O Te Leva Caçador nasceu da experiência de Valdeci Vieira de Alvarenga como motorista de aplicativo. Natural de Caçador, em Santa Catarina, ele se cadastrou na Uber em 2019 e foi o segundo motorista da plataforma na cidade. Depois, também rodou em Florianópolis e Palhoça.

Durante a pandemia, em 2020, os ônibus pararam e Valdeci viu uma oportunidade de empreender na mobilidade local. Ele havia sido positivado para covid naquele período e, ao se recuperar, decidiu tirar a ideia do papel. Em fevereiro de 2021, iniciou a operação do Te Leva Caçador.

“Eu vi uma lacuna. Como os ônibus tinham parado, enxerguei uma oportunidade de empreender”, conta.

Altas taxas das grandes plataformas motivaram criação

A principal dor identificada por Valdeci foi a taxa cobrada pelas grandes plataformas. Para ele, a fatia retida por esses aplicativos comprometia a renda do motorista. No Te Leva Caçador, a proposta foi trabalhar com taxa de 10%, deixando 90% do valor das corridas com os condutores.

Valdeci afirma que a dificuldade de se manter nas grandes plataformas foi justamente perceber que o motorista trabalhava muito, mas parte relevante do ganho ficava com a empresa.

“A gente trabalha muito e quem leva a maior parte são as grandes plataformas”, afirma.

Aplicativo começou com quatro motoristas

Para lançar o app, Valdeci primeiro buscou a tecnologia e pesquisou o mercado local. Na época, Caçador já tinha outro aplicativo regional em operação, e ele procurou a mesma desenvolvedora para criar a própria plataforma. O nome foi escolhido como homenagem ao município.

O início foi pequeno. A operação começou com quatro pessoas: Valdeci, o irmão, a cunhada e uma tia, que tinha 67 anos na época e era bastante comunicativa e conhecida na comunidade.

“Minha tia era uma pessoa bem comunicativa e bem conhecida na comunidade. Começamos ali em quatro motoristas”, lembra.

Gestão é feita por Valdeci

Valdeci não tem sócios. Segundo ele, o fato de tomar as decisões sozinho ajudou o aplicativo a se manter de pé, já que alterações de preço, cadastro de motoristas e decisões operacionais passam por seu crivo.

Mesmo como gestor, ele continua trabalhando na rua como motorista. Para Valdeci, isso ajuda a ouvir passageiros, captar feedbacks e entender o que os motoristas precisam melhorar.

“Eu também trabalho na rua até hoje. Gosto desse contato com o povo e consigo pegar feedback dos passageiros”, afirma.

Investimento inicial foi de R$ 10 mil

O investimento inicial para adquirir acesso à plataforma foi de cerca de R$ 10 mil. Além disso, Valdeci investiu em publicações e divulgações nas redes sociais, como Facebook e Instagram.

O aplicativo começou a se pagar entre o sétimo e o oitavo mês de operação, quando passou a dar retorno financeiro.

Dificuldade é captar bons motoristas

A maior dificuldade, tanto no início quanto hoje, é encontrar motoristas com perfil adequado para a atividade. Segundo Valdeci, Caçador tem cinco aplicativos locais, o que torna a disputa por condutores mais intensa.

Ele afirma que prefere investir em motoristas novos, principalmente porque a empresa evita contratar condutores que saíram de outras plataformas por problemas anteriores.

“Motorista de aplicativo não é para todo mundo. A pessoa precisa saber administrar o dinheiro, porque recebe todo dia”, afirma.

Categoria de táxi será lançada no app

Uma das novidades do Te Leva Caçador é a inclusão do serviço de táxi dentro do aplicativo. Valdeci afirma que, com a chegada dos apps, os táxis foram desaparecendo da cidade. Agora, a ideia é resgatar parte dessa identidade em formato digital.

O serviço deve atender passageiros que ainda preferem táxi ou buscam uma modalidade diferenciada, como empresários e clientes que valorizam esse tipo de transporte.

“Quero resgatar um pouco dessa identidade dos taxistas através de uma modalidade digital”, diz.

App tem mais de 25 mil downloads

O Te Leva Caçador tem mais de 25 mil downloads e 60 motoristas ativos. A operação realiza de 500 a 700 corridas concluídas por dia.

Valdeci afirma que a demanda poderia ser ainda maior, já que em horários de pico há chamadas que não são concluídas porque todos os carros estão em corrida.

Corrida mínima é de R$ 9

A taxa cobrada dos motoristas é de 10%. A corrida mínima começa em R$ 9 e cobre até 1 km. Depois disso, o valor aumenta conforme tempo e quilometragem.

Segundo Valdeci, o motorista recebe, em média, entre R$ 3 e R$ 3,20 por quilômetro rodado.

Pagamento é feito direto ao motorista

No Te Leva Caçador, o pagamento das corridas é feito diretamente ao motorista. Por isso, o condutor precisa aceitar Pix, dinheiro e cartão, com maquininha própria.

A taxa da plataforma é paga depois. A cada 15 dias, o motorista repassa os 10% ao aplicativo por Pix ou boleto. Valdeci afirma que esse modelo traz risco, porque a plataforma só recebe depois que o motorista já trabalhou.

“A plataforma não recebe para depois passar ao motorista. Ele trabalha primeiro e depois paga a porcentagem”, explica.

Motorista já faturou R$ 14 mil bruto

Há motoristas do Te Leva Caçador que fazem cerca de 800 corridas por mês. Segundo Valdeci, o faturamento varia bastante conforme a dedicação: há freelancers que fazem cerca de R$ 2 mil mensais e motoristas que chegam a R$ 14 mil brutos por mês.

O aplicativo movimenta de R$ 270 mil a R$ 300 mil em corridas por mês, dependendo do período. No fim do ano, o volume pode ser maior, com aumento no número de chamados.

Com a taxa de 10%, o faturamento da plataforma fica em torno de R$ 30 mil mensais.

Valdeci diz que virou mais humano ao empreender

Depois de criar o aplicativo, Valdeci afirma que mudou a forma de pensar. Antes, enxergava o mercado apenas como motorista. Hoje, tenta equilibrar a visão do condutor e a necessidade da plataforma.

“Hoje eu consigo andar tanto como motorista quanto como empreendedor. Isso me fez amadurecer bastante e me tornar mais humano”, afirma.

Expansão depende também da saúde

Ao falar sobre os próximos cinco anos, Valdeci cita primeiro a vida pessoal. Ele passou recentemente por uma cirurgia para tratar um câncer de próstata e vendeu um veículo para custear o procedimento, que ficou perto de R$ 60 mil.

Mesmo assim, diz que quer seguir empreendendo. O aplicativo já está presente também em Porto União, em Santa Catarina, e União da Vitória, no Paraná. A vontade é levar a marca para outros municípios, dependendo da situação econômica do país.

“Graças a Deus estou vivo, com saúde. A vontade é empreender mais e fazer a marca chegar a outros municípios”, diz.

Futuro dos regionais passa por estratégia e transparência

Na avaliação de Valdeci, os aplicativos regionais que vão permanecer são aqueles que tiverem estratégia, transparência e resposta rápida ao passageiro. Ele afirma que, no ambiente digital, ninguém quer perder tempo esperando atendimento.

Para ele, o preço precisa ser equilibrado: bom para o passageiro, mas também suficiente para o motorista aceitar a corrida e se deslocar até o cliente.

“Eu penso em dosar: que fique bom para o passageiro e bom para o motorista”, afirma.

Tecnologia não é o problema

Valdeci avalia que a tecnologia que utiliza é estável, fácil de baixar e nunca deixou a operação na mão em mais de cinco anos.

Para ele, os aplicativos regionais não estão muito atrás das grandes plataformas em tecnologia. A diferença está mais na operação e nos custos de serviços adicionais, como cartão de crédito e débito dentro do aplicativo.

“O problema é operação. O funcionamento hoje já é igual ao das grandes plataformas”, afirma.

Gestor precisa estar junto dos motoristas

Para conquistar espaço diante de Uber e 99, Valdeci acredita que o aplicativo regional precisa ter um gestor presente, próximo dos motoristas e atento às reclamações dos passageiros. Segundo ele, suporte rápido gera credibilidade e fortalece a marca.

“É ruim quando você pergunta alguma coisa e a pessoa não responde. Se você responde motorista e passageiro, tende a crescer no mercado”, afirma.

Corridas por fora seguem como desafio

O Te Leva Caçador enfrenta casos de motoristas que tentam fazer corridas por fora, principalmente entre os novos cadastrados. Valdeci afirma que alguns acreditam que repassar o telefone particular vai gerar mais corridas, mas acabam percebendo que perdem privacidade e ficam disponíveis em qualquer horário.

“No momento em que você dá seu telefone particular, sua vida não se torna mais privada”, afirma.

Clandestinos incomodam mais

O que mais incomoda Valdeci no mercado são as corridas clandestinas. Segundo ele, Caçador aprovou uma lei no ano passado, mas o município ainda não colocou as regras em vigor.

Ele afirma que o Te Leva Caçador trabalha com carros identificados, veículos novos, seguro, alvará e pagamento de impostos, mas ainda perde espaço para motoristas clandestinos.

“A gente faz um trabalho sério, paga impostos e tem alvará. A dificuldade com clandestinos é muito grande”, diz.

Legado é fortalecer a marca local

O legado que Valdeci quer deixar em Caçador é o fortalecimento da marca Te Leva Caçador, vinculada à própria imagem. Nascido e criado no município, ele diz ser conhecido pela população e espera que a empresa siga como referência local.

Ele também deixa uma mensagem para motoristas que sonham em empreender: não desistir, ter fé e usar o aplicativo local como uma forma de gerar renda e dignidade para outras pessoas.

“A única coisa que dá dignidade para um ser humano é renda, é trabalho. Fora isso, não tem outro caminho”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.