A história do Via Mobb começou em um momento de dificuldade financeira. Empresária e casada há 22 anos, Enila Paz Landim conta que, em 2018, ela e o marido enfrentavam problemas em uma empresa da família, em Votuporanga, quando viu uma reportagem sobre aplicativos de mobilidade urbana no programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios.

A ideia surgiu como uma possibilidade de reorganizar a vida financeira do casal. Enila pesquisou sobre o setor, insistiu na proposta e, depois de meses de discussão sobre o nome, a operação começou a tomar forma.

“Eu falei para o meu marido que talvez aquilo pudesse ser a solução para melhorar a nossa vida e a nossa firma. Ele, na hora, nem deu importância, mas eu já tinha achado bastante coisa sobre o assunto”, lembra.

Nome nasceu da ideia de mobilidade

Antes de chegar ao nome Via Mobb, Enila conta que o casal avaliou várias opções. A escolha final partiu dela: “via” pela ideia de caminho e transporte, e “mob” como referência à mobilidade.

A decisão, segundo a gestora, só veio depois de votação.

“Via é de via de transporte, e mob é de mobilidade. Aí eu falei: vai chamar Via Mobb”, afirma.

Operação tem sede em Jales

A sede do aplicativo fica em Jales, no interior de São Paulo, quase na divisa com Mato Grosso do Sul. Além de cidades paulistas, a operação está presente em municípios de Goiás, Paraná e Minas Gerais. Entre os locais citados por Enila estão Caldas Novas, Aparecida de Goiânia, Mineiros, Fernandópolis, Votuporanga, Iturama e outras praças.

A empresa trabalha com duas marcas: Via Mobb Azul, o primeiro aplicativo, e Via Mobb Ouro, que passou a ser usado para ampliar a presença em novas cidades.

Primeira versão foi lançada em 2019

Segundo Enila, o Via Mobb Azul foi lançado em 2019. A captação dos primeiros passageiros começou de forma direta, com cartões, conversas presenciais, divulgação em rádio e explicações sobre a vantagem de usar o aplicativo em vez de outros meios de transporte.

Ela mesma fez a primeira corrida em Jales, quando o aplicativo tocou pela primeira vez.

“A primeira corrida de Jales fui eu que fiz. Levei uma senhorinha”, conta.

Primeiro motorista foi chamado por indicação

Na captação de motoristas, o casal aproveitou a rede de contatos local. O primeiro condutor foi Elder, que depois passou a chamar outros motoristas para a operação. Em Votuporanga, a empresa chegou a fazer uma palestra em hotel para explicar como o aplicativo funcionava.

Enila afirma que, em algumas cidades, ela mesma foi responsável por conversar com motoristas e apresentar o modelo de trabalho.

Investimento inicial foi de cerca de R$ 15 mil

O investimento inicial para lançar o aplicativo ficou em torno de R$ 15 mil. 

“O valor incluiu cartões, adesivos e materiais de divulgação.Em menos de um ano, o investimento se pagou, impulsionado pela entrada de motoristas e pela abertura rápida de novas cidades”, afirma.

Empresa cresceu mesmo durante a pandemia

Ao falar sobre momentos difíceis, Enila diz que o aplicativo trouxe melhora para a vida da família e que, mesmo durante a pandemia, a operação não parou. Segundo ela, os motoristas puderam continuar rodando, e o negócio ajudou a estabilizar a situação financeira do casal.

“As coisas só melhoraram depois que eu lancei o aplicativo. Nem na pandemia eu tive problema”, diz.

Central foi criada para atender idosos

Uma das dores do mercado identificadas por Enila foi a dificuldade de parte dos passageiros, especialmente idosos, em chamar corridas pelo aplicativo. Por isso, a empresa criou uma central telefônica, onde o passageiro pode ligar e pedir um carro.

A ideia, segundo ela, também foi inspirada na avó.

“A ideia foi inspirada na minha avó. Eu fiz exatamente por causa dela, para ter uma central onde a pessoa pudesse ligar e pedir um aplicativo”, afirma.

Mensalidade busca preservar renda do motorista

O modelo do Via Mobb é baseado em mensalidade. Enila afirma que a cobrança é de R$ 250 por motorista por mês, valor que considera mais justo do que retirar percentuais altos das corridas.

Segundo ela, a lógica é permitir que o motorista trabalhe, fature e mantenha renda suficiente para cobrir combustível, manutenção e troca de veículo.

“Não adianta eu tirar 20% ou 15% do motorista. Quando o carro quebra, é um problema sério. A gente ajuda eles e também vai conseguindo as nossas coisas”, explica.

Via Mobb Ouro surgiu para ampliar cidades

A empresa criou o Via Mobb Ouro porque, segundo Enila, a plataforma usada no Via Mobb Azul tinha limitações de expansão em cidades onde já havia outra operação. Com isso, o casal passou a usar outra estrutura para crescer em novas praças.

Hoje, o Azul segue ativo em cidades como Jales e Votuporanga, enquanto o Ouro é usado em boa parte das novas expansões.

Corrida mínima varia por cidade

Os valores de corrida variam conforme a cidade, promoções e horários. Em Votuporanga, por exemplo, Enila cita promoções de R$ 9,99. Em Jales, a saída fica em torno de R$ 12. Em outros momentos, já houve valores de R$ 7,99 ou R$ 15, especialmente em horários e dias específicos.

Segundo ela, uma corrida nesse valor pode cobrir cerca de 1,5 km a 2 km, dependendo da cidade e da promoção.

Motoristas ficam com cerca de 70% do faturamento

Enila estima que os motoristas fiquem, em média, com cerca de 70% do faturamento bruto, considerando que aproximadamente 30% seja destinado a combustível e desgaste do veículo.

A gestora afirma que há motoristas que faturam desde R$ 3,5 mil até R$ 15 mil por mês, dependendo da dedicação, da cidade e da rotina de trabalho.

“Tenho motorista de R$ 15 mil, R$ 14 mil, R$ 7 mil, R$ 8 mil. Tem de todos os valores”, afirma.

Motorista de R$ 10 mil pode tirar quase R$ 7 mil livres

Segundo Enila, um motorista que fatura R$ 10 mil por mês pode ficar com algo em torno de R$ 6,8 mil a R$ 7 mil livres, depois de descontar custos como combustível e desgaste.

Ela diz que alguns condutores já estão trocando veículos por carros novos e até elétricos para reduzir custos de operação.

Operação reúne cerca de 480 motoristas

Somando Via Mobb Azul e Via Mobb Ouro, a operação tem cerca de 480 motoristas, considerando fixos, esporádicos, pessoas que rodam como bico, condutores de fim de semana e profissionais que trabalham em horários alternativos.

A mensalidade também pode variar. Alguns motoristas que rodam dia sim, dia não ou fazem a atividade como complemento pagam menos do que o valor cheio.

Jales faz 12 mil corridas por mês; Votuporanga chega a 25 mil

Em Jales, o aplicativo realiza cerca de 12 mil corridas mensais. Em Votuporanga, o volume fica entre 24 mil e 25 mil corridas por mês. Iturama, no Triângulo Mineiro, também tem alto volume e roda quase o mesmo que Votuporanga, segundo Enila.

A gestora não soube informar o total consolidado de todas as cidades, mas afirma que a operação movimenta valores altos ao somar todas as praças.

Faturamento anual bruto é de R$ 780 mil

Segundo Enila, o faturamento bruto anual da operação é de cerca de R$ 780 mil. O valor, no entanto, não representa lucro, já que a empresa tem gastos com funcionários, central telefônica, plataforma, cartões de visita, camisetas, publicidade e outros custos operacionais.

A gestora cita, por exemplo, que a plataforma do Via Mobb Azul custa mais de R$ 12 mil por mês.

“Faturamento não é lucro. A gente tem funcionário, paga plataforma, dá cartão, camiseta e investe em publicidade”, afirma.

Impacto econômico chega a milhões

Ao falar sobre o impacto das corridas na economia, Enila estima que o volume movimentado por passageiros e motoristas chegue a milhões de reais, considerando todas as cidades.

“Para mim, o mais importante é que a operação gera renda para muita gente e ajuda motoristas a reorganizarem a vida financeira. Você vê que gera esse tanto de gente trabalhando. Todo mundo vai movimentando, ganhando um pouquinho daqui e dali”, diz.

Motoristas recuperaram renda com o aplicativo

Enila cita o caso de um motorista que chegou em situação financeira difícil, depois de perder uma loja de brinquedos. Com o trabalho no aplicativo, ele conseguiu se recuperar, colocar o filho na faculdade de Medicina, comprar carro próprio e, depois, ter dois veículos trabalhando na família.

A empresa também passou a alugar carros e hoje tem oito veículos disponíveis para motoristas.

Plano é crescer no Norte e Nordeste

Enila afirma que quer expandir o Via Mobb Ouro para mais cidades, especialmente no Norte e no Nordeste. A operação também prepara novas entradas em Paranaíba, Inocência, Cassilândia e Três Lagoas.

Gestora critica corridas a R$ 5

Para Enila, aplicativos que chegam às cidades oferecendo corridas a R$ 5 prejudicam motoristas e também colocam a própria operação em risco. Segundo ela, esse tipo de preço não se sustenta porque não cobre os custos do condutor.

“Quem chega na cidade querendo colocar corrida a R$ 5 quebra. Além de se quebrar, quebra o motorista, porque o motorista não vai”, afirma.

Mensalidade reduz corridas por fora

Na visão de Enila, a cobrança por mensalidade ajuda a reduzir o problema das corridas feitas por fora do aplicativo. Como o motorista paga o mesmo valor independentemente da quantidade de corridas, não há incentivo para esconder viagens da plataforma para evitar percentual.

“Se ele fizer dez corridas ou cem, vai pagar o mesmo tanto. Então, é melhor para ele abrir a corrida, porque fica com o aplicativo ligado e tudo cadastrado”, explica.

Tecnologia não é o principal problema, diz gestora

Enila não acredita que a tecnologia seja o maior obstáculo para aplicativos regionais competirem. Para ela, o problema central está no modelo de preço e no quanto o motorista recebe. Ela cita que uma grande plataforma tentou entrar em Jales com divulgação e incentivo para cadastro de motoristas, mas não conseguiu se firmar porque as corridas tinham valores muito baixos.

Segundo ela, o motorista não troca uma corrida melhor remunerada por outra com preço inferior e repasse menor.

Regionais precisam valorizar o dinheiro local

Para Enila, os aplicativos regionais deveriam comunicar melhor que o dinheiro fica na própria cidade, fortalece motoristas locais e é reinvestido na região. Ela defende campanhas que mostrem a importância de usar uma plataforma brasileira, próxima do passageiro e com atendimento humano.

“A importância do aplicativo regional é essa: você consegue falar até com o dono. Meu marido atende telefone 24 horas por dia, de cliente, motorista e passageiro”, afirma.

Atendimento próximo é diferencial

A gestora compara a experiência regional com grandes plataformas, em que, segundo ela, passageiros e motoristas têm dificuldade para resolver problemas. No Via Mobb, diz, situações pequenas podem ser tratadas diretamente com a central ou com os responsáveis pela operação.

“Se o motorista cobrar 30 centavos a mais, meu marido faz devolver. A pessoa liga para a central e conversa”, afirma.

Legado é não lesar o motorista

O legado que Enila quer deixar com o Via Mobb Ouro está ligado à valorização dos motoristas. Para ela, a empresa deve permitir que o condutor tenha rentabilidade melhor, sem ser prejudicado por cobranças excessivas.

A gestora defende que quem abre um aplicativo regional precisa entrar de forma correta, sem praticar preços ilusórios nem cobrar demais de quem dirige.

“A gente sempre fala que é melhor trabalhar com a gente porque o dinheiro é investido na própria cidade e os motoristas não são lesados”, conclui.

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Giulia Lang

Giulia Lang é jornalista formada pela Fundação Cásper Líbero e há três anos cobre o mercado de mobilidade urbana e delivery pelo 55content.