e recebi. Esse dinheiro a Uber usa para calcular a taxa dela. A única coisa que ela não inclui na conta são as gorjetas — no meu caso, foram R$ 26,00. Gorjeta fica fora do cálculo.

Agora olha a malandragem no resumo semanal. A Uber mostra um total pago pelos passageiros de R$ 2.947,28. E ali ela diz que ficou só com 5,4%, o que dá R$ 159,00. A primeira impressão é: “Nossa, a Uber é uma mãe.” Só que não é bem assim.

Se você pega os números, ela diz que eu fiquei com 82,5% e ela com 5,4%, somando 87,9%. Aí surge a pergunta: cadê o resto dos 12,1%? Está num item chamado “promoções para usuário”, que nessa semana foi R$ 355,87.

E é aqui que está o golpe. A Uber trata esse dinheiro como se não fosse dela. Ela diz: “isso é promoção pro usuário, não é taxa minha.” Só que quem dá promoção para usuário é a própria Uber. Não sou eu. Não caiu no meu bolso. Então, na prática, esse valor também é parte do que ela ficou da corrida.

Funciona assim: ela pode cobrar R$ 200,00 do passageiro, te pagar R$ 100,00, dar R$ 50,00 de “promoção” pro usuário e ficar com R$ 50,00. No fim, ela ficou com metade da corrida, mas no relatório ela vai dizer que ficou só com 25%, porque o resto ela “deu de desconto”. Só que esse desconto saiu do valor total que o passageiro pagaria — e que poderia ter sido repassado ao motorista.

Isso vale também para promoções que ela dá para a gente. Aquela semana de “faça tantas corridas e ganhe R$ 100,00 a mais” entra na conta como se reduzisse a taxa. A Uber te dá um extra e depois usa isso pra maquiar o percentual que ficou. Parece que ela está “cobrando menos”, mas na verdade ela só reorganizou o dinheiro dentro do relatório.

Então o número real é o seguinte: não importa se esse dinheiro foi pro bolso dela ou virou desconto pro usuário — você deixou de receber. Logo, é taxa. Nessa semana, a taxa real não foi 5,4%. Foi 17,5% (ou seja, os R$ 159,00 + os R$ 355,87).

Agora vamos para a conta comparativa. Se o total pago pelos passageiros foi R$ 2.947,28, e eu estivesse rodando com a inDrive, que diz cobrar 10%, eu ficaria com 90%. Em vez de botar no bolso os R$ 2.431,00 que recebi pela Uber, eu teria ganho R$ 2.652,00, mais os R$ 26,00 de gorjeta. Ou seja, R$ 2.679,00 naquela semana. A inDrive teria ficado com cerca de R$ 294,00.

Se a taxa fosse 20%, como a da 99, a plataforma ficaria com R$ 589,00 sobre esse mesmo total. E aí você percebe a diferença quando compara com a Uber: somando o que ela diz que ficou (R$ 159,00) com o que ela embute como “promoção de usuário” (R$ 355,87), ela passou de R$ 500,00 nessa semana. Isso dá os tais 17 e poucos por cento.

E a gente sabe que eu escolho corridas. Por isso, quem costuma pagar 40% de taxa não sou eu — é o motorista que aceita tudo e pega as corridas ruins que a Uber empurra. Só que mesmo para quem escolhe, tem corrida que é inevitável. Às vezes você pega uma viagem boa pro aeroporto e, mesmo assim, quando vê o recibo percebe que o passageiro pagou um absurdo e a Uber arrancou 40%. É exatamente como foi dito numa audiência pública: a plataforma faz de tudo para cobrar o máximo possível do passageiro e pagar o mínimo possível pro motorista.

Agora imagina essa mesma semana com 40% de taxa. Se o total foi R$ 2.947,28, com 40% a Uber ficaria com R$ 1.178,00. O motorista colocaria no bolso R$ 1.768,00. Ou seja: quase meia a meia. Tem motorista rodando perto de 3 mil por semana e entregando mais de mil reais pra Uber. Isso explica por que a escolha de corridas muda tanto o resultado final.

Por isso, quando você olhar um relatório desses, não caia na lábia do percentual que a Uber mostra. Ela vai te dizer “minha taxa foi 5,4%”, mas a taxa real está escondida no campo de promoções ao usuário. O que os passageiros pagaram menos o que você recebeu é quanto ela ficou. Sempre.

Resumo da ópera: escolha corrida, faça conta e trabalhe com mais de um aplicativo. Tem plataforma cobrando menos taxa, e quando você tem duas ou três opções, consegue selecionar as melhores viagens e reduzir o abuso. É assim que a gente combate o jogo pesado das plataformas. Tamo junto.

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Ian Rocha

Ian Rocha começou a trabalhar como motorista de aplicativo em busca de uma nova oportunidade e logo percebeu a importância de entender melhor a dinâmica do setor. Estudou estratégias, analisou os melhores horários e locais para otimizar seus ganhos e passou a compartilhar suas descobertas com outros motoristas. Ao notar a falta de conteúdo informativo sobre a profissão, criou um canal no YouTube para dividir suas experiências. Com o tempo, tornou-se uma referência no segmento, ajudando motoristas a trabalharem de forma mais eficiente e informada.