O iFood informou que protocolou uma representação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pedindo a abertura de processo administrativo contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela chinesa Meituan. Segundo a empresa, a concorrente estaria adotando uma política de preços abaixo do custo no mercado brasileiro.
A representação também solicita ao Cade uma medida preventiva para interromper as práticas questionadas enquanto o caso é analisado. De acordo com o iFood, uma análise econômica apresentada ao órgão indica que a Keeta registra perda por pedido no Brasil e financia parte de sua operação com recursos da controladora.
O iFood afirma que a estratégia inclui cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%. Na avaliação da companhia, esses incentivos podem elevar temporariamente o número de pedidos e estimular restaurantes a ampliar sua capacidade para atender a uma demanda que dependeria, em parte, dos subsídios oferecidos pela plataforma.
A empresa cita como referência um estudo da Universidade Fudan sobre a disputa entre plataformas na China em 2025. Segundo os dados apresentados pelo iFood, durante o período analisado o volume de pedidos dos restaurantes aumentou 7%, enquanto a receita efetiva caiu 4%. A companhia também cita reportagens da imprensa chinesa que teriam registrado fechamento de restaurantes e redução de 30% a 50% na renda mensal de entregadores.
“É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito, pela melhor tecnologia, pelo melhor serviço ou pela melhor experiência para quem usa a plataforma”, afirmou Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood.
Na representação, o iFood pede três medidas ao Cade: a abertura de processo administrativo, a adoção de medida preventiva para interromper uma eventual precificação abaixo do custo e o acesso periódico do órgão a informações sobre custos e preços praticados pela Keeta.
Segundo a empresa, o pedido de intervenção preventiva considera experiências de outros mercados nos quais estratégias semelhantes teriam sido adotadas. O iFood argumenta que a saída de concorrentes e mudanças nas condições oferecidas a restaurantes e entregadores podem ocorrer antes da conclusão de um processo administrativo.
A companhia também menciona uma nota técnica publicada em junho de 2026 pelo Departamento de Estudos Econômicos do Cade. De acordo com o iFood, o documento aborda riscos associados às chamadas empresas com “deep pockets”, expressão usada para companhias com capacidade financeira suficiente para suportar perdas por períodos prolongados durante uma disputa por participação de mercado.
O iFood sustenta que a Keeta se enquadraria nessa situação por contar com os recursos financeiros da Meituan. Conforme informações apresentadas pela companhia na representação, a análise econômica foi elaborada pela consultoria Compass Lexecon e aponta perda relevante por pedido nas operações brasileiras da Keeta.
A argumentação jurídica apresentada pelo iFood cita o artigo 36 da Lei nº 12.529/2011, que trata de infrações à ordem econômica, além das orientações do Cade sobre preços predatórios. A companhia também fundamenta o pedido de medida preventiva no artigo 84 da mesma legislação.
O iFood cita ainda dados financeiros da Meituan para sustentar sua argumentação. Segundo informações reunidas pela empresa, a companhia chinesa encerrou 2025 com aproximadamente US$ 23 bilhões em reservas de caixa e prejuízo acumulado de US$ 3,4 bilhões. O iFood afirma ainda que executivos da Meituan relacionaram parte do aumento das perdas operacionais à expansão internacional e indicaram que essas perdas continuariam relevantes em 2026.
iFood cita experiências em outros mercados
Como parte da representação, o iFood apresentou exemplos de mercados internacionais nos quais a Keeta já opera. Segundo a empresa, autoridades de Dubai, Kuwait e Arábia Saudita adotaram medidas regulatórias relacionadas ao funcionamento do setor.
Em Hong Kong, o iFood afirma que, depois de a Keeta alcançar mais de 50% do mercado e da saída da Deliveroo, as comissões cobradas de restaurantes passaram de 15% para uma faixa entre 30% e 35% em menos de um ano.
A companhia também cita o Kuwait, onde, segundo as informações apresentadas, um concorrente local encerrou suas operações dois meses depois da entrada da Keeta. O iFood afirma que precedentes em Hong Kong, Arábia Saudita, Kuwait e Qatar fazem parte dos elementos apresentados ao Cade para sustentar o pedido de investigação.
A representação também menciona medidas adotadas na China. Segundo o iFood, a Meituan foi multada em 3,44 bilhões de yuans em 2021 por práticas anticoncorrenciais. A companhia brasileira afirma ainda que, em junho de 2026, autoridades chinesas propuseram regras relacionadas ao uso de vantagens de capital, à concorrência desleal e à venda abaixo do custo. De acordo com o iFood, a Meituan declarou apoio às novas regras.
Ao final do processo, o iFood pede que o Cade avalie a existência de violação à ordem econômica e, caso a infração seja reconhecida pelo órgão, determine a interrupção definitiva da conduta.
“O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide. Em todos os mercados onde esse ciclo se completou, a janela de intervenção foi estreita”, afirmou Pittioni. Segundo o executivo, o pedido busca uma atuação do Cade para garantir condições de concorrência no mercado brasileiro de delivery.
