O Único Mobile Car surgiu da experiência prática de Izaías Nunes e do irmão no transporte de passageiros. Antes de criarem o próprio aplicativo, os dois já rodavam como motoristas em outras plataformas e trabalhavam com clientes cativos. A vivência nas ruas ajudou a perceber uma dificuldade recorrente: negociar valores diretamente com passageiros nem sempre era confortável.
Com a plataforma, o preço passou a aparecer antes da corrida, o passageiro aceitava o valor e o serviço ficava mais transparente.
“Quando a pessoa pedia o serviço e depois queria desconto, era meio constrangedor. Pela plataforma, o valor já aparece e o cliente aceita. Ficou mais transparente”, conta Izaías.
Ideia começou com curiosidade sobre aplicativos
A ideia do Único Mobile Car nasceu quando Izaías e o irmão começaram a pesquisar como funcionava a criação de uma plataforma de mobilidade. Eles encontraram a empresa de tecnologia que estruturou o aplicativo e passaram a receber orientação para tirar o projeto do papel.
Segundo Izaías, o processo foi rápido e surpreendeu pelo resultado.
A fase de preparação começou em dezembro de 2024. A plataforma passou a rodar no começo de 2025, por volta de fevereiro, sem uma data formal de lançamento.
Investimento foi dividido entre irmãos
No início, Izaías e o irmão dividiram os custos conforme cada um podia pagar. Quando chegava uma conta, quem tinha dinheiro naquele momento quitava o boleto. Depois, criaram uma organização financeira própria para a empresa.
Eles não fizeram uma soma exata do investimento inicial, justamente para não travar o projeto pelo medo do custo total.
“A gente não queria ver o valor que ia gastar, porque ficou com medo de não dar certo. Um ajudava o outro e, no fim, deu tudo certo”, diz.
Apesar disso, Izaías afirma que o investimento foi baixo em relação ao resultado alcançado.
Rádio comunitária e boca a boca puxaram o começo
A captação inicial de motoristas e passageiros foi facilitada pelo fato de os irmãos morarem na cidade há mais de 30 anos. Em uma cidade pequena, o conhecimento local ajudou a abrir portas.
A divulgação começou em rádio comunitária, Facebook, outras plataformas digitais, panfletagem e grupos de WhatsApp. Nos dois primeiros dias, quase 500 pessoas acessaram a plataforma para conhecer o serviço.
Também havia uma estratégia direta: quando atendiam passageiros em outras plataformas, os motoristas divulgavam o novo aplicativo e entregavam panfletos.
“A cidade pequena do interior tinha um aplicativo próprio, e as pessoas ficavam admiradas com isso”, lembra.
Irmão deve seguir com outra plataforma
O irmão de Izaías, que participou da criação do Único Mobile Car, está estruturando outra plataforma para atuar em uma região diferente. A ideia é que cada um siga de forma independente, mantendo o aprendizado acumulado no primeiro projeto.
Izaías diz que a parceria deu certo porque os dois sempre tentaram entender o lado um do outro, mas reconhece que cada gestor tem uma forma própria de conduzir o negócio.
Diferencial é apoio ao motorista
Desde o início, o Único Mobile Car buscou oferecer algo que Izaías sentia falta em outras plataformas: apoio ao motorista. Um dos diferenciais citados é ter carro reserva para situações de emergência, evitando deixar passageiro sem atendimento ou motorista sem suporte.
A empresa também trabalha com brindes, promoções e incentivos para passageiros e motoristas. Em dezembro, por exemplo, os motoristas ficavam com 100% do valor das corridas, em uma ação comparada a um 13º salário.
“Se der problema no carro, a gente corre com o nosso carro mesmo para não deixar cliente nem motorista na mão”, afirma.
Promoções seguem na rotina
Além das ações de fim de ano, o aplicativo mantém incentivos pontuais, como promoções em posto de combustível para motoristas que mais rodam. A gestão acompanha quem está fazendo mais ou menos viagens e tenta entender o que pode estar acontecendo.
Segundo Izaías, muitos motoristas aderiram mais ao Único Mobile Car do que a outras plataformas justamente por causa dessa proximidade.
Cidade tem ônibus gratuito durante a semana
O aplicativo atua em uma cidade turística de cerca de 25 mil habitantes. A operação tem aproximadamente 30 motoristas e funciona com mais força aos fins de semana, quando há maior volume de turistas e o transporte público gratuito não opera.
Durante a semana, o ônibus gratuito atende qualquer pessoa, morador ou visitante. Isso torna o desafio maior para um aplicativo de transporte pago.
“Pensa no desafio: montar uma plataforma numa cidade onde o transporte público é gratuito”, diz Izaías.
Apesar disso, o aplicativo oferece uma vantagem que o ônibus não consegue entregar: buscar o passageiro na porta e deixá-lo no destino, inclusive em áreas de sítios, estradas de terra e locais onde o transporte público não chega.
Taxa é de 10%
O Único Mobile Car cobra 10% sobre as corridas. Com isso, cerca de 90% do valor fica com o motorista.
Para Izaías, esse repasse ajuda a manter motoristas interessados mesmo em corridas menores ou em deslocamentos para regiões mais afastadas.
Seleção exige antecedentes e carro em bom estado
A entrada de motoristas passa por avaliação presencial no escritório. A empresa verifica antecedentes criminais, condição do veículo e histórico do condutor. O carro não precisa ser novo, mas precisa estar conservado.
Izaías afirma que esse cuidado parte de uma preocupação pessoal com segurança.
“Da mesma forma que minha filha pega um carro de aplicativo e eu quero que ela chegue em segurança, eu vejo dessa forma para os passageiros”, diz.
A empresa também orienta os motoristas sobre o registro das conversas e dados da plataforma. Segundo Izaías, as mensagens entre passageiro e condutor ficam armazenadas e podem ser acessadas em caso de necessidade.
Categorias incluem comum, premium e motoentrega
O aplicativo trabalha com três categorias principais: carro comum, premium e motoentrega. A categoria premium reúne veículos um pouco melhores, como sedãs.
A moto, por enquanto, é usada apenas para entregas. Apesar de haver pedidos por mototáxi, Izaías prefere não liberar a modalidade por receio ligado à segurança e à dificuldade de exigir seguro semelhante ao dos carros.
“Com o carro já é perigoso. Na moto, a gente não consegue exigir da pessoa o mesmo tipo de seguro. Então preferimos deixar só motoentrega”, explica.
Corrida mínima é de R$ 8
A corrida mínima para passageiro é de R$ 8. Izaías reconhece que o valor é baixo para alguns motoristas, mas diz que, como eles ficam com 90% da corrida, muitos aceitam para manter o cliente ativo na plataforma.
A orientação da gestão é que os motoristas evitem cancelar, principalmente em horários de pico. Ainda assim, não há punição automática para cancelamentos, porque alguns condutores deixam o aplicativo ligado enquanto trabalham em outros lugares apenas para acompanhar o movimento.
Quilômetro do carro fica entre R$ 1,80 e R$ 2
Nas corridas de carro, o valor por quilômetro fica entre R$ 1,80 e R$ 2. A motoentrega tem quilômetro na faixa de R$ 1,30.
Um ponto criado pela gestão foi pagar também parte do deslocamento até o passageiro. O valor é menor, cerca de R$ 0,25 por quilômetro até a chegada ao cliente, mas evita que o motorista percorra grandes distâncias sem receber nada caso o passageiro cancele.
“A gente viu em outras plataformas muito cancelamento por causa da distância. O motorista pensava: vou andar 4 km de graça para depois começar a receber”, afirma.
Gestor já fez R$ 400 em um domingo
Izaías ainda não calcula uma média mensal de faturamento por motorista, porque muitos rodam apenas aos fins de semana ou de forma complementar. Mas ele cita a própria experiência: em um domingo, trabalhando na plataforma, já chegou a fazer cerca de R$ 400 em viagens curtas.
Segundo ele, a demanda é mais forte aos sábados e domingos, quando a cidade recebe turistas e o transporte público gratuito não funciona.
Izaías ainda roda quando pode
Hoje, Izaías divide a rotina entre a gestão do aplicativo, outros compromissos e algumas corridas. Ele costuma rodar principalmente à tarde, quando tem disponibilidade. Pela manhã, cuida de outros compromissos e de ajustes necessários na operação.
A gestão é feita por ele, com apoio da plataforma tecnológica contratada. O marketing e as redes sociais também ficam sob sua responsabilidade.
“No interior é bom por causa disso: você faz um marketing, pega uma parte da população e o restante vai acompanhando no boca a boca”, diz.
Pressão dos taxistas foi o momento mais difícil
O momento mais desafiador até agora foi a reação de taxistas locais no início da operação. Segundo Izaías, houve questionamentos, mensagens e até contato de advogado. A gestão já havia buscado orientação e entendia que a plataforma estava amparada pela legislação de aplicativos.
Depois das explicações, a situação não avançou para processo ou perseguição.
“Foi a concorrência que deu um pouco de gelo, mas conseguimos passar por essa parte”, afirma.
Na cidade, hoje, o Único Mobile Car disputa espaço principalmente com táxis e transporte público gratuito. Há outro aplicativo em uma cidade próxima, a cerca de 20 km.
Trajetória começou como motoboy
Antes da mobilidade por aplicativo, Izaías trabalhou como motoboy na cidade, entregando pizza, e depois fez entregas no centro de São Paulo para empresas. Ficou cerca de 10 anos na profissão, até que quedas e problemas no caminho o fizeram buscar outro ritmo.
Depois, passou por operação de máquinas, escavadeira, ônibus, caminhão e voltou ao transporte até chegar aos aplicativos.
Essa trajetória diversa moldou sua visão sobre trabalho e risco.
“De moto para uma máquina, de máquina para ônibus, de ônibus para carro de aplicativo, e de carro de aplicativo para abrir um app: é muito diferente. Mas todo dia a gente tem que arriscar”, afirma.
Empreender mudou a forma como as pessoas o veem
Depois de criar o aplicativo, Izaías percebeu uma mudança na forma como passou a ser visto na cidade. Antes, era cumprimentado apenas como mais um trabalhador do transporte. Agora, passageiros e moradores perguntam como ele montou o negócio.
“A pessoa para e fala: ‘Nossa, você que montou? Como criou esse negócio?’. A gente fica até sem graça, mas fala que arriscou e está evoluindo cada dia”, conta.
Plano é entrar em cidade maior
Para os próximos anos, o plano é levar o Único Mobile Car para uma cidade maior, onde Izaías vê deficiência no transporte local. Segundo ele, há municípios com muitos motoristas, mas em que parte deles sai para trabalhar em outras cidades porque não consegue boa rentabilidade onde mora.
A ideia é criar uma operação que mantenha esses motoristas trabalhando na própria cidade e ajude a movimentar o mercado local.
Confiabilidade é chave para competir com grandes apps
Izaías acredita que um aplicativo regional pode entrar em cidades onde já existem Uber, 99 e outras plataformas grandes. Para isso, o principal caminho é construir confiança.
Uma das estratégias pensadas é montar escritório físico, onde passageiros possam relatar problemas e motoristas possam ser chamados para dar esclarecimentos. A ideia é aproximar gestão, condutor e cliente, em vez de deixar tudo limitado ao suporte pelo celular.
“Tem gente que tem receio de pegar Uber porque são pessoas estranhas. A gente quer deixar mais próximo e mais transparente o motorista do passageiro”, afirma.
Movimento cresce nos fins de semana e no fim do ano
Izaías acompanha mais o movimento diário do que o volume mensal. Em dias bons, o aplicativo chega a fazer de 90 a 100 corridas. Durante a semana, esse número pode cair bastante, chegando a cerca de 20 em alguns dias. Já nos fins de semana, a demanda cresce com turistas e moradores que saem para lazer.
O fim do ano é o período mais movimentado, especialmente entre novembro e dezembro, quando a região recebe visitantes em chácaras e há mais festas. A cidade também ganha movimento quando recebe gravações de novelas e produções audiovisuais.
Legado é mostrar que o esforço dá resultado
O legado que Izaías quer deixar com o Único Mobile Car é o de uma trajetória de tentativa, esforço e superação. Ele quer que a marca seja lembrada como resultado de alguém que veio do transporte, passou por diferentes caminhos e encontrou uma forma de acertar.
“Todo mundo sabe que a gente batalhou. Mudou, bateu de um lado para o outro, até que uma hora acertou. O resultado está vindo”, afirma.
Ao final, Izaías também destaca a parceria com o irmão no começo da jornada e a decisão dos dois de arriscar juntos, sem travar pelo medo do investimento.
“A gente falou: vamos arriscar, vamos tentar. Se subir, sobe junto; se cair, cai junto”, conclui.
