A pergunta que se faz agora é simples, mas tem deixado um ar de preocupação no ar: o que a Uber vai fazer com esse número tão grande de motoristas que trabalham com contas fakes, embora de maneira honesta?

A dúvida é legítima. Afinal, como eu mesmo divulguei, e também os portais de notícia, a Uber está colaborando com polícias estaduais para identificar criadores de contas falsas. Quadrilhas já foram desarticuladas no Rio de Janeiro e, mais recentemente, no Ceará. A Polícia prendeu os líderes de um dos grupos mais ativos em fraudes nos aplicativos Uber e 99.

Mas vamos ser justos, a preocupação da Uber nunca foi com a conta fake em si. O que incomoda é a fraude, seja ela feita por conta própria, seja por uma conta falsa. O problema é o prejuízo e, principalmente, o dano à imagem da empresa. E para evitar esse constrangimento público, ela atualizou seu algoritmo, que agora identifica rapidamente contas criadas fora do padrão e aciona a polícia local para investigar.

Só que aí vem a questão mais delicada: e os motoristas que usam conta fake, mas trabalham honestamente?

Trabalhar certo com conta errada?

Pode parecer contraditório, mas a resposta é sim. Tem muito motorista por aí que foi vítima de banimento injusto. Alguns recorreram na Justiça, mas mesmo sem terem feito nada de errado, perderam o processo. Outros nem isso conseguiram fazer, porque, vamos ser sinceros, muitos motoristas não têm nem como bancar um advogado. Resultado: voltaram a trabalhar, mas com conta falsa.

E aqui deixo claro, mais uma vez, eu, Claudião, não incentivo ninguém a usar conta fake. Não confunda esta reflexão com estímulo. Não é. O ponto é outro, é entender o que será feito com essa quantidade enorme de motoristas que, mesmo com conta falsa, estão rodando direito, dentro das regras da própria Uber?

Conheço um exemplo que não me sai da cabeça. Um motorista que trabalha com conta fake desde 2018. Perdeu na Justiça. Tem duas filhas, uma delas com deficiência, que exige cuidado 24 horas por dia. A esposa trabalha de dia, ele trabalha à noite. E esse cara, mesmo com tudo isso, é diamante, cinco estrelas, mais de 50 mil viagens feitas, e sem nenhuma fraude. Um exemplo. E mesmo assim, a conta dele é fake. E, como ele, há muitos outros.

A decisão que a Uber evita: vista grossa ou cobrar geral?

A Uber colaborou com a polícia para pegar os criadores de contas fakes e os fraudadores. Mas… e os que não fraudam? Vai passar o rodo? Ou vai fingir que não vê? Na minha opinião, ela vai fingir que não vê. Sabe por quê? Porque esses motoristas, mesmo usando conta fake, estão gerando resultado positivo. E é isso que interessa para a Uber.

É como nos Estados Unidos. Lá, a maioria dos motoristas da Uber são imigrantes, que não têm o documento oficial necessário, o tal do Social Security. Sem ele, não dá pra se cadastrar. O que fazem? Trabalham com conta fake. E a Uber faz vista grossa. Por quê? Porque eles entregam resultado. Fraude, lá, é quase nula.

Já aqui no Brasil… bom, você já sabe. O índice de fraude aqui é alto, sim. Mas, repito, também tem muita gente que só quer trabalhar, pagar as contas e fazer o certo, mesmo que tenha recorrido a uma conta falsa para não passar fome.

Afinal, o que eu acho: a Uber vai agir?

Portanto, minha aposta é clara: esses motoristas vão continuar rodando até quando quiserem. Desde que não infrinjam regras, desde que não cometam fraudes. Porque o que a Uber quer mesmo é corrida feita, passageiro atendido, lucro no final do trimestre. Você concorda? Discorda? Me diz aí nos comentários.

Um abraço e até o próximo encontro. Fui!

Foto de Cláudio Sena
Cláudio Sena

Cláudio Sena iniciou sua trajetória como motorista de aplicativo em 2016, quando começou a trabalhar com a Uber.